sábado, 3 de outubro de 2026

Ad'Heim: Laços

 Ikarus já estava com um pé fora de Lenória quando ouviu a voz de Raella.


— Ikarus.


Ele parou.


O amanhecer ainda não havia chegado completamente. A cidade permanecia silenciosa, iluminada apenas pelas tochas espalhadas pelas muralhas.


Raella estava atrás dele.


— Preciso falar uma coisa.


Ikarus voltou.


Ela parecia diferente.


Não era tristeza.


Era decisão.


— Durante todos esses anos... — começou ela. — Você imaginou que eu segui minha vida.


Ikarus ficou em silêncio.


— Talvez tenha imaginado que conheci outra pessoa.


Ele não respondeu.


Raella respirou fundo.


— Eu nunca conheci.


Ikarus ergueu os olhos.


— Raella...


— Não.


Ela aproximou-se.


— Deixe-me terminar.


Ele assentiu.


— Eu não fiquei com ninguém. Nunca tive outro homem. Não porque estivesse esperando você voltar como uma viúva espera alguém que morreu. Eu simplesmente... nunca consegui amar outra pessoa.


Ikarus abaixou os olhos.


— Você não precisava fazer isso.


— Eu sei.


Ela tocou o rosto dele.


— Eu fiz porque quis.


Os dois permaneceram em silêncio.


— Eu ainda amo você, Ikarus.


Ele fechou os olhos.


Durante tantos anos, havia imaginado aquele reencontro de tantas maneiras.


Mas nunca daquela.


— Eu também nunca deixei de amar você.


Raella sorriu com tristeza.


— Então você vai embora amanhã?


Ikarus olhou para o horizonte.


— Preciso.


— Eu sei.


Ela respirou fundo.


— Mas você pode ficar esta noite.


Ikarus olhou para ela.


Raella segurou sua mão.


— Só esta noite.


Ele permaneceu imóvel por alguns segundos.


Então apertou a mão dela.


— Está bem.


---


Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Ikarus não pensou em fragmentos.


Não pensou em Guardiões.


Não pensou em Angarkor.


Não pensou em Aldora.


Apenas em Raella.


Eles conversaram durante horas.


Riram de lembranças antigas.


Choraram por aquilo que perderam.


Falaram de Lyra.


De Eiran.


De Gillian.


De tudo que o tempo havia levado.


E quando as palavras finalmente acabaram, ficaram simplesmente juntos.


A noite passou em silêncio.


Sem promessas impossíveis.


Sem juramentos sobre o futuro.


Apenas dois adultos que ainda se amavam, conscientes de que talvez aquela fosse a última noite que teriam juntos.


---


Quando o primeiro raio de sol atravessou a janela, Ikarus estava acordado.


Raella dormia ao seu lado.


Ele ficou alguns minutos olhando para ela.


Depois levantou-se.


Vestiu a armadura.


Pegou a espada.


Os onze fragmentos brilhavam discretamente sobre seu peito.


Raella abriu os olhos.


— Já vai?


Ikarus assentiu.


— Sim.


Ela sentou-se.


— Então venha aqui.


Ikarus aproximou-se.


Raella segurou seu rosto com as duas mãos.


— Volte.


Ele sorriu.


— Eu vou.


Ela o beijou uma última vez.


Depois soltou-o.


Ikarus caminhou até a porta.


Antes de sair, olhou para trás.


Raella estava sentada na cama, observando-o.


Nenhum dos dois disse nada.


Não era necessário.


Ikarus saiu.


---


Do lado de fora, Eiran estava esperando.


— Você vai para Aldora.


— Sim.


Lyra apareceu logo atrás.


— E depois volta?


Ikarus ajoelhou-se.


— Depois volto.


Abraçou os dois.


Raella apareceu na porta.


Ikarus olhou para ela.


Um último olhar.


Então virou-se.


O caminho para Aldora começava ali.


Onze fragmentos.


Um último Guardião.


E, dentro do coração de Ikarus, uma nova certeza:


ele não estava mais lutando apenas para completar os doze.


Estava lutando para ter para onde voltar.


E, pela primeira vez desde que partira de Lenória...


Ikarus queria desesperadamente sobreviver.

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