sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Okhus

 Ikarus atravessou os portões de Okhus no momento em que o último brilho do sol desaparecia atrás das montanhas. A cidade era diferente de tudo o que havia visto durante sua jornada. Não era apenas o frio, nem a arquitetura escura, nem o silêncio incomum das ruas. Era a sensação de que a própria cidade estava esperando alguma coisa. As pessoas caminhavam depressa, evitando olhar umas para as outras. Portas eram fechadas antes mesmo de a noite começar. Janelas eram cobertas. E, acima de todas as construções, torres negras se erguiam em direção ao céu.


Ikarus caminhou lentamente.


Cinco anos.


Cinco anos desde que deixara Lenória.


Cinco anos desde que abraçara Eiran.


Cinco anos desde que vira Lyra tão pequena que mal conseguia andar.


Cinco anos desde que olhara para Gillian e Raella e prometera que voltaria.


Agora estava em Okhus.


O nono caminho.


Os oito fragmentos permaneciam silenciosos.


Aquilo era estranho.


Depois de Arteph, eles haviam reagido constantemente. Às vezes vibravam. Às vezes brilhavam. Às vezes Ikarus sentia como se alguma coisa dentro deles estivesse tentando falar.


Agora, nada.


Ikarus parou no meio da rua.


— O que há de errado?


Nenhuma resposta.


Então ouviu passos.


Um homem apareceu no fim da rua.


Era velho.


Muito velho.


Usava uma capa escura e carregava uma lanterna.


Parou diante de Ikarus.


Olhou para seu rosto.


Depois para seu peito.


— Oito.


Ikarus imediatamente colocou a mão sobre a espada.


— Quem é você?


O velho sorriu.


— Alguém que esperava que você chegasse antes.


— Antes de quê?


O homem olhou para o céu.


— Antes que Okhus deixasse de existir.


Ikarus estreitou os olhos.


— O que está acontecendo aqui?


O velho começou a caminhar.


— Venha.


— Não confio em estranhos.


— Então não confie.


Continuou andando.


Ikarus permaneceu parado por alguns segundos.


Depois o seguiu.


Passaram por várias ruas.


Quanto mais avançavam, mais vazia a cidade ficava.


Até que chegaram a uma praça.


No centro havia uma enorme estátua.


Um olho gigantesco.


Ikarus parou.


— O Beholder.


O velho assentiu.


— O símbolo de Okhus.


Ikarus aproximou-se.


Havia inscrições na base da estátua.


Ele passou os dedos pela pedra.


Não conseguiu ler.


— O que está escrito?


— Uma advertência.


— Qual?


O velho respondeu:


— "Aquele que olhar para o que não deveria ser visto será visto pelo que não deveria existir."


Ikarus ficou em silêncio.


Os oito fragmentos reagiram.


Dessa vez, violentamente.


Uma luz dourada atravessou seu corpo.


O velho recuou.


— Finalmente.


— O quê?


— Eles reconheceram você.


Ikarus olhou para os fragmentos.


— Eles já me reconheceram há muito tempo.


— Não.


O velho balançou a cabeça.


— Antes eles apenas estavam com você.


Ikarus franziu a testa.


— Qual é a diferença?


O velho olhou para o seu peito.


— Agora eles sabem onde estão.


O chão tremeu.


Ikarus sacou a espada.


A estátua começou a rachar.


Uma linha atravessou o gigantesco olho de pedra.


Depois outra.


E outra.


Até que o olho inteiro se abriu.


Não havia pedra atrás dele.


Havia escuridão.


Uma escuridão tão profunda que Ikarus teve a impressão de estar olhando para um lugar onde não existia chão, céu ou distância.


O velho deu um passo para trás.


— Não olhe diretamente.


Ikarus não desviou.


— Por quê?


— Porque aquilo também pode olhar de volta.


Um enorme olho apareceu dentro da escuridão.


Ikarus sentiu todos os oito fragmentos queimarem.


E então ouviu uma voz.


Não vinha da estátua.


Não vinha da praça.


Parecia vir de dentro de sua própria cabeça.


— OITAVO PORTADOR.


Ikarus apertou a espada.


— Quem está falando?


— AQUELE QUE CHEGOU TARDE.


— Eu não sei do que está falando.


Silêncio.


Então:


— SABE.


Ikarus sentiu uma lembrança surgir.


Um campo.


Doze figuras.


A mesma cena que havia visto depois da morte de Arenos.


Mas desta vez havia algo diferente.


Uma décima terceira presença estava atrás deles.


Sem rosto.


Sem corpo definido.


Apenas uma silhueta.


Ikarus tentou se aproximar.


A memória desapareceu.


Ele voltou à praça.


O velho estava olhando para ele.


— Você viu.


— Vi.


— Então agora entende.


— Não.


O velho sorriu.


— Ótimo.


Ikarus ficou irritado.


— Pare de falar como se soubesse tudo.


— Eu não sei tudo.


— Então diga o que sabe.


O velho olhou novamente para o olho.


— Sei que os Guardiões não foram os primeiros.


Ikarus ficou imóvel.


— O quê?


— E sei que você não é o primeiro a carregar os fragmentos.


Ikarus apertou a espada.


— Quem veio antes de mim?


O velho não respondeu.


Porque naquele momento um sino tocou.


Uma vez.


Duas.


Três.


E, muito distante, uma criatura gritou.


Ikarus virou o rosto.


As pessoas começaram a sair das casas.


Soldados apareceram nas ruas.


Portões internos começaram a fechar.


O velho ficou sério.


— Começou.


— O quê?


Ele apontou para o horizonte.


Uma enorme massa negra avançava em direção às muralhas.


Mortos-vivos.


Centenas.


Talvez milhares.


Ikarus respirou fundo.


Depois guardou a espada.


— Então vamos.


O velho olhou para ele.


— Para onde?


Ikarus começou a caminhar.


— Para a muralha.


— Você veio procurar o Guardião.


Ikarus olhou para trás.


— Eu vim procurar o fragmento.


Então voltou os olhos para a horda.


— Mas enquanto eu estiver aqui, essas pessoas continuam vivas.


E começou a correr.


Os oito fragmentos começaram a brilhar.


E, pela primeira vez desde que chegara a Okhus, a cidade inteira ouviu um som diferente dos sinos.


O rugido de uma criatura colossal.


Do alto das muralhas, soldados olharam para o horizonte.


E Ikarus parou.


Porque atrás da horda havia algo muito maior.


Algo que não era morto-vivo.


Algo que caminhava lentamente em direção a Okhus.


E, mesmo a quilômetros de distância, Ikarus reconheceu aqueles olhos.


Angarkor estava olhando diretamente para ele.

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