sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Pai

 Ikarus não respondeu.


As palavras de Angarkor ainda ecoavam em sua mente.


O quarto.


Os três desertores.


A história que ele acreditava conhecer parecia, de repente, apenas a superfície de algo muito maior.


Mas naquele momento Ikarus não queria respostas.


Não queria história.


Não queria compreender.


Queria matar.


Ele avançou.


O poder dos doze fragmentos explodiu ao redor de seu corpo.


As paredes do salão estremeceram.


O chão rachou sob seus pés.


Angarkor levantou as duas katares.


Ikarus atacou.


O primeiro golpe foi bloqueado.


O segundo também.


O terceiro passou a poucos centímetros do rosto de Angarkor.


Então Ikarus desapareceu.


Surgiu acima dele.


Desceu com a espada.


Angarkor cruzou as duas katares.


O impacto abriu uma cratera no chão.


— Você ainda está lutando com raiva — disse Angarkor.


Ikarus rugiu.


— CALA A BOCA!


Ele liberou ainda mais poder.


As doze forças responderam simultaneamente.


Por um instante, parecia que o próprio salão havia se tornado pequeno demais para conter aquilo.


O poder de Lenória.


Sefrion.


Setra.


Gallen.


Valeth.


Kallon.


Khsandra.


Arteph.


Okhus.


Thimos.


Baltamus.


Aldora.


Tudo aquilo convergiu para um único ponto.


Ikarus ergueu a espada.


Angarkor percebeu.


Pela primeira vez, seus olhos se abriram um pouco mais.


Ikarus atacou.


O golpe atravessou a defesa.


Uma das katares de Angarkor foi desviada.


A espada de Ikarus atingiu seu corpo.


Silêncio.


A lâmina entrou.


Angarkor ficou imóvel.


Ikarus também.


Um fio de sangue escorreu.


Depois outro.


Angarkor olhou para o ferimento.


Tocou-o com os dedos.


Sangue.


Ikarus respirava com dificuldade.


Havia colocado tudo naquele golpe.


Tudo.


Os doze fragmentos começaram a perder o brilho.


Ikarus cambaleou.


Angarkor ergueu lentamente os olhos.


— Finalmente.


Ikarus tentou levantar a espada novamente.


Não conseguiu.


Seu braço tremia.


As pernas falharam.


Ele caiu sobre um joelho.


Angarkor retirou a espada do próprio corpo e observou o sangue na mão.


— Você conseguiu.


Ikarus respirou pesadamente.


— Eu... vou... matar você.


Angarkor olhou para ele.


— Não.


Ikarus tentou se levantar.


— Eu ainda...


Angarkor apareceu diante dele.


Um golpe.


Ikarus foi lançado contra uma das colunas.


A pedra explodiu.


Ele caiu no chão.


Tentou se levantar.


Nada.


Os doze fragmentos estavam apagados.


Seu corpo havia chegado ao limite.


Angarkor caminhou lentamente até ele.


Ikarus levantou a cabeça.


Sangue escorria pelo canto de sua boca.


— Vamos...


Ele tentou sorrir.


— Termina.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os braços.


— Você queria isso.


Angarkor permaneceu em silêncio.


— Então termina!


Angarkor ergueu uma das katares.


A ponta da lâmina ficou diante do rosto de Ikarus.


— Você realmente não entende.


Ikarus fechou os olhos.


— Eu não quero entender.


— Esse é o seu problema.


Angarkor preparou o golpe.


Ikarus não tinha mais forças.


Não havia fragmento para liberar.


Não havia espada para erguer.


Não havia poder para lutar.


Pela primeira vez desde que começara aquela jornada, Ikarus estava completamente indefeso.


Angarkor baixou a lâmina.


Então—


— PAI!


A voz atravessou o salão.


Angarkor parou.


Ikarus abriu os olhos.


Seu rosto mudou imediatamente.


Aquela voz.


Ele conhecia aquela voz.


Virou lentamente a cabeça.


No alto da escadaria, sob a luz dos relâmpagos que entrava pelas janelas, havia duas pequenas figuras.


Eiran.


E Lyra.


Os dois estavam encharcados.


Eiran segurava sua pequena espada com as duas mãos.


Lyra estava atrás dele, assustada, mas não recuava.


Ikarus ficou completamente imóvel.


— Eiran...?


O menino desceu um degrau.


— Pai.


Ikarus olhou para Lyra.


Ela chorava.


— Pai...


Por alguns segundos, Ikarus simplesmente não conseguiu falar.


— O que vocês estão fazendo aqui?


Eiran respondeu:


— Viemos atrás de você.


Ikarus tentou se levantar.


— Vocês não deveriam estar aqui!


Eiran continuou descendo.


— Você também não deveria estar sozinho.


— Eiran!


— Você sempre vai embora!


A voz do garoto tremeu.


— Sempre.


Ikarus ficou em silêncio.


Eiran apertou a espada.


— Dessa vez nós viemos junto.


Angarkor observava os dois.


Seu olhar passou de Eiran para Lyra.


Depois voltou para Ikarus.


A katar ainda estava em sua mão.


O Necromante, até então imóvel, também se levantou lentamente.


Angarkor abaixou a arma.


Ikarus olhou para ele.


— Mate-me.


Angarkor não respondeu.


— Eu disse para matar a mim!


Angarkor continuou olhando para as crianças.


Então disse:


— Não.


Ikarus franziu a testa.


— Por quê?


Angarkor finalmente olhou para ele.


— Porque agora...


Seus olhos vermelhos voltaram-se para Eiran e Lyra.


— ...a história mudou.


E, naquele instante, um dos doze fragmentos apagados no corpo de Ikarus voltou a brilhar.


Depois outro.


E outro.


Até que uma luz começou a pulsar dentro do salão.


Eiran olhou para o pai.


Lyra olhou para o irmão.


O Necromante deu um passo para trás.


E Angarkor, pela primeira vez desde que chegara àquele palácio, pareceu verdadeiramente preocupado.


— Não...


Ele olhou para as crianças.


— Não era para acontecer agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário