sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Finale

 A tempestade terminou antes do amanhecer.


Quando os primeiros raios de sol atravessaram as nuvens sobre Baltamus, ninguém sabia exatamente como a guerra havia terminado.


Os mortos-vivos haviam parado.


Não porque alguém os tivesse derrotado em batalha.


Eles simplesmente pararam.


Sem o Necromante, não havia mais voz comandando as hordas.


Nas muralhas, soldados dos doze reinos observavam o exército inimigo permanecer imóvel. Alguns mortos simplesmente caíram. Outros permaneceram de pé, imóveis, como estátuas abandonadas.


Então alguém gritou:


— VENCEMOS!


Outro respondeu.


E outro.


Até que o grito percorreu todo o campo de batalha.


— VENCEMOS!


Os soldados se abraçaram.


Homens que haviam chegado ali acreditando que morreriam naquela noite choravam.


Elfos erguiam seus arcos.


Anões batiam seus machados contra os escudos.


Os estandartes dos doze reinos foram levantados juntos sobre as muralhas de Baltamus.


Mas, dentro do palácio, Ikarus não comemorava.


Ele estava sentado diante de uma janela.


Seus filhos estavam ao seu lado.


Eiran havia crescido naquela noite.


Não em idade.


Mas em tudo aquilo que uma pessoa aprende quando percebe que o próprio pai quase morreu diante de seus olhos.


Lyra segurava a mão de Ikarus.


— Pai?


Ikarus olhou para ela.


— Sim?


— Acabou?


Ikarus observou a cidade.


Depois os exércitos.


Depois os doze estandartes.


— Esta guerra acabou.


Lyra sorriu.


— Então podemos voltar para casa?


Ikarus sorriu.


— Podemos.


E pela primeira vez em muitos anos, Ikarus não tinha uma missão.


Não havia fragmento para procurar.


Não havia Guardião para enfrentar.


Não havia reino para atravessar.


Não havia inimigo esperando no fim da estrada.


Havia apenas casa.


---


A festa começou três dias depois.


Não foi uma comemoração pequena.


Durante semanas, os povos dos doze reinos celebraram.


Música tomou as cidades.


As tavernas ficaram cheias.


As praças foram iluminadas.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas lado a lado.


Na grande praça de Baltamus, ergueram-se doze estátuas.


Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


E, diante delas, havia uma décima terceira estátua.


Ikarus.


Ele não gostou.


— Eu não quero isso.


Eiran riu.


— Tarde demais.


Ikarus olhou para a estátua.


— Está muito bonita.


Lyra respondeu:


— Está parecida com você.


Ikarus estreitou os olhos.


— Eu sou mais bonito.


Lyra começou a rir.


Eiran também.


Ikarus olhou para os dois.


Durante alguns segundos, não disse nada.


Então os abraçou.


Naquela noite, ele finalmente entendeu algo que havia levado a vida inteira para aprender.


Ele não precisava mais correr.


---


Os anos passaram.


Eiran cresceu.


Tornou-se um guerreiro.


Não porque seu pai tivesse ordenado.


Porque escolheu.


Lyra cresceu também.


E aquilo que havia despertado nela naquela noite jamais foi completamente compreendido.


Ela estudou os registros dos antigos Hunens.


Aprendeu línguas esquecidas.


Estudou magia.


História.


Os fragmentos.


E, principalmente, aquilo que havia acontecido antes da Guerra dos Duzentos Anos.


Ikarus nunca lhe contou tudo.


Talvez porque ele próprio ainda não soubesse.


Talvez porque algumas respostas fossem perigosas demais.


Os anos transformaram os três.


Eiran tornou-se um homem.


Lyra tornou-se uma mulher.


E Ikarus...


começou a envelhecer.


Seu corpo havia sobrevivido àquilo que nenhum homem deveria ter sobrevivido.


O poder dos doze fragmentos havia cobrado seu preço.


Os antigos Guardiões haviam colocado suas forças dentro dele.


E Ikarus havia usado tudo.


Na batalha de Baltamus, ultrapassara várias vezes os limites do próprio corpo.


Os médicos diziam que seu coração estava cansado.


Os magos diziam que sua energia vital havia sido consumida.


Ikarus simplesmente dizia:


— Eu já tive mais tempo do que merecia.


---


Vinte anos depois da queda do Necromante, Baltamus estava diferente.


As muralhas haviam sido reconstruídas.


As cidades haviam prosperado.


Os doze reinos mantinham alianças que pareciam impossíveis antes da guerra.


A história de Ikarus havia se tornado uma lenda.


As crianças aprendiam seu nome.


Os bardos cantavam suas batalhas.


Alguns exageravam.


Outros inventavam.


E Ikarus odiava todos eles.


— Eu nunca fiz isso.


Eiran ria.


— Deixe as pessoas contarem histórias.


— Mas eu não atravessei um dragão com uma mão.


Lyra respondeu:


— Agora você atravessaria.


Ikarus olhou para ela.


— Não zombem de um velho.


Era a primeira vez que ele aceitava a palavra.


Velho.


Naquela noite, os três estavam juntos em uma pequena casa afastada da cidade.


Não havia exército.


Não havia trono.


Não havia armadura.


Apenas uma mesa.


Três pessoas.


E uma velha espada encostada na parede.


Ikarus olhou para os filhos.


— Vocês cresceram rápido demais.


Eiran sorriu.


— Você demorou muito para perceber.


Ikarus riu.


Depois ficou em silêncio.


Olhou pela janela.


O céu estava limpo.


Duas luas brilhavam sobre Baltamus.


Por alguns segundos, ele parecia procurar alguma coisa entre as estrelas.


Lyra percebeu.


— O que foi?


— Nada.


Ele sorriu.


— Só estava lembrando.


— De quê?


Ikarus pensou.


De Gillian.


De Raella.


Dos Guardiões.


De Thomas.


Dos fragmentos.


Da primeira vez que segurou uma espada.


Da última vez que viu Angarkor.


De tudo.


— De uma estrada.


Lyra segurou sua mão.


— Você ainda quer viajar?


Ikarus sorriu.


— Talvez.


Foi a última palavra que disse naquela noite.


Na manhã seguinte, Eiran encontrou o pai sentado diante da janela.


Imóvel.


Tranquilo.


Como se estivesse apenas dormindo.


Mas Ikarus havia partido.


Sem batalha.


Sem inimigo.


Sem sangue.


Sem gritos.


Depois de uma vida inteira lutando para voltar para casa...


ele morreu em casa.


---


Seu funeral aconteceu em Lenória.


Milhares foram até lá.


Os doze reinos enviaram seus representantes.


As bandeiras dos antigos Guardiões foram colocadas sobre seu túmulo.


Eiran permaneceu diante da sepultura durante muito tempo.


Lyra estava ao lado dele.


Nenhum dos dois chorava.


Até que Eiran finalmente colocou a espada do pai sobre a lápide.


— Você voltou.


Lyra fechou os olhos.


— Finalmente.


O vento passou entre as árvores.


E, naquele instante, uma pequena luz surgiu no céu.


Lyra abriu os olhos.


— Eiran...


Ele olhou.


Por apenas um segundo, alguma coisa atravessou as nuvens.


Uma estrela.


Não.


Uma coisa que parecia uma estrela.


E desapareceu.


---


Cinquenta anos se passaram.


Ad’Heim mudou novamente.


Os nomes de Ikarus e dos doze Guardiões haviam se tornado lendas.


Novos reis governavam os antigos reinos.


Novas cidades haviam surgido.


Novas gerações nasceram sem conhecer a guerra que havia quase destruído o mundo.


Mas algumas histórias nunca morreram.


Nos arquivos de Lenória, Lyra, agora uma anciã, estudava um antigo manuscrito.


Era um dos registros recuperados do palácio do Necromante.


Ela passou os dedos pela página.


Havia apenas uma frase.


“Quando Ragnarok retornar ao Limbo, os três desertores não serão mais três.”


Lyra franziu a testa.


Virou a página.


Nada.


Outra.


Nada.


Até encontrar um desenho.


Um símbolo que ela jamais havia visto.


O mesmo símbolo que aparecera naquela noite em Baltamus.


Ela ficou imóvel.


Então ouviu passos.


Um jovem entrou na biblioteca.


— Senhora Lyra?


Ela fechou o livro.


— Sim?


— Encontramos algo nas ruínas ao norte.


— O quê?


O jovem colocou um pequeno objeto sobre a mesa.


Um fragmento de metal negro.


Lyra tocou nele.


A sala inteira estremeceu.


As velas se apagaram.


E uma voz muito distante pareceu sussurrar através das paredes:


— Ikarus...


Lyra abriu os olhos.


O jovem recuou.


— O que foi isso?


Lyra olhou para o fragmento.


E sorriu.


Não era um sorriso de felicidade.


Era o sorriso de alguém que acabara de descobrir que uma história que julgava encerrada...


nunca havia realmente terminado.


Muito longe dali, além das fronteiras conhecidas de Ad’Heim, alguma coisa abriu os olhos.


No Limbo dos Hunens.


E, pela primeira vez em cinquenta anos, duas palavras ecoaram naquele lugar:


— Ele voltou.


A história de Ikarus havia terminado.


Mas a história de Ad’Heim...


não.


FIM DA PRIMEIRA SAGA.

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