sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: O poder dos Hunen

 O deserto de Aldora parecia não ter fim.

Ikarus caminhava sozinho entre as dunas, enquanto os doze fragmentos brilhavam ao redor de seu corpo. Não havia mais onze vozes. Não havia mais lacunas.


Pela primeira vez, ele estava completo.


Ou, pelo menos, era isso que acreditava.


O vento cessou.


Ikarus parou.


À sua frente, a areia começou a subir.


Não por causa do vento.


Por causa de uma presença.


Uma silhueta surgiu no horizonte.


Cabelos brancos.


Olhos vermelhos.


Vestes negras.


Duas katares nas mãos.


Angarkor.


Ikarus apertou a espada.


— Você veio.


Angarkor continuou caminhando.


— Eu disse que viria.


Ikarus sentiu os doze fragmentos responderem.


— Agora você não tem mais desculpas.


Angarkor parou.


— Não.


Ele ergueu os olhos.


— Agora você não tem mais nenhuma.


O silêncio durou apenas um segundo.


Ikarus desapareceu.


A areia explodiu atrás dele.


A espada atingiu Angarkor.


CLANG!


Angarkor bloqueou.


O impacto abriu uma cratera sob os dois.


Ikarus atacou novamente.


E novamente.


E novamente.


Cada golpe carregava o poder dos doze fragmentos.


O poder de todos os Guardiões.


A força acumulada de uma jornada inteira.


Angarkor foi empurrado para trás.


Pela primeira vez, Ikarus conseguiu fazê-lo recuar.


— É isso! — gritou Ikarus.


Angarkor sorriu.


Ikarus atacou.


O golpe atingiu seu peito.


Angarkor foi lançado dezenas de metros.


Caiu de pé.


Olhou para o próprio peito.


Havia sangue.


Ikarus ficou imóvel.


— Finalmente.


Angarkor limpou o sangue com os dedos.


Observou-o.


— Interessante.


Ikarus avançou.


Os doze fragmentos explodiram em luz.


A areia se levantou como uma tempestade.


Ikarus surgiu acima de Angarkor e desceu com a espada.


Angarkor cruzou as duas katares.


O choque foi tão poderoso que uma onda de pressão atravessou o deserto.


Montanhas de areia desapareceram.


O chão rachou.


Ikarus pressionou.


— MORRA!


Angarkor olhou para ele.


E sorriu.


— Não.


Então Angarkor girou.


A espada de Ikarus passou ao lado.


Uma katare atingiu seu abdômen.


Ikarus foi lançado para longe.


Ele caiu, rolou pela areia e levantou-se imediatamente.


Angarkor já estava atrás dele.


Ikarus girou.


Defendeu.


Outra vez.


Outra.


Outra.


Os dois desapareceram e reapareceram pelo deserto em velocidades que nenhum homem poderia acompanhar.


Cada choque fazia o céu estremecer.


Ikarus usava tudo.


Os doze fragmentos.


Toda a força que havia adquirido.


Toda a experiência dos Guardiões.


Toda a sua própria vida.


Mas Angarkor continuava avançando.


Ikarus atacou.


Angarkor desviou.


Ikarus atacou novamente.


Angarkor bloqueou.


Ikarus tentou atravessar sua defesa.


Angarkor simplesmente desapareceu.


Ikarus olhou ao redor.


— Onde...


Uma mão segurou seu pescoço.


Angarkor surgiu atrás dele.


— Aqui.


Ikarus tentou se libertar.


Angarkor o lançou contra uma montanha de pedra.


A montanha se partiu.


Ikarus caiu.


Levantou-se.


Sangrando.


Respirando com dificuldade.


Mas ainda de pé.


— Eu... ainda consigo...


Angarkor caminhou até ele.


— Sim.


Ikarus ergueu a espada.


— Então venha.


Angarkor parou.


Por alguns segundos, apenas observou Ikarus.


— Você realmente ficou muito mais forte.


Ikarus atacou.


Angarkor desviou.


Um golpe.


Outro.


Outro.


Ikarus conseguiu acertá-lo novamente.


Angarkor recuou.


Ikarus continuou.


Mas então...


Angarkor mudou.


Foi apenas um movimento.


Uma mudança mínima na postura.


Mas Ikarus percebeu tarde demais.


A próxima sequência de ataques foi rápida demais.


Primeiro, sua espada foi desviada.


Depois, seu braço perdeu força.


Uma katare passou por sua defesa.


Outra.


Ikarus caiu de joelhos.


Os doze fragmentos ainda brilhavam.


Mas seu corpo já não acompanhava.


Angarkor ficou diante dele.


Ikarus tentou levantar.


Não conseguiu.


— Eu estou...


Respirou.


— ...completo.


Angarkor olhou para os doze fragmentos.


— Está.


Ikarus levantou os olhos.


— Então por quê?


Angarkor permaneceu em silêncio.


Ikarus tentou novamente se levantar.


— Por quê?!


Angarkor respondeu:


— Porque você ainda está incompleto.


Ikarus franziu a testa.


— Isso é impossível.


— Não.


Angarkor se aproximou.


— Os fragmentos estão completos.


Apontou para o peito de Ikarus.


— Você está completo.


Pausa.


— Mas você não está inteiro.


Ikarus não compreendeu.


Angarkor guardou uma das katares.


— Você luta como um homem que quer terminar uma missão.


Ikarus apertou a areia.


— Eu lutei para sobreviver.


— Não.


Angarkor se agachou diante dele.


— Você luta porque precisa chegar ao fim.


Ikarus levantou os olhos.


Angarkor continuou:


— Isso não é o mesmo que querer viver.


Ikarus ficou imóvel.


— Talvez seja esse o problema.


Angarkor levantou-se.


— Talvez você não tenha motivação suficiente.


Ikarus tentou atacar.


Angarkor segurou sua espada com uma das mãos.


— Então vou lhe dar uma.


Os olhos vermelhos brilharam.


O mundo desapareceu.


Ikarus sentiu o espaço dobrar.


— O que você...


Angarkor tocou seu ombro.


— Você queria voltar para Lenória.


Tudo ficou branco.


Então o deserto desapareceu.


---


Lenória.


A cidade estava tranquila.


O sol iluminava as muralhas.


Pessoas caminhavam pelas ruas.


Crianças brincavam.


Raella estava próxima da antiga casa.


Ela olhava para o horizonte.


Esperava.


Como fazia desde que Ikarus partira.


Então o espaço diante dela se abriu.


Angarkor surgiu.


Ikarus estava ao lado dele.


Caído.


Raella imediatamente correu.


— Ikarus!


Ele tentou levantar.


— Raella...


Ela olhou para Angarkor.


— Quem é você?


Angarkor não respondeu.


Raella correu até Ikarus.


— O que aconteceu?


Ikarus tentou falar.


— Saia daqui.


Raella parou.


— O quê?


— RAELLA, CORRA!


Tarde demais.


Angarkor surgiu diante dela.


Ikarus tentou se levantar.


— NÃO!


Ele avançou.


Angarkor moveu apenas a mão.


Ikarus foi lançado para longe.


— Não!


Raella olhou para Ikarus.


Por um instante, não sentiu medo.


Apenas compreendeu.


Ela sabia que não conseguiria vencer.


Sabia que não conseguiria fugir.


Mas olhou para Ikarus uma última vez.


— Volte para eles.


Ikarus arregalou os olhos.


— Raella!


Angarkor atacou.


O golpe foi rápido.


Definitivo.


Raella caiu.


Ikarus gritou.


— RAAAELLA!


Ele tentou alcançar seu corpo.


Angarkor segurou-o.


Ikarus se debateu.


— ME SOLTA!


Angarkor não respondeu.


— ME SOLTA!


Os doze fragmentos explodiram.


Ikarus tentou liberar todo o seu poder.


Mas Angarkor o segurou.


— Olhe.


Ikarus olhou.


Raella estava imóvel.


O mundo parou.


Ikarus não ouviu mais nada.


Não ouviu a cidade.


Não ouviu o vento.


Não ouviu sequer a própria respiração.


Só viu Raella.


A mulher que havia esperado por ele.


A mulher que nunca deixara de amá-lo.


A mulher que, na noite anterior à sua partida, havia pedido apenas uma coisa.


Que ele voltasse.


Ikarus começou a tremer.


Angarkor soltou seu braço.


Ikarus caiu de joelhos.


— Não...


Sua voz desapareceu.


— Não...


Angarkor olhou para ele.


— Agora você tem um motivo.


Ikarus levantou lentamente o rosto.


Os olhos estavam completamente diferentes.


Não havia mais cansaço.


Não havia dúvida.


Não havia esperança.


Havia apenas ódio.


Angarkor deu um passo para trás.


— Não me agradeça.


Ikarus apertou os punhos.


— Eu vou matar você.


Angarkor sorriu.


— Agora sim.


O espaço ao redor dele começou a se distorcer.


— Venha para Baltamus.


Ikarus levantou-se.


— Eu vou.


Angarkor desapareceu.


Antes de partir, deixou apenas uma frase:


— Estarei esperando.


O silêncio voltou a Lenória.


Ikarus permaneceu diante de Raella.


Os doze fragmentos continuavam brilhando.


Mas agora pareciam diferentes.


Não eram mais apenas poder.


Eram testemunhas.


Testemunhas de tudo que Ikarus havia perdido.


Ele se ajoelhou ao lado dela.


Tocou seu rosto.


— Eu voltei...


A voz falhou.


— Eu voltei, Raella.


Nenhuma resposta.


Ikarus fechou os olhos.


E então se levantou.


No horizonte, muito distante dali, ficava Baltamus.


O lugar onde Angarkor esperava.


Ikarus olhou naquela direção.


Os doze fragmentos começaram a pulsar.


Um por um.


Até que todos se tornaram um único brilho.


Ikarus apertou a espada.


— Você queria me dar uma motivação.


O vento levantou a poeira ao redor dele.


— Conseguiu.


E começou a caminhar.


Não para completar os fragmentos.


Não para descobrir sua origem.


Não para salvar o mundo.


Desta vez...


Ikarus caminhava para matar Angarkor.


E, muito longe dali, no extremo norte do mundo, Angarkor permanecia diante das muralhas de Baltamus.


Esperando.


Porque agora...


ele finalmente acreditava que Ikarus chegaria até ele.

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