Os olhos se abriram no fundo do templo.
Ikarus percebeu.
Não foi uma impressão.
Não foi uma sombra produzida pela luz.
Havia alguém ali.
Entre as estátuas quebradas, atrás do lugar onde Arenos havia desaparecido, duas pequenas luzes douradas surgiram na escuridão.
Ikarus imediatamente levou a mão à espada.
Os oito fragmentos reagiram.
Todos ao mesmo tempo.
O fragmento de Lenória queimou como fogo.
O de Sefrion vibrou em seu peito.
O de Setra pareceu pulsar como um coração.
O de Gallen aqueceu.
O de Valeth emitiu uma luz quase branca.
O de Kallon produziu um som grave, semelhante ao chamado distante de uma criatura marinha.
O de Khsandra fez pequenas raízes surgirem sob seus pés.
E o oitavo...
O fragmento de Arteph respondeu com uma luz negra cercada por ouro.
Ikarus respirou fundo.
Pela primeira vez desde que começara sua jornada, os oito fragmentos não estavam apenas reagindo a uma ameaça.
Estavam reagindo uns aos outros.
As oito marcas começaram a se mover sobre seu peito.
Como se procurassem posições diferentes.
Como se cada uma tentasse encontrar seu lugar.
Ikarus apertou os dentes.
— O que vocês são?
Nenhuma resposta.
As luzes diante dele cresceram.
Então uma figura saiu da escuridão.
Ikarus preparou a espada.
Mas não atacou.
Era um homem.
Ou parecia ser.
Usava uma roupa antiga, completamente negra.
Não carregava armadura.
Não carregava espada.
Não carregava símbolo de nenhum reino.
Seu rosto era jovem.
Jovem demais.
Mas seus olhos eram antigos.
Muito antigos.
Ele olhou para o peito de Ikarus.
— Oito.
Ikarus não respondeu.
— Você chegou ao oitavo.
— Quem é você?
A figura ignorou a pergunta.
— O primeiro morreu.
Ikarus franziu o cenho.
— Quem?
— Arenos.
Ikarus apertou a espada.
— Você o conhecia?
— Conhecia todos.
Ikarus avançou um passo.
— Os Guardiões?
— Não.
A figura olhou para os oito fragmentos.
— Aqueles que vieram antes deles.
Ikarus sentiu um arrepio.
— Então você sabe de onde vieram os fragmentos.
A figura sorriu.
— Não.
Ikarus estreitou os olhos.
— Você acabou de dizer que conhecia aqueles que vieram antes dos Guardiões.
— Conhecia.
— Então sabe.
— Saber de onde algo veio não significa saber o que aquilo é.
Ikarus permaneceu em silêncio.
A figura continuou:
— Os Guardiões receberam os fragmentos.
— Para proteger os reinos.
— Essa foi a história contada depois.
— E a verdadeira?
A figura apontou para Ikarus.
— A verdadeira história está caminhando dentro de você.
Ikarus sentiu os oito fragmentos queimarem.
— O que isso significa?
— Significa que você não está carregando oito fragmentos.
Ikarus olhou para o próprio peito.
— Não?
— Está carregando oito memórias.
O silêncio pareceu tomar conta do templo.
Ikarus lembrou-se de Serenya.
“Aquilo que foi separado.”
A frase voltou à sua mente.
“Daquilo que você.”
Ele havia pensado que talvez fosse uma metáfora.
Agora já não tinha certeza.
— Memórias de quem?
A figura sorriu.
— Essa é a pergunta que você deveria fazer.
Ikarus levantou a espada.
— Então responda.
— Ainda não.
— Já matei oito Guardiões.
— Não.
Ikarus ficou imóvel.
— O quê?
A figura apontou para o fragmento de Arteph.
— Você matou Arenos.
— Sim.
— Mas o fragmento não morreu.
Ikarus olhou para o próprio peito.
— Os fragmentos nunca morrem.
— Exatamente.
A figura começou a desaparecer.
Ikarus avançou.
— Espere!
— Você precisa sair de Arteph.
— Por quê?
A figura respondeu:
— Porque agora que o oitavo fragmento despertou...
Uma rachadura surgiu no chão.
Depois outra.
E outra.
O templo começou a tremer.
— ...os outros quatro saberão que você chegou.
Ikarus ficou imóvel.
— Os outros quatro?
A figura desapareceu.
Mas sua voz permaneceu.
— Eles já estão esperando.
Então o templo tremeu violentamente.
Ikarus perdeu o equilíbrio.
A porta atrás dele começou a fechar.
Ele correu.
Antes que pudesse atravessá-la, ouviu uma voz.
— Ikarus!
Ele parou.
Virou-se.
Por um instante, viu Arenos.
Não como Guardião.
Não como guerreiro.
Mas como homem.
Arenos estava parado no centro do salão.
Ao lado dele estava Liora.
Os dois sorriram.
Ikarus não disse nada.
Arenos apenas fez um gesto com a cabeça.
Como quem dizia para continuar.
A porta se fechou.
Ikarus ficou sozinho.
Do lado de fora, Arteph estava diferente.
A névoa havia diminuído.
O céu começava a clarear.
E milhares de mortos haviam desaparecido.
Não havia corpos.
Não havia ossos.
Não havia ruínas humanas.
A cidade estava vazia.
Ikarus olhou para o peito.
Oito fragmentos.
Ele fechou os olhos.
E então percebeu uma mudança.
Antes, cada fragmento parecia uma fonte separada.
Agora havia uma conexão.
Uma espécie de linha invisível ligava todos eles.
Lenória.
Sefrion.
Setra.
Gallen.
Valeth.
Kallon.
Khsandra.
Arteph.
Oito pontos.
Uma única estrutura.
E no centro...
um vazio.
Ikarus abriu os olhos.
— Faltam quatro.
Ele não sabia de onde aquela certeza vinha.
Mas sabia.
Doze.
O número que aparecia em todos os lugares.
Doze Guardiões.
Doze fragmentos.
Doze símbolos.
Doze partes.
Mas havia outra coisa.
Os oito fragmentos começaram a projetar imagens.
Primeiro Lenória.
O enorme grifo.
Depois Sefrion.
A coruja.
Setra.
A serpente.
Gallen.
O centauro.
Valeth.
A águia.
Kallon.
A serpente marinha.
Khsandra.
A Árvore-Mãe.
E então Arteph.
O Cerberus.
As oito criaturas apareceram ao redor de Ikarus.
Não como invocações físicas.
Como espíritos.
Ikarus percebeu algo.
Cada uma olhava para ele.
Mas não como um servo olha para seu mestre.
Como um guardião olha para alguém que está sendo testado.
Ikarus deu um passo.
O Grifo de Lenória abaixou a cabeça.
A Coruja de Sefrion abriu as asas.
A Serpente de Setra enrolou-se.
O Centauro de Gallen levantou a arma.
A Águia de Valeth abriu as asas.
A Serpente de Kallon ergueu a cabeça.
As raízes da Árvore-Mãe começaram a se espalhar.
E o Cerberus...
rosnou.
Ikarus franziu a testa.
— Você não me aceita?
O Cerberus mostrou os dentes.
Ikarus percebeu.
— Então você é diferente.
A criatura não atacou.
Apenas olhou.
Ikarus entendeu.
Os outros haviam permitido que ele utilizasse seus poderes.
O Cerberus ainda não.
Porque Arenos havia acabado de morrer.
E aquele fragmento ainda não o reconhecia completamente.
Ikarus colocou a mão sobre o peito.
— Eu não quero usar vocês.
As oito criaturas permaneceram imóveis.
— Quero terminar aquilo que vocês começaram.
O Cerberus aproximou uma das cabeças.
Ikarus não recuou.
A enorme criatura encostou o focinho em seu peito.
O oitavo fragmento brilhou.
E então uma imagem surgiu.
Uma estrada.
Uma montanha.
Um castelo.
E uma mulher usando armadura dourada.
Ikarus abriu os olhos.
— O próximo.
A imagem desapareceu.
Mas ele havia visto o símbolo.
Uma águia.
Não.
Não era a águia de Valeth.
Era uma ave de rapina diferente.
Mais escura.
Mais poderosa.
E atrás dela havia um enorme céu vermelho.
Ikarus olhou para o horizonte.
— Qual reino?
O fragmento respondeu.
Uma palavra surgiu em sua mente.
OKHUS.
Ikarus ficou imóvel.
Okhus.
Um dos quatro reinos restantes.
Mas havia algo errado.
Ele não deveria saber aquilo.
Os fragmentos estavam começando a guiá-lo.
Não apenas fornecendo poder.
Estavam escolhendo o caminho.
Ikarus começou a caminhar.
Porém, antes de deixar Arteph, encontrou algo.
No centro da antiga praça havia uma estátua.
Não de um rei.
Não de um Guardião.
De uma família.
Um homem.
Uma mulher.
E uma menina.
Arenos.
Elira.
Liora.
Ikarus ficou diante dela.
Sobre a base havia uma inscrição.
Ele passou os dedos pelas letras.
“Aqueles que amamos não pertencem à morte. Pertencem àquilo que fizeram enquanto estavam vivos.”
Ikarus ficou olhando.
Depois se ajoelhou.
Não conhecera Arenos antes daquele dia.
Mas sabia que jamais esqueceria aquele homem.
— Eu vou continuar.
Levantou-se.
— E não vou trazer vocês de volta.
Então partiu.
---
Durante os primeiros dias, o fragmento de Arteph permaneceu silencioso.
Ikarus tentou invocá-lo.
Nada.
Tentou chamar o Cerberus.
Nada.
Os outros sete respondiam imediatamente.
O Grifo podia levá-lo durante horas.
A Coruja permitia que atravessasse regiões perigosas sem ser percebido.
A Serpente de Setra podia avançar por terrenos impossíveis.
O Centauro de Gallen atravessava campos em velocidade absurda.
A Águia de Valeth levava Ikarus pelos céus.
A Serpente de Kallon permitia que atravessasse rios e mares.
As raízes de Khsandra podiam abrir caminhos em florestas.
Mas o Cerberus permanecia em silêncio.
Até a terceira noite.
Ikarus dormia próximo a uma pequena fogueira.
Então acordou.
Oito símbolos estavam brilhando no chão.
Ele se levantou.
O símbolo de Arteph estava no centro.
E ao redor dele havia os outros sete.
Ikarus ficou olhando.
As marcas começaram a se conectar.
Uma linha.
Depois outra.
Depois outra.
Até formar um círculo.
No centro apareceu uma imagem.
Uma porta.
A mesma porta de Kallon.
A mesma porta de Arteph.
Mas agora havia algo diferente.
Havia uma nona marca.
Ikarus ficou imóvel.
— Nove?
A marca não pertencia a nenhum dos oito fragmentos.
Era um símbolo completamente diferente.
Parecia uma coroa.
Mas também parecia um olho.
Ikarus aproximou a mão.
Antes que pudesse tocar...
o símbolo desapareceu.
E uma voz veio atrás dele.
— Você não deveria ter chegado tão longe.
Ikarus virou-se.
Um grupo de homens estava parado na escuridão.
Eram seis.
Todos usavam armaduras negras.
Nenhum carregava o símbolo de um reino.
O homem à frente segurava uma espada curta.
— Quem são vocês?
O homem sorriu.
— Aqueles que esperavam pelo portador.
Ikarus desembainhou a espada.
— Então vocês sabem dos fragmentos.
— Sabemos.
— Quantos?
O homem olhou para o peito de Ikarus.
— Oito.
Ikarus avançou.
— Responda.
O homem recuou.
— O suficiente para acordar o que deveria continuar dormindo.
Ikarus parou.
— Quem enviou vocês?
O homem sorriu novamente.
— Os mesmos que estão esperando pelos quatro restantes.
Ikarus apertou a espada.
— Onde estão os quatro?
O homem não respondeu.
Mas atrás dele, muito distante, uma luz vermelha surgiu no horizonte.
O fragmento de Arteph brilhou.
Os outros sete responderam.
E, pela primeira vez, o Cerberus apareceu.
Não como uma sombra.
Não como uma memória.
Como uma criatura real.
Gigantesca.
As três cabeças surgiram atrás de Ikarus.
Os seis homens recuaram.
Um deles sussurrou:
— Ele conseguiu.
Outro perguntou:
— O quê?
O primeiro respondeu:
— O fragmento de Arteph o aceitou.
Ikarus virou lentamente a cabeça.
O Cerberus estava atrás dele.
As três cabeças olhavam para os seis homens.
Ikarus segurou a espada.
— Então venham.
O Cerberus abriu as seis mandíbulas.
E, pela primeira vez desde que começara sua jornada, Ikarus não estava mais carregando apenas oito fragmentos.
Ele estava começando a compreender que os fragmentos também estavam carregando algo dentro dele.
Algo que, pouco a pouco, estava despertando.
E muito longe dali, em algum lugar do mundo...
um nono símbolo apareceu.
Depois um décimo.
Depois um décimo primeiro.
E, por fim...
o décimo segundo.
Os quatro últimos Guardiões haviam sentido o despertar.
E um deles disse:
— Ikarus chegou a Arteph.
Outro respondeu:
— Então Arenos morreu.
Silêncio.
O terceiro fechou os olhos.
— E agora ele possui oito.
O quarto Guardião olhou para o horizonte vermelho.
— Então já não podemos esperar.
Uma pausa.
— Preparem-se.
E em algum lugar, sob o mundo...
alguma coisa respondeu.
Uma vez.
Como uma batida de coração.
Depois outra.
Duas.
E depois uma terceira.
Três.
Os quatro Guardiões olharam uns para os outros.
Porque todos conheciam aquele som.
Era o som daquilo que havia sido selado.
E que agora...
estava acordando.
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