Os que Caminham sob as Duas Luas, os Nomes que Ainda Sangram e a Torre que Guardava os Mortos
Por Yuri Schein
Uma jornada para além das próprias certezas
Depois dos acontecimentos de O Crepúsculo dos Reinos, a saga Ad’Heim chega ao seu quarto livro com uma narrativa que se afasta, por um momento, dos grandes movimentos dos exércitos e das disputas entre as coroas. A história acompanha três viajantes que, conduzidos por caminhos diferentes, acabam unidos diante de uma construção ancestral: a Torre dos Desafios, em Lenória.
Andrew Stormheart, paladino de Rajah; Siren Deadblood, uma meio-demônio que carrega uma relação complexa com a própria natureza; e Tiff Littlefoot, um gnomo ladrão de língua afiada, atravessam a Floresta Encantada e chegam a um lugar onde o passado não está verdadeiramente morto.
A torre guarda nomes, lembranças, poderes e consequências. Seus corredores não são apenas passagens entre câmaras, mas caminhos que conduzem os visitantes a verdades que talvez preferissem não encontrar.
Ao longo de onze capítulos, os três enfrentam criaturas, provações, histórias antigas e escolhas que colocam à prova aquilo em que acreditam. O que começa como uma jornada de sobrevivência transforma-se numa experiência capaz de alterar profundamente o destino de cada um.
A Floresta que Não Dormia
A narrativa começa com Siren Deadblood atravessando sozinha a Floresta Encantada de Lenória. O lugar apresenta sinais de uma presença antiga e inquietante. O silêncio parece construído, os animais desaparecem, ossos são encontrados dispostos de maneira incomum e um círculo de cinzas permanece quente sem que haja qualquer sinal de fogo recente.
A floresta parece guardar acontecimentos que não pertencem à memória de Siren, mas que, de alguma forma, conseguem alcançá-la. Ela percebe sons, imagens e sensações que sugerem a existência de mortes antigas, de armaduras esquecidas e de algo que continua presente mesmo depois de desaparecer do mundo visível.
Ferida e cansada, Siren encontra uma estrada antiga, mas é atacada por criaturas semelhantes a lobos, grandes e agressivas. Quando sua magia encontra resistência no próprio ambiente, um cavaleiro surge para protegê-la.
Seu nome é Andrew Stormheart, um paladino de Rajah vindo de Aldora. A armadura branca traz o símbolo dos Doze Hunens, e sua conduta revela um homem que considera a espada uma responsabilidade, não apenas uma arma.
Andrew não exige explicações de Siren, não tenta dominá-la e não transforma sua situação em oportunidade para obter favores. Oferece água, comida e abrigo, respeitando a decisão dela de aceitar ou recusar sua ajuda.
A relação entre os dois começa marcada pela desconfiança, mas também por uma diferença importante: Andrew não precisa conhecer toda a história de alguém para reconhecer que essa pessoa precisa de auxílio.
É nesse caminho que surge Tiff Littlefoot. O gnomo acompanha os acontecimentos com seu humor provocador, mas também carrega um objetivo próprio: há três anos procura uma chave cuja origem e finalidade ainda não compreende completamente.
Os três seguem juntos. Nenhum confia inteiramente nos outros, mas a floresta deixa claro que a sobrevivência talvez dependa justamente dessa união.
A Estrada dos Nomes que Ainda Sangram
A jornada conduz os viajantes por caminhos onde as marcas do passado parecem permanecer vivas. As criaturas que encontram não são os únicos perigos. Há vestígios de acontecimentos anteriores, passagens subterrâneas, sinais de antigas mortes e presenças que parecem reconhecer os viajantes antes mesmo de serem vistas.
A chave de Tiff torna-se cada vez mais importante. O objeto reage à região e parece possuir uma ligação com a torre, embora o gnomo ainda não conheça a extensão dessa relação.
A estrada também aproxima os três de outros sobreviventes e de personagens que carregam histórias próprias. Entre eles estão Matthew, um vampiro de personalidade mordaz, Kael e um ninja cuja trajetória se encontra ligada a uma mensagem recebida de um oráculo.
Aos poucos, fica evidente que os caminhos de todos eles convergem para o mesmo lugar. Não se trata de uma coincidência simples. A torre parece reunir pessoas cujas escolhas ainda não chegaram ao seu verdadeiro ponto decisivo.
A jornada também apresenta uma ideia recorrente no livro: os nomes continuam ligados às vidas que os carregaram. Mesmo quando os corpos desaparecem, aquilo que alguém fez, escolheu ou deixou para trás pode continuar produzindo consequências.
A Torre que Guardava os Mortos
A construção ancestral recebe os viajantes como se já soubesse que eles chegariam.
É ali que encontram Ranur, o Guardião de Lenória, cuja presença está profundamente ligada à história da torre. Sua figura não é a de um simples anfitrião ou protetor de uma construção antiga. Ranur conhece parte dos segredos que ela conserva e compreende que os visitantes precisam atravessar provações antes de alcançar aquilo que procuram.
A torre é chamada de Torre dos Desafios e também de Torre de Ranur. Suas câmaras guardam inscrições, mecanismos, passagens e memórias que ultrapassam a história dos reinos conhecidos.
Ranur explica que nenhum Guardião nasce pronto. As lendas costumam retirar as dificuldades das histórias para que a virtude caiba numa canção, mas a realidade é muito diferente. A virtude tem preço, e a responsabilidade de proteger não pode ser confundida com vaidade ou desejo de poder.
A construção também revela uma relação com acontecimentos muito antigos, inclusive com a queda de seres que acreditaram poder dominar aquilo que deveria permanecer além de seu alcance.
A presença de Ranur é fundamental porque ele não oferece aos viajantes respostas fáceis. Em vez disso, conduz cada um a compreender o peso daquilo que carrega.
O Guardião das Mentiras
Entre os acontecimentos que marcam a travessia está o confronto com histórias de identidade, aparência e verdade.
A torre não trabalha apenas com obstáculos físicos. Suas provas expõem as contradições daqueles que tentam esconder suas intenções, justificar suas escolhas ou transformar uma mentira em uma realidade conveniente.
A própria história dos antigos habitantes e guardiões do lugar demonstra que o conhecimento pode ser usado tanto para preservar quanto para aprisionar.
A jornada de Tiff ganha especial importância nesse contexto. O gnomo não é apenas um ladrão que deseja possuir um objeto misterioso. Sua busca está ligada a uma necessidade mais profunda de encontrar um caminho próprio, algo que já havia sido anunciado a outro personagem por meio de uma mensagem oracular.
O ninja, por sua vez, havia recebido a indicação de que encontraria seu caminho quando encontrasse um gnomo de língua afiada. A profecia não lhe entregava uma resposta pronta, mas o colocava diante de uma escolha que somente ele poderia realizar.
O livro desenvolve, assim, uma distinção importante: conhecer o caminho não significa estar obrigado a percorrê-lo. Uma indicação pode conduzir alguém até uma decisão, mas não substitui a responsabilidade de escolher.
O Peso daquilo que se Crê
As provações seguintes aprofundam os conflitos interiores dos personagens.
Andrew precisa confrontar o que significa servir a Rajah e proteger os outros sem transformar o dever numa justificativa para controlar suas vidas. Sua fé não elimina suas dúvidas, nem o torna imune ao sofrimento.
Siren, por sua vez, precisa lidar com a própria dualidade. Sua natureza meio-demoníaca não é um detalhe superficial, mas parte de sua identidade e da maneira como o mundo a percebe. O conflito não consiste simplesmente em eliminar aquilo que existe de sombrio nela, mas em compreender o que pode fazer com esse poder sem se tornar escrava dele.
Tiff enfrenta a diferença entre esconder-se atrás do sarcasmo e assumir a responsabilidade pelas próprias decisões. Sua habilidade de escapar, roubar e encontrar passagens não o isenta de enfrentar aquilo que realmente importa.
As histórias contadas dentro da torre também ampliam a compreensão do passado de Ad’Heim. O livro apresenta narrativas sobre reis, ladrões, antigos seres e pessoas que tentaram recuperar aquilo que haviam perdido, frequentemente descobrindo tarde demais que a tentativa de corrigir o passado pode destruir o que ainda permanece no presente.
Uma das ideias que atravessa essas histórias é que a crença não surge num vazio. Mesmo aquele que procura provas já parte de pressupostos que orientam sua busca. A torre obriga os viajantes a reconhecerem o peso das convicções que sustentam suas decisões.
A Ordem que Não Matava
A travessia não é feita apenas de reflexões. Os corredores da torre escondem perigos reais, e os viajantes enfrentam criaturas e adversários que exigem combate, estratégia e sacrifício.
Entre os acontecimentos mais graves estão as perdas de Matthew e Kael. A morte dos companheiros altera a condição emocional dos sobreviventes e demonstra que a torre não é um lugar onde todos recebem uma oportunidade de retornar.
A presença de Seraphine também se torna decisiva. A bruxa procura realizar um ritual que exige uma entrega apresentada como voluntária, mas sua intenção é forçar a torre a reconhecer como sacrifício aquilo que, na realidade, seria assassinato.
Siren percebe a natureza do mecanismo e rompe uma das linhas do círculo ritualístico, interrompendo o procedimento e fazendo Seraphine perder momentaneamente o controle.
A disputa demonstra que a torre não reconhece qualquer ato de violência como uma oferta legítima. A intenção e a natureza da escolha importam.
O confronto deixa marcas profundas nos três protagonistas. Eles precisam continuar mesmo depois de perder companheiros, enfrentar poderes superiores e descobrir que nem toda ameaça pode ser resolvida pela força.
O Preço de um Nome
O título do sétimo capítulo expressa uma das questões centrais da obra: um nome não é apenas uma palavra usada para identificar alguém. Pode carregar uma história, uma responsabilidade, uma herança e uma transformação.
Os acontecimentos da torre conduzem Andrew, Siren e Tiff a confrontarem aquilo que realmente são, sem depender das máscaras que utilizaram para sobreviver.
A dualidade de Siren deixa de ser tratada como algo que precisa simplesmente ser negado. Andrew precisa reconhecer que sua fé e seu desejo de proteger não o tornam incapaz de errar. Tiff precisa decidir se continuará sendo apenas aquele que procura objetos e escapa de perigos ou se aceitará o significado mais profundo de sua própria jornada.
A torre não lhes oferece uma transformação gratuita. Cada avanço exige que abandonem alguma ilusão sobre si mesmos.
Descanso
Depois das provações e perdas, os sobreviventes encontram um intervalo para recuperar as forças.
O descanso, porém, não representa esquecimento. Matthew e Kael continuam presentes na memória dos companheiros, e as histórias contadas durante a jornada passam a adquirir um significado mais íntimo.
Andrew e Siren aproximam-se. A relação entre ambos se desenvolve sem que as dificuldades desapareçam. Há afeto, mas também receio, feridas e a consciência de que não podem prometer aquilo que não controlam.
Tiff também compartilha histórias e continua usando o humor como parte de sua maneira de enfrentar o mundo. Uma de suas narrativas, contada durante o repouso, fala de um rei preso às próprias lembranças e incapaz de abandonar o passado.
Siren, por sua vez, conta a história de Vharak, o Guardião das Mil Faces, um antigo Hunen capaz de assumir a aparência de outras criaturas. Sua vaidade o leva a roubar o Coração de Aurel, uma joia que, segundo a tradição, revelava a verdadeira natureza de quem a segurasse.
Vharak acredita ter enganado o guardião Othar, mas sua própria necessidade de demonstrar superioridade acaba revelando sua identidade. Como punição, perde o controle sobre as próprias transformações: continua capaz de mudar de forma, mas jamais pode escolher qual forma assumirá.
A história reforça um dos temas do livro: possuir uma capacidade extraordinária não significa estar livre das consequências de seu uso. Aquele que confunde poder com ausência de responsabilidade pode acabar aprisionado justamente por aquilo que acreditava dominar.
A Penúltima Sala: a história da Guerra dos Duzentos Anos
A penúltima sala reserva uma das revelações históricas mais importantes do livro.
Ranur explica que a Guerra dos Duzentos Anos não começou simplesmente quando um exército atravessou uma fronteira. Antes da primeira grande batalha, houve decisões políticas, ofensas, interesses, mentiras e juramentos que prepararam o terreno para o conflito.
A primeira grande ruptura teve origem numa questão que parecia pequena diante das consequências que produziria: um casamento.
Uma união havia sido negociada entre casas governantes, com o propósito de fortalecer alianças, assegurar direitos sucessórios e aproximar interesses comerciais. A recusa da princesa, entretanto, foi transformada por homens poderosos numa questão de honra, autoridade e domínio.
A guerra não nasceu simplesmente porque um casamento deixou de acontecer. Nasceu daquilo que os poderosos decidiram fazer diante da recusa.
Ranur também revela o peso do juramento dos Guardiões durante a guerra. Nem todos concordavam sobre a maneira como os Doze deveriam agir. Alguns defendiam uma intervenção mais direta para proteger os povos; outros temiam que o emprego irrestrito de sua força os transformasse em governantes.
O problema não era apenas decidir se deveriam agir, mas compreender até onde a proteção poderia avançar antes de se tornar domínio.
O Guardião explica que permanecer fiel ao juramento podia ser doloroso, especialmente quando a obediência parecia cruel diante do sofrimento dos povos. Ainda assim, ultrapassar determinados limites significaria abandonar a própria função e transformar os protetores em outra coisa.
A sala também apresenta a história de Nhar-Vel, uma cidade antiga destruída por uma criatura que seus habitantes acreditavam poder dominar.
O responsável por tentar controlar essa criatura foi Varkhass, um Hunen cuja ambição o levou a acreditar que nada deveria existir acima de seu próprio domínio. A criatura destruiu a cidade, deixando uma cicatriz que permanece associada à memória da torre.
A história funciona como advertência contra a arrogância daqueles que acreditam que poder e conhecimento lhes concedem o direito de dominar tudo o que encontram.
O Oráculo das Almas
Ao alcançar as câmaras mais profundas, os viajantes encontram Tar Morghus, o último dos Vorathim.
Sua existência está ligada à própria história da torre e a um conflito antigo com Ranur e a Hunen de Lenória. Tar Morghus foi quebrado e aprisionado, mas ainda conserva conhecimentos e poderes que podem ser transmitidos.
O Oráculo das Almas reconhece que os três sobreviventes carregam características necessárias para enfrentar uma ameaça que se aproxima de Lenória. Eles não foram escolhidos simplesmente por serem os mais fortes, mas porque suas experiências os colocaram diante de questões que outros talvez não conseguissem suportar.
Tar Morghus revela que a torre pode transferir o poder daqueles que morreram para aqueles que permaneceram vivos. Assim, as essências de Matthew, Seraphine e do ninja são transmitidas aos três protagonistas.
Andrew recebe poderes associados à velocidade sobrenatural e à percepção do sangue e da morte de Matthew, além do conhecimento residual de Seraphine sobre as correntes mágicas e da precisão do ninja. Sua espada é reconstruída e recebe uma nova forma, com veios prateados e negros. Ele passa a ser chamado de Vingador de Rajah, tornando-se o Guardião da Fronteira entre a ordem e o abismo.
Siren recebe uma transformação profunda. Sua magia negra deixa de se manifestar apenas como uma força caótica e passa a adquirir maior domínio e precisão. O poder transmitido permite que ela abrace sua dualidade sem se submeter a ela. Ela se torna a Arqui-Bruxa da Chama Gêmea.
Tiff recebe o poder associado às passagens e aos caminhos impossíveis. A chave, o anel e a joia de âmbar se completam, e ele passa a ser reconhecido como o Sicário das Passagens, capaz de abrir caminhos que nenhum mapa ousaria registrar.
As três transformações não apagam quem eram. São heranças dos mortos, mas também responsabilidades que os vivos precisarão aprender a carregar.
Tar Morghus deixa claro que o poder recebido ainda será testado. O que se aproxima de Ad’Heim exigirá mais do que força física: exigirá espírito, vínculo e a capacidade de não se tornar escravo da própria natureza.
O Cavaleiro do Basilisco
A revelação final do Oráculo aponta para uma ameaça que já marcha em direção a Lenória: Maelor Theryn, o Cavaleiro do Basilisco.
Maelor é um homem de convicções rígidas, que considera sua missão uma forma de justiça sagrada. Em nome de sua doutrina, classifica como heresia aquilo que não aceita e acredita que a ordem precisa ser preservada mesmo que isso exija a destruição de pessoas, templos e comunidades.
O Basilisco que o acompanha possui um olhar capaz de paralisar guerreiros e transformar seus corpos em pedra. Sua força representa um perigo especial para Lenória, sobretudo porque Maelor não pretende apenas vencer uma batalha: deseja apagar aquilo que considera uma ameaça à ordem que defende.
Tar Morghus revela que os três foram preparados para enfrentá-lo. A chave de Tiff poderá abrir o caminho, a lâmina de Andrew colocará à prova a certeza de Maelor e a chama de Siren poderá enfrentar a petrificação.
O Oráculo também ensina a Andrew a Explosão Sagrada, uma técnica de libertação extrema de luz e vontade, capaz de atingir as próprias correntes de poder que sustentam um adversário. Entretanto, há um preço: somente um verdadeiro Guardião pode utilizá-la sem perder definitivamente seus poderes. Para Andrew, o uso representa o risco real de que todas as capacidades recebidas sejam apagadas.
A torre termina sua preparação, mas não promete uma vitória fácil.
O Olhar que Não Perdoa
Os três deixam a torre e seguem em direção ao confronto com Maelor Theryn.
A batalha coloca frente a frente duas concepções incompatíveis de ordem. Para Maelor, a preservação de sua doutrina justifica a eliminação daqueles que considera hereges. Para Andrew, proteger não significa transformar toda diferença em ameaça. O paladino insiste em enxergar pessoas onde o Cavaleiro do Basilisco enxerga apenas inimigos.
Siren utiliza a Chama Gêmea para enfrentar a criatura e impedir que sua petrificação alcance os companheiros. Tiff emprega os poderes das passagens para escapar dos ataques e encontrar oportunidades de intervenção. Andrew enfrenta Maelor diretamente, usando a Lâmina do Equilíbrio Quebrado.
O combate é violento e cobra um preço elevado. Os três são feridos, e o Basilisco demonstra uma resistência que ultrapassa aquilo que haviam enfrentado até então.
Maelor acaba morrendo, mas sua morte não encerra a ameaça. A energia do Vórtice que abandona seu corpo é absorvida pela criatura, tornando-a ainda mais poderosa. O Basilisco passa a carregar não apenas sua força anterior, mas também os resíduos da vontade e das convicções de seu cavaleiro.
A vitória sobre Maelor, portanto, produz uma situação ainda mais perigosa. O homem que desejava impor sua ordem morreu, mas a criatura que ele protegia continua viva e agora possui uma força ampliada.
É nesse momento que Tiff compreende o verdadeiro alcance da chave que procurou durante três anos. Ela pode abrir uma passagem entre lugares que não obedecem às distâncias comuns, um caminho que atravessa a própria estrutura do mundo.
O mecanismo, porém, reconhece o portador. Para transportar o Basilisco, Tiff também precisará atravessar a passagem.
O gnomo entende que talvez não exista outra maneira de impedir que a criatura continue destruindo tudo ao redor. Andrew e Siren estão gravemente feridos e não conseguem enfrentá-la novamente.
Tiff decide permanecer com a chave e conduzir o Basilisco para além daquela realidade.
Antes de desaparecer, dirige-se aos companheiros. Pede a Andrew que não transforme sua escolha em mais uma culpa a carregar. A Siren, lembra que ela não precisa enfrentar tudo sozinha. E, fiel à própria natureza, ainda encontra espaço para uma última provocação.
A passagem se fecha levando Tiff e o Basilisco.
O monstro desaparece. Tiff também.
O que o quarto livro estabelece para Ad’Heim
Ad’Heim — Livro IV estabelece acontecimentos fundamentais para a continuidade da saga:
- Andrew Stormheart é um paladino de Rajah, originário de Aldora. Após as provações da torre e a transferência das essências, torna-se o Vingador de Rajah e Guardião da Fronteira entre a ordem e o abismo.
- Siren Deadblood é uma meio-demônio cuja trajetória envolve a aceitação e o domínio de sua dualidade. Ao receber o poder transmitido pela torre, torna-se a Arqui-Bruxa da Chama Gêmea.
- Tiff Littlefoot é um gnomo ladrão que procura uma chave há três anos. Ao completar a chave com a joia e o anel, torna-se o Sicário das Passagens.
- Ranur é o Guardião de Lenória e está profundamente ligado à Torre dos Desafios, também chamada Torre de Ranur.
- Tar Morghus é o último dos Vorathim, um ser antigo que permaneceu aprisionado e conserva o poder de transferir as essências dos mortos.
- Matthew, Seraphine e o ninja Kael têm suas essências transmitidas aos três protagonistas, deixando heranças de poder e conhecimento.
- Kael, o ninja também morre durante os acontecimentos da torre.
- Vharak, o Guardião das Mil Faces, é apresentado na história contada por Siren. Sua punição consiste em perder o controle sobre as próprias transformações.
- Othar, o Vigia do Limiar, é o Hunen que derrota Vharak e protege o Coração de Aurel.
- Varkhass é o Hunen cuja ambição levou à destruição de Nhar-Vel ao tentar dominar uma criatura que não deveria ter sido submetida.
- Maelor Theryn é o Cavaleiro do Basilisco, um adversário que justifica a destruição em nome de uma ordem doutrinária.
- O Basilisco sobrevive à morte de Maelor e absorve a energia residual do Cavaleiro, tornando-se ainda mais perigoso.
- A Explosão Sagrada é ensinada a Andrew por Tar Morghus, mas seu uso pode extinguir os poderes do paladino.
- A chave de Tiff não é apenas um objeto para abrir fechaduras: permite criar passagens entre lugares e caminhos que não obedecem à geografia comum.
- Tiff desaparece ao atravessar a passagem junto com o Basilisco. O livro não confirma sua morte. Seu destino permanece desconhecido, e a possibilidade de retorno continua em aberto.
O quarto livro de Ad’Heim
O quarto livro amplia a mitologia de Ad’Heim ao apresentar uma antiga torre ligada à memória dos mortos, à história dos Guardiões e a poderes que ultrapassam a compreensão comum dos reinos.
A obra também aprofunda a origem da Guerra dos Duzentos Anos, mostrando que conflitos dessa dimensão não nascem apenas de batalhas, mas de decisões políticas, interesses, ofensas e convicções que se acumulam ao longo do tempo.
Andrew, Siren e Tiff atravessam a torre como pessoas diferentes daquelas que nela entraram. Recebem poderes extraordinários, mas também herdam as consequências das vidas que os precederam.
O livro termina sem oferecer uma conclusão simples. Maelor está morto, mas o Basilisco permanece como ameaça em algum lugar além da passagem. Tiff desapareceu, e seus companheiros não sabem onde ele está ou se poderão reencontrá-lo. Andrew e Siren sobrevivem, feridos, diante de uma estrada que já não será a mesma.
A torre cumpriu sua parte. Agora, o destino dos três pertence ao mundo.
Em Ad’Heim, os mortos nem sempre deixam de agir, os nomes nem sempre desaparecem e as portas mais perigosas são aquelas que se abrem dentro daqueles que acreditavam conhecer a si mesmos.

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