sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: O Necrolouco

 Naquela noite, o Necromante sonhou.


Isso já seria estranho.


Ele não sonhava havia muito tempo.


Mortos não sonham.


E ele passara tanto tempo entre os mortos que, às vezes, esquecia que um dia havia sido vivo.


No sonho, estava sentado à mesa de uma pequena casa.


Havia uma janela aberta.


Chovia lá fora.


Uma mulher estava de costas para ele, preparando alguma coisa no fogão.


Ele conhecia aquela mulher.


Sabia disso.


Mas não conseguia lembrar seu nome.


— Você demorou — disse ela.


O Necromante não respondeu.


— Eu estava esperando.


Ele olhou para as próprias mãos.


Eram mãos jovens.


Sem cicatrizes.


Sem sangue.


Sem as marcas de séculos de necromancia.


— Onde estamos?


A mulher continuou mexendo a panela.


— Em casa.


Ele sentiu uma coisa estranha no peito.


Saudade.


Uma saudade tão profunda que doía.


— Quem sou eu?


A mulher parou.


Devagar, virou o rosto.


Mas ele não conseguiu ver seus olhos.


O rosto dela estava coberto por uma sombra.


— Você sabe.


Então alguém bateu à porta.


Três vezes.


Toc.


Toc.


Toc.


A mulher ficou imóvel.


— Não abra.


Toc.


Toc.


Toc.


O Necromante se levantou.


— Quem está aí?


Do outro lado da porta, uma voz respondeu.


Era a voz dele.


— Sou eu.


O Necromante recuou.


A mulher começou a chorar.


— Não deixe ele entrar.


— Quem?


Ela apontou para a porta.


— Você.


A porta se abriu.


E o Necromante acordou.


Sentou-se bruscamente.


Estava na torre.


Na mesma sala.


O Livro da Morte estava sobre a mesa.


As tochas azuis queimavam.


Tudo estava exatamente onde deveria estar.


Exceto uma coisa.


Havia água no chão.


Pequenas gotas.


Como se alguém tivesse entrado na sala encharcado pela chuva.


Ele ficou olhando.


Uma gota caiu do teto.


Ploc.


Outra.


Ploc.


Ele levantou-se.


Foi até a janela.


Do lado de fora, a geleira estava seca.


Não havia chuva.


Nunca havia chuva ali.


Ele voltou os olhos para o chão.


As pegadas começavam na porta.


E terminavam ao lado da cama.


O Necromante ficou imóvel.


— Eu moro sozinho.


Sua própria voz respondeu:


— Não.


Ele virou-se.


Ninguém estava ali.


— Quem falou?


Silêncio.


Então ouviu uma risada.


Baixa.


Infantil.


— Você ainda pergunta isso?


O Necromante fechou os olhos.


— Elias.


A risada parou.


Quando abriu os olhos, havia alguém sentado na cadeira.


Um rapaz.


Talvez vinte anos.


Pálido.


Magro.


Os cabelos estavam grudados na testa.


Vestia roupas antigas, rasgadas e sujas de sangue.


O Necromante não se assustou.


Aquilo era pior.


Ele apenas ficou cansado.


— Você não existe.


O rapaz sorriu.


— Foi o que você disse ontem.


— Você não existe.


— Foi o que você disse anteontem.


— Você morreu.


O rapaz olhou para as próprias mãos.


— Eu sei.


— Então desapareça.


— Eu tentei.


Elias levantou os olhos.


— Mas você continua me usando.


O Necromante ficou em silêncio.


Então o rapaz desapareceu.


A cadeira ficou vazia.


Por alguns segundos, nada aconteceu.


Até que outra voz surgiu.


— Fraco.


O Necromante virou-se.


Desta vez não havia ninguém.


A voz veio do espelho.


Ele olhou.


Seu reflexo estava sorrindo.


Mas ele não estava.


— Você sempre foi sentimental demais — disse o reflexo.


O Necromante aproximou-se.


— Vaelthas.


O reflexo inclinou a cabeça.


— Esse nome ainda lhe incomoda?


— Você não deveria estar aqui.


— Eu nunca fui embora.


O Necromante tocou o espelho.


A superfície estava gelada.


— Você é uma lembrança.


— Não.


O reflexo tocou o vidro do outro lado.


— Sou a parte de você que ainda acredita que tudo isso precisava ter acontecido.


O Necromante franziu a testa.


— E Levi?


O reflexo sorriu.


— Ah.


As luzes da sala começaram a piscar.


— Levi não acredita em nada.


Uma voz respondeu atrás dele:


— Exatamente.


O Necromante virou-se.


Havia outro homem no salão.


Mais alto.


Mais velho.


Vestido de negro.


Os olhos eram completamente vazios.


Ele estava sorrindo.


— Eu não acredito em salvação.


Vaelthas continuou:


— Levi acredita apenas em controle.


Elias apareceu novamente na cadeira.


— E eu acredito que vocês dois estão mentindo.


O Necromante olhou para os três.


Desta vez compreendeu.


Não eram fantasmas.


Não eram demônios.


Não eram espíritos.


Eram pedaços.


Pedaços de uma única pessoa que haviam aprendido a viver separadamente.


Vaelthas.


O homem que queria compreender a morte.


Levi.


O homem que decidiu dominá-la.


Elias.


O homem que nunca conseguiu aceitar que alguém havia morrido.


O Necromante deu um passo para trás.


— Eu sou todos vocês.


Levi riu.


— Não.


Vaelthas respondeu:


— Nós somos você.


Elias apenas olhou para ele.


E foi justamente o olhar de Elias que o fez sentir medo.


Porque havia tristeza ali.


Não ódio.


Não loucura.


Tristeza.


Uma tristeza antiga demais para caber dentro de um homem.


— Você se lembra dela? — perguntou Elias.


O Necromante não respondeu.


— Você se lembra?


— Não.


— Mentira.


Elias levantou-se.


— Você lembra todas as noites.


O Necromante fechou os olhos.


E a memória voltou.


Uma mulher.


Uma sala.


Correntes.


Gritos.


Ele jovem.


Sangrando.


Incapaz de fazer qualquer coisa.


E ela olhando para ele.


Não pedindo para ser salva.


Pedindo apenas que ele não esquecesse.


O Necromante abriu os olhos.


— Pare.


Elias continuou:


— Foi por isso que você começou.


— Pare.


— Você não queria ressuscitar os mortos.


— PARE!


— Você queria que a morte tivesse sido obrigada a pedir permissão.


As paredes tremeram.


O Necromante levantou a mão.


As tochas se apagaram.


Quando voltaram a acender...


Os três haviam desaparecido.


A sala estava vazia.


Ele respirou profundamente.


Então ouviu uma voz atrás de si.


Muito próxima.


Quase dentro de seu ouvido.


— Qual de nós você acha que é o verdadeiro?


O Necromante se virou.


Nada.


Olhou para o espelho.


Seu reflexo estava sozinho.


Porém...


estava chorando.


Ele tocou o próprio rosto.


Não havia lágrimas.


Olhou novamente para o espelho.


Agora o reflexo sorria.


Ele não.


Então o Livro da Morte abriu.


Uma página branca apareceu.


Sem nomes.


Sem palavras.


Apenas uma pergunta.


QUEM É VAE LTHAS LEVI?


O Necromante ficou olhando.


A tinta começou a surgir.


Uma letra.


Depois outra.


O HOMEM QUE SOBROU.


Ele respirou fundo.


A página virou.


QUEM É LEVI?


A resposta apareceu:


O HOMEM QUE ESCOLHEU SOBREVIVER.


Outra página.


QUEM É ELIAS?


Dessa vez o livro permaneceu vazio.


Por alguns segundos.


Então uma única frase apareceu.


O HOMEM QUE AINDA NÃO MORREU.


O Necromante fechou o livro violentamente.


E, do outro lado da sala, alguém começou a bater na porta.


Toc.


Toc.


Toc.


Ele ficou imóvel.


Não queria olhar.


Toc.


Toc.


Toc.


Então uma voz veio do outro lado.


Uma voz jovem.


Assustada.


Humana.


— Vaelthas?


O Necromante não respondeu.


— Vaelthas, abra.


Ele recuou.


A voz continuou:


— Sou eu.


O Necromante sussurrou:


— Não.


— Eu sei que você está aí.


— Não.


— Você prometeu que não me esqueceria.


O Necromante começou a tremer.


Porque agora lembrava.


Lembrava exatamente quem estava do outro lado.


A mão dele aproximou-se lentamente da maçaneta.


E, dentro de sua cabeça, Levi começou a rir.


Vaelthas começou a gritar para que ele não abrisse.


Elias...


Elias ficou em silêncio.


Porque Elias já sabia quem estava esperando.


A porta abriu sozinha.


Do outro lado não havia ninguém.


Apenas um corredor escuro.


E, no chão, uma pequena poça de sangue.


O Necromante olhou para ela.


Então ouviu passos.


Pequenos.


Indo embora.


Passo.


Passo.


Passo.


Ele fechou os olhos.


E uma última voz sussurrou dentro de sua cabeça:


— Você ainda não descobriu qual de nós morreu naquele dia.


O Necromante abriu os olhos.


No corredor, havia uma criança parada de costas.


Ela não se virou.


Apenas disse:


— E quando descobrir...


Uma pausa.


— ...vai entender por que Angarkor nunca chama você pelo nome.


A criança começou a caminhar.


O Necromante não conseguiu se mover.


Porque, pela primeira vez em mil anos, percebeu algo terrível.


Ele não sabia qual era seu verdadeiro nome.


Vaelthas Levi?


Elias?


Necromante?


Talvez nenhum deles.


Talvez os três.


Ou talvez...


algum quarto homem estivesse usando os três como máscaras.


Atrás dele, o Livro da Morte abriu novamente.


Uma nova frase apareceu.


ANGARKOR SABE.


E, muito longe dali, nas ruínas de Okhus, Angarkor abriu os olhos.


Sorriu.


E disse para ninguém:


— Finalmente ele começou a lembrar.

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