sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Perda

 Baltamus ficou para trás.


Ikarus não olhou para trás quando deixou a fortaleza.


Onze fragmentos.


Onze.


O décimo primeiro ainda queimava dentro dele como se tivesse acabado de ser arrancado do corpo de Baltar.


Seu corpo estava cansado.


Mas não era apenas cansaço.


Era algo mais profundo.


Depois de tantos anos carregando os fragmentos, Ikarus já não sabia onde terminava seu próprio corpo e onde começavam aquelas forças antigas.


Ele desceu as montanhas de Baltamus.


A neve ficou para trás.


Depois vieram as florestas.


Depois as planícies.


E, muito mais ao sul...


o mar.


O Mar Divisor.


A maior distância que Ikarus já teria de atravessar.


Durante sua jornada anterior, ele havia usado os poderes dos Guardiões para encurtar distâncias.


Agora era diferente.


Os fragmentos respondiam a ele.


Mas o mundo parecia resistir.


Como se alguma coisa estivesse dizendo:


Ainda não.


Então Ikarus caminhou.


Dias.


Meses.


Anos.


Cinco anos.


Cinco anos entre Baltamus e o momento em que seus pés finalmente tocaram novamente o continente Sul.


Durante esse tempo, Ikarus envelheceu.


Seu rosto ganhou novas marcas.


Seu corpo ficou mais forte novamente.


Mas seus olhos carregavam algo que não existia antes.


Distância.


Ele havia visto dez Guardiões morrerem.


Havia enfrentado Angarkor.


Havia atravessado reinos tomados pelos mortos.


E agora carregava onze fragmentos.


Faltava apenas um.


Aldora.


O último.


Certa noite, depois de atravessar uma região costeira, Ikarus parou diante do mar.


Os onze fragmentos brilharam.


Então o símbolo de Kallon apareceu sobre as águas.


Uma serpente gigantesca formada por luz.


Ikarus reconheceu imediatamente.


— Kaeron...


A criatura não respondeu.


Kaeron estava morto.


Para sempre.


Era apenas a manifestação do poder que havia pertencido a ele.


Uma voz surgiu dentro da mente de Ikarus.


— DESCANSE.


Ikarus franziu a testa.


— Eu não posso.


— VOCÊ PODE.


— Falta apenas um.


— JUSTAMENTE POR ISSO.


Ikarus ficou em silêncio.


— NÃO CHEGUE AO ÚLTIMO FRAGMENTO FRACO.


— Por quê?


A serpente aproximou-se.


— PORQUE QUANDO OS DOZE ESTIVEREM JUNTOS...


A voz desapareceu.


Ikarus esperou.


— O quê?


Nada.


Então a serpente respondeu uma última vez:


— VOCÊ PRECISA ESTAR INTEIRO PARA DESCOBRIR.


E desapareceu.


Ikarus compreendeu.


Não imediatamente.


Mas compreendeu.


Ele precisava descansar.


Precisava chegar a Aldora inteiro.


Então parou.


Pela primeira vez em anos...


parou.


---


E os anos continuaram passando.


Quando finalmente chegou às terras próximas de Lenória, Ikarus percebeu que algo havia mudado.


Não apenas nele.


No mundo.


A guerra contra os mortos-vivos havia deixado cicatrizes por todos os lugares.


Mas Lenória ainda estava de pé.


As muralhas haviam sido reforçadas.


Torres novas haviam sido construídas.


Soldados patrulhavam as estradas.


E, no horizonte...


Ikarus reconheceu a cidade onde tudo havia começado.


Lenória.


Seu coração acelerou.


Ele parou diante dos portões.


Um soldado olhou para ele.


Depois para os onze fragmentos.


Depois novamente para o rosto.


O homem deixou a lança cair.


— Não...


Ikarus continuou andando.


— Ikarus?


O nome percorreu a cidade.


Pessoas começaram a sair das casas.


Soldados se aproximaram.


Alguns eram jovens demais para terem conhecido o homem que havia partido anos atrás.


Outros lembravam.


E então alguém apareceu no meio da multidão.


Cabelos completamente grisalhos.


Corpo envelhecido.


Mas os mesmos olhos.


Rufus.


Ikarus parou.


Os dois ficaram olhando um para o outro.


Rufus foi o primeiro a se aproximar.


Abraçou o antigo discípulo.


Ikarus fechou os olhos.


Por alguns segundos...


não existia guerra.


Não existiam fragmentos.


Não existia Angarkor.


Existia apenas Lenória.


Casa.


— Você voltou.


Ikarus respondeu:


— Ainda não.


Rufus afastou-se.


— O quê?


— Ainda falta um.


Rufus olhou para os onze fragmentos.


— Aldora.


Ikarus assentiu.


Então perguntou:


— Onde estão eles?


Rufus ficou em silêncio.


Ikarus percebeu imediatamente.


— Rufus.


— Seus filhos cresceram.


Ikarus respirou fundo.


— Eiran?


— Treze anos.


Ikarus fechou os olhos.


Treze.


A última lembrança que possuía do filho era a de uma criança.


— E Lyra?


Rufus hesitou.


— Dez.


Ikarus sentiu o peito apertar.


Dez anos.


Ele havia perdido dez anos da vida da própria filha.


— Quero vê-los.


Rufus abaixou a cabeça.


— Vai vê-los.


Ikarus percebeu.


— O que aconteceu?


Rufus não respondeu.


— O que aconteceu?


— Foi há uma semana.


Ikarus ficou imóvel.


— Um ataque.


— Mortos-vivos.


Silêncio.


— Quem?


Rufus finalmente olhou para ele.


— Gillian.


O mundo parou.


Os onze fragmentos ficaram completamente silenciosos.


Ikarus não respondeu.


Não conseguiu.


— Ela morreu protegendo a cidade.


Rufus continuou:


— E protegendo as crianças.


Ikarus olhou para o chão.


— Onde ela está?


— Foi enterrada há três dias.


---


O túmulo ficava em uma colina acima de Lenória.


Flores haviam sido colocadas sobre a pedra.


Ikarus caminhou sozinho até lá.


Parou diante do nome.


GILLIAN.


Sua mão tocou a lápide.


— Eu voltei.


Silêncio.


— Eu demorei.


A voz falhou.


— Eu disse que voltaria.


As lágrimas começaram a cair.


— Eu disse...


Ele fechou os olhos.


— ...que voltaria.


Atrás dele, alguém chorava.


Ikarus virou-se.


Era Raella.


Ela estava alguns metros distante.


Mais velha também.


O rosto carregava anos de preocupação.


Os cabelos estavam diferentes.


Mas os olhos eram os mesmos.


Os olhos que Ikarus lembrava.


Raella não correu até ele.


Não o abraçou.


Apenas ficou olhando.


Durante anos, ela havia imaginado aquele reencontro.


Mas nunca imaginou que seria assim.


Ikarus aproximou-se.


— Raella...


Ela respirou fundo.


— Você voltou.


Ikarus assentiu.


— Sim.


Raella olhou para o túmulo de Gillian.


— Uma semana.


Ikarus abaixou os olhos.


— Eu sinto muito.


— Não.


Ela balançou a cabeça.


— Não diga isso.


Ikarus olhou para ela.


Raella continuou:


— Você não matou Gillian por ter demorado.


— Eu deveria ter chegado antes.


— Talvez.


A resposta foi simples.


E doeu mais do que qualquer acusação.


Raella enxugou uma lágrima.


— Mas você não estava aqui.


Ikarus ficou em silêncio.


— E eu estava.


Ela respirou fundo.


— Eu estava quando ela morreu.


Ikarus ergueu os olhos.


— Ela falou alguma coisa?


Raella demorou.


— Falou.


— O quê?


Raella olhou para o túmulo.


— Disse para eu cuidar das crianças.


Ikarus fechou os olhos.


Raella continuou:


— E disse que você voltaria.


Ikarus começou a chorar novamente.


Raella aproximou-se.


— Ela nunca deixou de acreditar nisso.


Por alguns segundos, os dois permaneceram diante do túmulo.


Sem romance.


Sem explicações.


Apenas duas pessoas que haviam perdido alguém importante.


---


Então uma voz veio atrás deles.


— Pai?


Ikarus virou-se.


Eiran estava ali.


Treze anos.


Já quase um homem.


Alto.


Cabelos semelhantes aos do pai.


Os olhos azuis.


Mas havia raiva neles.


Ao lado dele estava Lyra.


Dez anos.


Ela segurava o braço do irmão.


Ikarus olhou para os dois.


Seu coração apertou.


— Eiran...


O garoto ficou parado.


— Você voltou.


— Sim.


— Depois de cinco anos.


Ikarus abaixou os olhos.


— Sim.


Eiran olhou para a lápide.


— Cinco anos.


Depois olhou para o pai.


— E você chegou uma semana tarde demais.


Raella olhou para o filho.


— Eiran...


— Não estou mentindo.


Ikarus levantou a mão.


— Não.


Raella parou.


Ikarus olhou para o filho.


— Ele tem razão.


Eiran ficou surpreso.


— Eu devia ter estado aqui.


O garoto apertou os punhos.


— Então por que nunca esteve?


Ikarus não respondeu imediatamente.


— Porque eu precisava terminar algo.


Eiran olhou para os fragmentos.


— Sempre existe alguma coisa.


Ikarus abaixou a cabeça.


— Sim.


Lyra finalmente falou.


— Você é meu pai?


Ikarus olhou para ela.


A pergunta quase o destruiu.


— Sou.


— Mamãe falava de você.


Ikarus olhou para Raella.


Ela assentiu.


— Eu contei tudo o que podia.


Lyra aproximou-se um pouco.


— Ela dizia que você era forte.


Ikarus sorriu tristemente.


— Sua mãe exagerava.


— Ela dizia que você sempre voltava.


Ikarus olhou novamente para o túmulo de Gillian.


— Dessa vez eu cheguei tarde.


Lyra começou a chorar.


Ikarus se ajoelhou diante dela.


— Eu sinto muito.


Ela ficou olhando para ele.


Depois, lentamente, aproximou-se.


Ikarus abriu os braços.


Lyra o abraçou.


Foi um abraço pequeno.


Mas para Ikarus pareceu pesar mais que todos os onze fragmentos.


Ele fechou os olhos.


E chorou.


Raella observou em silêncio.


Eiran desviou o rosto.


---


Naquela noite, Ikarus permaneceu em Lenória.


Raella ficou com ele.


Os dois conversaram durante horas.


Sobre Lyra.


Sobre Eiran.


Sobre os anos que haviam passado.


Sobre Gillian.


Sobre tudo que Ikarus havia perdido.


Raella contou que Gillian havia mantido a esperança até o último dia.


Que cuidara das crianças.


Que nunca falara mal dele.


Nem mesmo quando estava com raiva.


Ikarus ouviu tudo.


Até que perguntou:


— E você?


Raella olhou para ele.


— O quê?


— Você me esperou?


Ela ficou em silêncio.


— Durante algum tempo.


Ikarus baixou os olhos.


— E depois?


Raella sorriu tristemente.


— Depois eu aprendi a viver.


Ele assentiu.


— Eu estou feliz por você.


— Não diga isso como se estivesse me dando permissão.


Ikarus olhou para ela.


Raella continuou:


— Eu nunca precisei da sua permissão para viver.


Ele sorriu pela primeira vez.


— Ainda é a mesma.


— E você ainda é teimoso.


— Muito.


Os dois ficaram em silêncio.


Raella então perguntou:


— Você vai para Aldora amanhã?


Ikarus assentiu.


— Sim.


— E depois?


Ikarus olhou para os onze fragmentos.


— Depois...


Ele demorou.


— Não sei.


Raella percebeu algo.


— Angarkor.


Ikarus levantou os olhos.


— Ele está esperando.


— Por você.


— Pelos doze.


Raella ficou preocupada.


— Então não vá.


Ikarus balançou a cabeça.


— Preciso.


— Você acabou de perder Gillian.


— Justamente por isso.


Raella segurou o braço dele.


— Não deixe que a morte dela transforme você em outra pessoa.


Ikarus olhou para a mão dela.


Depois para os olhos.


— Não sei se consigo.


Raella respondeu:


— Então tente.


---


Antes do amanhecer, Ikarus visitou Gillian uma última vez.


Eiran estava lá.


Lyra também.


Raella permaneceu alguns passos atrás.


Ikarus colocou a mão sobre a lápide.


— Eu vou para Aldora.


O vento passou pela colina.


— Falta um.


Os onze fragmentos brilharam.


— Depois eu volto.


Eiran perguntou:


— Você realmente vai voltar?


Ikarus olhou para o filho.


— Sim.


— Promete?


Ikarus ficou em silêncio.


Promessas haviam custado caro demais.


Mas então respondeu:


— Prometo.


Lyra correu até ele.


Abraçou sua cintura.


Ikarus abaixou-se e a abraçou.


Eiran permaneceu parado.


Depois de alguns segundos, aproximou-se também.


Os três ficaram juntos.


Raella observou.


E naquele momento Ikarus percebeu que ainda havia algo pelo qual lutar.


Não apenas pelos fragmentos.


Não apenas por vingança.


Por eles.


---


Quando deixou Lenória, Ikarus não carregava apenas onze fragmentos.


Carregava a morte de Gillian.


O abraço de Lyra.


O olhar ferido de Eiran.


E as últimas palavras de Raella:


“Tente.”


Ele caminhou para o sul.


Aldora o aguardava.


O último Guardião.


O último fragmento.


Mas agora Ikarus caminhava diferente.


Não havia mais apenas determinação.


Havia raiva.


Uma raiva fria.


Profunda.


E, enquanto o horizonte se tornava dourado, os onze fragmentos começaram a pulsar.


Uma voz surgiu dentro dele.


UM RESTA.


Ikarus continuou.


UM RESTA.


Sua mão apertou a espada.


E DEPOIS...


Ele olhou para o deserto de Aldora ao longe.


OS DOZE SERÃO UM.


Ikarus parou por um instante.


Então continuou caminhando.


Sem saber que, em algum lugar de Aldora, o último Guardião já havia sentido sua chegada.


E que o décimo segundo fragmento...


estava esperando por ele desde antes de seu nascimento.

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