terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: O Filho das Águas


Por Yuri Schein  

Enquanto Thomas carregava o corpo de Ikarus pelas ruínas de Lenória Imperial, evitando as ruas onde os mortos-vivos ainda rondavam e os dragões corrompidos ainda caçavam, a mente do guerreiro permanecia em outro lugar.


O fundo do mar.


A escuridão azul-profunda o envolvia novamente, mais clara agora, mais definida. A pressão da água era constante, mas já não doía. As algas antigas se moviam ao redor dele como se o reconhecessem. E, a poucos metros de distância, o homem de cabelos e olhos azuis flutuava com a mesma tranquilidade de antes. O sorriso ainda estava lá — sereno, antigo, quase paternal.


Ikarus tentou falar. Desta vez a voz saiu, abafada pela água, mas compreensível.


— Você… é Kallon.


O Hunen inclinou a cabeça em um gesto de confirmação.


— Sou. E você finalmente consegue dizer meu nome sem que a mente se recuse a aceitar.


Ikarus olhou para as próprias mãos. Naquele espaço de transe, a ferida no peito ainda existia, mas a luz dourada e azul que saía dela se entrelaçava de forma mais harmônica.


— Por que eu? Por que me mostrou isso? Por que a aura… por que o azul?


Kallon se aproximou um pouco. Os cabelos azuis flutuavam ao redor do rosto como correntes vivas. Os olhos — do mesmo tom profundo do mar ao redor — não desviavam.


— Porque você é meu filho, Ikarus.


O silêncio que se seguiu foi mais denso que a água.


Ikarus sentiu o corpo do transe tremer. A luz ao redor dele oscilou violentamente entre o dourado residual de Ranur e o azul antigo de Kallon.


— Isso… não é possível. Os Hunens… vocês não…


— Não geram filhos com mortais — completou Kallon, a voz calma. — Era o que todos acreditavam. Era o que os outros Doze preferiam acreditar. Mas houve uma exceção. Uma única. Sua mãe era humana. Uma mulher de Lenória que, há décadas, encontrou o mar em um momento em que eu ainda caminhava entre os mortais com mais frequência. O que nasceu dessa união… foi você. O único filho de um Hunen com uma mortal que existe em Ad’Heim.


Ikarus abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu de imediato. A revelação pesava mais que a pressão das profundezas.


— Então… o poder de Ranur… o dourado…


— O dourado é o presente de um Guardião que escolheu você no momento da morte. Ranur viu algo. Talvez tenha sentido o sangue antigo que corre em você. O azul… esse sempre esteve adormecido. Eu o mantive selado por anos. Para protegê-lo. Para que os outros Hunens não o encontrassem. Para que Arteph, Baltamus ou mesmo os Três Desertores não descobrissem que um filho mestiço existia.


Kallon estendeu a mão, sem tocar Ikarus, apenas mantendo a palma aberta entre os dois.


— Até hoje eu pude protegê-lo de longe. Mesmo ferido. Mesmo com a Costura aberta e Vaelthas Levi movendo suas peças. Mas a proteção à distância tem limites. A ferida que Angarkor abriu em você não é apenas física. Ela rasgou a barreira que eu havia colocado. O dourado de Ranur e o azul do meu domínio estão se misturando sem controle. Se isso continuar sem direção… você pode se perder entre os dois. Ou pior: pode se tornar algo que nenhum dos lados consegue reivindicar.


Ikarus sentiu a água ao redor tremer com a força da revelação.


— O que eu preciso fazer?


— Seus amigos já decidiram o caminho — respondeu Kallon. — Eles estão te levando para a Ilha. Para o Templo. É o único lugar onde eu posso agir de forma mais direta sem atrair a atenção completa dos outros. Lá, no coração do meu domínio antigo, eu poderei estabilizar o que está despertando em você. Você receberá mais do fortalecimento do Reino das Águas. O azul se tornará consciente. O dourado de Ranur se acomodará. E então… você poderá retornar a Lenória. Não como o homem que caiu diante de Angarkor. Mas como alguém que carrega dois domínios.


O Hunen sorriu novamente, desta vez com um toque de tristeza.


— Eu não pude criá-lo. Não pude caminhar ao seu lado. Mas posso fazer isso. Posso dar a você a chance de sobreviver ao que está vindo. E ao que Vaelthas Levi e Angarkor ainda pretendem libertar.


Ikarus olhou para o próprio peito, onde a luz dourada e azul pulsava em uníssono.


— E minha mãe?


Kallon demorou um instante antes de responder.


— Ela já não está entre os vivos. Mas o mar ainda carrega a memória dela. Quando você chegar ao Templo… talvez consiga ouvi-la também.


A escuridão azul ao redor começou a se clarear. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximava novamente.


— Vá — disse Kallon. — Seus amigos estão te carregando através de uma cidade que morre. O caminho até a Ilha será perigoso. Mas eu ainda posso proteger de longe… por enquanto. Quando chegar ao Templo, eu estarei esperando.


Ikarus sentiu o transe começar a se desfazer.


— Pai…


Kallon sorriu uma última vez.


— Durma mais um pouco, meu filho. Quando acordar de verdade… o mar já estará ao seu lado.


No mundo real, o corpo de Ikarus tremeu levemente nos braços de Thomas.  


A aura dourada e azul se intensificou por um instante, o suficiente para fazer Raella e Gillian olharem com esperança renovada. Os lábios de Ikarus se moveram. Desta vez a palavra saiu clara, embora ainda baixa:


— Kallon… Templo…


Thomas apertou o corpo do companheiro com mais firmeza e olhou para o oeste, onde, além das muralhas quebradas de Lenória e do Mar Divisor, a Ilha de Kallon esperava sob um céu carregado de fumaça e de presságios.


— Então é isso — murmurou o meio-dragão. — Vamos para a Ilha.


E, enquanto o grupo avançava pelas ruínas da cidade que um dia fora o orgulho de Lenória, no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa, Kallon, o Hunen das Águas, observava o filho pela última vez antes de se preparar para recebê-lo no Templo.


A jornada até a Ilha havia começado.



Ad’Heim: O Nome nas Profundezas


Por Yuri Schein  

O porão sob as ruínas de Lenória Imperial cheirava a mofo, a cera derretida e a sangue seco. As bênçãos residuais da sacerdotisa de Valeth ainda seguravam a maior parte das criaturas do lado de fora, mas o chão tremia de tempos em tempos com o impacto distante de dragões corrompidos e de muralhas que continuavam a cair. Tochas improvisadas iluminavam o espaço estreito onde os sobreviventes se amontoavam. No centro, sobre um manto rasgado estendido no chão de pedra, Ikarus jazia imóvel.


A aura dourada e azul ao redor do corpo dele havia se estabilizado em um brilho fraco e constante. A ferida no peito não sangrava mais com a mesma intensidade, mas também não fechava. Era como se duas forças distintas — o residual de Ranur e algo muito mais antigo — estivessem disputando o direito de mantê-lo vivo.


Raella ajoelhava-se ao lado da cabeça de Ikarus, os dedos levemente tocando a testa dele. A capa mágica, ainda opaca, tremia de forma quase imperceptível. Gillian, com o braço quebrado agora imobilizado de forma mais adequada, observava em silêncio. Thomas permanecia de pé, as asas meio recolhidas, os olhos vermelhos fixos na entrada do porão como se esperasse que a qualquer momento os mortos-vivos conseguissem atravessar as últimas defesas.


Foi a sacerdotisa quem quebrou o silêncio.


— Essa luz azul… — murmurou ela, inclinando-se mais perto. — Não é de Lenoria. Não é de Valeth. Não é de nenhum dos domínios que eu reconheça de imediato.


Raella ergueu o olhar.


— No transe… ele falou. Ou pelo menos tentou. Havia um homem. Cabelos azuis. Olhos azuis. No fundo de um mar.


A sacerdotisa ficou completamente imóvel.


— Descreva o rosto.


Raella fechou os olhos, tentando lembrar das palavras fragmentadas que Ikarus havia murmurado durante a jornada de volta.


— Ele sorria. Não de forma cruel. Era… antigo. Como se já conhecesse Ikarus. E a água ao redor não parecia pertencer a nenhum oceano que eu já tenha visto. Era mais profunda. Mais quieta. Mais… velha.


A sacerdotisa levou a mão à boca. Os olhos dela se encheram de algo que misturava temor e compreensão súbita.


— Kallon.


A palavra saiu baixa, quase um sussurro, mas ecoou no porão como se tivesse peso físico.


Thomas franziu o cenho.


— O reino? A ilha?


— Não — respondeu a sacerdotisa, a voz agora mais firme, embora ainda abalada. — O Hunen. Kallon, o senhor das águas. Aquele cujo domínio é o mar e tudo o que existe abaixo dele. O mesmo cujo nome deu origem à Ilha de Kallon, a oeste daqui. Se Ikarus o viu… se o Hunen se manifestou diretamente no transe dele…


Ela olhou novamente para a aura azul que se entrelaçava com o dourado residual de Ranur.


— Então o poder que está despertando dentro de Ikarus não é apenas o de um Guardião. É algo que cruza dois domínios. Lenoria e Kallon. Guerra e Mar. Ouro e azul.


Gillian apertou os lábios.


— E o que isso significa?


A sacerdotisa demorou a responder. Quando falou, a voz saiu carregada de uma gravidade antiga.


— Significa que ele não vai se recuperar completamente aqui. As bênçãos de Valeth podem segurar a ferida por um tempo. Mas o que está acontecendo dentro dele… só pode ser compreendido — e talvez estabilizado — no território original de Kallon. No Templo.


Thomas sentiu um arrepio percorrer as escamas.


— O Templo de Kallon. Na ilha.


— Sim. A oeste de Lenória, além do Mar Divisor, na Ilha de Kallon. O templo fica no ponto mais alto dos penhascos, onde o oceano encontra a pedra antiga. Poucos mortais já entraram nele desde que os Hunens se afastaram. E menos ainda voltaram. Mas se o senhor das águas se mostrou a Ikarus… então o caminho já foi aberto. De alguma forma.


Raella olhou para o corpo imóvel do companheiro.


— E se levá-lo até lá for exatamente o que o Necromante espera? Ou Angarkor?


A sacerdotisa balançou a cabeça lentamente.


— Talvez seja. Mas deixá-lo aqui, com a ferida aberta e dois domínios disputando o corpo dele, também é uma sentença. A aura está estável por enquanto. Não vai permanecer assim para sempre. Se o azul de Kallon continuar crescendo sem direção… ou se o dourado de Ranur se apagar completamente… ele pode se perder entre os dois. Ou pior.


Thomas ajeitou as asas e olhou para a entrada do porão, onde o som distante de batalha ainda ecoava.


— Lenória está em ruínas. As outras cidades grandes também, pelo que vocês disseram. O mundo inteiro está sob ataque. E agora… temos que atravessar o mar até uma ilha que pode estar igualmente devastada.


— Ou pode ser um dos últimos lugares onde o domínio de Kallon ainda resiste — respondeu a sacerdotisa. — O mar sempre foi mais difícil de corromper do que a terra. Pelo menos… era.


Gillian se levantou com dificuldade, o braço quebrado pressionado contra o peito.


— Então vamos. Não temos outra escolha. Ikarus nos trouxe até aqui. Agora somos nós que precisamos levá-lo até o templo.


Raella assentiu em silêncio. Thomas ajoelhou-se ao lado de Ikarus e, com cuidado, ergueu o corpo do guerreiro novamente nos braços. A aura dourada e azul tremeu, mas não se apagou. Por um instante, os lábios de Ikarus se moveram. Uma única palavra escapou, tão baixa que quase se perdeu no barulho distante da cidade morrendo:


— Kallon…


A sacerdotisa fez um sinal sagrado no ar.


— Que as águas o reconheçam. E que o templo ainda esteja de pé quando vocês chegarem.


Eles saíram do porão sob a cobertura da noite, evitando as ruas principais onde os mortos-vivos ainda caminhavam e os dragões corrompidos ainda caçavam. Atrás deles, Lenória Imperial continuava a arder e a se desfazer. À frente, além das muralhas quebradas e do Mar Divisor, a Ilha de Kallon esperava — e, com ela, o Templo onde talvez as respostas finalmente começassem a fazer sentido.


O corpo de Ikarus pesava nos braços de Thomas.  


A aura dourada e azul pulsava.  


E, em algum lugar no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa, o homem de cabelos e olhos azuis ainda sorria.



Ad’Heim: As Cinzas de Lenória

 

Por Yuri Schein  

Carregar Ikarus foi a parte mais longa e mais silenciosa da jornada.

Thomas o ergueu com cuidado, as asas meio abertas para equilibrar o peso. A aura dourada e azul ao redor do corpo do guerreiro ainda pulsava de forma fraca e irregular, como um coração que se recusava a parar completamente. A ferida no peito continuava a sangrar luz e sangue, mas a mistura das duas cores parecia impedir que a morte se completasse de imediato. Gillian, com o braço quebrado improvisadamente amarrado contra o peito, caminhava ao lado, a outra mão firme na empunhadura da espada. Raella seguia logo atrás, a capa mágica agora opaca e pesada, os olhos vermelhos de cansaço e de tudo o que haviam perdido.


Ninguém falava.


O caminho de volta para o sul foi marcado por rachaduras no chão, vapor metálico que ainda subia em colunas irregulares e o silêncio opressor de uma terra que parecia estar segurando a respiração. As árvores da Floresta Encantada, que antes tentavam impedi-los de partir, agora estavam quietas demais. Muitas haviam morrido de verdade. Outras inclinavam-se para longe do rastro que o grupo deixava, como se temessem a luz residual que ainda emanava de Ikarus.


Horas se arrastaram.  


Depois dias.  


Eles evitaram as estradas principais. Seguiram trilhas de caçadores, leitos secos de rios e, quando necessário, o próprio voo curto e exaustivo de Thomas carregando Ikarus por trechos mais perigosos. A cada parada, Raella tentava estabilizar a ferida com o pouco de magia que a capa ainda oferecia. A cada amanhecer, a aura dourada e azul parecia um pouco mais fraca. A cada anoitecer, Ikarus murmurava palavras que nenhum deles compreendia — fragmentos de um idioma antigo, misturado com o som de correntes marinhas que não existiam naquela região.


Quando finalmente avistaram as muralhas de Lenória Imperial, o coração de todos afundou.


A cidade não era mais a mesma.


As altas muralhas de pedra branca, que um dia brilhavam sob o sol e ostentavam o símbolo do grifo em cada torre, agora estavam quebradas em dezenas de pontos. Grandes pedaços de pedra jaziam espalhados do lado de fora, como se um gigante tivesse socado a defesa da cidade até ela ceder. Bandeiras rasgadas e queimadas ainda tremulavam em alguns mastros, o grifo dourado quase irreconhecível sob a fuligem. Fumaça subia de vários bairros. O cheiro de carne queimada, de magia residual e de decomposição pairava no ar como uma névoa permanente.


E havia os mortos.


Não apenas corpos.  


Havia mortos-vivos ainda caminhando entre os escombros. Zumbis com armaduras de soldados de Lenória, esqueletos montados em restos de cavalos, criaturas sombrias que se moviam pelas ruas como manchas vivas de escuridão. Em alguns pontos, dragões menores — não os grandes senhores das Montanhas Lendárias, mas bestas corrompidas, de escamas opacas e olhos esverdeados — sobrevoavam os telhados destruídos, soltando sopros de fogo negro que derretiam o que ainda restava de madeira e pedra.


Thomas pousou com cuidado atrás de uma elevação de terra, ainda fora do alcance imediato das criaturas. Gillian se ajoelhou ao lado de Ikarus, verificando a respiração. Raella cobriu o rosto com as mãos por um momento.


— Isso… não é possível — murmurou Gillian. — Lenória Imperial. A cidade do grifo. A sede do regente Oberon.


— Foi — respondeu Thomas, a voz baixa e rouca. — Agora é só mais um campo de batalha.


Eles se aproximaram com cautela, evitando as ruas principais. Pelas vielas laterais e pelos escombros de casas destruídas, conseguiram avançar alguns quarteirões. O que viram pelo caminho confirmava o pior. Cadáveres de civis e soldados misturados. Marcas de feitiçaria necromântica queimadas nas paredes. Portais menores que ainda se abriam e se fechavam em becos, vomitando mais mortos-vivos e seres sombrios de olhos vazios. Em uma praça, um dragão corrompido de tamanho médio destroçava o que restava de uma torre de vigia, enquanto um grupo de esqueletos avançava sobre um punhado de sobreviventes desesperados.


Raella parou de repente.


— Ouçam.


Vozes.  


Não gritos de batalha. Sussurros. Conversas abafadas vindas de um porão parcialmente desabado. Thomas se aproximou com cuidado, os montantes prontos. Gillian cobriu a retaguarda. Quando abriram a porta improvisada de madeira quebrada, encontraram um grupo de cerca de vinte sobreviventes — soldados feridos, civis, uma sacerdotisa de Valeth com o rosto coberto de fuligem e uma criança que não parava de tremer.


A sacerdotisa ergueu um cajado improvisado ao vê-los, mas baixou ao reconhecer que não eram inimigos.


— Vocês… vieram de fora? — perguntou ela, a voz rouca. — Ainda existem lugares que não foram atingidos?


Thomas trocou um olhar com Gillian.


— Nós viemos da Costura. Do norte. O que aconteceu aqui?


A mulher soltou uma risada amarga e curta.


— O mesmo que aconteceu em todos os lugares, pelo que dizem os mensageiros que ainda conseguem chegar. Lenória foi só a primeira a cair de forma tão completa. Mas os rumores… os rumores são piores.


Ela se sentou pesadamente sobre um pedaço de muro desabado.


— Aldora foi atacada por legiões de mortos-vivos que saíram do próprio deserto. Sefrion viu suas torres de magia serem corrompidas de dentro para fora por feitiçaria negra. Kallon sofreu com serpentes marinhas corrompidas e portais abertos no fundo do oceano. Valeth, Gallen, até Baltamus… todas as grandes cidades. Todas. Ao mesmo tempo. Ou quase ao mesmo tempo. Mortos-vivos. Seres sombrios. Dragões corrompidos. Feitiçaria que quebra muralhas como se fossem madeira podre. É como se alguém tivesse coordenado tudo. Como se o mundo inteiro tivesse sido marcado no mesmo dia.


Raella sentiu a capa tremer sobre os ombros.


— Vaelthas Levi… — sussurrou ela. — O Necromante. Ele acelerou tudo depois que a Costura foi aberta.


A sacerdotisa ergueu o olhar.


— Vocês sabem o nome dele?


Ninguém respondeu de imediato.  


Thomas ajeitou Ikarus com mais cuidado nos braços. A aura dourada e azul ainda pulsava, fraca, mas constante. Os olhos do guerreiro continuavam fechados. A respiração era rasa.


— Precisamos de um lugar seguro — disse Thomas. — Ele está entre a vida e a morte. E o que quer que esteja acontecendo dentro dele… ainda não terminou.


A sacerdotisa olhou para Ikarus por um longo momento. Os olhos dela se estreitaram ao notar a mistura de cores na aura.


— Tragam-no para baixo. Há um espaço mais protegido. Poucos mortos-vivos conseguem atravessar as bênçãos que ainda restam aqui. Mas não se iludam… Lenória Imperial não é mais um refúgio. É apenas um campo de ruínas que ainda resiste por teimosia.


Enquanto desciam as escadas estreitas e escuras do porão, o som distante de um dragão corrompido ecoou sobre a cidade devastada. Em algum lugar, mais muralhas caíam. Em algum lugar, mais portais se abriam.


E, em algum lugar muito mais distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi e Angarkor observavam mapas antigos se atualizarem sozinhos com as marcas de cada cidade que caía.


O mundo de Ad’Heim sangrava.  


E Ikarus, carregado nos braços de Thomas, ainda sonhava com um homem de cabelos e olhos azuis no fundo de um mar que não existia em nenhum mapa.


Ad’Heim: O Transe sob as Águas


Por Yuri Schein  


Ikarus não sentia mais a dor.  


O sangue ainda escorria da ferida aberta no peito, misturado com fragmentos residuais da luz dourada de Ranur, mas a sensação física havia se afastado como uma maré que recua. O mundo ao redor — a Costura sangrando, o vapor esverdeado, os gritos abafados de Thomas, Gillian e Raella — tornou-se distante, abafado, como se alguém tivesse colocado uma parede de água entre ele e a realidade.


Então a água veio de verdade.


Não era uma metáfora.  


Ikarus sentiu o corpo afundar. O chão rachado da Costura desapareceu. O céu partido desapareceu. O rosto de Angarkor desapareceu. Em seu lugar, houve apenas escuridão azul-profunda, pressão constante e o silêncio absoluto do fundo do mar. Bolhas subiam lentamente ao redor dele. Algas antigas e escuras se moviam com correntes que não pertenciam a nenhum oceano conhecido de Ad’Heim. Longe, muito longe acima, a superfície era apenas um disco pálido e distante de luz.


Ele tentou se mexer. O corpo respondeu com lentidão, como se a água fosse mais densa que o normal. A ferida no peito ainda existia, mas aqui, nas profundezas, o sangue que saía dela se dissolvia em filamentos dourados e azuis que dançavam ao redor de seu torso.


Foi então que ele viu o homem.


A figura estava a poucos metros de distância, flutuando na mesma escuridão azul sem esforço aparente. Cabelos longos e azuis flutuavam ao redor do rosto como se fossem feitos da própria água. Os olhos eram do mesmo tom — um azul profundo, antigo, quase luminoso na escuridão. O homem não usava armadura nem vestes elaboradas. Apenas uma túnica simples que se movia com as correntes. E ele sorria.


Não era um sorriso de zombaria.  

Não era um sorriso de piedade.  

Era um sorriso tranquilo, quase nostálgico, como se reconhecesse alguém que havia esperado por muito tempo.


Ikarus tentou falar. A voz não saiu. Apenas bolhas.


O homem de cabelos azuis inclinou a cabeça levemente e estendeu a mão. Não tocou Ikarus. Apenas manteve a palma aberta entre os dois, como se oferecesse algo que ainda não podia ser nomeado.


No mundo de cima, o corpo de Ikarus se moveu.


Thomas foi o primeiro a notar.  


— Ele… está se levantando.


Gillian, ainda com o braço quebrado pressionado contra o peito, arregalou os olhos. Raella, ajoelhada e ofegante, sentiu a capa mágica reagir antes mesmo de compreender o que via.


O corpo de Ikarus ergueu-se do chão rachado de forma lenta e antinatural. A ferida mortal no peito ainda sangrava, mas a luz que agora emanava dele não era apenas a residual dourada de Ranur. Havia uma segunda cor se misturando a ela — um azul profundo, oceânico, que se entrelaçava com o dourado como duas correntes de um mesmo rio. A aura cresceu. Placas de energia se reformaram sobre o corpo ferido, mais densas, mais definidas. A espada caída no chão tremeu e voou de volta para a mão de Ikarus, agora brilhando com as duas cores ao mesmo tempo.


Angarkor observava em silêncio.  


A espada longa ainda gotejava sangue. A ferida no ombro continuava aberta. Mas o guerreiro antigo não avançou. Em vez disso, inclinou a cabeça com genuíno interesse, os olhos estreitos acompanhando cada mudança na aura de Ikarus.


— Isso… é interessante — murmurou ele.


A voz de Angarkor ecoou sobre a Costura enquanto o corpo de Ikarus se erguia completamente, os pés deixando o chão, a aura dourada e azul pulsando com uma força que fazia o vapor esverdeado se afastar.


— Deixarei você descobrir a força do seu poder — continuou Angarkor, a voz baixa e carregada de uma expectativa quase divertida. — E depois terei uma batalha ainda mais maravilhosa para travar. Até lá…


Ele ergueu a mão livre.  


Um portal de sombra e luz necromântica se abriu atrás dele, o mesmo tipo de abertura que Vaelthas Levi havia usado minutos antes. Angarkor deu um passo para trás, sem tirar os olhos do corpo erguido de Ikarus.


— Não morra cedo demais, portador de dois domínios. Eu quero ver o que você se tornará quando acordar de verdade.


O portal se fechou atrás dele com um som úmido e final.  


Angarkor desapareceu, deixando apenas o cheiro metálico e a Costura ainda sangrando.


No fundo do mar do transe, o homem de cabelos e olhos azuis continuava sorrindo.  


Ele finalmente falou. A voz não veio como som. Veio como corrente, como pressão, como memória antiga que se acomodava dentro da mente de Ikarus.


— Você carregou o ouro de Lenoria. Agora carrega também o azul que existia antes dos reinos terem nomes. Quando acordar… decida o que fazer com os dois.


Ikarus tentou responder.  


A escuridão azul ao redor dele começou a se desfazer. A pressão diminuiu. A superfície distante se aproximou como se o próprio mar o estivesse empurrando de volta para cima.


No mundo real, a aura dourada e azul ao redor do corpo de Ikarus se intensificou uma última vez.  


Thomas, Gillian e Raella se aproximaram com cautela, ainda feridos, ainda abalados, mas incapazes de desviar o olhar.


O corpo de Ikarus ainda flutuava a alguns centímetros do chão.  


Os olhos ainda estavam fechados.  


Mas a respiração, antes irregular e molhada de sangue, agora saía de forma lenta e constante.


A Costura continuava aberta.  


O Necromante e Angarkor haviam partido.  


E algo novo — algo que misturava o dourado de um Guardião morto com o azul de um fundo de mar que não pertencia a nenhum mapa — havia começado a despertar dentro de Ikarus.


Ad’Heim: A Realidade que Sangra

 

Por Yuri Schein  


O duelo entre Ikarus e Angarkor havia se tornado um furacão de luz dourada e energia necromântica. Cada impacto de lâminas fazia a borda da Costura tremer. O vapor esverdeado subia cada vez mais alto, e o chão sob os pés dos dois guerreiros rachava em padrões irregulares, como se a própria terra não soubesse mais qual forma manter.


Foi então que Thomas gritou.


— Agora!


O meio-dragão lançou-se do ar com as asas abertas e os dois montantes em chamas de fúria. Gillian avançou pelo lado esquerdo, a espada cortando o vapor esverdeado. Raella, mesmo com o corpo ainda abalado pela morte de Derek, ergueu as mãos e liberou a magia residual da capa em um feixe de energia prateada que tentou envolver Angarkor.


Pela primeira vez desde o início do combate, Angarkor foi forçado a se dividir.


Ele desviou o golpe de Thomas com um giro rápido, bloqueou a estocada de Gillian com a lateral da espada e dissipou a magia de Raella com um movimento do ombro, como se estivesse apenas afastando uma mosca. Mas o impacto combinado o fez recuar dois passos. A luz dourada ao redor de Ikarus se intensificou, aproveitando a abertura.


— Vocês ainda não entenderam — disse Angarkor, a voz baixa e quase cansada. — Não é força que decide isso.


Ele cravou a ponta da espada no chão.


A realidade ao redor se contorceu.


Não foi magia comum. Não foi necromancia. Foi algo mais antigo e mais cruel. O ar se dobrou. O chão se alongou e depois se encolheu. As distâncias mudaram. Thomas, que estava a poucos metros, de repente se viu a dezenas de passos de distância, como se o espaço tivesse sido esticado à força. Gillian deu um passo à frente e encontrou o próprio pé afundando em um chão que não existia mais, uma ilusão tão real que a carne doía. Raella lançou outra magia, mas a energia se curvou no ar e voltou contra ela, arremessando-a violentamente contra uma pedra rachada.


Angarkor ergueu a mão esquerda.


— Eu distorço o que quiser. Quando quiser. A realidade é apenas uma sugestão para quem já viu o outro lado da porta.


Uma onda invisível se expandiu a partir dele.  


Thomas gritou quando suas asas foram dobradas de forma antinatural, os ossos rangendo sob uma pressão que não vinha de nenhum golpe físico. Gillian caiu de joelhos, o braço esquerdo torcido em um ângulo impossível, o sangue escorrendo por entre os dedos. Raella foi erguida do chão por uma força invisível e arremessada contra o chão rachado com violência suficiente para fazê-la perder a consciência por alguns segundos. O vapor esverdeado da Costura parecia dançar ao redor de Angarkor, alimentando o poder que ele liberava.


Ikarus rugiu e avançou através da distorção.


A luz dourada de Ranur ao redor de seu corpo resistia parcialmente à quebra da realidade, mas não o suficiente. Cada passo era uma luta contra um mundo que se recusava a permanecer estável. O chão subia e descia sob seus pés. O ar se tornava sólido e depois líquido. A espada de Angarkor parecia estar em três lugares ao mesmo tempo.


Ainda assim, Ikarus atacou.


O golpe carregava tudo o que restava: a morte de Derek, o sacrifício de Ranur, a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada cortou o espaço distorcido e encontrou a armadura de Angarkor no ombro, abrindo uma ferida profunda que fez o guerreiro antigo recuar e soltar um grunhido de dor genuína.


Angarkor olhou para o próprio sangue escuro escorrendo pela armadura.


— Bom — murmurou ele. — Você ainda consegue me alcançar.


Então ele moveu os dedos.


A realidade ao redor de Ikarus se quebrou de forma brutal.


O espaço se comprimiu. O ar se tornou uma prensa invisível. A luz dourada ao redor do corpo de Ikarus cintilou desesperadamente, tentando proteger o portador, mas não foi suficiente. Uma força invisível atravessou o peito do guerreiro como uma lança feita de espaço distorcido. O impacto foi tão violento que Ikarus foi arremessado para trás, a espada dourada caindo de sua mão e se apagando parcialmente ao tocar o chão.


Ele caiu de joelhos, depois de lado.  


O sangue — misturado com residual de luz dourada — se espalhou pelo chão rachado. A ferida no peito era profunda, irregular, como se a própria realidade tivesse tentado arrancar algo de dentro dele. A armadura residual de Ranur se rachava e se desfazia em fragmentos de luz. A respiração de Ikarus saía em engasgos curtos e molhados.


Thomas gritou o nome dele e tentou se aproximar, mas a distorção ainda o mantinha afastado. Gillian, com o braço quebrado, rastejava em direção ao companheiro. Raella, ainda atordoada, tentava reunir magia suficiente para alcançar Ikarus.


Angarkor caminhou até ficar a poucos passos do corpo caído. A espada longa ainda gotejava o sangue escuro da ferida no ombro. Ele observou Ikarus por um longo momento, a expressão quase… pensativa.


— Você lutou melhor do que a maioria — disse ele, a voz baixa. — O presente de Ranur te deu uma chance. Mas a realidade… a realidade sempre pertenceu a quem está disposto a quebrá-la.


Ikarus tentou se levantar. Conseguiu apenas erguer a cabeça. Os olhos ainda brilhavam com residual dourado, mas a luz estava se apagando rapidamente. O sangue continuava a escorrer.


— Ainda… não… terminou… — conseguiu sussurrar, a voz quase inaudível.


Angarkor inclinou a cabeça levemente.


— Para você, quase.


Ele ergueu a espada novamente, preparando o golpe final.


A Costura sob eles pulsou com mais força.  


E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através do espelho de osso, o sorriso discreto ainda nos lábios.


A ferida de Ikarus continuava a sangrar luz e sangue.  


E a realidade ao redor permanecia quebrada.


Ad’Heim: O Duelo sob a Costura

 

Por Yuri Schein  

A luz dourada ao redor de Ikarus ainda não havia se estabilizado completamente. Placas improvisadas de energia residual da armadura de Ranur se formavam e se desfaziam sobre seus ombros e peito, como se a própria essência do Guardião morto ainda estivesse tentando encontrar uma forma definitiva no corpo do guerreiro. A espada em sua mão queimava com um sol pequeno e furioso. O chão sob seus pés rachava a cada passo que ele dava em direção a Angarkor.


Angarkor não se moveu de imediato.  


O guerreiro da Guerra de Duzentos Anos observava Ikarus com uma expressão quase curiosa, a espada longa descansando no ombro. A armadura antiga, coberta de cicatrizes e runas esverdeadas, refletia a luz doentia da Costura. Atrás dele, a fenda continuava a se abrir lentamente, vomitando vapor metálico e ecos de algo que ainda não havia atravessado por completo.


— Você recebeu o presente de um Guardião — disse Angarkor, a voz grave e rouca, carregada de séculos de batalhas. — Ranur deve ter visto algo em você. Ou talvez tenha apenas desesperado no último instante.


Ikarus não respondeu com palavras.  


Ele atacou.


O primeiro golpe foi um corte diagonal carregado de toda a fúria acumulada desde a Clareira da Árvore Negra. A lâmina dourada encontrou a espada de Angarkor com um estrondo que fez o ar tremer. Faíscas de luz dourada e energia necromântica explodiram no ponto de impacto. Angarkor desviou o segundo golpe com um movimento quase preguiçoso, mas o terceiro o forçou a recuar um passo. O poder residual de Ranur não era apenas força bruta — era a própria guerra condensada em um corpo humano.


— Você luta como alguém que perdeu demais — murmurou Angarkor, bloqueando um quarto golpe e girando o corpo para desferir um contragolpe que Ikarus só conseguiu desviar no último instante. — Derek. Jetto. Rickson. E agora Ranur. A lista cresce.


Ikarus rugiu e avançou novamente.  


A luta se espalhou pela borda da Costura. Cada choque de lâminas fazia a terra tremer. Thomas tentou intervir, mas uma onda de energia liberada por Angarkor o arremessou para trás junto com Gillian e Raella. O duelo era entre os dois. E apenas entre os dois.


— Ele te usa! — gritou Ikarus entre um golpe e outro, a voz rouca de esforço e ódio. — O Necromante! Vaelthas Levi! Elias! Como quer que se chame! Ele te vê apenas como um cachorro! Um cão de guarda! Um instrumento que late quando ele manda e morde quando ele aponta!


Angarkor desviou um golpe alto e respondeu com uma estocada que raspou a armadura residual de Ikarus, arrancando um pedaço de luz dourada.


— Cachorro? — repetiu ele, e pela primeira vez um sorriso frio apareceu em seu rosto marcado. — Você realmente acredita nisso?


Ele avançou com uma sequência de golpes tão rápidos que Ikarus mal conseguia acompanhar. Cada impacto fazia o corpo do guerreiro tremer. A luz dourada ao redor de Ikarus cintilava de forma instável, como se o poder de Ranur ainda estivesse se adaptando ao novo portador.


— Eu sou mais poderoso que o Necromante — disse Angarkor, a voz baixa e cortante enquanto forçava Ikarus a recuar em direção à borda da fenda. — Posso eliminá-lo no momento em que desejar. Não preciso de ordens. Não preciso de permissão. Não preciso de um “mestre”.


Ikarus bloqueou um golpe que teria aberto seu peito e contra-atacou com um corte horizontal carregado de luz dourada. Angarkor desviou com o mínimo de esforço.


— Então por que obedece? — rosnou Ikarus. — Por que protege a retirada dele? Por que se curva quando ele fala?


Angarkor parou por um instante.  


A espada ainda erguida. O olhar fixo em Ikarus. O vapor esverdeado da Costura subia ao redor dos dois como uma névoa viva.


— Porque, no momento, nós apenas compartilhamos ideias — respondeu ele, a voz agora mais calma, quase reflexiva. — Vaelthas Levi… Elias… o homem que abriu a porta nas geleiras de Baltamus… é alguém realmente inteligente. Mais inteligente do que a maioria dos Hunens que já encontrei. Ele compreende a morte de uma forma que nem Arteph ousa admitir. Ele viu o que existe abaixo. E eu… eu quero ver também.


Ele deu um passo à frente. A espada de Ikarus tremeu sob a pressão da lâmina antiga.


— Angarkor, Neutro e Ordekh lutaram a Guerra de Duzentos Anos por reinos que já esqueceram nossos nomes. Lutamos por ordens que nunca nos pertenciam. Eu cansei de ser peça de tabuleiros alheios. O Necromante não me ordena. Ele me mostra caminhos. E enquanto esses caminhos me interessarem… eu o protejo. Não porque seja meu mestre. Mas porque, por enquanto, ele é útil. E porque é inteligente demais para ser desperdiçado.


Ikarus sentiu a fúria subir como fogo líquido.  


A luz dourada ao redor de seu corpo explodiu em intensidade. O poder residual de Ranur respondeu à emoção, formando placas mais densas, mais definidas. A espada brilhou como um sol em miniatura.


— Então você admite! — gritou ele, avançando com uma sequência de golpes tão violentos que Angarkor foi forçado a recuar de verdade pela primeira vez. — Você admite que ele é apenas uma ferramenta temporária! Que você pode matá-lo quando quiser! Então por que não o faz agora?! Por que deixa que ele abra a Costura?! Por que permite que Derek tenha morrido por causa das ambições dele?!


Angarkor bloqueou o último golpe com as duas mãos na espada. Os olhos dele se estreitaram.


— Porque a porta ainda não está completamente aberta — respondeu ele, a voz agora carregada de uma intensidade quase sombria. — Porque o que existe do outro lado ainda não atravessou. E porque, quando atravessar… eu quero estar do lado certo da história. O lado que não se ajoelha para Hunens, para Guardiões ou para reinos que já apodreceram por dentro.


Ele empurrou Ikarus para trás com um movimento brusco.


— Você recebeu o poder de um Guardião. Isso te torna perigoso. Mas ainda não te torna meu igual. Ranur era um cão de guarda dourado. Você agora é apenas o novo cão.


Ikarus rugiu e lançou-se novamente.  


O duelo se intensificou. Luz dourada e energia necromântica colidiam em explosões que faziam a Costura tremer ainda mais. Thomas, Gillian e Raella tentavam se aproximar, mas a pressão da batalha os mantinha afastados. Cada golpe de Ikarus carregava a memória de Derek se desfazendo em partículas de luz. Cada bloqueio de Angarkor carregava séculos de guerras e de irmãos perdidos.


— Você é só mais um instrumento! — gritou Ikarus entre os golpes. — O Necromante te usa exatamente como usou Angarkor no passado! Como usou os mortos-vivos! Como usou a Costura! Você é o cachorro dele, quer admita ou não!


Angarkor desviou um golpe que teria cortado sua garganta e respondeu com uma estocada que rasgou o ombro de Ikarus, arrancando um grito de dor e um jorro de luz dourada.


— Chame-me de cachorro quantas vezes quiser — disse ele, a voz baixa e perigosa. — Mas lembre-se: o cachorro que escolhe a própria coleira ainda é mais livre do que o homem que se ajoelha para Guardiões mortos.


A luta continuou.  


A Costura sangrava.  

E, em algum lugar distante, nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava através de um espelho de osso negro, um sorriso discreto nos lábios.

O duelo ainda não havia terminado.


Ad’Heim: O Último Brilho Dourado

 

Por Yuri Schein  


O silêncio que se seguiu à morte de Derek não durou mais do que alguns segundos.  


Foi um silêncio pesado, denso, quase sólido. Um silêncio feito de choque, de dor e de uma fúria que ainda não havia encontrado forma. Thomas pairava no ar com as asas abertas, o peito subindo e descendo em respiração irregular, os montantes tremendo nas mãos. Gillian tinha o rosto pálido, os lábios apertados com tanta força que quase sangravam. Raella chorava sem fazer som, a capa mágica ainda brilhando de forma instável ao redor do corpo. Ikarus, no entanto, não se mexia. Seus olhos estavam fixos no ponto onde Derek havia se desfeito. A mão na espada estava tão cerrada que os nós dos dedos haviam ficado brancos.


Vaelthas Levi observava tudo com a mesma calma terrível de antes. O cajado de osso ainda brilhava com residual da energia dos Brincos de Valeth. A Costura Primeira continuava a se abrir sob seus pés, a luz esverdeada pulsando como um coração antigo e doentio.


— O catalisador foi aceito — repetiu ele, a voz ecoando dentro de todos. — A Costura sangra. Em breve, aquilo que existe abaixo de Arteph começará a atravessar de verdade. Vocês podem tentar impedir. Não fará diferença.


Ranur não respondeu com palavras.


O Guardião de Lenória desceu do Grifo com um movimento tão rápido que o ar estalou. A armadura dourada explodiu em luz. Não era o brilho contido de antes. Era um sol em colapso. A espada que se materializou em sua mão não era apenas uma arma — era a própria essência do domínio de Lenoria transformada em lâmina. O Grifo rugiu e se posicionou atrás do seu Guardião, asas abertas, pronto para o combate final.


— Vaelthas Levi — disse Ranur, a voz agora carregada de um poder que fazia o chão tremer. — Você foi Elias. Você foi homem. E agora será apenas memória.


Ele atacou.


O impacto foi devastador.  


Ranur atravessou o ar como um meteoro dourado. A espada desceu em um arco perfeito, carregando consigo séculos de juramentos, de torres douradas e de grifos que haviam protegido Lenória desde antes dos reinos terem nomes. Vaelthas Levi ergueu o cajado. A luz esverdeada e a luz dourada colidiram no centro do céu acima da Costura. O estrondo que se seguiu não foi som — foi uma onda de força que varreu o terreno, arremessando Thomas, Gillian, Raella e Ikarus para trás como folhas ao vento.


A batalha durou minutos que pareceram horas.


Ranur era velocidade e fúria controlada. Cada golpe da espada dourada cortava o ar com precisão mortal. O Grifo atacava em conjunto, garras e bico tentando alcançar o Necromante. Vaelthas Levi, no entanto, não recuava. Cada movimento do cajado de osso liberava ondas de energia necromântica que corroíam a luz dourada, transformando o brilho do Guardião em fumaça esverdeada. A Costura sob eles se alargava a cada segundo, como se a própria luta estivesse alimentando a abertura.


Foi no décimo terceiro golpe que tudo mudou.


Vaelthas Levi desviou a espada de Ranur com o cajado e, no mesmo movimento, cravou a ponta do osso negro no peito da armadura dourada. A luz explodiu. Ranur gritou — um grito que não era de dor, mas de algo muito pior: o grito de um Guardião sentindo o vínculo com seu reino se romper. A armadura rachou. A luz dourada começou a vazar como sangue líquido.


— Você lutou bem, Guardião — disse Vaelthas Levi, a voz ainda calma. — Mas os Doze nunca entenderam. A ordem não é eterna. Apenas… inconveniente.


Ele torceu o cajado.


A armadura dourada se partiu completamente.  


Ranur caiu de joelhos no ar, sustentado apenas pela vontade. O Grifo gritou de agonia, sentindo o vínculo se desfazer. O Guardião de Lenória ergueu o rosto uma última vez. Seus olhos dourados encontraram os de Ikarus, que ainda tentava se levantar no chão rachado.


— Ikarus… — a voz de Ranur saiu fraca, mas clara. — Pegue.


Ele estendeu a mão esquerda.  


Da rachadura da armadura, a luz dourada restante — toda a essência que ainda restava do Guardião de Lenória — se projetou como um rio de fogo líquido. A luz atravessou o espaço e atingiu Ikarus no peito com a força de um raio. O corpo do guerreiro se arqueou. Um grito rasgou sua garganta. A luz dourada invadiu cada fibra, cada osso, cada gota de sangue. Não era apenas poder. Era o domínio de Lenoria. Era a guerra. Era a coragem que nunca recua. Era a força que protege reinos inteiros.


Ikarus caiu de joelhos, o corpo tremendo violentamente enquanto a armadura dourada residual se formava em placas improvisadas sobre sua pele, enquanto a espada em sua mão começava a brilhar com o mesmo sol que havia pertencido a Ranur.


Ranur sorriu pela primeira vez desde que haviam se encontrado.


— Proteja… o que resta.


Então a luz se apagou.


O corpo do Guardião de Lenória se desfez em partículas douradas que o vento carregou para longe. O Grifo soltou um último rugido — um som de luto e de fúria — e desapareceu em direção a Lenória, como se a própria criatura soubesse que seu Guardião não existia mais.


Vaelthas Levi baixou o cajado, observando a luz residual se dissipar.


— Um Guardião a menos. Onze restantes. Ainda é cedo demais para—


Ele não terminou a frase.


O chão sob a Costura tremeu com uma violência nova. Uma presença antiga e familiar se ergueu das profundezas da fenda. Sombras se condensaram. E, do meio da luz esverdeada, uma figura alta e poderosa emergiu.


Angarkor.


O irmão de Neutro e Ordekh. O guerreiro da Guerra de Duzentos Anos. O homem que um dia jurara lealdade ao Necromante. Sua armadura antiga estava coberta de cicatrizes e de runas que brilhavam com a mesma energia esverdeada. Os olhos, no entanto, ainda carregavam o peso de quem havia visto demais e matado demais.


Ele pousou entre Vaelthas Levi e o grupo, a espada longa já desembainhada.


— Mestre — disse Angarkor, a voz grave e rouca. — Eles ainda estão vivos. E o poder do Guardião acabou de mudar de mãos.


Vaelthas Levi olhou para Ikarus, que agora se erguia lentamente, o corpo ainda tremendo, mas os olhos brilhando com luz dourada residual. A espada em sua mão agora queimava como um sol pequeno.


— Interessante — murmurou o Necromante. — O presente de Ranur. Que ironia.


Ele ergueu o cajado e, com um movimento circular, abriu um portal de sombra e luz esverdeada atrás de si.


— Angarkor. Proteja a retirada. A Costura já está aberta o suficiente. Eu preciso voltar às geleiras para acelerar o que vem a seguir. Você… entretenha-os.


Angarkor assentiu uma única vez.


— Como ordenar, mestre.


Vaelthas Levi deu um passo para trás e atravessou o portal. A abertura se fechou atrás dele com um som úmido e final, deixando apenas o cheiro metálico e a Costura ainda sangrando.


Angarkor virou-se para o grupo.  


Seus olhos encontraram os de Thomas, de Gillian, de Raella e, finalmente, os de Ikarus — agora envolto na luz dourada que um dia pertencera a Ranur.


— Vocês mataram o tempo do meu mestre — disse o guerreiro antigo. — Agora… vão pagar por isso.


A espada de Angarkor se ergueu.  


A luz dourada ao redor de Ikarus se intensificou.  


E a batalha que viria a seguir não seria apenas pelo destino de Ad’Heim.  


Seria pelo direito de ainda existir.