Enquanto Ikarus atravessava as fronteiras do norte, cinco anos se passaram em Lenória. Cinco anos desde que ele havia partido pela segunda vez. No começo, ninguém acreditava que demoraria tanto. Rufus dizia que Ikarus voltaria. Os soldados diziam que ele provavelmente estava apenas seguindo uma rota mais longa. Os moradores diziam que alguém como ele não poderia simplesmente desaparecer. E Gillian simplesmente esperava. Raella também.
Nos primeiros meses, Eiran perguntava todos os dias quando o pai voltaria. Gillian respondia que ele voltaria quando terminasse o que precisava terminar. Raella dizia a mesma coisa quando estava com Lyra nos braços. As duas sabiam que Ikarus havia partido por uma razão maior do que qualquer família poderia compreender, mas isso não tornava a ausência menos dolorosa.
Lyra era pequena demais para se lembrar do rosto do pai.
Essa era talvez a parte que mais machucava Raella.
Ela carregava a menina no colo e, algumas vezes, aproximava-se de um retrato de Ikarus que guardava em sua casa.
— Este é seu pai — dizia.
Lyra tocava a imagem com os dedos.
— Papai?
Raella sorria.
— Sim. Papai.
— Onde?
Raella olhava para a janela.
— Longe.
— Volta?
A resposta nunca mudava.
— Volta.
Mas os meses passaram.
Depois um ano.
Depois dois.
Depois três.
E as crianças cresceram.
Eiran já não era o menino que esperava o pai sentado na porta.
Agora treinava.
Lyra já conseguia correr pelos corredores da casa de Raella e começava a fazer perguntas sobre aquele homem cuja presença existia mais nas histórias do que nas suas próprias lembranças.
Gillian e Raella não eram iguais.
Nunca seriam.
Tinham histórias diferentes, personalidades diferentes e lugares diferentes na vida de Ikarus.
Mas compartilhavam uma coisa que nenhuma das duas havia escolhido: a espera.
Às vezes, as duas se encontravam.
Não precisavam falar muito.
Uma olhava para a outra e ambas sabiam exatamente o que a outra estava sentindo.
Certa tarde, Raella chegou à casa de Gillian carregando Lyra.
Eiran estava no pátio treinando com uma espada de madeira.
— Ainda nisso? — perguntou Raella.
Eiran levantou a espada.
— Vou ficar forte.
Gillian apareceu na porta.
— Ele diz que quer proteger a irmã.
Raella olhou para Lyra.
A menina estava olhando para Eiran com curiosidade.
— Ele vai conseguir — respondeu.
Eiran se aproximou.
— Tia Raella, quando meu pai voltar, eu vou mostrar para ele.
Raella sorriu.
— Vai.
— E a Lyra também vai mostrar.
Raella olhou para a filha.
— O quê?
Eiran respondeu antes dela:
— Que ela cresceu.
Raella ficou em silêncio por um instante.
Depois sorriu.
— Sim. Ela cresceu bastante.
Lyra levantou os braços.
— Papai!
Todos ficaram quietos.
Eiran olhou para a irmã.
Gillian olhou para Raella.
Raella apertou a filha contra o peito.
— Ela fala isso toda vez que vê alguma coisa parecida com ele.
Gillian se aproximou.
— Talvez ela se lembre.
Raella balançou a cabeça.
— Ela era pequena demais.
— Então talvez seja alguma coisa diferente.
Raella olhou para a filha.
— O quê?
Gillian respondeu:
— Talvez algumas coisas não precisem ser lembradas para serem reconhecidas.
Raella não respondeu.
Apenas beijou a testa de Lyra.
Cinco anos haviam transformado Lenória.
E haviam transformado aquelas duas mulheres.
Gillian havia aprendido a criar um filho praticamente sozinha enquanto mantinha a esperança de que o marido retornaria.
Raella havia aprendido a criar uma filha enquanto tentava explicar para uma criança quem era o pai que ela mal conseguia lembrar.
E ambas haviam aprendido a conviver com a mesma pergunta:
E se ele não voltar?
Nenhuma delas dizia isso em voz alta.
Porque dizer tornaria a possibilidade real.
Rufus era um dos poucos que ainda recebia notícias das regiões distantes.
Mapas se acumulavam sobre sua mesa.
Relatórios de batalhas.
Movimentos de tropas.
Ataques de mortos-vivos.
Vilas destruídas.
Caravanas desaparecidas.
E, ocasionalmente, relatos sobre um cavaleiro que aparecia no meio do caos.
Homem loiro.
Olhos azuis.
Espada.
Sempre ajudando os sobreviventes.
Sempre desaparecendo antes que alguém conseguisse descobrir para onde havia ido.
Certa noite, Rufus encontrou Gillian e Raella juntas.
Colocou um papel sobre a mesa.
— Temos notícias.
Raella imediatamente levantou os olhos.
— Ikarus?
Rufus assentiu.
— Possivelmente.
Gillian pegou o papel.
O relatório falava sobre uma pequena vila atacada por criaturas durante a noite. Um único guerreiro havia permanecido para defender os moradores.
Não havia nome.
Mas havia uma descrição.
Raella leu em silêncio.
Depois passou o papel para Gillian.
— É ele.
Gillian não respondeu.
Rufus olhou para as duas.
— Não podemos ter certeza.
Raella sorriu.
— Eu tenho.
Rufus franziu a testa.
— Como?
Ela colocou a mão sobre o papel.
— Porque ele não consegue simplesmente passar por uma vila em perigo.
Gillian soltou uma pequena risada.
— Isso é verdade.
As duas se olharam.
E, pela primeira vez em muito tempo, sorriram juntas.
Muito longe dali, Ikarus realmente estava naquela vila.
Havia chegado durante uma guerra entre duas forças que não tinham absolutamente nada a ver com sua busca pelos fragmentos.
Poderia ter seguido viagem.
Mas havia encontrado crianças escondidas.
Velhos feridos.
Casas queimadas.
E mortos se levantando.
Então ficou.
Três meses.
Depois seis.
Depois quase um ano em outra região.
Cinco anos se passaram assim.
Cinco anos em que Ikarus deixou de ser apenas um guerreiro procurando os fragmentos.
Ele começou a se tornar uma história contada nas fronteiras.
Mas, em Lenória, ele continuava sendo apenas uma coisa.
Pai.
Marido.
Companheiro.
Homem esperado.
No quinto ano, Eiran já era alto o suficiente para segurar uma espada de verdade.
Rufus o treinava.
— Mais baixo.
Eiran corrigiu a postura.
— Assim?
— Melhor.
— Meu pai lutava assim?
Rufus sorriu.
— Seu pai lutava de maneira completamente diferente.
— Então quero lutar como ele.
— Não.
Eiran ficou surpreso.
— Não?
— Quero que você lute como você.
Eiran pensou.
Depois assentiu.
Do outro lado do pátio, Gillian observava.
Raella estava ao lado dela.
Lyra brincava no jardim.
— Eles estão crescendo rápido — disse Raella.
— Rápido demais.
— Ikarus nem vai reconhecer.
Gillian olhou para ela.
— Vai.
Raella sorriu.
— Como você pode ter tanta certeza?
Gillian respondeu:
— Porque ele reconheceria vocês duas em qualquer lugar.
Raella abaixou os olhos.
— Eu queria que ele tivesse visto a primeira palavra dela.
— Qual foi?
Raella riu.
— Papai.
Gillian começou a rir também.
— Claro que foi.
— E ela nem sabia o que estava dizendo.
— Talvez soubesse.
As duas olharam para Lyra.
A menina estava sentada no gramado.
De repente, ela levantou a cabeça.
Ficou olhando para o horizonte.
Gillian percebeu.
— Lyra?
A menina apontou.
— Papai.
Raella ficou imóvel.
— Não há ninguém ali.
Lyra continuou apontando.
— Papai vai voltar.
Raella sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
Ela se ajoelhou diante da filha.
— Sim.
Abraçou-a.
— Ele vai.
Naquela mesma noite, milhares de quilômetros dali, Ikarus descansava sob o céu frio do norte.
Os oito fragmentos começaram a brilhar.
Ele abriu os olhos.
Por alguns segundos, não entendeu.
Então ouviu.
Uma voz infantil.
Distante.
Quase como uma lembrança.
— Papai...
Ikarus sentou-se.
O coração acelerou.
— Lyra?
O brilho desapareceu.
Ele olhou para o céu.
Pensou em Gillian.
Pensou em Raella.
Pensou em Eiran.
Pensou em Lyra.
Cinco anos.
Cinco anos longe deles.
Cinco anos de guerras.
Cinco anos ajudando desconhecidos.
Cinco anos carregando os fragmentos dos homens que havia matado.
E ainda faltavam quatro.
Ikarus se levantou.
Colocou a espada nas costas.
— Eu vou voltar.
Dessa vez, porém, havia algo diferente em sua voz.
Não era apenas uma promessa.
Era uma decisão.
Ao longe, além das montanhas, começava o território de Okhus.
E, pela primeira vez em cinco anos, Ikarus sentiu os oito fragmentos reagirem simultaneamente.
Ele parou.
O vento ficou completamente silencioso.
Então, muito distante, alguma coisa respondeu.
Um único olho se abriu na escuridão.
Ikarus estreitou os olhos.
— Okhus...
E começou a caminhar.
Sem saber que, enquanto ele se aproximava do nono fragmento, em Lenória, duas mulheres e duas crianças continuavam esperando pelo mesmo homem.
E que talvez, quando Ikarus finalmente retornasse, encontraria uma família que havia crescido sem ele.
Mas não havia deixado de esperá-lo.
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