sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Aldora

 O caminho até Aldora foi diferente de todos os outros.


Ikarus atravessou montanhas, desertos e antigas estradas do Sul, carregando consigo os onze fragmentos. Cada um deles permanecia preso à sua essência, pulsando em silêncio, lembrando-o de todos aqueles que haviam morrido para que ele chegasse até ali.


Faltava apenas um.


O fragmento de Aldora.


E então finalmente avistou as terras do reino.


Ikarus parou por alguns segundos.


Aldora.


O reino que, anos antes, havia sido consumido pelas guerras.


Mas não era mais o mesmo.


As antigas fortalezas haviam sido reconstruídas. Novas muralhas cercavam as cidades. Estradas atravessavam regiões que antes eram dominadas por exércitos rivais.


E, acima de uma das maiores cidades, tremulava a bandeira real.


O símbolo de Aldora.


Ikarus sorriu discretamente.


— Thomas...


Ele já sabia.


Durante os anos de viagem, ouvira histórias sobre o que acontecera naquele reino.


Thomas havia acabado com as guerras.


Thomas havia unido Aldora.


Thomas havia sido escolhido como rei.


Não era exatamente uma surpresa.


Na verdade, Ikarus esperava encontrá-lo.


O que Ikarus não sabia era que aquela história ainda escondia uma última parte.


Ele continuou sua jornada.


O templo do Guardião ficava no alto de uma montanha, distante da capital. Segundo as antigas tradições, aquele lugar não pertencia ao rei.


Pertencia ao Guardião.


Era uma posição separada.


Um homem protegia o reino.


Outro o governava.


Ikarus subiu as escadarias.


Quanto mais se aproximava, mais os onze fragmentos pulsavam.


Até que chegou diante da gigantesca porta de pedra.


Ele parou.


Respirou fundo.


— O último.


Sua mão tocou a porta.


Ela se abriu.


Ikarus entrou.


O templo estava silencioso.


Nenhum soldado.


Nenhum sacerdote.


Nenhuma guarda real.


Apenas o enorme salão circular e o altar no centro.


Ikarus olhou ao redor.


— Guardião de Aldora?


Nada.


Ele deu alguns passos.


Então ouviu uma voz atrás de si.


— Você demorou.


Ikarus congelou.


Aquela voz.


Virou-se.


Thomas estava ali.


Cabelos escuros.


Olhos intensos.


Asas dracônicas dobradas nas costas.


Dois enormes montantes repousavam junto ao altar.


Ikarus sorriu.


— Então finalmente nos encontramos.


Thomas permaneceu sério.


— Finalmente.


Ikarus caminhou em sua direção.


— Ouvi falar de você.


Thomas arqueou uma sobrancelha.


— Só ouviu?


— Bastante.


Ikarus olhou para ele.


— Dizem que você acabou com as guerras.


— Acabei.


— Unificou Aldora.


— Sim.


— E agora é rei.


Thomas assentiu.


— Sou.


Ikarus sorriu novamente.


— Eu sabia que conseguiria.


Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Havia algo estranho naquele reencontro.


Anos.


Décadas pareciam existir entre eles.


Thomas havia envelhecido.


Ikarus também.


Mas ainda havia algo familiar.


Algo que nenhum dos dois precisava explicar.


Ikarus olhou ao redor.


— Então... onde está o Guardião?


Thomas não respondeu.


Ikarus esperou.


— Thomas?


O antigo companheiro baixou os olhos.


Então caminhou lentamente até o altar.


Ali havia uma pedra quebrada.


E sobre ela...


um símbolo dourado.


Ikarus imediatamente reconheceu.


Um fragmento.


O décimo segundo.


Seu rosto mudou.


— Onde você conseguiu isso?


Thomas olhou para o fragmento.


— Eu tomei.


Ikarus franziu a testa.


— De quem?


Thomas permaneceu em silêncio.


Então respondeu:


— Do antigo Guardião.


Ikarus ficou imóvel.


— O que aconteceu com ele?


Thomas ergueu os olhos.


— Está morto.


O silêncio tornou-se pesado.


Ikarus deu um passo.


— Você o matou?


— Sim.


Ikarus olhou para o fragmento.


Depois para Thomas.


— Por quê?


Thomas respirou profundamente.


— Porque Aldora precisava de proteção.


— Você já era rei.


— Sim.


— Você já havia acabado com as guerras.


— Sim.


— Então por que precisava do poder de um Guardião?


Thomas demorou alguns segundos para responder.


— Porque acabar com uma guerra não significa acabar com aquilo que a causou.


Ikarus permaneceu em silêncio.


Thomas continuou:


— Quando as guerras terminaram, eu pensei que finalmente poderia descansar.


Ele olhou para as próprias mãos.


— Então começaram os mortos-vivos.


Ikarus abaixou os olhos.


Thomas prosseguiu:


— O reino estava unido, mas ainda era frágil. Aldora tinha um rei. Mas precisava de alguém capaz de enfrentar aquilo que nenhum exército conseguiria enfrentar.


Ikarus compreendeu.


— O Guardião.


Thomas assentiu.


— Dravion.


— Era esse o nome dele?


— Sim.


Thomas caminhou até o centro do templo.


— Dravion era o Guardião de Aldora havia muitos anos. Um homem poderoso. Um guerreiro extraordinário. E acreditava que seu dever era proteger este reino até a morte.


Ikarus olhou para Thomas.


— E você acreditava que precisava tomar o lugar dele.


— Não.


Thomas encarou-o.


— Eu acreditava que precisava me tornar forte o suficiente para proteger o que havia construído.


Ikarus apertou os punhos.


— E ele não entregou o fragmento.


— Não.


— Então vocês lutaram.


— Até a morte.


Ikarus ficou calado.


Thomas tocou o fragmento.


— Quando ele morreu, o fragmento veio para mim.


Os onze fragmentos de Ikarus começaram a pulsar.


Thomas percebeu.


— E então eu me tornei o Guardião.


Ikarus olhou fixamente para ele.


— Você é o novo Guardião de Aldora.


— Sim.


— E eu vim buscar o seu fragmento.


Thomas assentiu.


— Eu sei.


Ikarus respirou fundo.


— Então você sabia que eu viria.


— Sabia.


— E não pretendia me contar.


— Você perguntou pelo Guardião.


Thomas deu um pequeno sorriso.


— Eu nunca disse que não estava aqui.


Ikarus também sorriu.


Mas o sorriso desapareceu rapidamente.


— Thomas...


— Sim?


— Você sabe o que significa isso.


Thomas assentiu.


— Sei.


Ikarus olhou para os onze fragmentos.


— Eu matei onze Guardiões.


— Eu sei.


— Todos lutaram até o fim.


— Eu sei.


— Nenhum deles desistiu.


Thomas respondeu:


— Eu também não vou.


Ikarus fechou os olhos.


— Eu não quero lutar com você.


Thomas respondeu imediatamente:


— Eu também não queria lutar contra Dravion.


Ikarus abriu os olhos.


A frase atingiu-o.


Thomas continuou:


— Mas ele era o Guardião.


Pausa.


— E eu precisava do poder dele.


Ikarus apertou a espada.


— Então agora você entende o que está prestes a acontecer.


Thomas pegou os dois montantes.


— Entendo.


As asas dracônicas começaram a se abrir.


— Você precisa do meu fragmento.


Ikarus desembainhou a espada.


— Sim.


— E eu preciso proteger Aldora.


— Sim.


Thomas assumiu posição.


— Então não somos mais apenas dois velhos companheiros.


Ikarus ergueu a espada.


— Não.


Thomas olhou para ele.


— Somos dois homens tentando proteger aquilo que amam.


O templo inteiro começou a estremecer.


Atrás de Thomas, uma sombra gigantesca surgiu.


Escamas.


Chifres.


Asas.


Um rugido ancestral percorreu a montanha.


O Dragão de Aldora.


Ikarus sentiu os onze fragmentos queimarem simultaneamente.


Thomas apertou os dois montantes.


— Você percorreu o mundo inteiro para chegar até aqui.


Ikarus não respondeu.


— Eu passei esses mesmos anos construindo este reino.


Thomas avançou um passo.


— Você procurava os fragmentos.


Outro passo.


— Eu procurava um lugar que pudesse chamar de lar.


Ikarus baixou ligeiramente a espada.


Por um instante, viu novamente o homem que conhecera tantos anos atrás.


Seu companheiro.


Seu amigo.


Thomas.


Então olhou para o décimo segundo fragmento.


O último.


O objeto pelo qual havia atravessado continentes, enfrentado monstros e matado onze homens.


Thomas ergueu os montantes.


— Venha, Ikarus.


Ikarus apertou a espada.


— Thomas...


— Não hesite.


Os olhos dos dois se encontraram.


— Porque eu não vou hesitar.


E naquele instante Ikarus percebeu algo terrível.


Pela primeira vez em toda aquela jornada...


o último Guardião não era um estranho.


Era alguém que ele amava.

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