Os portões de Arteph começaram a se abrir.
Não houve o som de correntes sendo puxadas. Não houve soldados correndo sobre as muralhas. Não houve o clangor de mecanismos antigos despertando depois de séculos.
Houve apenas um som.
Um longo gemido.
Como se o próprio reino estivesse respirando depois de permanecer morto durante tempo demais.
Ikarus permaneceu parado diante dos portões.
As mãos ainda estavam afastadas do corpo. Sua capa se movia lentamente com o vento frio que vinha do interior de Arteph. Atrás dele, o caminho que percorrera durante três anos desaparecia sob a névoa. À frente, havia apenas escuridão.
E milhares de mortos ajoelhados.
Nenhum deles se levantou.
Nenhum tentou atacá-lo.
Nenhum sequer olhou para os lados.
Todos mantinham os olhos voltados para ele.
Ikarus estreitou os olhos.
— Então é isso?
O Guardião permaneceu sobre a muralha.
— O quê?
— Você me esperou.
O homem não respondeu imediatamente.
Apenas observou Ikarus.
Sua armadura dourada era diferente das armaduras dos outros Guardiões que Ikarus havia enfrentado. Não possuía o brilho vivo de Lenória. Não tinha a imponência guerreira de Kallon. Não carregava a elegância natural de Khsandra.
Aquela armadura parecia antiga.
Muito antiga.
Havia marcas negras sobre o ouro.
Riscos.
Fissuras.
Manchas que pareciam sangue seco, embora nenhum sangue pudesse permanecer naquela armadura havia tanto tempo.
Sobre os ombros, um manto branco acinzentado descia até quase tocar o chão.
E, no centro de seu peito, estava o símbolo de Arteph.
Um Cerberus.
Três cabeças.
Três olhos.
Três bocas abertas.
Ikarus sentiu o fragmento em seu peito reagir.
Um.
Depois outro.
Depois outro.
Os sete fragmentos começaram a pulsar sob sua roupa.
O Guardião percebeu.
— Eles ainda respondem a você.
Ikarus olhou para o próprio peito.
— Eles não respondem a mim.
— Não?
— Eles estão comigo.
O Guardião sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
Triste.
— É isso que todos dizem.
Ikarus levantou o olhar.
— Todos?
O homem deu um passo à frente.
A muralha pareceu tremer.
— Todos os que chegaram até aqui.
Ikarus ficou em silêncio.
— Quantos?
O Guardião olhou para a cidade.
— Muitos.
— Quantos chegaram aos sete?
O Guardião demorou a responder.
— Você é o primeiro.
Ikarus não demonstrou surpresa.
Já ouvira aquilo em Khsandra.
Mas havia algo diferente na maneira como aquele homem falava.
Não havia admiração.
Não havia medo.
Havia cansaço.
Um cansaço tão profundo que parecia fazer parte de sua própria existência.
— E os outros?
— Morreram.
— Tentando conseguir os fragmentos?
— Alguns.
— E os demais?
O Guardião olhou para os mortos ajoelhados.
— Foram mortos por aquilo que encontraram antes de chegar aos Guardiões.
Ikarus franziu o cenho.
— O que encontraram?
O homem não respondeu.
Os portões continuaram abrindo.
Cada vez mais.
E então Ikarus percebeu uma coisa.
Arteph não era uma cidade morta.
Era uma cidade cheia de mortos.
As ruas estavam tomadas por figuras imóveis.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Guerreiros.
Camponeses.
Velhos.
Jovens.
Alguns carregavam armaduras antigas. Outros vestiam roupas simples. Alguns possuíam apenas ossos. Outros ainda conservavam pele ressecada sobre os corpos.
E todos estavam ajoelhados.
Todos aguardavam.
Ikarus entrou.
O primeiro passo foi dado sem hesitação.
No momento em que seu pé atravessou o portão, uma rajada de vento atravessou a cidade.
As tochas apagaram.
Uma por uma.
A escuridão tomou as ruas.
Então o Guardião falou.
— Bem-vindo a Arteph, Ikarus.
Ikarus parou.
— Qual é o seu nome?
O homem desceu da muralha.
Seu corpo não caiu.
Ele simplesmente caminhou para fora da pedra.
Por um instante, Ikarus percebeu que havia algo estranho.
O Guardião não usava escadas.
Não havia escada.
Ele havia atravessado a própria muralha.
Como se a matéria não significasse nada para ele.
Quando chegou ao chão, ficou diante de Ikarus.
Era um homem de aparência madura, talvez pouco mais de cinquenta anos.
Cabelos longos e grisalhos.
Rosto marcado.
Olhos dourados.
Não os olhos de alguém possuído.
Não os olhos vazios de um morto.
Olhos humanos.
Muito humanos.
— Meu nome é Arenos.
Ikarus ficou imóvel.
Arenos.
O nome pareceu ecoar pelas ruas.
Alguns mortos levantaram lentamente a cabeça.
Arenos olhou para eles.
— Eles me conhecem.
— São seus soldados?
— Não.
— Então quem são?
Arenos respirou profundamente.
— Meu povo.
Ikarus olhou novamente para a multidão.
— Você é o Guardião de Arteph.
— Sim.
— E essas pessoas...
— São os mortos de Arteph.
— Você os mantém vivos?
Arenos balançou a cabeça.
— Não.
— Então por que eles estão aqui?
Arenos caminhou lentamente entre eles.
Uma mulher morta ergueu o rosto.
Arenos tocou sua testa.
— Porque morrer não significa necessariamente desaparecer.
Ikarus ficou em silêncio.
Arenos continuou andando.
— Durante muito tempo, Arteph acreditou que a morte era o fim. Enterrávamos nossos mortos. Chorávamos. Construíamos monumentos. Rezávamos. Depois seguíamos nossas vidas.
Ele olhou para uma criança morta sentada no chão.
— Até que os mortos começaram a voltar.
Ikarus apertou a mandíbula.
— A praga.
— Você chama de praga.
— É o que ela é.
— Talvez.
Arenos virou-se.
— Mas uma praga não costuma lembrar o nome da própria filha.
Ikarus ficou imóvel.
A frase atingiu algo dentro dele.
Ele se lembrou da criatura que encontrara no caminho.
Aquela voz.
Aquela única palavra.
Filha.
— Você sabe sobre isso.
— Eu sei mais do que gostaria.
— Então me diga.
Arenos olhou para os sete fragmentos.
— Você quer respostas.
— Quero.
— Não.
Ikarus avançou um passo.
— Não?
— Você quer respostas que possam justificar o caminho que escolheu.
Ikarus fechou os punhos.
— Eu vim até aqui porque preciso do seu fragmento.
Arenos sorriu.
— Eu sei.
— Então lute comigo.
— Não.
Ikarus levantou o rosto.
— Você sabe que precisa morrer.
— Sim.
— Então por que não luta?
Arenos olhou ao redor.
Para os mortos.
Para as ruínas.
Para as casas destruídas.
Para as ruas onde milhares haviam vivido.
— Porque eu quero que você entenda o que está prestes a fazer.
Ikarus respirou fundo.
— Já matei sete Guardiões.
— Eu sei.
— Cada um deles sabia que morreria.
— Eu sei.
— Então você sabe que não vou parar.
— Também sei.
Arenos aproximou-se.
— Mas você ainda não matou um Guardião de Arteph.
Ikarus encarou-o.
— E qual é a diferença?
Arenos respondeu:
— Os outros protegiam seus reinos.
Ele apontou para as ruas.
— Eu protejo seus mortos.
Silêncio.
Ikarus olhou para os cadáveres ajoelhados.
— De mim?
— Sim.
— Por quê?
Arenos respondeu com uma pergunta.
— Você sabe o que acontece quando um fragmento encontra outro?
Ikarus imediatamente pensou na porta de Kallon.
A mão gigantesca.
A criatura.
Os símbolos.
Os sete fragmentos reagindo.
— Você sabe sobre a porta.
Arenos não respondeu.
Ikarus avançou.
— Você sabe.
— Sei.
— O que existe atrás dela?
— Não sei.
Ikarus estreitou os olhos.
— Está mentindo.
— Não.
— Então o que você sabe?
Arenos olhou para o céu escuro.
— Sei que os antigos tinham medo de abrir aquela porta.
— Quem eram os antigos?
— Aqueles que vieram antes dos Guardiões.
Ikarus sentiu um arrepio.
— Os primeiros portadores?
— Não.
Arenos voltou os olhos para ele.
— Os primeiros não carregavam fragmentos.
— Então quem eram?
— Os fragmentos carregavam eles.
Ikarus ficou imóvel.
Arenos continuou:
— Essa é a parte da história que foi apagada.
Os sete fragmentos começaram a pulsar mais intensamente.
Ikarus sentiu o peito arder.
Arenos percebeu.
— Está começando.
— O quê?
Arenos olhou para o chão.
— Eles estão reconhecendo Arteph.
Então os mortos começaram a se levantar.
Ikarus imediatamente levou a mão à espada.
Mas Arenos ergueu uma das mãos.
— Não.
Os mortos não atacaram.
Eles simplesmente se levantaram.
Milhares.
E então fizeram algo ainda mais estranho.
Abriram caminho.
Uma passagem surgiu no meio da multidão.
Do outro lado havia uma avenida que atravessava Arteph.
No final dela havia uma construção gigantesca.
Um templo.
Mas não era um templo comum.
Era uma estrutura circular construída em pedra negra.
Sobre a entrada havia três cabeças de cão.
O Cerberus.
Ikarus olhou para Arenos.
— O que existe ali?
— O lugar onde os mortos descansam.
— E o que isso tem a ver comigo?
— Tudo.
Ikarus começou a caminhar.
Arenos não o impediu.
Os mortos permaneceram parados enquanto ele atravessava a cidade.
Alguns tinham olhos vazios.
Outros possuíam olhos brilhantes.
Alguns acompanhavam Ikarus com o rosto.
Um velho morto murmurou:
— Ele voltou...
Ikarus parou.
— O quê?
O velho não respondeu.
Uma mulher ao lado dele sussurrou:
— O portador...
Outro morto disse:
— Não é ele.
Outro respondeu:
— É.
Ikarus sentiu os fragmentos queimarem.
— O que está acontecendo?
Arenos respondeu atrás dele:
— Eles estão se lembrando.
Ikarus virou-se.
— De mim?
— Não.
Arenos olhou diretamente para os sete fragmentos.
— Daquilo que está dentro de você.
Ikarus não respondeu.
Continuou caminhando.
Quando chegou ao templo, as enormes portas se abriram sozinhas.
Dentro havia centenas de estátuas.
Guardas.
Reis.
Rainhas.
Crianças.
Famílias.
Todos mortos.
Todos representados em pedra.
No centro do salão havia uma estátua diferente.
Um homem segurando algo nas mãos.
Ikarus se aproximou.
Seu coração acelerou.
A estátua carregava um fragmento.
Mas não um fragmento dourado.
Era negro.
Ikarus ficou olhando.
— Quem é ele?
Arenos parou atrás dele.
— O primeiro.
— Primeiro o quê?
— O primeiro a tentar reunir os fragmentos.
Ikarus passou os dedos pela pedra.
— O que aconteceu?
— Ele conseguiu.
Ikarus virou-se.
— Conseguiu?
Arenos assentiu.
— Reuniu os doze.
— E então?
Arenos olhou para a estátua.
— Desapareceu.
— Morreu?
— Não sabemos.
— Então como sabe que ele conseguiu?
Arenos apontou para o peito da estátua.
Ali havia doze marcas.
Todas vazias.
Ikarus sentiu o sangue gelar.
— Onde estão os fragmentos?
— Foram separados novamente.
— Por quê?
Arenos respondeu:
— Porque alguma coisa acordou.
O salão inteiro pareceu ficar mais frio.
Ikarus olhou para o fundo do templo.
Havia uma porta.
Pequena.
Negra.
Com doze símbolos.
Exatamente como a porta de Kallon.
Ikarus caminhou até ela.
Arenos falou:
— Não toque.
Ikarus parou.
— Por quê?
— Porque eu não quero lutar com você.
Ikarus olhou para trás.
— Você acabou de dizer que eu preciso lutar com você.
— Sim.
— Então vamos acabar com isso.
Arenos fechou os olhos.
Quando os abriu, os olhos dourados haviam mudado.
Agora havia três pequenas pupilas em cada olho.
O chão começou a tremer.
As estátuas racharam.
Os mortos ajoelhados do lado de fora começaram a gritar.
Arenos levantou os braços.
A armadura dourada começou a se desfazer em partículas de luz.
Por baixo dela havia uma roupa branca.
E no centro de seu peito havia uma cicatriz gigantesca.
Uma cicatriz em forma de três garras.
— Durante trezentos anos — disse Arenos — eu protegi este lugar.
O chão se abriu.
Uma energia negra subiu pelas paredes.
— Durante trezentos anos, eu impedi os mortos de atravessarem aquela porta.
As três cabeças do Cerberus apareceram atrás dele.
Primeiro como sombras.
Depois como ossos.
Depois como carne.
E finalmente como uma criatura colossal.
O Cerberus de Arteph surgiu atrás do Guardião.
Três cabeças.
Seis olhos.
Presas enormes.
Correntes antigas envolvendo seu pescoço.
Mas havia algo diferente.
As correntes não estavam prendendo o Cerberus.
Elas estavam presas à porta.
Ikarus compreendeu.
— Ele é o selo.
Arenos assentiu.
— Sim.
Ikarus desembainhou a espada.
— Então se eu matar você...
— A porta perderá seu último Guardião.
Ikarus segurou a espada com as duas mãos.
— E o fragmento?
Arenos abriu a mão.
Uma luz dourada apareceu.
— Está comigo.
O oitavo fragmento.
Ikarus olhou para ele.
Arenos fechou a mão.
— Venha buscá-lo.
Ikarus assumiu posição.
O Cerberus rugiu.
O som atravessou todo o reino.
Os mortos começaram a gritar.
Arenos avançou.
Ikarus bloqueou o primeiro golpe.
A explosão destruiu metade do salão.
Arenos desapareceu.
Ikarus girou.
Uma lâmina dourada passou por seu rosto.
Ele recuou.
Arenos apareceu atrás.
Ikarus se abaixou.
A espada passou por cima.
Ikarus girou o corpo e golpeou.
Arenos bloqueou.
Os dois ficaram frente a frente.
— Você é forte — disse Arenos.
— Você também.
— Não.
Arenos sorriu.
— Eu só estou morto há tempo demais para ter medo de morrer novamente.
Ikarus golpeou.
Arenos defendeu.
Outro golpe.
Outro.
Outro.
A cada choque, o templo tremia.
O Cerberus rugia atrás deles.
Os sete fragmentos começaram a emitir luz.
Ikarus percebeu que algo estava errado.
Os fragmentos não estavam apenas reagindo ao Guardião.
Estavam reagindo à porta.
Arenos também percebeu.
— Não!
Ele abandonou a luta e correu para a porta.
Ikarus o seguiu.
— O que foi?
Arenos colocou as duas mãos sobre a porta.
— Pare!
— O quê?
— Seus fragmentos estão tentando abrir.
Ikarus olhou para o próprio peito.
— Eu não estou fazendo isso.
Arenos gritou:
— EU SEI!
Pela primeira vez, Ikarus viu medo no rosto do Guardião.
Não medo de morrer.
Medo do que estava atrás daquela porta.
Arenos virou-se.
— Ikarus...
— O quê?
— Mate-me.
Ikarus ficou imóvel.
— O quê?
— Mate-me agora.
— Por quê?
— Porque se eu morrer...
A porta começou a rachar.
Uma linha negra surgiu entre os dois lados.
Arenos olhou para ela.
— ...ninguém mais poderá impedir aquilo de sair.
Silêncio.
Ikarus apertou a espada.
Arenos ajoelhou.
— Você veio buscar meu fragmento.
Ele abriu os braços.
— Então venha.
Ikarus avançou.
E, naquele instante, todos os mortos de Arteph começaram a chorar.
Não gritar.
Não atacar.
Chorar.
Milhares de vozes.
Milhares de mortos.
E entre todas aquelas vozes havia uma criança.
Uma pequena voz.
Quase impossível de ouvir.
— Pai...
Ikarus parou.
Arenos fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu pelo rosto do Guardião.
— Ela ainda se lembra.
Ikarus olhou para ele.
— Quem?
Arenos respondeu sem abrir os olhos:
Antes de ser o Guardião de Arteph, Arenos havia sido apenas um homem.
Não um rei.
Não um guerreiro lendário.
Não um herói celebrado em canções.
Apenas um homem.
E talvez fosse justamente por isso que sua história havia sobrevivido por tanto tempo.
Arenos nasceu em uma pequena aldeia ao sul de Arteph, muito antes de o reino ser conhecido como o Reino dos Mortos. Naquele tempo, Arteph era diferente. As terras ainda possuíam campos verdes, os rios ainda corriam limpos entre as montanhas e as cidades eram cheias de mercados, crianças e viajantes. O símbolo do Cerberus existia, mas ainda não representava morte. Para os antigos habitantes de Arteph, as três cabeças significavam três coisas: nascimento, vida e morte.
O povo acreditava que nenhuma dessas três coisas poderia existir sem as outras.
Arenos cresceu acreditando nisso.
Seu pai era um homem chamado Darius, um carpinteiro que construía caixões para a cidade. Sua mãe, Mirena, cuidava de um pequeno jardim onde cultivava flores brancas.
Arenos costumava perguntar por que seu pai trabalhava justamente com aquilo.
— Porque alguém precisa preparar uma casa para quem está indo embora — Darius respondia.
Arenos nunca gostava daquela resposta.
Quando criança, não compreendia por que alguém precisava construir uma casa para os mortos.
Até o dia em que perdeu sua primeira pessoa.
Sua mãe.
Mirena morreu quando Arenos tinha apenas nove anos.
Não houve monstros.
Não houve guerra.
Não houve magia.
Ela simplesmente ficou doente.
Durante semanas, Arenos permaneceu ao lado da cama.
Segurava a mão dela.
Contava histórias.
Dizia que quando ela melhorasse, os dois voltariam ao jardim.
Mas ela não melhorou.
Na última noite, Mirena chamou o filho.
— Arenos.
— Estou aqui.
— Não tenha medo da morte.
O menino começou a chorar.
— Eu não quero que você vá.
Mirena sorriu.
— Eu sei.
— Então não vá.
Ela levantou uma das mãos e tocou o rosto dele.
— Prometa uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Quando chegar a sua vez de perder alguém...
Ela parou para respirar.
— ...não tente transformar a despedida em prisão.
Arenos não entendeu.
Naquela época, não poderia entender.
Mirena morreu naquela madrugada.
Seu pai construiu o caixão.
E Arenos ficou olhando enquanto o corpo da mãe era levado.
Foi naquele dia que ele começou a odiar a morte.
Não porque ela existia.
Mas porque ela fazia as pessoas que ele amava desaparecerem.
Anos depois, Arenos se casou.
O nome dela era Elira.
Ela tinha cabelos castanhos e olhos claros, e possuía o estranho hábito de falar com qualquer animal que encontrasse.
Arenos dizia que ela conversava mais com pássaros do que com ele.
Elira respondia:
— Os pássaros escutam melhor.
— Então vou começar a cantar.
— Você canta horrivelmente.
Foi assim que passaram anos.
Uma vida simples.
Uma casa pequena.
Um jardim.
Depois nasceu sua filha.
Arenos escolheu o nome.
Liora.
Ele queria um nome que significasse luz.
Porque, segundo ele, uma criança deveria nascer carregando algo que lembrasse o mundo de que ainda existia luz.
Liora tinha olhos iguais aos de Elira.
E o sorriso de Arenos.
Desde pequena, ela corria pela cidade sem medo.
Subia nas árvores.
Entrava nos estábulos.
Voltava para casa coberta de lama.
Elira reclamava.
Arenos ria.
E durante alguns anos, ele acreditou que havia finalmente vencido aquilo que mais temia.
A morte ainda existia.
Mas parecia distante.
Até que Arteph mudou.
Primeiro vieram os desaparecimentos.
Depois os cadáveres.
Depois os mortos.
No começo, ninguém compreendeu.
Um homem enterrado havia vinte anos apareceu caminhando pela estrada.
Uma mulher morta há seis meses voltou para casa.
Um soldado enterrado depois de uma batalha surgiu diante de seus antigos companheiros.
Alguns mortos atacavam.
Outros não.
Alguns não diziam nada.
Outros chamavam pelos próprios filhos.
Havia aqueles que pareciam não saber que estavam mortos.
E havia aqueles que sabiam.
Esses eram os piores.
Porque choravam.
Pediam ajuda.
Imploravam para voltar para casa.
A cidade entrou em pânico.
Os sacerdotes disseram que era uma maldição.
Os estudiosos disseram que era magia.
Os reis disseram que era uma guerra.
Mas Arenos viu algo que ninguém queria admitir.
Os mortos não estavam simplesmente retornando.
Eles estavam sendo chamados.
Certa noite, Liora desapareceu.
Arenos passou horas procurando.
Correu pelas ruas.
Chamou pelo nome dela.
Entrou em casas abandonadas.
Procurou nos cemitérios.
Até encontrá-la.
Ela estava diante de um túmulo.
Seu próprio túmulo.
Arenos parou.
— Liora?
A menina virou-se.
Estava chorando.
— Pai...
Ele correu até ela.
— O que aconteceu?
Liora apontou para a sepultura.
— Mamãe está falando comigo.
Arenos congelou.
Elira havia morrido dois anos antes.
Ele nunca permitira que Liora visitasse aquele túmulo sozinha.
— O que você ouviu?
Liora começou a chorar.
— Ela disse meu nome.
Arenos olhou para a sepultura.
Nada.
Silêncio.
Então ouviu.
Uma voz.
Muito baixa.
Vinda debaixo da terra.
— Liora...
Arenos ficou pálido.
Era a voz de Elira.
Ele reconheceria aquela voz mesmo depois de mil anos.
— Mamãe...
Liora se aproximou do túmulo.
Arenos segurou sua mão.
— Não.
— Mas é ela.
— Não.
— Pai...
— NÃO.
Liora começou a chorar.
— Você disse que a mamãe estava em um lugar bonito.
Arenos não respondeu.
A voz voltou.
— Arenos...
Ele caiu de joelhos.
Durante dois anos havia tentado aceitar a morte de Elira.
Durante dois anos havia ensinado à filha que a mãe não voltaria.
Agora aquela voz estava ali.
Chamando por ele.
Chamando por Liora.
Arenos colocou as mãos sobre o túmulo.
— Elira?
Silêncio.
Então:
— Me deixe sair.
Arenos fechou os olhos.
Uma parte dele sabia.
Sabia que aquilo estava errado.
Sabia que sua esposa estava morta.
Mas outra parte...
Outra parte era apenas o homem que perdera a mãe aos nove anos.
O homem que perdera a esposa.
O pai que não suportava imaginar a filha crescendo sem a mãe.
Ele começou a cavar.
Com as próprias mãos.
Até os dedos sangrarem.
Até quebrar as unhas.
Até alcançar o caixão.
Quando abriu...
Elira estava lá.
O corpo não havia apodrecido.
Ela abriu os olhos.
Arenos chorou.
— Elira...
Ela sorriu.
Mas o sorriso estava errado.
Muito errado.
— Você demorou.
Arenos abraçou o corpo.
Ela estava fria.
Não como alguém vivo.
Mas ele não se importou.
Durante alguns minutos, ele simplesmente segurou a mulher que amava.
Liora abraçou a mãe.
— Mamãe!
Elira olhou para a menina.
— Minha filha...
Liora chorou.
Arenos chorou.
E durante aquela noite, os três ficaram juntos.
Pela primeira vez em anos, Arenos acreditou que a morte havia perdido.
Mas naquela mesma madrugada, Elira disse algo que destruiu aquela esperança.
— Arenos...
— Sim?
— Eu não consigo lembrar da sua voz.
Ele congelou.
— O quê?
Elira tocou o rosto dele.
— Eu sei que amo você.
Uma lágrima escorreu de seus olhos.
— Mas não lembro por quê.
Arenos sentiu o coração parar.
— Elira...
— Eu lembro que tinha uma casa.
Ela olhou ao redor.
— Lembro que existia uma menina.
Olhou para Liora.
— Lembro que tinha alguém que eu amava.
Voltou os olhos para Arenos.
— Mas não lembro de ter sido feliz.
Arenos recuou.
Foi naquele momento que compreendeu.
Aquela coisa tinha trazido Elira de volta.
Mas não havia trazido Elira.
Era um corpo carregando pedaços dela.
Uma cópia.
Uma sombra.
Uma lembrança usando carne.
E então Elira começou a desaparecer.
Arenos tentou segurá-la.
— Não!
Liora gritou.
— Mamãe!
Elira olhou para a filha.
E, por um breve instante, seus olhos ficaram completamente humanos.
Ela sorriu.
— Liora...
A menina segurou sua mão.
— Estou aqui.
Elira respondeu:
— Não tente me trazer de volta.
Então desapareceu.
Arenos ficou ajoelhado no chão.
Segurando apenas roupas vazias.
Naquela noite, ele finalmente entendeu o que sua mãe quis dizer.
Não transforme a despedida em prisão.
Mas já era tarde.
Porque aquilo não tinha sido um acidente.
Era um teste.
Alguém havia descoberto que os mortos poderiam ser usados.
E Arenos havia sido escolhido.
Depois daquela noite, ele começou a estudar.
Procurou livros antigos.
Invadiu bibliotecas.
Conversou com sacerdotes.
Interrogou necromantes.
Entrou em criptas.
Desceu até ruínas que ninguém visitava havia séculos.
Foi então que encontrou o primeiro registro sobre os fragmentos.
Não falava diretamente deles.
Falava sobre uma antiga força dividida.
Doze partes.
Doze lugares.
Doze Guardiões.
E uma porta.
Arenos descobriu que Arteph era um dos pontos de contenção.
E descobriu outra coisa.
Os mortos estavam sendo usados como combustível.
Cada pessoa que retornava.
Cada alma arrancada do descanso.
Cada cadáver que se levantava.
Tudo alimentava alguma coisa.
Alguma coisa que estava atrás da porta.
Arenos voltou para a cidade.
Mas já não era o mesmo homem.
O rei de Arteph morreu.
Os generais morreram.
Os sacerdotes morreram.
As cidades caíram.
E os mortos continuaram surgindo.
No final, Arenos ficou sozinho.
Ou quase.
Liora ainda estava com ele.
Sua filha tinha crescido.
Tinha dezessete anos quando a última batalha começou.
Arenos tentou mandá-la embora.
— Vá para o norte.
— Não.
— Liora.
— Não vou abandonar você.
— Você não entende.
— Entendo sim.
Ela segurou a espada.
— Se você ficar, eu fico.
— Você é minha filha.
— Exatamente.
Arenos começou a chorar.
— Eu já perdi sua mãe.
— Então não me perca também.
A batalha começou naquela noite.
Os mortos invadiram Arteph.
Milhares.
Dezenas de milhares.
Arenos lutou.
Liora lutou.
Os sobreviventes lutaram.
Mas não era uma guerra que poderiam vencer.
A cidade foi destruída.
As casas queimaram.
Os templos ruíram.
As pessoas morreram.
Uma a uma.
Até que Arenos e Liora chegaram ao templo do Cerberus.
A porta estava atrás deles.
Os mortos estavam do lado de fora.
Liora estava ferida.
Muito ferida.
Arenos segurava sua filha nos braços.
— Pai...
— Não fale.
— Eu estou com medo.
— Eu sei.
— Você lembra do que a vovó dizia?
Arenos fechou os olhos.
— O quê?
— Que a morte não é o fim.
Ele começou a chorar.
— Não.
— Pai...
— Não diga isso.
— Está tudo bem.
— NÃO ESTÁ.
Liora tocou seu rosto.
— Está.
Arenos apertou a filha contra o peito.
— Eu não vou deixar você morrer.
Liora sorriu.
— Você sempre diz isso.
Então ela morreu.
Nos braços dele.
Assim como sua mãe havia morrido décadas antes.
Assim como Elira havia morrido.
Arenos gritou.
Um grito que atravessou Arteph.
E alguma coisa respondeu.
A porta se abriu.
Uma pequena fresta.
Uma voz veio do outro lado.
— Você quer sua filha de volta?
Arenos ficou imóvel.
Era exatamente o que queria ouvir.
A promessa perfeita.
A pior promessa possível.
— Sim.
A voz respondeu:
— Então abra.
Arenos olhou para a porta.
Depois para Liora.
E lembrou das palavras da mãe.
Não transforme a despedida em prisão.
Ele pegou o corpo da filha.
Levantou-se.
E respondeu:
— Não.
A voz ficou em silêncio.
— Não?
— Ela morreu.
Arenos colocou Liora no chão.
— E eu não vou transformar minha filha em uma mentira para aliviar minha dor.
A porta começou a tremer.
A voz mudou.
— Então todos morrerão.
Arenos levantou sua espada.
— Talvez.
Ele olhou para os mortos que cercavam o templo.
— Mas não por minha causa.
Foi naquele momento que os antigos símbolos de Arteph apareceram.
O Cerberus surgiu atrás dele.
As três cabeças.
As três almas.
Nascimento.
Vida.
Morte.
A voz da porta gritou.
Arenos recebeu o fragmento.
E tornou-se o Guardião.
Não porque queria poder.
Não porque desejava glória.
Mas porque havia aprendido a coisa mais difícil que alguém poderia aprender.
Algumas pessoas não podem ser salvas.
E tentar trazê-las de volta pode ser uma forma ainda pior de perdê-las.
Desde aquele dia, Arenos permaneceu diante da porta.
Século após século.
Viu reis morrerem.
Viu cidades nascerem e desaparecerem.
Viu novas gerações chegarem.
Viu os mortos retornarem.
Viu pessoas tentando abrir a porta.
Viu outros portadores chegarem.
E matou todos aqueles que tentaram avançar sem compreender.
Até Ikarus.
O primeiro que chegou carregando sete fragmentos.
O primeiro que fez Arenos perceber que a história estava se repetindo.
Mas também o primeiro que lhe deu medo.
Porque Ikarus não carregava apenas sete fragmentos.
Ele carregava sete mortes.
Sete Guardiões.
Sete pedaços de uma história que ninguém compreendia.
Arenos sabia o que aconteceria se Ikarus continuasse.
Sabia que precisaria morrer.
E aceitava.
Mas havia algo que Ikarus ainda não sabia.
Quando Arenos recebeu seu fragmento, uma última coisa aconteceu.
Ele ouviu a voz de Liora.
Não uma cópia.
Não uma criatura.
Não um cadáver.
Uma memória verdadeira.
A voz dela veio uma única vez.
— Pai...
Arenos chorou.
— Eu estou aqui.
— Não fique triste.
— Eu sinto sua falta.
— Eu sei.
— Eu queria ter conseguido salvar você.
Silêncio.
Então:
— Você conseguiu.
Arenos abriu os olhos.
— Como?
A voz respondeu:
— Você deixou que eu morresse.
Desde então, aquela frase permanecera dentro dele.
Durante trezentos anos.
Era por isso que ele protegia os mortos.
Não porque acreditava que a morte era sagrada.
Mas porque sabia que havia coisas que precisavam permanecer mortas.
E agora Ikarus estava diante dele.
Com sete fragmentos.
Com uma porta começando a abrir.
Com oito mortes inevitáveis.
Arenos olhou para o homem à sua frente.
— Ikarus...
Ikarus segurava a espada.
— Sim?
Arenos sorriu através das lágrimas.
— Eu não quero que você morra.
Ikaus franziu o cenho.
— Então por que está me desafiando?
Arenos olhou para a porta.
— Porque você precisa passar.
Depois olhou para os mortos de Arteph.
— Mas antes...
O Cerberus ergueu as três cabeças.
As correntes começaram a se romper.
Arenos apertou os punhos.
— ...você precisa provar que consegue matar alguém que ama a própria morte.
Ikarus ficou imóvel.
— Arenos...
— Não hesite.
A luz dourada do fragmento tomou o corpo do Guardião.
Sua armadura reapareceu.
O Cerberus rugiu.
E, pela primeira vez em trezentos anos, Arenos sorriu como o homem que havia sido antes de perder tudo.
— Venha, Ikarus.
Ele levantou a espada.
— Dê a Arteph uma última despedida.
Atrás dele, a porta começou a abrir.
E, do outro lado, a voz de uma menina voltou a sussurrar:
— Pai...
Arenos fechou os olhos.
— Eu sei, Liora.
Então abriu-os novamente.
— Eu estou aqui.
E atacou.
— Minha filha.
A porta atrás dele começou a se abrir.
E do outro lado...
alguma coisa começou a respirar.
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