A origem dos Ruptores de Baltamus
Há uma antiga lenda em Baltamus que conta que os Ruptores não nasceram de uma ordem real, de um decreto imperial ou de uma vitória militar. Nasceram de uma derrota.
Nos últimos anos da Guerra dos Duzentos Anos, quando os exércitos estavam exaustos e as muralhas de inúmeras cidades haviam sido reduzidas a escombros, Baltamus enfrentava uma realidade que seus governantes se recusavam a admitir: sua superioridade intelectual e tecnológica já não era suficiente para garantir suas vitórias.
Suas armas eram sofisticadas, suas fortalezas estavam entre as mais avançadas dos reinos e seus engenheiros produziam mecanismos que outros povos sequer conseguiam compreender. Ainda assim, seus soldados continuavam morrendo diante de adversários que possuíam maior força, experiência e brutalidade no campo de batalha.
Foi nesse período que três homens, completamente diferentes em suas origens e conhecimentos, acabaram reunidos por circunstâncias que, segundo alguns cronistas, jamais poderiam ter sido obra do acaso.
Um alquimista, um cientista e um soldado.
Três homens que mudariam para sempre a maneira como Baltamus faria guerra.
O PRIMEIRO — O ALQUIMISTA
Seu nome era Aldric Vael, um alquimista conhecido por sua obsessão em compreender as propriedades ocultas dos materiais.
Diferentemente dos alquimistas tradicionais, Aldric não procurava transformar metais comuns em ouro, tampouco dedicava seus estudos à fabricação de elixires de longevidade. Seu interesse estava na relação entre matéria, energia e transformação.
Durante anos, investigou fragmentos de meteoritos, ligas metálicas desconhecidas e substâncias capazes de armazenar forças que normalmente se dissipariam no momento de um impacto.
Foi ele quem descobriu uma composição alquímica capaz de estabilizar a energia acumulada em pequenos compartimentos metálicos. A substância, quando submetida a determinadas condições, liberava uma força extraordinária, sem destruir imediatamente o recipiente que a continha.
Sua descoberta não era uma arma, mas a possibilidade de construí-la.
Aldric acreditava que a alquimia deveria deixar de ser uma arte restrita aos laboratórios e passar a servir à sobrevivência dos povos. Por essa razão, aceitou trabalhar em um projeto que muitos consideravam insensato.
O SEGUNDO — O CIENTISTA
Edran Korr era considerado um dos maiores engenheiros e pesquisadores de Baltamus.
Enquanto Aldric compreendia as propriedades da matéria, Edran procurava compreender como submetê-la a mecanismos controláveis.
Seu trabalho consistia em desenvolver sistemas de compressão, câmaras de armazenamento e dispositivos capazes de liberar energia de maneira precisa. Ele percebeu que a descoberta do alquimista poderia ser utilizada para produzir uma arma completamente diferente de tudo aquilo que existia nos arsenais dos reinos.
O primeiro protótipo, entretanto, foi um fracasso.
A energia acumulada não encontrava uma saída adequada e, em diversas ocasiões, os mecanismos explodiram durante os testes. Um dos acidentes destruiu parte da oficina e deixou Edran com cicatrizes permanentes nos braços.
Mesmo assim, ele persistiu.
Depois de inúmeras tentativas, desenvolveu um mecanismo cilíndrico de câmaras internas, conectado a canais de condução instalados em uma lâmina metálica reforçada.
Pela primeira vez, tornou-se possível armazenar energia e liberá-la precisamente no instante de um golpe.
Nascia o primeiro protótipo daquilo que posteriormente seria conhecido como Vértice.
Mas ainda faltava alguém capaz de demonstrar que aquela invenção poderia sobreviver a uma guerra.
O TERCEIRO — O SOLDADO
General Tharven Drakk era um dos mais respeitados oficiais de Baltamus. Veterano de inúmeras campanhas, havia conquistado sua posição não por influência política ou nascimento nobre, mas por sua capacidade de comandar tropas em situações nas quais outros generais teriam sucumbido.
Era conhecido por sua disciplina inflexível e por não desperdiçar a vida de seus homens em batalhas que considerava impossíveis de vencer.
Tharven havia perdido boa parte de seu exército em um confronto contra forças numericamente superiores. As armas convencionais de Baltamus não conseguiam atravessar as proteções inimigas, e suas formações eram constantemente rompidas por adversários mais experientes.
Quando conheceu Aldric e Edran, inicialmente desprezou a invenção.
Para ele, uma arma que funcionava perfeitamente em uma oficina não significava absolutamente nada quando colocada nas mãos de um homem cercado por centenas de inimigos.
Ainda assim, aceitou testar o protótipo.
O resultado foi surpreendente.
Tharven descobriu que a arma não precisava substituir a espada tradicional. Seu verdadeiro potencial estava em permitir que um combatente combinasse técnica, precisão e descargas de força em momentos decisivos.
Ele passou meses aperfeiçoando movimentos, desenvolvendo técnicas de combate e submetendo os mecanismos a condições reais de batalha.
Também foi o primeiro a compreender que uma Vértice não poderia ser entregue a qualquer soldado. Seu potencial exigia disciplina, treinamento e domínio absoluto sobre a própria arma.
Tharven tornou-se, assim, o primeiro comandante daquilo que viria a ser conhecido como os Ruptores.
A PRIMEIRA RUPTURA
A lenda conta que a primeira demonstração pública da nova arma ocorreu durante uma batalha nos arredores de uma antiga fortificação de Baltamus.
As forças inimigas haviam construído uma linha defensiva praticamente impenetrável, protegida por escudos reforçados e muralhas de pedra. Os soldados de Baltamus já haviam tentado romper suas posições diversas vezes, sempre com resultados desastrosos.
Tharven solicitou autorização para conduzir um pequeno destacamento experimental.
Recebeu apenas doze homens.
Cada um deles carregava uma das primeiras Vértices, enquanto outros levavam armas de fogo desenvolvidas nos arsenais do reino.
Quando o combate começou, os inimigos riram ao perceber o pequeno número de soldados que avançava contra suas posições.
A primeira descarga atingiu a muralha.
A pedra estremeceu.
A segunda rompeu uma seção inteira da fortificação.
A terceira abriu uma passagem por onde os soldados de Baltamus avançaram, utilizando suas armas de fogo para impedir a reorganização das forças adversárias.
A batalha terminou antes do anoitecer.
Os doze homens retornaram.
A partir daquele dia, passaram a ser chamados de Ruptores.
Segundo a tradição, foi Tharven quem pronunciou as palavras que posteriormente se tornariam o primeiro juramento da ordem:
"Não fomos enviados para disputar a força das muralhas, mas para provar que nenhuma muralha é eterna."
O JURAMENTO DOS RUPTORES
Com o encerramento da Guerra dos Duzentos Anos, a experiência dos três fundadores foi transformada em uma instituição militar permanente.
Aldric Vael continuou desenvolvendo compostos alquímicos e materiais utilizados na fabricação das Vértices.
Edran Korr estabeleceu os princípios de engenharia que orientariam as futuras gerações de artífices de Baltamus.
Tharven Drakk organizou os primeiros destacamentos, estabeleceu os critérios de seleção e desenvolveu os fundamentos da doutrina militar dos Ruptores.
Os três compreenderam que suas descobertas não deveriam depender exclusivamente de seus próprios conhecimentos. Por isso, organizaram oficinas, escolas de treinamento e arquivos técnicos destinados à preservação de suas técnicas.
A tradição afirma que, antes de morrer, os três deixaram uma última determinação aos seus sucessores: nenhum homem deveria ser considerado um Ruptor simplesmente por possuir uma Vértice.
A arma poderia ser fabricada.
A habilidade poderia ser ensinada.
Mas a disciplina necessária para utilizá-la sem se tornar escravo de seu próprio poder precisava ser conquistada.
Desde então, os Ruptores passaram a constituir a força de elite de Baltamus, reunindo os combatentes mais habilidosos e disciplinados de seus exércitos.
Seus integrantes utilizam Vértices de diferentes modelos, armas de fogo e equipamentos desenvolvidos especialmente para suas necessidades. São treinados tanto no combate individual quanto em formações militares, podendo atuar como unidades de assalto, destacamentos de ruptura ou guardas especializados.
Embora sejam poucos em comparação aos exércitos regulares, sua presença em uma batalha é considerada um acontecimento de grande importância.
O LEGADO DOS TRÊS
Até os dias atuais, os nomes de Aldric Vael, Edran Korr e Tharven Drakk permanecem gravados nas paredes da primeira oficina de Vértices de Baltamus.
Existe também uma tradição entre os Ruptores: antes de receberem suas armas, os novos integrantes são conduzidos até uma sala onde três estátuas representam os fundadores.
A primeira segura um frasco alquímico.
A segunda sustenta um mecanismo de engrenagens.
A terceira empunha uma espada.
Diante delas, o candidato pronuncia o juramento da ordem:
"Da matéria extraímos a força. Da inteligência, o instrumento. Da disciplina, o domínio. Somos os Ruptores. E onde nossos inimigos erguerem suas defesas, encontraremos o caminho da ruptura."
Assim nasceu a mais temida força militar de elite de Baltamus.
E, embora as Vértices tenham evoluído consideravelmente desde sua criação, os Ruptores jamais esqueceram que tudo começou com três homens que se recusaram a aceitar os limites das armas de seu tempo.

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