Ikarus permaneceu imóvel entre os escombros.
Por alguns segundos, não conseguiu sequer respirar direito.
Cada tentativa de puxar o ar para dentro dos pulmões fazia suas costelas gritarem. O sangue escorria pelo rosto, misturando-se à poeira de Okhus. Sua armadura estava destruída em vários pontos, e os nove fragmentos permaneciam presos ao seu corpo, brilhando fracamente como brasas prestes a morrer.
Ele olhou para o lugar onde Angarkor havia desaparecido.
Nada.
Nenhum portal.
Nenhuma presença.
Nenhum som.
Apenas o vento atravessando as ruínas.
Ikarus tentou se levantar.
Caiu sobre um joelho.
Tentou novamente.
Dessa vez conseguiu ficar de pé.
— Covarde...
A palavra saiu quase como um sussurro.
Ele apertou os punhos.
— Ele poderia ter me matado.
A lembrança voltou.
A velocidade.
O golpe.
O corpo atravessando paredes.
Aquela sensação terrível de que seus ataques não significavam absolutamente nada.
Ikarus havia usado nove fragmentos.
Nove.
Havia invocado poderes que nenhum homem comum deveria sequer ser capaz de compreender.
Durante alguns instantes, ele havia acreditado que poderia derrotar Angarkor.
Mas agora sabia a verdade.
Angarkor nunca estivera lutando seriamente.
Ikarus fechou os olhos.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu medo.
Não por si mesmo.
Mas pelo que aconteceria quando Angarkor encontrasse aqueles que ele amava.
Gillian.
Eiran.
Raella.
Lyra.
Sua mão foi até o peito.
Os nove fragmentos estavam ali.
Nove partes de algo que ele ainda não compreendia.
Nove peças de uma verdade que parecia cada vez mais perigosa.
— Doze...
Ele abriu os olhos.
— Eu preciso dos doze.
Então ouviu um som.
Passos.
Ikarus virou-se imediatamente.
A mão foi até a espada.
Nada.
Os passos continuaram.
Um homem surgiu entre as ruínas.
Era velho.
Muito velho.
Usava uma capa cinzenta, carregava uma pequena bolsa de couro e caminhava apoiado em um bastão.
Ikarus permaneceu em posição defensiva.
— Quem é você?
O velho parou.
Olhou para Ikarus.
Depois olhou para os nove fragmentos.
Seu rosto mudou.
Não para medo.
Para reconhecimento.
— Então finalmente aconteceu.
Ikarus estreitou os olhos.
— O quê?
O velho não respondeu imediatamente.
Abaixou-se e tocou uma pedra coberta de poeira.
— Há muitos anos eu ouvi uma história.
— Não estou interessado em histórias.
— Você deveria estar.
O velho levantou os olhos.
— Porque algumas histórias não foram escritas para serem contadas.
Ikarus permaneceu em silêncio.
— Foram escritas para impedir que algo acontecesse.
O vento soprou entre as ruínas.
— Você sabe o que são esses fragmentos? — perguntou Ikarus.
O velho respirou fundo.
— Sei o que diziam que eram.
— E o que diziam?
— Uma chave.
Ikarus sentiu o sangue gelar.
A palavra ecoou dentro dele.
Kallon.
A porta.
Os doze símbolos.
A mão gigantesca.
Aquela coisa atrás dela.
— Chave para quê?
O velho olhou para os nove fragmentos.
— Para abrir aquilo que foi fechado.
Ikarus deu um passo à frente.
— O que existe atrás da porta?
O velho respondeu:
— Não sei.
Ikarus franziu a testa.
— Então por que está com medo?
O velho olhou para o horizonte.
— Porque aqueles que sabiam morreram tentando garantir que ninguém descobrisse.
Ikarus ficou imóvel.
Então o velho acrescentou:
— E porque você já possui nove.
O silêncio voltou.
Ikarus percebeu algo.
— Você sabe onde estão os outros?
O velho hesitou.
— Sei onde está um.
O coração de Ikarus acelerou.
— Onde?
O velho apontou para o norte.
— Muito além das terras onde você está agora.
Ikarus acompanhou o movimento.
— Qual reino?
O velho respondeu:
— Thimos.
Ikarus respirou profundamente.
Thimos.
O décimo fragmento.
Mas havia algo na expressão daquele homem que o incomodava.
— E o décimo primeiro?
O velho abaixou o braço.
— Esse é o problema.
— Qual problema?
— Ninguém sabe onde está.
Ikarus ficou em silêncio.
— E o décimo segundo?
O velho olhou diretamente para ele.
— Esse talvez seja o mais perigoso de todos.
Ikarus apertou os dentes.
— Onde ele está?
O velho respondeu:
— Aldora.
Ikarus imediatamente lembrou-se de Thomas.
Aldora.
O último reino.
O último Guardião.
E agora sabia que o décimo segundo fragmento estava lá.
Mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o velho deu um passo para trás.
— Não vá para Aldora ainda.
Ikarus encarou-o.
— Por quê?
— Porque você ainda não está pronto.
Ikarus quase riu.
Não havia humor algum em seu rosto.
— Acabei de sobreviver a Angarkor.
— Exatamente.
O velho olhou para as ruínas.
— E você ainda acredita que sobreviver significa estar preparado.
Ikarus não respondeu.
O velho continuou:
— O que aconteceu aqui não foi uma derrota.
Ikarus franziu a testa.
— Eu fui destruído.
— Sim.
— Ele poderia ter me matado.
— Sim.
— Então foi uma derrota.
O velho balançou a cabeça.
— Não.
Ele encarou os nove fragmentos.
— Foi uma advertência.
Ikarus ficou em silêncio.
Então sentiu algo.
Um dos fragmentos brilhou.
Depois outro.
Depois outro.
Em poucos segundos, os nove começaram a emitir uma luz dourada.
O velho recuou.
— Não...
Ikarus olhou para o próprio peito.
Os fragmentos estavam reagindo.
Não a ele.
A alguma coisa.
Muito distante.
Muito acima.
As nove luzes começaram a formar uma espécie de círculo.
E, no centro do círculo, surgiu uma imagem.
Uma porta.
A mesma porta que Ikarus havia visto em Kallon.
Mas agora ela estava diferente.
Havia doze símbolos.
Nove estavam acesos.
Três permaneciam apagados.
Então uma voz surgiu.
Não vinha do céu.
Não vinha da terra.
Parecia vir de dentro dos próprios fragmentos.
— NOVE...
Ikarus deu um passo para trás.
A voz continuou:
— TRÊS...
O velho caiu de joelhos.
— Não...
A porta da visão começou a se abrir.
Apenas alguns centímetros.
O suficiente para revelar uma escuridão absoluta.
Então algo apareceu atrás dela.
Dois olhos.
Enormes.
Dourados.
Ikarus sentiu o corpo inteiro congelar.
Os olhos olharam diretamente para ele.
E uma voz atravessou sua mente.
— PORTADOR...
Ikarus levou a mão à cabeça.
— Quem é você?!
Nenhuma resposta.
Apenas uma segunda frase.
— VOCÊ ESTÁ ABRINDO O CAMINHO.
A visão desapareceu.
Os nove fragmentos voltaram ao estado normal.
Ikarus ficou imóvel.
O velho continuava ajoelhado.
— O que foi isso? — perguntou Ikarus.
O homem levantou lentamente o rosto.
Havia lágrimas em seus olhos.
— A contagem começou.
Ikarus olhou novamente para o norte.
Thimos.
O décimo fragmento.
Mas agora havia algo muito mais importante.
Angarkor havia dito que queria vê-lo conseguir os doze.
O velho acabara de dizer que os doze poderiam abrir alguma coisa.
E aquilo atrás da porta parecia estar esperando por ele.
Ikarus apertou o punho.
— Então vou encontrar o décimo.
O velho tentou impedi-lo.
— Você não entendeu.
Ikarus começou a caminhar.
— Entendi o suficiente.
— Ikarus!
Ele parou.
O velho pronunciou seu nome.
Ikarus virou lentamente o rosto.
— Como você sabe meu nome?
O velho não respondeu.
Apenas olhou para os fragmentos.
Então disse:
— Porque seu nome já estava escrito.
Ikarus permaneceu imóvel.
— Onde?
O velho respondeu:
— No Livro.
O sangue de Ikarus gelou.
Livro.
Vida.
Morte.
A lembrança de Lyra atravessou sua mente.
Elias.
Seu próprio nome.
O nome de Lyra.
A pergunta.
QUAL DELES DEVE VIVER?
Ikarus virou-se completamente.
— Que livro?
O velho fechou os olhos.
— O Livro da Vida.
Um trovão ecoou ao longe.
E, muito longe dali, nas profundezas de uma geleira no norte, alguém abriu os olhos.
Elias.
O Necromante sorriu.
Sobre uma mesa antiga, o Livro da Morte havia acabado de abrir sozinho.
Uma nova palavra apareceu em suas páginas.
NOVE.
E abaixo dela:
O PORTADOR SOBREVIVEU.
Elias aproximou-se lentamente.
Mas antes que pudesse tocar o livro, outra palavra surgiu.
ANGARKOR O ENCONTROU.
O sorriso de Elias desapareceu.
Pela primeira vez em muitos anos, ele pareceu verdadeiramente preocupado.
— Então finalmente...
Uma terceira frase surgiu.
ELE ESTÁ INDO PARA THIMOS.
Elias ficou olhando para aquelas palavras.
Depois fechou o livro.
— Não.
Ele se virou para a imensa escuridão da caverna.
— Ele não pode chegar ao décimo.
Atrás dele, milhares de mortos começaram a se levantar.
E, em algum lugar muito distante, Ikarus caminhava sozinho em direção ao próximo reino.
Sem saber que, desta vez, talvez o Guardião de Thimos não estivesse esperando por ele.
Talvez estivesse esperando por outra coisa.
E, acima das montanhas, uma figura de armadura dourada abriu os olhos.
O décimo fragmento havia sentido a presença do portador.
E o Guardião também.
— Finalmente...
Sua mão fechou-se sobre a lança.
— Venha, Ikarus.
O vento carregou suas últimas palavras pelas montanhas.
— Porque eu já sei como você vai morrer.
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