sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Elara

 Ikarus não acordou quando o encontraram.


Três dias haviam se passado desde a morte de Asterion.


O templo permanecia parcialmente destruído.


O corpo do Guardião havia sido retirado e colocado no salão dos ancestrais, onde os antigos Guardiões de Thimos eram lembrados.


Mas Ikarus continuava no mesmo lugar.


Vivo.


Por pouco.


Seu corpo queimava em febre.


As feridas provocadas por Asterion haviam sido tratadas, mas havia algo pior.


Os dez fragmentos estavam reagindo.


O corpo humano de Ikarus não havia sido feito para suportar aquilo.


Uma jovem entrou no quarto carregando uma bacia de água.


Seu nome era Elara.


Ela tinha cabelos longos, castanhos, com pequenas folhas verdes crescendo naturalmente entre os fios.


Sua pele possuía uma tonalidade levemente dourada.


E seus olhos eram verdes.


Não eram olhos humanos.


Elara era descendente dos antigos povos das florestas.


Meio humana.


Meio Dríade.


E havia outra coisa que ninguém precisava dizer.


Ela era filha de Asterion.


Elara aproximou-se da cama.


Colocou a mão sobre a testa de Ikarus.


— Ainda está queimando...


Uma mulher mais velha, atrás dela, respondeu:


— Ele não deveria ter sobrevivido.


Elara olhou para Ikarus.


— Mas sobreviveu.


— Por quê?


Elara não respondeu.


Ela sabia.


Os dez fragmentos.


O problema era que eles também estavam impedindo o corpo de Ikarus de morrer.


E, ao mesmo tempo, impedindo-o de se recuperar.


Era como se dez forças diferentes estivessem tentando reconstruí-lo ao mesmo tempo.


Seu corpo estava sendo puxado em dez direções.


Naquela noite, a febre piorou.


Ikarus começou a delirar.


— Gillian...


Elara permaneceu ao lado dele.


— Quem é Gillian?


Ikarus não respondeu.


— Raella...


Elara franziu a testa.


— Quem é Raella?


Ele apertou os olhos.


— Eiran...


Depois:


— Lyra...


Elara percebeu que aquelas pessoas significavam alguma coisa.


Muito.


Ela passou um pano úmido sobre a testa dele.


— Você está tentando voltar para casa, não está?


Ikarus abriu os olhos por um instante.


Não parecia enxergá-la.


— Eu prometi...


— O quê?


— Que voltaria.


E desmaiou novamente.


Elara ficou em silêncio.


Então olhou para os dez fragmentos.


Eles brilhavam sob a pele.


Ela sabia o que precisava fazer.


E não queria.


Porque o ritual era antigo.


Muito antigo.


Os antigos habitantes de Thimos acreditavam que determinadas feridas causadas por um Guardião não poderiam ser curadas apenas com ervas.


A essência do Guardião permanecia no corpo daquele que o derrotava.


E somente alguém ligado à linhagem do Guardião poderia retirar essa essência.


Mas havia um preço.


O ritual exigia uma união íntima entre o curador e aquele que carregava os fragmentos.


Não era simplesmente uma questão de desejo.


Era magia.


Vida passando de uma pessoa para outra.


Elara fechou os olhos.


— Pai...


Ela respirou fundo.


— Por que você tinha que deixar isso para mim?


---


Naquela mesma noite, Elara preparou as ervas.


Folhas de Nymira.


Raiz de Avelon.


Pétalas da Flor Lunar.


E pequenas sementes douradas que só cresciam nas encostas de Thimos.


Ela colocou tudo em uma tigela de pedra.


Acendeu quatro pequenas lamparinas.


Depois desenhou um círculo ao redor da cama.


Os símbolos antigos começaram a brilhar.


Ikarus continuava inconsciente.


A febre estava altíssima.


Elara sentou-se ao lado dele.


— Você matou meu pai.


Silêncio.


— Eu sei que ele tentou matar você.


Ela olhou para o rosto de Ikarus.


— E sei que você não tinha escolha.


Passou a mão pelos cabelos.


— Mas ele era meu pai.


Os olhos dela se encheram de lágrimas.


— Então eu não sei se quero salvar você.


Ikarus permaneceu imóvel.


Elara abaixou a cabeça.


Depois ouviu uma voz fraca.


— Não precisa...


Ela levantou os olhos.


Ikarus estava acordado.


— Não precisa me salvar.


— Você está delirando.


— Talvez.


Ele respirou com dificuldade.


— Mas você não precisa.


Elara ficou olhando para ele.


— Se eu não fizer isso, você morre.


Ikarus fechou os olhos.


— Então faça.


Ela permaneceu imóvel.


— Você sabe o que o ritual exige?


— Não.


— Melhor assim.


Ikarus abriu os olhos novamente.


— Faça o que precisar.


Elara ficou em silêncio.


Então apagou as lamparinas.


O ritual começou.


As ervas foram colocadas sobre os ferimentos.


O círculo mágico brilhou.


E a energia dos dez fragmentos começou a reagir.


Elara aproximou-se dele.


O ritual exigia proximidade física e uma união íntima entre os dois.


Ela fez aquilo em silêncio, sem romantismo e sem celebração, concentrada apenas em impedir que Ikarus morresse.


As marcas verdes em seu corpo começaram a brilhar.


A febre de Ikarus aumentou.


Depois...


começou a cair.


Os dez fragmentos se aquietaram.


Elara chorou em silêncio.


Porque sentiu a presença do pai dentro daquela energia.


Asterion estava morto.


Mas parte da força dele permanecia naquele lugar.


E agora estava sendo retirada de Ikarus.


Quando o ritual terminou, Elara permaneceu ao lado da cama.


Exausta.


Ikarus dormia profundamente.


Pela primeira vez em dias, sua respiração estava regular.


Elara tocou sua testa.


Não havia mais febre.


— Você vai viver.


Ela olhou para a porta.


— Mas ainda não sei se consigo perdoar você.


---


Ikarus dormiu por mais quatro dias.


Durante esse tempo, Elara cuidou dele.


Trocava as bandagens.


Preparava ervas.


Alimentava-o quando conseguia acordar.


E todas as noites verificava os dez fragmentos.


Eles permaneciam estáveis.


No quinto dia, Ikarus abriu os olhos.


A primeira coisa que viu foi uma janela.


A segunda foi Elara.


Ela estava sentada perto da parede, lendo um livro.


Ikarus tentou se levantar.


— Não.


Ela fechou o livro.


— Fique deitado.


Ikarus obedeceu.


— Quanto tempo?


— Nove dias.


Ele ficou em silêncio.


— Asterion?


Elara desviou os olhos.


— Morto.


Ikarus fechou os olhos.


— Eu sinto muito.


Elara levantou-se.


— Não diga isso.


— Por quê?


— Porque você fez o que precisava fazer.


Ela caminhou até a janela.


— E meu pai fez o que precisava fazer.


Ikarus olhou para ela.


— Você é filha dele.


— Sim.


— Então por que me salvou?


Elara ficou alguns segundos em silêncio.


— Porque ele morreu cumprindo o dever dele.


Ela virou-se.


— E eu não vou deixar que a morte dele seja inútil.


Ikarus permaneceu quieto.


Elara olhou para os dez fragmentos.


— Você ainda precisa de dois.


Ikarus assentiu.


— Sim.


— E depois?


Ele demorou a responder.


— Depois eu volto para casa.


Elara sorriu fracamente.


— Você fala disso como se fosse simples.


Ikarus olhou para o teto.


— Não é.


— Então por que continua?


Ikarus fechou os olhos.


E respondeu:


— Porque existem pessoas esperando por mim.


Elara ficou em silêncio.


Naquele momento, pela primeira vez, ela entendeu aquele homem.


Não era apenas alguém procurando poder.


Nem alguém tentando se tornar um herói.


Era alguém tentando chegar vivo até aqueles que havia prometido reencontrar.


---


Mais dois dias se passaram.


Ikarus finalmente conseguiu ficar de pé.


Ainda sentia dores.


Ainda estava fraco.


Mas conseguia andar.


Antes de partir, foi até o salão onde o corpo de Asterion havia sido sepultado.


Ajoelhou-se diante da lápide.


Não disse nada.


Apenas abaixou a cabeça.


Elara estava atrás dele.


— Você não precisa fazer isso.


Ikarus levantou-se.


— Preciso.


Colocou a mão sobre o peito.


Os dez fragmentos brilharam.


— Ele morreu protegendo Thimos.


Olhou para a lápide.


— Eu vou carregar isso comigo.


Elara ficou olhando para ele.


Depois entregou-lhe uma pequena bolsa de couro.


— Ervas.


Ikarus pegou.


— Para quê?


— Para quando você quase morrer de novo.


Ikarus sorriu.


— Isso acontece bastante.


Elara finalmente sorriu também.


— Eu percebi.


Ikarus começou a caminhar.


Na saída do templo, parou.


Olhou para trás.


Elara estava diante da lápide do pai.


Ikarus fez uma última reverência.


Então partiu.


Dez fragmentos.


Um corpo ainda quebrado.


E apenas dois Guardiões restantes.


Mas havia uma coisa que Ikarus ainda não sabia.


O próximo reino não seria como Thimos.


E o próximo Guardião não guardava apenas um fragmento.


Guardava uma verdade.


Uma verdade sobre os doze.


E quando Ikarus chegasse até ele...


descobriria que os fragmentos talvez nunca tivessem sido destinados simplesmente a serem reunidos.

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