BALTAMUS.
O reino mais ao norte de Ad’Heim.
Montanhas negras.
Vales cobertos por neve.
Florestas tão antigas que algumas árvores pareciam ter crescido antes mesmo da fundação dos reinos.
E, acima de tudo...
silêncio.
Ikarus caminhava sozinho.
Já fazia semanas desde que deixara Thimos.
Seu corpo havia se recuperado o suficiente para continuar, mas não completamente.
Ainda havia cicatrizes.
Ainda havia dores.
E, quando o frio apertava, suas costelas lembravam-no de Angarkor.
Os dez fragmentos permaneciam dentro dele.
Dez pequenas presenças.
Dez forças.
Dez memórias.
Ikarus já não precisava olhar para saber que estavam ali.
Ele conseguia senti-los.
E agora faltavam apenas dois.
Um em Baltamus.
O último em Aldora.
Depois...
acabaria.
Ou pelo menos era isso que ele dizia a si mesmo.
Naquele dia, enquanto atravessava uma passagem estreita entre duas montanhas, Ikarus viu algo no horizonte.
Uma construção.
Não uma cidade.
Não um castelo.
Uma fortaleza.
Gigantesca.
Negra.
Cravada na montanha como se tivesse sido construída diretamente dentro dela.
Torres surgiam da pedra.
Pontes ligavam estruturas impossíveis.
E enormes portões de ferro protegiam a entrada.
Ikarus parou.
Os dez fragmentos começaram a vibrar.
— Então é aqui...
Baltamus.
Mas havia algo mais.
Algo errado.
Muito errado.
Ikarus sentiu.
Aquela presença.
Ele já conhecia aquela sensação.
Uma presença que fazia o ar parecer pesado.
Uma presença que não precisava estar diante dele para ser reconhecida.
Ikarus apertou a mão sobre a espada.
— Angarkor...
---
Muito abaixo da superfície de Baltamus, existia outro lugar.
Uma cidade subterrânea.
Laboratórios.
Bibliotecas.
Salões de pedra.
Corredores intermináveis.
Milhares de mortos aguardavam em silêncio.
Era uma das bases do Necromante.
Durante séculos, ninguém havia encontrado aquele lugar.
Até que alguém encontrou.
E não foi um exército.
Não foram os Guardiões.
Foi Angarkor.
Ele estava sentado sobre uma enorme coluna quebrada, observando as profundezas.
Ao seu lado, uma criatura morta-viva permanecia imóvel.
Angarkor olhava para uma espécie de espelho negro.
Dentro dele...
Ikarus caminhava.
Angarkor sorriu.
— Finalmente.
A criatura atrás dele falou:
— Devemos destruí-lo?
Angarkor não respondeu.
— Devemos enviar os exércitos?
Silêncio.
— Mestre...
Angarkor levantou-se.
Seus olhos vermelhos permaneceram fixos na imagem.
— Ninguém toca nele.
A criatura hesitou.
— Mas ele está entrando em Baltamus.
Angarkor virou-se.
— Eu sei.
— Ele pretende tomar o décimo primeiro fragmento.
— Eu sei.
— Então por que—
Angarkor desapareceu.
A criatura ficou sozinha.
Então uma voz ecoou pelo salão:
— Porque eu quero lutar com ele.
---
Ikarus chegou ao primeiro vilarejo de Baltamus.
Estava vazio.
Portas abertas.
Casas abandonadas.
Nenhuma pessoa.
Nenhum animal.
Ele caminhou lentamente.
Encontrou uma espada caída.
Depois uma armadura.
Depois...
um cadáver.
Ikarus parou.
Olhou ao redor.
Não havia sinais de batalha.
Aquilo era o pior.
Não havia destruição.
Não havia sangue.
Apenas ausência.
Como se todos simplesmente tivessem desaparecido.
Ikarus continuou.
Então ouviu um som.
Passos.
Virou-se.
Um homem estava atrás dele.
Vestia uma armadura de Baltamus.
— Você é Ikarus.
Ikarus desembainhou a espada.
— Quem é você?
— Um soldado.
— Onde estão os outros?
O soldado olhou para a fortaleza ao longe.
— Mortos.
Ikarus ficou em silêncio.
— Quem fez isso?
O homem respondeu:
— Ele.
Ikarus não precisou perguntar quem.
O soldado continuou:
— Angarkor esteve aqui.
Ikarus fechou a mão.
— Onde?
— Na fortaleza.
O soldado apontou.
— E deixou uma ordem.
— Qual?
— Ninguém deve impedir você.
Ikarus franziu a testa.
— Por quê?
O soldado deu um sorriso amargo.
— Porque ele quer você inteiro.
---
Ikarus entrou na fortaleza.
Nenhuma flecha.
Nenhum exército.
Nenhum soldado.
Nada.
Apenas corredores.
Ele caminhou durante horas.
Quanto mais avançava, mais profunda ficava a construção.
Até chegar a uma porta gigantesca.
Sobre ela havia um símbolo.
Um Golem.
Ikarus colocou a mão sobre a porta.
Os dez fragmentos reagiram.
A porta abriu.
Atrás dela havia uma sala colossal.
No centro...
um homem.
Não.
Uma estátua.
Um homem de armadura dourada estava parado diante de uma plataforma.
Seu cabelo era longo e branco.
Seus olhos eram dourados.
O manto era azul-escuro.
E suas mãos seguravam um enorme martelo.
Ikarus avançou.
O homem abriu os olhos.
— Ikarus.
— Você é o Guardião?
— Sou.
— Seu nome?
— Baltar.
Ikarus olhou para o fragmento atrás dele.
O décimo primeiro.
Baltar levantou o martelo.
— Você veio buscá-lo.
— Sim.
— Então terá que passar por mim.
Ikarus levantou a espada.
— É o que sempre acontece.
Baltar sorriu.
— Não.
O chão tremeu.
— Desta vez será diferente.
Ikarus sentiu uma presença atrás de si.
Virou-se.
Angarkor estava parado no alto de uma das plataformas.
Ikarus congelou.
Os olhos vermelhos encontraram os seus.
Angarkor sorriu.
— Não.
Baltar olhou para ele.
— Você não deveria estar aqui.
Angarkor saltou da plataforma.
Caiu no chão.
— Eu poderia matar você.
Baltar apertou o martelo.
— Então faça.
Angarkor caminhou até ele.
Parou.
E simplesmente passou.
Baltar não atacou.
Ikarus ficou imóvel.
Angarkor parou diante dele.
— Ainda não.
Ikarus apertou a espada.
— O que você quer?
— Ver você lutar.
— Já lutamos.
— Não.
Angarkor aproximou o rosto.
— Aquilo não foi uma luta.
Ikarus sentiu a raiva voltar.
— Você quase me matou.
— Quase.
Angarkor sorriu.
— E você ainda está pensando naquela luta.
Ikarus não respondeu.
— Você estava fraco.
— Eu tinha nove fragmentos.
— Exatamente.
Angarkor abriu os braços.
— Agora você tem dez.
Ikarus percebeu.
— Você está esperando.
— Sim.
— Esperando o quê?
Angarkor apontou para o fragmento atrás de Baltar.
— Mais um.
Silêncio.
— Você quer que eu pegue o décimo primeiro.
— Quero.
— Para depois lutar comigo.
— Não.
Angarkor corrigiu:
— Para depois lutar comigo quando você tiver todos.
Ikarus estreitou os olhos.
— Você quer os doze.
— Quero você com os doze.
Angarkor deu um sorriso quase infantil.
— Quero descobrir o que acontece quando você finalmente estiver completo.
Ikarus segurou a espada com mais força.
— E se eu morrer antes?
Angarkor virou-se.
— Então será decepcionante.
Ele começou a caminhar.
Ikarus gritou:
— Você vai me deixar lutar?
Angarkor parou.
Sem olhar para trás:
— Ninguém vai tocar em você.
— Por quê?
Angarkor respondeu:
— Porque se alguém matar você antes de mim...
Ele virou apenas o rosto.
— Eu mato todos.
E desapareceu nas sombras.
---
Baltar olhou para Ikarus.
— Ele é seu inimigo.
— Sim.
— E mesmo assim está protegendo você.
Ikarus respondeu:
— Ele não está me protegendo.
— Não?
— Está protegendo a luta que quer ter comigo.
Baltar sorriu.
— Então somos dois.
Levantou o martelo.
— Eu também quero uma luta verdadeira.
O chão tremeu.
As paredes começaram a se mover.
Pedras gigantes se desprenderam.
E atrás de Baltar...
algo começou a se levantar.
Primeiro uma mão.
Depois um braço.
Depois um corpo inteiro.
Um Golem colossal surgiu da própria montanha.
Tinha dezenas de metros.
Pedras negras cobriam seu corpo.
Runas douradas brilhavam no peito.
Seus olhos eram dois sóis.
Ikarus olhou para cima.
— Esse é o Golem de Baltamus.
Baltar respondeu:
— Ele não obedece a mim.
Ikarus olhou para ele.
— Então a quem?
Baltar ergueu o martelo.
— A Baltamus.
O Golem rugiu.
O som fez toda a fortaleza estremecer.
Ikarus sentiu os dez fragmentos reagirem.
A espada brilhou.
Baltar avançou.
O martelo desceu.
Ikarus saltou.
BOOM!
O chão explodiu.
Ikarus pousou sobre uma coluna.
Baltar atacou novamente.
Ikarus desviou.
O martelo atingiu a parede.
Pedras voaram.
Ikarus avançou pelo braço do Guardião.
Subiu.
Saltou.
Golpeou.
A espada abriu uma rachadura na armadura dourada.
Baltar girou o corpo.
Ikarus foi lançado para longe.
Ele atravessou uma parede.
Caiu em outro salão.
Levantou-se.
Respirou.
— Dez fragmentos...
Olhou para a própria mão.
— Ainda não são suficientes.
Baltar apareceu diante dele.
Martelo levantado.
— Então mostre-me o que fará com eles.
Ikarus fechou os olhos.
Os dez fragmentos começaram a brilhar.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Oito.
Nove.
Dez.
A energia explodiu pelo salão.
Ikarus abriu os olhos.
O brilho dourado envolveu seu corpo.
Baltar sorriu.
— Agora sim.
O Golem levantou os dois braços.
Ikarus ergueu a espada.
E, muito acima deles, escondido nas ruínas da fortaleza...
Angarkor observava.
Seus olhos vermelhos brilhavam.
— Mostre-me, Ikarus.
Ele sorriu.
— Mostre-me o que você realmente é.
Então Ikarus avançou.
E Baltamus inteiro tremeu.
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