terça-feira, 3 de novembro de 2026

ORKHUS: AQUELE QUE CARREGA O TEMPO

 


A lenda de Thimos e a tragédia de Morvahn, o Hunen do Tempo

“Há reinos que recebem seus nomes dos homens que os fundaram. Outros, dos deuses que os protegeram. Mas houve um reino que recebeu um segundo nome daquilo que jamais poderia vencer: o Tempo.”

Entre os doze reinos de Ad’Heim, poucos carregam uma história tão antiga e tão melancólica quanto Thimos.

Conhecido nos registros mais antigos como Orkhus, seu nome atravessou gerações, inscrições esquecidas e cânticos que sobreviveram à queda de reis. Para os estrangeiros, Orkhus era apenas uma denominação ancestral. Para os habitantes de Thimos, porém, era muito mais: um título, uma memória e uma ferida que jamais cicatrizou.

Pois Orkhus não designava somente a terra.

Também era o nome pelo qual os antigos se referiam a Morvahn, o Hunen do Tempo.

E, embora os escribas tenham preservado ambos os nomes em seus registros, poucos ousaram escrever sobre a razão pela qual passaram a ser pronunciados como se fossem um só.

O SENHOR QUE NÃO PODIA RETROCEDER

Antes que os homens erguessem muralhas, antes que os reis dividissem as terras e antes que os calendários recebessem seus primeiros números, Morvahn já existia.

Era o Hunen do Tempo.

Não era simplesmente aquele que observava os dias passarem, tampouco um senhor de relógios, estações ou ampulhetas. Sua existência estava ligada ao próprio curso das coisas: ao nascimento e à decadência, à juventude e à velhice, ao florescimento e à ruína.

Onde uma criança aprendia a caminhar, Morvahn estava presente.

Onde um guerreiro envelhecia sob o peso de suas batalhas, Morvahn também estava.

E onde um rei fechava os olhos pela última vez, ele permanecia.

Contudo, havia uma particularidade em sua natureza que os mortais jamais compreenderam inteiramente: Morvahn podia testemunhar a passagem de todas as coisas, mas não podia desfazer aquilo que o Tempo já havia consumado.

Ele conhecia o passado, acompanhava o presente e contemplava os caminhos do futuro. Mas conhecer um acontecimento não significava poder anulá-lo.

Essa era sua grandeza.

E também sua tragédia.

A PRIMEIRA LÁGRIMA DE ORKHUS

Conta uma antiga tradição thimiana que, em uma era tão distante que nem mesmo os anciãos concordavam sobre seu nome, Morvahn caminhou entre os primeiros habitantes daquelas terras.

Naquela época, os homens ainda não conheciam os grandes impérios. Viviam em pequenas comunidades, construíam suas primeiras casas e enterravam seus mortos sob árvores que, muito depois, seriam consideradas sagradas.

Morvahn contemplava aquela gente com uma atenção que nenhum outro Hunen demonstrava.

Ele via os filhos daqueles homens antes mesmo de nascerem. Conhecia os rostos que um dia seriam esquecidos, as mãos que ergueriam cidades e os olhos que contemplariam o último pôr do sol de suas vidas.

Mas, quanto mais observava os mortais, mais compreendia uma verdade terrível: tudo aquilo que amavam estava sujeito à passagem do Tempo.

As casas ruiriam.

Os nomes desapareceriam.

As promessas seriam esquecidas.

E mesmo os mais belos momentos terminariam.

Certa vez, segundo a lenda, uma mulher idosa teria se aproximado do Hunen enquanto ele contemplava o túmulo de uma criança.

Ela não pediu riquezas, não pediu juventude e tampouco implorou por uma vida mais longa.

Apenas perguntou:

— Se sabes quando todas as coisas terminarão, por que não as impedem de terminar?

Morvahn permaneceu em silêncio.

A mulher então colocou sobre a sepultura uma pequena flor e disse:

— Talvez o Tempo seja poderoso demais para compreender o valor de um instante.

Dizem que, naquele momento, Morvahn compreendeu algo que jamais havia considerado: para os mortais, o valor de uma existência não estava em sua duração, mas naquilo que nela havia sido vivido.

E, pela primeira vez, o Hunen desejou que um instante pudesse permanecer para sempre.

O NOME QUE SE TORNOU TÍTULO

Os séculos passaram, e as comunidades daquela região cresceram até se tornarem um reino.

Thimos foi erguido sobre terras antigas, onde os homens aprenderam a contar os anos, registrar as estações e transmitir aos filhos os nomes daqueles que vieram antes.

Mas os primeiros habitantes jamais esqueceram a presença de Morvahn.

Chamavam-no de Orkhus.

Não como quem atribui um nome a uma criatura, mas como quem reconhece uma condição que ultrapassa a própria compreensão.

Orkhus passou a significar, nos antigos cânticos, aquele que carrega o Tempo; aquele cuja existência atravessa as eras; aquele que permanece quando todas as coisas já passaram.

Assim, o nome tornou-se título.

E o título passou a designar tanto o Hunen quanto o reino que vivia sob sua associação.

Thimos era o nome da terra.

Morvahn era o nome do Hunen.

Orkhus era o nome que os unia na memória dos antigos.

A TRAGÉDIA DOS QUE QUERIAM PERMANECER

Entretanto, nem todos compreenderam a lição deixada pela antiga mulher.

Com o passar das eras, surgiram homens que desejaram possuir aquilo que julgavam ser o maior atributo de Morvahn: a permanência.

Reis passaram a temer a sucessão.

Guerreiros passaram a temer a velhice.

Magos passaram a procurar meios de conservar aquilo que, por natureza, deveria desaparecer.

E os sábios de Thimos começaram a discutir uma questão que se tornaria uma das maiores advertências da história do reino:

Se o Tempo conduz todas as coisas ao seu fim, seria possível existir sem estar submetido à sua passagem?

A resposta jamais foi encontrada pelos homens.

Mas a pergunta sobreviveu.

E, desde então, os habitantes de Thimos passaram a considerar a longevidade uma dádiva ambígua. Viver por muito tempo não significava necessariamente viver melhor. Permanecer não significava necessariamente vencer.

Pois o Tempo não precisava destruir uma cidade para condená-la.

Bastava permitir que seus habitantes esquecessem por que ela havia sido construída.

O CÂNTICO DE MORVAHN

Entre os fragmentos preservados nas antigas tradições de Thimos, existe uma composição atribuída aos primeiros rapsodos do reino. Sua autoria se perdeu, mas seus versos continuam sendo recitados em cerimônias fúnebres e nos juramentos dos antigos guardiões.

O Cântico daquele que permanece

Quando o primeiro sol nasceu, eu já caminhava.

Quando a última estrela se apagar, ainda ouvirei os passos dos homens.

Vi o ferro tornar-se coroa,

e a coroa tornar-se pó.

Vi muralhas erguerem-se contra o horizonte,

e o horizonte engolir suas sombras.

Vi amantes jurarem eternidade,

e a eternidade esquecer seus nomes.

Não sou aquele que impede a queda,

nem aquele que devolve o que partiu.

Sou o caminho entre o primeiro choro

e o silêncio que o sucede.

Os homens me chamam de Orkhus.

Os reis me chamam de destino.

Os mortos não me chamam por nome algum.

Pois quando tudo termina,

o Tempo não celebra a vitória.

Ele apenas continua.

O LEGADO DE ORKHUS

Até os dias atuais, Thimos preserva a antiga denominação de Orkhus em seus registros, tradições e cânticos.

Os dois nomes não representam reinos diferentes, tampouco entidades distintas.

Orkhus é o título ancestral pelo qual o reino e seu Hunen, Morvahn, são lembrados.

Essa relação constitui uma das particularidades mais singulares da tradição thimiana entre os doze reinos de Ad’Heim.

Enquanto outros territórios preservaram sobretudo os nomes de seus patronos primordiais, Thimos conservou uma denominação que expressa algo mais profundo: a inseparabilidade entre a terra, sua história e o domínio daquele que está associado ao Tempo.

E talvez seja por isso que os antigos de Thimos evitavam pronunciar Orkhus como uma simples palavra.

Pois, para eles, pronunciar aquele nome era recordar que nenhuma glória é eterna, nenhum império permanece intacto e nenhuma criatura, por poderosa que seja, pode reivindicar para si o domínio absoluto sobre os dias.

Morvahn permanece.

Thimos permanece.

Mas tudo aquilo que vive sob seus céus atravessa o Tempo.

E o Tempo, como sempre, não espera por ninguém.

“Os homens constroem monumentos para desafiar o esquecimento. Orkhus não precisa de monumentos. Ele é aquilo que resta quando até mesmo as pedras esquecem quem as colocou."

Dorimesh, também chamada Dhephor

No coração de Thimos erguia-se uma cidade conhecida por dois nomes: Dorimesh e Dhephor. Embora alguns relatos antigos os apresentassem como lugares distintos, ambos designavam a mesma cidade, construída sob a sombra da memória de Orkhus. A diferença permanecia nas palavras dos povos, nas tradições dos escribas e nos registros preservados ao longo das eras, mas nunca na terra que seus habitantes pisavam. Para os mais antigos, Dorimesh era o nome que carregava a solenidade dos primeiros reis; para outros, Dhephor era a forma pela qual a cidade havia atravessado os séculos. Os dois nomes eram legítimos, pois ambos pertenciam ao mesmo lugar. E assim como Orkhus e Morvahn permaneciam ligados à identidade de Thimos, também Dorimesh e Dhephor eram duas vozes pronunciando a memória de uma única cidade.

— Fragmento atribuído aos antigos Rapsodos de Thimos.

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