quarta-feira, 4 de novembro de 2026

GALLEN — A TERRA DOS MIL POVOS

 


A história das antigas nações, a unificação de Rajah e a dinastia dos Konungs

Por Yuri Schein

Há terras cuja história pode ser contada pela sucessão de seus reis. Outras são lembradas pelas guerras que venceram, pelas cidades que ergueram ou pelas ruínas que deixaram para trás.

Gallen, entretanto, é diferente.

Sua história não pertence a uma única linhagem, tampouco começou com a fundação de uma cidade ou a proclamação de um reino. Antes que suas fronteiras fossem desenhadas, antes que Zodhak erguesse suas muralhas e muito antes que os estandartes da dinastia dos Konungs fossem hasteados sobre suas fortalezas, aquelas terras já eram habitadas por inúmeras nações.

Povos de línguas distintas, costumes antigos e crenças profundamente enraizadas disputavam o domínio de vales, florestas, planícies, montanhas e rios. Alguns viviam sob a autoridade de reis hereditários; outros obedeciam a conselhos de anciãos, chefes de clãs ou líderes espirituais. Havia aqueles que construíam cidades monumentais, enquanto outros preferiam a liberdade das estradas e dos vastos campos.

Não existia uma única Gallen.

Existiam muitas.

E foi somente depois de incontáveis guerras, conquistas e transformações espirituais que essas nações passaram a reconhecer uma mesma autoridade.

Essa é a história de como Gallen deixou de ser uma terra dividida para se tornar um dos reinos mais singulares de Ad’Heim.


I. AS NAÇÕES ANTERIORES À COROA

Nas eras antigas, Gallen era uma região de extraordinária diversidade. Suas populações não compartilhavam uma origem comum, e tampouco possuíam uma única maneira de compreender o mundo.

Nas terras setentrionais predominavam povos de tradição guerreira, organizados em clãs e grandes famílias. Eram navegadores habilidosos, construtores de embarcações resistentes e combatentes acostumados às dificuldades das regiões frias. Seus assentamentos eram protegidos por paliçadas, muralhas de madeira e fortalezas erguidas sobre colinas.

Seus guerreiros utilizavam machados, espadas largas, lanças e escudos circulares. A reputação de um homem era construída por seus feitos, pela lealdade aos seus companheiros e pela capacidade de defender sua linhagem.

Os chefes desses povos não eram necessariamente os mais ricos, mas aqueles capazes de reunir guerreiros, conquistar respeito e preservar a sobrevivência de seus clãs. Em determinadas regiões, a sucessão era hereditária; em outras, o direito de governar precisava ser confirmado pelos próprios guerreiros.

A honra dos ancestrais era preservada em grandes salões, onde os bardos recitavam genealogias, narravam batalhas e transmitiam histórias que, de outro modo, desapareceriam com os mortos.

Essas sociedades também possuíam antigas tradições espirituais.

As volvas eram mulheres respeitadas por sua capacidade de interpretar presságios, realizar práticas divinatórias e investigar aquilo que os homens comuns não conseguiam compreender. Seus conhecimentos eram transmitidos por gerações, e muitos governantes procuravam seus conselhos antes de iniciar campanhas militares ou estabelecer alianças.

Os druidas, por sua vez, preservavam conhecimentos relacionados aos ciclos naturais, às propriedades das plantas, aos movimentos celestes e às antigas tradições religiosas. Em algumas comunidades, eram responsáveis pela educação dos jovens e pela conservação das leis ancestrais. Em outras, ocupavam posições próximas aos próprios soberanos.

Não eram simplesmente sacerdotes. Eram guardiões de uma memória que precedia os reis.

Mais ao sul, entre grandes planícies e extensas rotas comerciais, viviam povos itinerantes, organizados em famílias e comunidades que raramente permaneciam muito tempo no mesmo lugar.

Seus acampamentos eram conhecidos pela presença de carroças ornamentadas, tendas coloridas, animais de transporte e pequenas oficinas móveis. Eram comerciantes, artesãos, músicos e ferreiros habilidosos. Conheciam caminhos que não apareciam nos mapas dos reis e mantinham relações comerciais com comunidades que, muitas vezes, sequer se conheciam entre si.

Suas tradições eram preservadas por narradores, anciãos, oráculos e xamãs. Alguns desses grupos possuíam conhecimentos extraordinários sobre ervas, venenos, animais e fenômenos naturais.

Por não reconhecerem necessariamente as fronteiras estabelecidas pelos governantes sedentários, eram frequentemente considerados estrangeiros mesmo quando percorriam terras habitadas por seus antepassados havia incontáveis gerações.

Nas grandes florestas e pradarias encontravam-se outras nações.

Algumas viviam em aldeias construídas ao redor de grandes casas comunais. Outras organizavam-se em confederações de tribos, cujos representantes se reuniam periodicamente para decidir questões relacionadas à guerra, ao comércio e à proteção de seus territórios.

Eram povos de extraordinário conhecimento da natureza. Sabiam interpretar rastros, reconhecer mudanças climáticas, localizar fontes de água e atravessar regiões que confundiriam até mesmo os melhores exploradores.

Seus guerreiros utilizavam arcos, lanças, machados, zarabatanas e armas cerimoniais. Pinturas corporais, adornos de penas, máscaras e símbolos animais identificavam suas linhagens e posições sociais.

Para muitos desses povos, a floresta não era simplesmente um território a ser ocupado. Era uma herança viva, repleta de lugares sagrados, caminhos ancestrais e histórias que não deveriam ser esquecidas.

Mais adiante, em regiões de planaltos, vales e montanhas, desenvolveram-se civilizações urbanas de grande complexidade.

Algumas ergueram cidades inteiras ao redor de templos escalonados, cujas estruturas se elevavam sobre as copas das árvores. Seus sacerdotes estudavam os movimentos dos astros, registravam eclipses e organizavam calendários que determinavam períodos de plantio, colheita e celebrações religiosas.

Outras construíram grandes capitais fortificadas, com praças cerimoniais, mercados, palácios e extensos sistemas de abastecimento. Seus governantes mantinham exércitos numerosos, enquanto castas sacerdotais exerciam influência sobre a vida política.

Havia ainda civilizações montanhesas cujos construtores pareciam desconhecer os limites impostos pela própria geografia. Ergueram estradas de pedra sobre precipícios, pontes suspensas sobre rios profundos, terraços agrícolas nas encostas e fortalezas cujas paredes se ajustavam umas às outras com extraordinária precisão.

Seus administradores organizavam a produção, o armazenamento de alimentos e a distribuição de recursos entre cidades distantes. Mensageiros percorriam caminhos elevados, levando notícias e determinações dos governantes às regiões mais remotas.

Cada uma dessas civilizações possuía sua própria língua, seus próprios deuses, suas leis e seus costumes.

E, embora algumas tenham alcançado grande prosperidade, nenhuma conseguiu estabelecer domínio duradouro sobre todas as demais.

Gallen era uma terra de muitas coroas, muitos altares e incontáveis espadas.

A paz, quando existia, raramente sobrevivia à geração daqueles que a haviam estabelecido.


II. A SOMBRA DOS HUNENS E A FÉ EM RAJAH

Muito antes da Guerra dos Duzentos Anos, os povos de Gallen já conheciam a influência dos Hunens.

Entre essas entidades primordiais, uma possuía especial importância para aquelas terras: Rhaegor, o Hunen dos Céus.

Seu domínio estava associado à vastidão celeste, aos ventos e às tempestades. Sua influência não se limitava às montanhas ou às regiões onde as nuvens se acumulavam. Representava uma força que atravessava fronteiras, alcançava os mares e se manifestava sobre todos os povos.

A criatura associada a Rhaegor era o Roc, uma entidade colossal capaz de atravessar tempestades e dominar os céus.

Para os habitantes de Gallen, a presença dessas forças fazia parte de uma realidade que ultrapassava os conhecimentos dos sacerdotes e dos estudiosos. Entretanto, cada povo interpretava essas manifestações de acordo com suas próprias tradições.

Alguns associavam as grandes tempestades à manifestação da vontade celeste. Outros enxergavam nelas presságios de guerras, mudanças dinásticas ou acontecimentos que afetariam gerações inteiras.

A relação entre os povos e as forças primordiais, porém, não significava que existisse uma única religião.

Gallen continuava dividida por inúmeras tradições espirituais.

Foi nesse contexto que a fé em Rajah começou a adquirir importância crescente.

A influência de Rajah ultrapassou os limites de uma única nação. Seus ensinamentos, sua autoridade e a força daqueles que reconheciam sua supremacia começaram a modificar as relações entre os antigos reinos.

O que inicialmente parecia uma influência espiritual tornou-se também uma força política e militar.

Os povos que reconheciam Rajah passaram a estabelecer alianças entre si. Aqueles que resistiam enfrentavam campanhas de conquista, e os antigos governantes precisavam escolher entre aceitar a nova ordem ou defender suas terras contra forças cada vez mais poderosas.

A unificação de Gallen não foi, portanto, uma reunião espontânea de nações.

Foi uma longa sucessão de guerras.

E, à medida que os territórios eram conquistados, a fé em Rajah tornava-se um dos elementos centrais da nova ordem.

Mas havia um problema.

Submeter um povo era relativamente simples quando comparado a fazê-lo abandonar as crenças que haviam orientado sua existência durante séculos.

Os reis podiam ser derrotados. As fortalezas podiam ser destruídas. Os exércitos podiam ser dispersados.

Entretanto, as tradições espirituais permaneciam.

Os druidas continuavam reunindo seus discípulos. As volvas ainda interpretavam seus presságios. Os oráculos transmitiam suas revelações, e os xamãs preservavam práticas que os conquistadores não conseguiam simplesmente apagar.

A guerra pela unidade de Gallen estava longe de terminar.

Foi nesse cenário que surgiu Huor.


III. HUOR, O SENHOR DOS CLÃS

Entre os povos guerreiros do norte de Gallen havia uma antiga linhagem cuja autoridade era reconhecida por numerosos clãs.

Seus membros eram conhecidos pela habilidade militar, pela tradição marítima e pela capacidade de reunir grandes exércitos. Seus chefes governavam a partir de fortalezas construídas em posições estratégicas, protegidas por muralhas, torres de observação e companhias de guerreiros juramentados.

Foi dessa linhagem que surgiu Huor.

Desde jovem, Huor demonstrou uma capacidade de liderança incomum. Não era apenas um combatente habilidoso, mas um homem capaz de compreender as ambições dos outros governantes e perceber aquilo que muitos não conseguiam enxergar: a força de um reino não estava somente no número de suas espadas, mas na disposição de seus povos em permanecer unidos.

Naquela época, Gallen já havia sofrido inúmeras campanhas de conquista. Algumas regiões estavam submetidas à autoridade de Rajah, outras haviam estabelecido alianças e muitas continuavam resistindo.

Huor compreendeu que a fragmentação tornava todas aquelas nações vulneráveis.

Sua ascensão foi acompanhada por guerras, alianças e disputas sucessórias. Os clãs que reconheceram sua autoridade passaram a integrar uma força militar cada vez maior, enquanto aqueles que se recusaram a obedecer enfrentaram suas campanhas.

Com o passar do tempo, Huor consolidou o domínio sobre os povos de sua região e ampliou sua influência sobre as demais nações.

Seu exército era composto por guerreiros de diferentes origens. Havia combatentes montados, arqueiros, lanceiros, guerreiros de infantaria pesada e companhias especializadas em atravessar terrenos difíceis.

As antigas tradições militares dos clãs permaneceram presentes, mas foram incorporadas a uma estrutura de comando mais organizada.

Huor não pretendia governar apenas sobre os membros de sua própria linhagem.

Queria estabelecer uma autoridade que sobrevivesse à sua morte.

E, para isso, precisava resolver uma questão que nenhum de seus antecessores havia conseguido solucionar.

A religião.


IV. A GUERRA DOS ALTARES

As guerras de unificação haviam transformado Gallen.

Muitas antigas dinastias desapareceram. Algumas cidades foram reconstruídas sobre as ruínas de outras, e diversos povos perderam territórios que haviam ocupado durante gerações.

Entretanto, a resistência espiritual continuava.

Em determinadas regiões, a aceitação da autoridade de Rajah era acompanhada pela exigência de abandono das antigas tradições. Em outras, os próprios governantes locais utilizavam a religião como instrumento de resistência política.

Os templos tornaram-se centros de oposição.

Os sacerdotes convocavam seus seguidores. Os oráculos anunciavam a queda dos conquistadores. Alguns druidas recusavam-se a reconhecer qualquer autoridade que não fosse aquela transmitida pelas antigas leis de seus povos.

A situação tornou-se especialmente difícil porque não havia uma única tradição religiosa a ser derrotada.

Cada território possuía seus próprios costumes.

O que significava que, mesmo depois de conquistar uma região, os exércitos precisavam enfrentar novamente a resistência em outra.

Huor percebeu que a guerra estava consumindo aquilo que pretendia preservar.

Se continuasse exigindo que todos os povos abandonassem suas crenças, jamais conseguiria estabelecer uma paz duradoura.

A conquista havia reunido territórios.

Mas não havia reconciliado seus habitantes.

Foi então que tomou uma decisão extraordinária para sua época.

Huor declarou que seu reino reconheceria a liberdade religiosa de seus povos.

Os habitantes poderiam conservar seus antigos templos, seus sacerdotes, seus rituais e suas tradições espirituais. Os druidas poderiam continuar ensinando, as volvas poderiam exercer suas práticas, os oráculos poderiam transmitir suas interpretações e os xamãs poderiam preservar os conhecimentos de seus antepassados.

A fé em Rajah permaneceria reconhecida e respeitada, mas não seria necessário que todas as comunidades abandonassem suas próprias tradições para viver sob a autoridade do soberano.

A decisão alterou o curso da história.

Povos que haviam resistido durante gerações começaram a reconhecer a autoridade de Huor. Antigas famílias governantes aceitaram integrar a nova ordem. Comunidades que haviam perdido seus territórios receberam a possibilidade de preservar seus costumes.

A guerra não desapareceu imediatamente, mas perdeu seu principal combustível.

A resistência religiosa, que durante tanto tempo havia alimentado os conflitos, deixou de ser uma condição necessária para a sobrevivência das antigas nações.

A tradição atribui a Huor uma declaração que atravessou os séculos:

"Não exigirei que todos os homens olhem para o céu e pronunciem as mesmas palavras. Exigirei apenas que compreendam que nenhuma crença lhes concede o direito de destruir o povo que vive ao seu lado."

Assim terminou o grande ciclo das guerras de unificação.

Não porque todos os povos tivessem se tornado iguais.

Mas porque, finalmente, poderiam pertencer ao mesmo reino sem precisarem renunciar a tudo aquilo que os tornava diferentes.


V. O PRIMEIRO KONUNG E A COROA DE GALLEN

Depois da consolidação de seu domínio, Huor estabeleceu as bases de uma monarquia que atravessaria as gerações.

Entre os povos de sua linhagem, o título tradicional de soberano era Konung, uma antiga designação régia associada à autoridade dos grandes chefes e reis.

Huor passou a ser reconhecido como o primeiro grande Konung da nova ordem de Gallen.

A partir de seu reinado, a sucessão deixou de representar apenas a continuidade de uma família. Tornou-se também a transmissão de uma responsabilidade: preservar a unidade de povos que, durante séculos, haviam se considerado estrangeiros uns aos outros.

O poder da coroa foi organizado ao redor de uma estrutura dinástica e militar.

As antigas famílias guerreiras receberam posições de destaque, enquanto os governantes regionais passaram a responder à autoridade central. Os exércitos foram reorganizados, as fortalezas receberam guarnições permanentes e as principais rotas comerciais passaram a contar com proteção real.

Zodhak, que se consolidaria como a principal cidade do reino, tornou-se um dos grandes símbolos dessa transformação.

Suas muralhas, suas fortalezas e suas instituições passaram a representar a continuidade da dinastia. Os estandartes das antigas famílias militares tremulavam sobre as estradas, enquanto jovens de diferentes regiões eram treinados nas artes da cavalaria e do combate.

A tradição dos cavaleiros tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis de Gallen.

Entretanto, a monarquia não apagou as antigas estruturas culturais.

Nas regiões setentrionais, os clãs conservaram seus salões e suas tradições guerreiras. Nas florestas, as comunidades continuaram preservando seus conhecimentos ancestrais. Os povos itinerantes mantiveram suas rotas comerciais, e as grandes cidades cerimoniais conservaram seus templos e observatórios.

A autoridade do Konung era comum.

A cultura, não.

E talvez tenha sido justamente essa característica que permitiu a Gallen sobreviver às transformações dos séculos seguintes.


VI. ZODHAK E AS CIDADES DAS ANTIGAS NAÇÕES

A diversidade de Gallen não se manifesta apenas em seus povos. Ela também pode ser observada em suas cidades, nas construções, nos costumes e nas diferentes formas de organização de suas comunidades.

Zodhak permanece como o principal centro político e dinástico do reino. É uma cidade profundamente associada à tradição militar, às famílias nobres e à autoridade dos Konungs.

Nas estradas que conduzem às suas muralhas, é comum encontrar cavaleiros, mercadores, mensageiros e companhias militares. Seus arredores são marcados por propriedades rurais, fortalezas familiares e locais destinados ao treinamento dos guerreiros.

Mas Zodhak não representa toda Gallen.

Em outras regiões existem povoações de arquitetura inteiramente distinta.

Algumas cidades foram construídas ao redor de grandes templos escalonados, cujas escadarias conduzem a santuários elevados. Outras possuem palácios de pedra, praças cerimoniais e observatórios utilizados por sacerdotes que dedicam a vida ao estudo dos movimentos celestes.

Nas regiões montanhosas encontram-se fortalezas construídas com blocos de pedra cuidadosamente ajustados. Seus caminhos atravessam desfiladeiros e encostas, ligando comunidades que, em outras circunstâncias, permaneceriam isoladas durante boa parte do ano.

Há também assentamentos construídos ao redor de rios, onde os mercados recebem mercadorias provenientes de regiões distantes.

Os comerciantes de Gallen mantêm relações com outros reinos, especialmente com os centros de comércio e conhecimento de Sefrion, cuja cidade de Haffen abriga importantes instituições de aprendizado. As rotas também estabelecem contato com outras regiões do continente, alcançando cidades como Gilleth, em Valeth, e Kxin, em Setra.

Ao sul, as relações comerciais podem alcançar os territórios de Aldora, onde Thirssh concentra parte importante da vida política e econômica do reino.

Essas relações contribuíram para que Gallen se tornasse uma região de grande circulação de mercadorias, conhecimentos e tradições.

O reino não é apenas uma potência militar.

É também uma ponte entre povos que, durante muito tempo, sequer conheciam a existência uns dos outros.


VII. RHAEGOR, O HUNEN DOS CÉUS

Nenhuma descrição de Gallen estaria completa sem considerar a presença de Rhaegor.

Entre os Doze Hunens, Rhaegor representa os Céus, os ventos e as tempestades. Seu domínio está associado à imensidão que se estende sobre todas as terras, à força das correntes atmosféricas e aos fenômenos que os homens contemplam sem jamais conseguir controlar inteiramente.

Seu nome está profundamente ligado à história de Gallen.

O Roc é a criatura associada a Rhaegor. Colossal, majestoso e capaz de atravessar tempestades, ele representa uma manifestação extraordinária do domínio dos céus.

Nas tradições de diferentes povos de Gallen, o Roc ocupa um lugar de grande importância.

Entre os antigos clãs guerreiros, sua aparição era interpretada como um sinal de força e soberania. Em determinadas comunidades, suas penas e representações apareciam em estandartes, adornos e objetos cerimoniais.

Para outros povos, o Roc era uma criatura sagrada, cuja presença deveria ser respeitada.

Mas existe também o Cavaleiro Guardião de Gallen: Rhaegon, o Guardião dos Céus.

Sua torre está construída no ponto mais elevado das montanhas do reino. Seu manto é branco, e sua presença está associada à contemplação das nuvens e à observação das terras que se estendem abaixo de seu domínio.

Rhaegon não é um soberano da dinastia dos Konungs, tampouco um general submetido às ordens da coroa.

Os Guardiões possuem um dever próprio: proteger os reinos associados aos antigos Hunens.

Quando uma ameaça ultrapassa aquilo que os exércitos podem enfrentar, Rhaegon pode erguer sua espada e convocar a manifestação de seu poder.

Os ventos respondem.

Os trovões começam.

E o Roc de Rhaegor surge acima das nuvens.

É importante compreender que Rhaegor, Rhaegon e o Roc não são a mesma entidade.

Rhaegor é o Hunen, a força primordial dos Céus.

Rhaegon é o Cavaleiro Guardião, escolhido para proteger Gallen.

O Roc é a criatura associada a essa manifestação de poder.

A ligação entre Guardião e criatura, entretanto, ultrapassa a simples invocação. Os Cavaleiros Guardiões podem unir-se às suas manifestações e também comunicar-se por meio delas, expressando sua própria consciência através da criatura.

Essa relação faz parte da natureza extraordinária dos Doze Guardiões.

Assim, enquanto os Konungs representam a continuidade política de Gallen, Rhaegon representa uma proteção que não depende da duração de qualquer reinado.

Reis nascem e morrem.

Dinastias ascendem e desaparecem.

Mas os Guardiões permanecem vinculados ao dever que lhes foi confiado.


VIII. A DINASTIA E O ATUAL KONUNG

Os séculos transformaram Gallen.

A antiga estrutura de clãs foi progressivamente incorporada à organização do reino. As grandes famílias conservaram seus brasões, suas propriedades e suas tradições, enquanto os descendentes dos primeiros governantes disputaram posições na corte e nos exércitos.

A monarquia atravessou períodos de prosperidade, guerras fronteiriças, disputas sucessórias e mudanças nas relações com os demais reinos de Ad’Heim.

Ainda assim, a instituição estabelecida por Huor sobreviveu.

O título de Konung tornou-se inseparável da identidade política de Gallen. Não era apenas uma palavra utilizada para designar um rei, mas uma lembrança da antiga tradição que havia reunido os clãs guerreiros sob uma mesma autoridade.

Na atualidade, o soberano é Konung Huor XI.

O décimo primeiro monarca a carregar esse nome governa uma sociedade cuja formação remonta às antigas campanhas de unificação.

Seu nome representa uma ligação direta com o fundador da dinastia e com o acontecimento que transformou Gallen em um reino.

A herança de Huor permanece presente na organização política, nas tradições militares e na convivência entre os diferentes povos.

Entretanto, governar Gallen nunca foi uma tarefa simples.

O reino possui uma nobreza antiga, comunidades que preservam costumes muito anteriores à monarquia e tradições religiosas que nem sempre compartilham os mesmos princípios.

O Konung precisa preservar o equilíbrio entre essas forças.

Sua autoridade depende da continuidade das instituições, mas também do reconhecimento de que a diversidade que compõe Gallen não pode ser simplesmente eliminada.

Zodhak permanece como o coração da monarquia.

As fortalezas continuam abrigando as antigas famílias militares.

E, nas diferentes regiões do reino, os povos preservam suas línguas, celebrações, templos e histórias.

A unidade de Gallen não é a ausência de diferenças.

É a permanência de uma ordem política capaz de abrigá-las.


IX. O CENTAURO E A IDENTIDADE DE GALLEN

Entre os símbolos associados aos reinos de Ad’Heim, poucos representam tão bem a identidade de Gallen quanto o centauro.

A criatura reúne características humanas e equinas, combinando inteligência, força, velocidade e habilidade de combate.

É um símbolo particularmente apropriado para uma sociedade cuja história está profundamente relacionada à cavalaria, à guerra e à disciplina militar.

Em Gallen, quase todo homem aprende a montar antes mesmo de dominar as letras. Os cavalos são parte da vida cotidiana, e as famílias que possuem tradição militar costumam transmitir aos filhos os conhecimentos necessários para cavalgar, utilizar lanças e manejar espadas desde a juventude.

As grandes propriedades mantêm estábulos, campos de treinamento e animais selecionados para diferentes finalidades.

A cavalaria constitui uma das principais forças do reino.

Entretanto, o símbolo do centauro não representa apenas a habilidade de montar.

Representa a união entre duas naturezas: a razão e o instinto, a disciplina e a força, a inteligência e a capacidade de agir.

É uma imagem que se ajusta à própria história de Gallen.

Um reino constituído por povos diferentes, cada qual preservando suas próprias características, mas submetidos a uma mesma estrutura de autoridade.

Por isso, o centauro permanece associado à identidade territorial de Gallen e à tradição de seus cavaleiros.


X. O LEGADO DOS MIL POVOS

Muito antes da Guerra dos Duzentos Anos, Gallen já havia atravessado uma transformação que poucos reinos de Ad’Heim poderiam compreender.

Seus povos conheceram a fragmentação, a conquista e a resistência. Viram antigas dinastias desaparecerem, cidades serem reconstruídas e tradições espirituais sobreviverem a gerações de conflitos.

Rajah foi determinante para a formação daquela nova ordem.

Huor compreendeu que a força necessária para conquistar um território não era a mesma força necessária para preservá-lo.

A liberdade religiosa concedida durante seu reinado encerrou o grande ciclo das guerras de unificação e permitiu que diferentes povos permanecessem sob uma mesma coroa sem abandonarem suas tradições.

Rhaegor continuou associado à imensidão dos céus.

Rhaegon permaneceu como Guardião.

O Roc continuou atravessando as tempestades.

E a dinastia dos Konungs chegou, através dos séculos, ao reinado de Huor XI.

Gallen não se tornou um reino porque todos os seus habitantes passaram a falar a mesma língua, venerar os mesmos deuses ou compartilhar os mesmos costumes.

Tornou-se um reino porque suas diferenças deixaram de ser, necessariamente, uma sentença de guerra.

E talvez essa seja a maior herança de Huor.

Pois há conquistas que podem ser preservadas pelas muralhas, outras pelas espadas e algumas pela força dos exércitos.

Mas uma nação formada por tantos povos somente permanece unida quando aqueles que a governam compreendem que nem tudo aquilo que é diferente precisa ser destruído.

Assim permanece Gallen: a terra dos antigos clãs, das cidades monumentais, dos cavaleiros, dos druidas, das volvas, dos oráculos e dos xamãs.

Uma terra de muitas memórias, muitas tradições e muitas nações.

Uma terra sob os céus de Rhaegor.

E sob a coroa dos Konungs.

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