Angarkor caminhava sozinho.
Não havia exército atrás dele.
Não havia servos.
Não havia mortos-vivos seguindo seus passos.
Apenas ele.
As duas katares estavam presas às suas mãos, negras como se tivessem sido forjadas dentro da própria noite.
Durante meses, Angarkor não havia atacado ninguém.
Nenhuma vila.
Nenhuma cidade.
Nenhum soldado.
Nada.
E isso havia começado a incomodar as pessoas.
Porque o mundo havia aprendido a temê-lo.
Quando ele aparecia, todos esperavam a morte.
Quando não aparecia, todos esperavam que aparecesse.
Angarkor sabia disso.
E achava engraçado.
Ele chegou a uma pequena aldeia ao entardecer.
As pessoas estavam vivendo normalmente.
Uma mulher fechava a porta de casa.
Um homem recolhia lenha.
Crianças corriam pela rua.
Um cachorro dormia próximo a uma fogueira.
Angarkor entrou na vila.
Ninguém percebeu.
Ele passou por eles como um homem comum.
Parou diante de uma casa.
Ouviu uma criança chorando lá dentro.
Ficou alguns segundos olhando para a porta.
Então entrou.
A mãe da criança levantou-se assustada.
— Quem é você?
Angarkor não respondeu.
Olhou para o bebê.
Depois olhou para a mulher.
— Você acredita que sua vida tem um propósito?
Ela não entendeu.
— O quê?
Angarkor inclinou a cabeça.
— É uma pergunta simples.
— Saia da minha casa.
Ele sorriu.
— Por quê?
— Porque meu filho está aqui.
Angarkor olhou novamente para o bebê.
— E isso deveria significar alguma coisa?
A mulher ficou em silêncio.
— Claro que significa.
Angarkor aproximou-se.
— Para você.
A mulher recuou.
— Para ele também.
Angarkor continuou olhando para a criança.
— Você não sabe disso.
— Ele é meu filho.
— E daí?
A mulher começou a chorar.
Angarkor parecia genuinamente interessado.
— Você acredita que o universo se importa?
Ela não respondeu.
— Você acredita que existe alguma razão para ele ter nascido?
Silêncio.
— Você acredita que existe uma razão para você estar viva?
A mulher abraçou o bebê.
Angarkor olhou para ela durante alguns segundos.
— É isso que vocês fazem.
— O quê?
— Criam histórias para suportar o acaso.
Ele caminhou até a janela.
Do lado de fora, a vila continuava funcionando.
Uma família jantava.
Um homem ria.
Alguém cantava.
Uma criança corria atrás de um cachorro.
Tudo continuava.
Como se o mundo tivesse alguma obrigação de continuar.
— Vocês chamam isso de destino — disse Angarkor. — Outros chamam de providência. Alguns chamam de sorte. Outros chamam de azar.
Ele olhou para o céu.
— Mas quando algo terrível acontece, todos perguntam: "Por quê?"
Voltou os olhos para a mulher.
— Essa é a pergunta errada.
— Então qual é a pergunta certa?
Angarkor sorriu.
— "Por que deveria existir uma resposta?"
A mulher apertou a criança contra o peito.
Angarkor permaneceu imóvel.
— Uma vida nasce.
Silêncio.
— Outra morre.
Ele levantou uma das katares.
— Um reino prospera.
A lâmina refletiu a luz da janela.
— Outro desaparece.
Ele aproximou-se do berço.
— Uma mãe ama seu filho.
Mais um passo.
— Um homem perde tudo.
Mais um.
— Uma criança nasce saudável.
Angarkor parou diante do bebê.
— Outra nasce doente.
Ele observou a pequena criatura dormindo.
— E vocês continuam procurando uma lógica nisso.
A mulher chorava.
— Por favor...
Angarkor olhou para ela.
Por um instante, seu rosto ficou completamente vazio.
— Não existe "por favor" no caos.
Então ergueu a katar.
A cena terminou ali.
Na manhã seguinte, os habitantes encontraram a casa aberta.
Ninguém sabia exatamente o que havia acontecido naquela noite.
A mãe estava viva.
O bebê também.
Mas havia uma katar cravada profundamente na madeira do berço, atravessando apenas o tecido vazio que estava ao lado da criança.
Angarkor havia desaparecido.
Sem matar ninguém.
Sem destruir a vila.
Sem deixar uma explicação.
Apenas uma frase escrita na parede:
"VOCÊS CHAMAM DE VIDA AQUILO QUE APENAS AINDA NÃO TERMINOU."
E, naquele mesmo dia, a vila continuou.
As pessoas trabalharam.
Comeram.
Conversaram.
As crianças brincaram.
O bebê dormiu.
E o mundo seguiu seu curso.
Como sempre.
Sem pedir permissão.
Sem explicar nada.
Sem oferecer significado.
Muito longe dali, Angarkor caminhava novamente sozinho.
Durante meses, talvez anos, ele não destruiria mais nada.
E era exatamente isso que tornava sua existência tão aterrorizante.
Ninguém sabia quando ele voltaria.
Ninguém sabia por quê.
Talvez nem ele soubesse.
Talvez houvesse realmente um propósito escondido por trás de tudo.
Ou talvez Angarkor estivesse certo.
Talvez o universo não devesse nenhuma explicação a ninguém.
Ele olhou para as duas katares.
E continuou caminhando.
Atrás dele, a vila permaneceu viva.
Por enquanto.
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