terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ad’Heim: A Costura que Sangra


Por Yuri Schein  


O Grifo de Lenória atravessou a última barreira de nuvens como se estivesse rasgando um véu que ninguém deveria ter ousado tocar. O ar mudou de temperatura de forma abrupta. O frio cortante deu lugar a um calor úmido e metálico, carregado do mesmo cheiro que subia das rachaduras da terra desde a Floresta Encantada. A coluna de luz esverdeada que haviam avistado no horizonte agora se erguia diante deles como uma torre viva, pulsando com uma intensidade que fazia os olhos doerem e a mente vacilar. Cada batida de asa do Grifo ecoava como um trovão contido. Ranur permanecia ereto sobre a criatura, a armadura dourada refletindo a luz fraca das duas luas, mas seus olhos dourados não olhavam para as luas. Olhavam para a ferida aberta no chão.


O que se via lá embaixo não era um lugar.  

Era uma cicatriz antiga que alguém havia forçado a sangrar novamente.


A terra se abrira em um círculo irregular de vários quilômetros de diâmetro. As bordas da fenda não eram de pedra comum. Eram de uma substância escura e brilhante, como obsidiana líquida solidificada no instante exato em que tentava se fechar. No centro, a luz esverdeada subia em espirais lentas e deliberadas, iluminando formas que se moviam nas profundezas. Não eram criaturas no sentido convencional. Eram fragmentos de memória, ecos de uma vontade que havia sido selada e agora se recusava a permanecer adormecida.


Thomas pousou ao lado do Grifo, asas ainda abertas e tensas. Os olhos vermelhos estavam fixos na luz.


— Isso não deveria existir.


— Não — concordou Ranur, a voz baixa e carregada de um peso antigo. — E ainda assim existe. Os Três Desertores forçaram a Costura. E o que está do outro lado começou a responder.


Derek sentiu os Brincos de Valeth queimarem contra o peito com uma força tão intensa que quase caiu do Grifo. A luz que emanava deles agora batia no mesmo ritmo da coluna esverdeada. Cada pulso era uma dor. Cada dor era um chamado. Raella estava pálida, a capa mágica se agitando ao redor do corpo como se quisesse se livrar dela. Gillian mantinha a mão na empunhadura da espada, o olhar duro, mas os dedos tremiam levemente. Ikarus permanecia em silêncio absoluto, a mandíbula travada, os olhos varrendo cada sombra e cada movimento abaixo deles.


Foi então que a voz veio.


Não veio do chão.  

Não veio do céu.  

Veio de todos os lugares ao mesmo tempo — uma voz profunda, calma, quase educada. Uma voz que não precisava gritar para ser ouvida, porque já estava dentro da mente de cada um deles.


— Finalmente.


O Grifo rugiu, inquieto. Ranur ergueu a mão, preparando-se para invocar o poder da armadura dourada.


A coluna de luz esverdeada se contorceu. E, do centro dela, uma figura começou a subir.


Não era Angarkor.  


Angarkor era um guerreiro, um irmão, uma lenda quebrada da Guerra de Duzentos Anos. Aquilo que subia agora era diferente. Mais alto. Mais magro. Vestido com longas vestes negras que pareciam feitas de sombra líquida e de tecido antigo, o tipo de tecido que só se encontra nas geleiras mais profundas do noroeste, no território que pertencia a Baltamus. O rosto estava parcialmente escondido por um capuz, mas os olhos brilhavam com a mesma luz esverdeada da coluna. Nas mãos longas e pálidas, ele segurava um cajado de osso negro que terminava em um crânio humano ainda coberto por restos de pele ressecada.


Quando a figura finalmente se ergueu completamente acima da fenda, o ar ao redor pareceu se curvar sob o peso de sua presença.


Ranur foi o primeiro a reconhecer. A voz do Guardião saiu rouca, carregada de algo que quase parecia horror.


— Não… Você não deveria estar aqui. Você foi selado nas geleiras de Baltamus. Os Doze garantiram isso.


A figura inclinou a cabeça levemente, como se cumprimentasse um conhecido antigo. Quando falou, a voz ecoou dentro de todos eles com a mesma calma terrível.


— Ranur. Ainda vestindo ouro. Ainda fingindo que a ordem pode ser mantida com armaduras e grifos. Que tolo.


Derek sentiu os Brincos de Valeth quase explodirem de luz. A dor era insuportável.


— Quem… quem é você? — conseguiu perguntar, a voz embargada pelo vento e pelo medo.


A figura virou o rosto na direção dele. Os olhos esverdeados se estreitaram com interesse genuíno.


— Eu já tive outro nome. Um nome pequeno. Humano. O nome de um homem que perdeu alguém e se recusou a aceitar que a morte fosse o fim. Naquela época, me chamavam de Elias. Um estudioso. Um homem obcecado. Um homem que desceu até as geleiras de Baltamus porque acreditava que a morte podia ser compreendida, catalogada, dissecada. Corpo. Memória. Vontade. Identidade. Espírito. Essência. Vínculo. Eu separei cada camada. Eu abri portas que Arteph preferia manter fechadas. Eu vi os olhos que existiam antes dos Hunens. E quando os Doze tentaram me selar… eu já não era mais apenas Elias.


Ele deu um passo no ar, como se o vazio acima da fenda fosse chão sólido.


— Agora me chamam de Vaelthas Levi. O nome que escolhi quando deixei de ser um homem que estudava a morte e me tornei aquilo que a morte teme. Eu fui o mestre de Angarkor. Eu ensinei o irmão de Neutro e Ordekh a quebrar o que não podia ser consertado. Eu mostrei aos Três Desertores que a ordem dos Hunens era apenas uma prisão dourada. E agora… eu vim testemunhar a Costura se abrir de verdade.


Ranur ergueu a mão. A armadura dourada brilhou com intensidade cegante.


— Você foi selado. Baltamus observou seus túneis por anos. O Golem deveria ter te destruído.


Vaelthas Levi sorriu. O sorriso não alcançou os olhos.


— Baltamus queria compreender. Eu também. Por isso escolhi exatamente o território dele. A inteligência e a criação… são ferramentas úteis quando se deseja desfazer a própria criação. Os Doze garantiram muitas coisas. E ainda assim… aqui estou. Porque os Três Desertores finalmente entenderam que o selo nunca foi absoluto. Apenas inconveniente.


Ele ergueu o cajado de osso. A luz esverdeada se intensificou.


— Angarkor foi útil. Um bom instrumento de caos. Um bom cão de guarda. Mas ele era apenas o início. Eu sou o que vem depois. Eu sou aquele que abriu a porta para algo que existe abaixo do domínio de Arteph. E agora a porta está se abrindo o suficiente para que aquilo atravesse.


Thomas avançou no ar, os montantes já em mãos, as asas batendo com força.


— Então você é o responsável por tudo isso. Pelos mortos-vivos. Pelas rachaduras. Pela Árvore Negra. Pela morte de Jetto e de Rickson.


— Responsável? — Vaelthas inclinou a cabeça. — Eu apenas abri a porta. Os Três Desertores empurraram. E agora a coisa do outro lado está começando a atravessar. Eu apenas vim testemunhar. E, se necessário, acelerar o processo.


Ranur não esperou mais.


O Grifo rugiu e mergulhou. A armadura dourada explodiu em luz. Ranur desceu como um meteoro, a espada materializando-se em sua mão como se fosse feita do próprio sol. Thomas o seguiu imediatamente. Ikarus e Gillian se prepararam para saltar. Raella ergueu as mãos, a capa respondendo com um brilho instável e desesperado.


Derek, no entanto, sentiu algo diferente.


Os Brincos de Valeth não estavam apenas queimando. Estavam gritando. Uma voz antiga, feminina e implacável ecoava dentro de sua mente:


“Ele não pode ser permitido. A justiça exige preço.”


Vaelthas Levi ergueu o cajado.


Uma onda de energia esverdeada explodiu em todas as direções. O Grifo desviou no último instante, mas a magia ainda atingiu a borda de uma das asas, fazendo a criatura gritar de dor. Thomas foi arremessado para trás. Ranur conseguiu bloquear a maior parte com a armadura, mas o impacto o fez recuar vários metros no ar.


Vaelthas nem se moveu.


— Vocês ainda não entendem — disse ele, a voz calma como se estivesse dando uma lição. — Eu não preciso lutar contra os Doze. Eu apenas preciso que a Costura se abra o suficiente. E para isso… preciso de um catalisador.


Seus olhos se fixaram em Derek.


Os Brincos de Valeth brilharam com uma intensidade cegante.


— Você carrega o julgamento de Valeth. Uma relíquia de justiça antiga. Perfeita para romper o que resta do selo. Elias — o homem que eu fui — teria hesitado. Vaelthas Levi não hesita.


Derek sentiu o corpo se mover contra a própria vontade. Os Brincos o puxavam para frente, para a luz esverdeada, para Vaelthas Levi. Ele lutou. Com todas as forças. Com tudo o que restava de sua vontade de arqueiro solitário das Vilas Gêmeas. Mas os Brincos de Valeth — a mesma relíquia que o havia guiado até ali — agora respondiam a uma ordem mais antiga e mais cruel. Eles queriam justiça. E a justiça, naquele momento, exigia um preço.


Thomas gritou o nome dele.  

Ranur tentou interceptar.  

Raella lançou a magia mais poderosa que a capa ainda conseguia produzir.  


Nada foi rápido o suficiente.


Derek foi puxado através do ar como se uma mão invisível o arrastasse. Os Brincos brilharam uma última vez — uma luz branca e dourada que contrastava violentamente com o verde doentio de Vaelthas Levi. Por um instante, pareceu que a própria Valeth tentava intervir.


Mas Vaelthas apenas sorriu.


— Obrigado, arqueiro.


Ele fechou a mão.


Os Brincos de Valeth explodiram em fragmentos de luz.  


E Derek Walker gritou.


Não foi um grito de dor comum. Foi o grito de alguém que sentia a própria essência sendo usada como chave. O corpo dele se contorceu no ar. A luz esverdeada o envolveu por completo. Por um segundo, seus olhos encontraram os de Thomas. Havia medo. Havia arrependimento. Havia, acima de tudo, uma determinação final.


— Não deixem… ele… abrir…


A frase nunca foi concluída.


O corpo de Derek se desfez em partículas de luz dourada e verde. Os fragmentos dos Brincos de Valeth foram absorvidos pela coluna de energia. A Costura Primeira tremeu. A fenda se alargou com um som que parecia o grito de um mundo inteiro.


Vaelthas Levi baixou o cajado.


— Catalisador aceito. Elias teria chamado isso de sacrifício necessário. Eu chamo apenas de progresso.


Ele olhou para os sobreviventes — Ranur, Thomas, Ikarus, Gillian e Raella — com algo que quase parecia piedade.


— Agora a verdadeira abertura começa. E Angarkor… logo saberá que seu mestre não precisa mais dele.


A terra se abriu ainda mais.


E, do fundo da ferida, algo muito maior do que qualquer Guardião, qualquer Hunen ou qualquer Deserto começou a se erguer.


Ranur gritou ordens.  

Thomas rugiu de fúria e dor.  

Mas Derek Walker, o arqueiro solitário das Vilas Gêmeas, o humano que havia carregado os Brincos de Valeth até o fim… já não existia mais.


Apenas a luz residual ainda dançava no ar por alguns segundos.

Depois, até ela se apagou.

E Vaelthas Levi, o homem que um dia se chamara Elias, observou a Costura sangrar com a tranquilidade de quem finalmente havia encontrado a resposta que buscara por tanto tempo nas geleiras de Baltamus.



Ad’Heim: O Voo Sobre a Ferida

 

Por Yuri Schein  

O Grifo de Lenória cortava o céu noturno com uma força que fazia o ar tremer ao redor de suas asas. Cada batida era um trovão contido, um rugido abafado que se espalhava pelas nuvens baixas e fazia as estrelas aparentes tremerem. Ranur permanecia ereto sobre a criatura, a armadura dourada refletindo a luz fraca das duas luas como se fosse um segundo sol cansado e antigo. Seus olhos, no entanto, não olhavam para as luas. Olhavam para frente. Sempre para frente. Para o ponto exato onde a estrela havia desaparecido e para o rastro invisível que agora sangrava pelo tecido do mundo.


Atrás dele, agarrados às placas da armadura e às penas densas do Grifo, estavam os quatro sobreviventes da Clareira da Árvore Negra. Derek mantinha uma mão firme nos Brincos de Valeth, que agora queimavam contra o peito com uma intensidade quase dolorosa. A luz que emanava deles já não era constante. Pulsava de forma errática, como se tentasse se sincronizar com algo distante e hostil. Thomas voava ao lado do Grifo, asas abertas e tensas, o vento batendo em seu rosto e fazendo as escamas rubras brilharem sob a luz irregular. Ikarus e Gillian se seguravam com força, o corpo ainda marcado pelas batalhas anteriores, enquanto Raella mantinha a capa mágica envolvida ao redor do corpo como se fosse o único escudo que ainda lhe restava.


Ninguém falava.


O vento era alto demais. O frio, cortante demais. E a presença que subia da terra, distante mas inevitável, pesava demais sobre a mente de todos.


Horas se passaram.


O terreno abaixo mudou gradualmente. A Floresta Encantada deu lugar a colinas rochosas, depois a planícies rachadas, e finalmente a um território que nenhum deles reconhecia de imediato. A terra parecia ferida. Grandes linhas escuras cortavam o solo como cicatrizes antigas que haviam sido reabertas à força. Em alguns pontos, o vapor metálico ainda subia, formando colunas que o vento dispersava apenas parcialmente. Em outros, a rachadura era tão profunda que a escuridão no fundo parecia absoluta, como se a própria noite tivesse encontrado um caminho para descer até o coração do mundo.


Ranur quebrou o silêncio pela primeira vez desde a decolagem.


— Vocês sentem?


A pergunta não era dirigida a ninguém em particular, mas todos ouviram.


Derek apertou os brincos com mais força.


— Sim. É como se… estivesse puxando.


— Porque está — respondeu o Guardião. — Os Três Desertores não estão apenas se movendo. Eles estão puxando o que foi selado. Cada rachadura que se abre é uma costura antiga sendo desfeita. E quanto mais elas se abrem, mais fácil se torna para aquilo que está embaixo subir.


Thomas se aproximou um pouco mais, as asas batendo com força para manter a velocidade do Grifo.


— O que exatamente está embaixo?


Ranur demorou a responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa, quase como se o próprio vento quisesse engolir as palavras.


— Algo que os Hunens preferiram esquecer. Algo que nem mesmo Korangar, Otroneu e Drodekh ousaram libertar completamente quando desertaram. Eles apenas… abriram a porta. E depois a deixaram entreaberta por tempo demais.


Gillian, segurando-se com uma mão na placa dourada e a outra na espada, ergueu a voz contra o vento.


— E Angarkor? Onde ele entra nisso?


— Angarkor é uma ferramenta — respondeu Ranur. — Uma ferramenta poderosa, antiga e quebrada. Mas ainda assim uma ferramenta. O que está subindo agora não precisa de ferramentas. Precisa apenas de caminhos. E os Três estão abrindo esses caminhos.


O Grifo soltou um rugido baixo, como se concordasse com a avaliação do seu Guardião. As asas bateram com mais força, e a velocidade aumentou. O ar ficou mais frio. As nuvens ao redor começaram a se contorcer de forma antinatural, formando espirais que não seguiam o vento real.


Raella sentiu a capa se contrair novamente. Desta vez, a magia dentro dela respondeu com um calor súbito, quase doloroso.


— A capa… está reagindo. Como se reconhecesse o que está vindo.


Ranur olhou por cima do ombro.


— Porque reconhece. Tudo o que carrega magia antiga em Ad’Heim está reagindo. Os Brincos de Valeth. A capa. Até a maldição que matou Jetto e Rickson na Clareira. Tudo isso são fragmentos de um mesmo tecido. E o tecido está sendo puxado.


Derek sentiu um arrepio percorrer a espinha.


— Então nós já estamos ligados a isso desde o começo.


— Desde antes de vocês sequer saberem que o chamado existia — confirmou o Guardião. — A Árvore Negra não os testou por acaso. Os Brincos não caíram em suas mãos por acaso. A capa não escolheu Raella por acaso. Vocês foram marcados. E agora o que está subindo sabe que vocês existem.


O silêncio voltou, mais pesado do que antes.


Abaixo deles, uma nova rachadura se abria. Desta vez não era uma linha fina. Era um vale inteiro se partindo ao meio, a terra se abrindo com um som abafado que ecoava mesmo a essa altura. Do interior da fenda subiu não apenas vapor, mas uma luz fraca e esverdeada, doentia, que iluminava as paredes de pedra como se viesse de um coração antigo e podre.


Thomas sentiu o instinto gritar.


— Aquilo não é magia comum.


— Não — concordou Ranur. — É memória. Memória de algo que deveria ter permanecido esquecido.


O Grifo desceu um pouco, o suficiente para que todos pudessem ver melhor. A luz esverdeada pulsava no mesmo ritmo irregular dos Brincos de Valeth. E, por um instante breve e terrível, Derek teve a certeza de que a luz o olhava de volta.


Ranur puxou as rédeas invisíveis e a criatura voltou a subir.


— Ainda não. Ainda não estamos prontos para olhar diretamente para dentro.


Ikarus, que até então permanecia em silêncio, finalmente falou. A voz saiu rouca, cansada, mas firme.


— Então para onde exatamente estamos indo? Você falou de um lugar onde os caminhos estão sendo reabertos. Onde fica isso?


Ranur apontou para o horizonte, onde o céu se tornava mais escuro e as nuvens se acumulavam de forma antinatural.


— Ao norte. Muito ao norte. Além das últimas montanhas que os mapas conhecem. Além do ponto onde os reinos terminam e o que sobrou da ordem antiga ainda tenta se manter de pé. Lá existe um lugar que os antigos chamavam de a Costura Primeira. O ponto onde os Hunens selaram aquilo que não podiam destruir. Os Três Desertores estão forçando essa costura. E se ela se romper completamente…


Ele não terminou a frase.


Não precisava.


Todos entenderam.


O Grifo continuou voando.


Horas se arrastaram. O frio aumentou. A presença sob a terra cresceu. Em determinado momento, Raella começou a tremer de forma incontrolável, a capa brilhando e apagando em intervalos irregulares. Gillian precisou segurá-la para que não caísse. Derek sentiu os Brincos queimarem tanto que chegou a gemer de dor, mas não os tirou do pescoço. Thomas voava cada vez mais próximo do Grifo, como se a proximidade do Guardião fosse o único ponto estável em um céu que parecia se desfazer.


Foi então que Ranur falou novamente, a voz quase um sussurro contra o vento.


— Quando chegarmos, não haverá tempo para hesitação. O que está subindo já sabe que estamos vindo. E vai tentar nos usar. Ou nos quebrar. Ou ambos.


Derek ergueu o olhar para o Guardião.


— E se não formos fortes o suficiente?


Ranur olhou para ele por um longo momento. Nos olhos dourados havia algo que quase parecia compaixão.


— Então Ad’Heim sangra. E os Doze sangram com ele.


O Grifo rugiu mais uma vez, mais alto, mais urgente.


À frente, no horizonte distante, uma coluna de luz esverdeada subiu do chão até as nuvens, rasgando o céu como uma ferida aberta.


A Costura Primeira estava mais perto do que qualquer um deles imaginava.


E o que esperava por eles do outro lado já havia começado a sorrir.


Ad’Heim: O Convite do Guardião

 

Por Yuri Schein  

Ninguém se moveu de imediato.


O vapor escuro que subia da fenda continuava a se espalhar, rastejando pelo chão como se tivesse vontade própria. O cheiro metálico agora era tão forte que queimava a garganta. Raella cobriu o nariz com a manga da capa, mas o tecido já estava encharcado daquela umidade estranha.


Thomas foi o primeiro a falar.


— Se formos com você… para onde exatamente?


Ranur não desceu do Grifo. Apenas olhou para o norte, onde o céu ainda carregava a cicatriz da estrela desaparecida.


— Para o lugar onde os caminhos estão sendo reabertos. Onde os Três Desertores deixaram a primeira marca.


Ikarus apertou a empunhadura da espada.


— E o que tem lá?


— Respostas — respondeu o Guardião. — Ou a morte. Às vezes as duas coisas chegam juntas.


Gillian deu um passo à frente, os olhos fixos na rachadura.


— E se ficarmos?


Ranur virou o rosto para ela. A luz dourada da armadura refletia nos olhos da guerreira.


— Então vão assistir. E quando a coisa que está subindo chegar à superfície, não haverá mais floresta, nem reino, nem torre que a detenha. Os Doze já estão se movendo. Mas mesmo nós… talvez não sejamos suficientes.


Derek olhou para os Brincos de Valeth. A luz deles agora batia no mesmo ritmo irregular do vapor que subia da fenda.


— Nós já perdemos dois. Jetto. Rickson. Não sei quantos mais conseguimos perder.


Ranur baixou a voz.


— Eu sei. A Árvore Negra cobrou o preço. Mas o preço ainda não terminou de ser pago.


O Grifo bateu as asas uma vez, impaciente. Uma rajada de vento empurrou o vapor para longe por alguns segundos, revelando o fundo da fenda. Lá embaixo, algo se movia. Não era uma forma clara. Era uma presença. Uma vontade antiga que pressionava a mente de todos ao mesmo tempo.


Raella sentiu a capa se contrair sobre o corpo, como se quisesse fugir.


— Eu vou — disse ela, quase sem querer. — Se ficarmos, morremos aqui mesmo. Se formos… pelo menos morremos tentando entender.


Ikarus soltou um suspiro curto e assentiu.


— Então vamos.


Thomas não precisou falar. Já estava abrindo as asas.


Derek foi o último a decidir. Guardou os brincos sob a túnica e olhou uma última vez para a fenda.


— Que os Três se danem.


Ranur estendeu a mão.


Não havia espaço para todos no Grifo. A criatura era enorme, mas ainda assim limitada. Thomas resolveu o problema batendo as próprias asas e se elevando ao lado do Guardião. Os outros quatro subiram com dificuldade, segurando-se nas placas da armadura dourada e nas penas firmes do Grifo.


Quando a criatura decolou, a terra tremeu novamente.


A fenda se alargou.


E, do fundo dela, uma voz antiga e sem boca ecoou — não nos ouvidos, mas diretamente na mente de todos:


“Vocês não estão fugindo.  

Estão vindo até mim.”


O Grifo rugiu e acelerou, cortando o céu noturno em direção ao norte.


Abaixo deles, a rachadura continuava a se abrir, lenta e inevitável, como uma ferida que finalmente havia encontrado o caminho para sangrar de verdade.


Ad’Heim: A Estrada que Sangra

 

Por Yuri Schein  

A Floresta Encantada não queria deixá-los partir.


Cada passo do grupo era contestado. Galhos se fechavam atrás deles como dedos. A névoa se adensava sem motivo. O chão, antes firme, agora cedia em pontos aleatórios, como se a própria terra hesitasse em carregá-los.


Derek caminhava na frente, os Brincos de Valeth pendurados no pescoço por um cordão improvisado. A luz que eles emitiam havia mudado. Já não era mais o brilho suave e quase reconfortante de antes. Agora pulsava de forma irregular, como um coração ferido.


— Eles estão reagindo a alguma coisa — murmurou ele, sem olhar para trás.


Thomas, logo atrás, mantinha as asas semiabertas, pronto para voar a qualquer instante.


— Ou a alguém.


Raella não respondeu. A capa mágica havia se tornado quase pesada sobre seus ombros, como se absorvesse a umidade da floresta e a transformasse em peso. Gillian fechava a formação ao lado de Ikarus, que observava cada sombra com a mão firme na espada.


Horas se passaram.


O céu acima deles permanecia estranho. A estrela que sumira não havia voltado. Em seu lugar, havia apenas um vazio que doía nos olhos se alguém olhasse por tempo demais.


Foi Gillian quem notou primeiro.


— Ali.


Ela apontou para uma clareira estreita à frente. No centro, o chão estava rachado. Não como se tivesse sido partido por força, mas como se tivesse sido… aberto por dentro. Uma linha fina e escura atravessava a terra, irradiando um calor quase imperceptível.


Derek se aproximou com cautela.


Os Brincos de Valeth queimaram contra sua pele.


— Isso não é natural.


Thomas ajoelhou-se ao lado da rachadura e passou dois dedos sobre a borda. A pedra estava quente. E, por um segundo, ele jurou ter ouvido um sussurro vindo de baixo.


— Alguém passou por aqui recentemente — disse ele. — Ou alguma coisa.


Ikarus franziu o cenho.


— Ranur?


— Não — respondeu Thomas. — O Grifo voa. Isso… caminhou.


O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som distante.


Não era o rugido do Grifo.  

Não era vento.  

Não era animal.


Era um eco. Um eco de passos pesados, lentos, que vinham de muito longe — e ao mesmo tempo pareciam estar logo abaixo deles.


Raella deu um passo para trás.


— Precisamos sair daqui. Agora.


Ninguém discordou.


Eles aceleraram o passo, seguindo o rastro quase invisível que o Grifo havia deixado no céu. A floresta, aos poucos, começou a rarear. As árvores mortas deram lugar a um terreno mais aberto, rochoso, onde o vento soprava sem obstáculos.


Foi ali que viram.


No horizonte, cortando as nuvens baixas, a silhueta dourada do Grifo de Lenória. Ranur ainda voava, mas agora em círculos amplos, como se estivesse examinando algo no chão.


E abaixo dele…


Uma segunda rachadura.  

Muito maior.  

Muito mais profunda.


A terra havia se aberto em um vale estreito e longo, como se alguém tivesse puxado uma cicatriz antiga e forçado a ferida a sangrar novamente. Do interior da fenda subia um vapor escuro, carregado do mesmo cheiro metálico que haviam sentido na Árvore Negra.


Thomas pousou as asas e observou em silêncio.


— Isso não é obra dos Guardiões.


Derek apertou os brincos.


— Então de quem é?


Ninguém respondeu.


Porque, no fundo da fenda, algo se mexeu.


Não um Guardião.  

Não um Hunen.  

Não Angarkor.


Algo que havia esperado tempo demais.


E que, finalmente, havia encontrado o caminho de volta para a superfície.


Ranur, lá no alto, puxou as rédeas invisíveis do Grifo e desceu em direção ao grupo. Sua armadura dourada brilhava como um sol pequeno e cansado.


Quando pousou a poucos metros deles, o Guardião de Lenória desceu da criatura e os encarou por um longo momento.


— Vocês ouviram o chamado — disse ele, a voz baixa e grave. — E ainda assim vieram.


Não era uma pergunta.


Derek engoliu em seco.


— O Ent disse que não tínhamos escolha.


Ranur assentiu lentamente.


— Ele estava certo.


Então apontou para a enorme rachadura no chão.


— Isso é só o começo. Os Três Desertores não estão apenas se movendo. Eles estão… abrindo caminhos. Caminhos que deveriam ter permanecido selados.


O Grifo rugiu baixo, inquieto.


Ranur olhou para o grupo — agora reduzido a cinco — e pela primeira vez seus olhos dourados mostraram algo parecido com urgência.


— Se vocês ainda querem ter alguma chance de entender o que está acontecendo… e de sobreviver a isso… venham comigo.


Ele montou novamente no Grifo.

— Ou fiquem aqui e assistam o mundo começar a sangrar.

O vento uivou entre as rochas.

E, no fundo da fenda, a coisa antiga sorriu sem boca.

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Ad’Heim: O Rastro no Céu


Por Yuri Schein  


Ninguém falou por um longo momento.


O vento continuava a soprar entre as folhas negras da Árvore, carregando o cheiro de terra revolvida e algo mais antigo — um aroma metálico e frio que fazia a pele arrepiar. Derek ainda segurava os Brincos de Valeth. A luz que emanava deles agora pulsava no mesmo ritmo que a capa de Raella e, estranhamente, no mesmo ritmo que o coração acelerado de Thomas.


Ikarus foi o primeiro a quebrar o silêncio.


— Então é isso. Seguimos o Guardião.


Não era uma pergunta. Era uma declaração.


Rickson assentiu, apertando o cajado.


— Se Ranur já está no ar, ele sabe mais do que qualquer um de nós. E se o Ent está certo… não temos tempo para discutir rotas.


Gillian olhou para a direção em que a sombra dourada havia desaparecido.


— O norte. Sempre o norte. Desde o começo tudo aponta para lá.


Thomas recolheu as asas com um movimento seco. Seus olhos vermelhos brilhavam sob a luz fraca da clareira.


— Então vamos. Antes que o que quer que esteja acordando decida se mover mais rápido do que nós.


O grupo começou a se preparar. Não havia muito o que levar. As moções estavam quase no fim. As armas, gastas. A esperança, ainda menor. Mas a determinação… essa ainda restava.


Enquanto isso, muito acima deles, Ranur voava.


O Grifo cortava o céu noturno com velocidade constante. Abaixo, a Floresta Encantada se estendia como um mar negro de copas. Mais adiante, as luzes distantes de Lenória ainda brilhavam, mas o Guardião não olhava para trás.


Ele olhava para frente.


Para o ponto exato onde a estrela havia sumido.


E para algo que só ele conseguia perceber: um rastro invisível no ar. Uma ferida aberta no tecido do mundo. Fina. Antiga. E agora sangrando.


— Eles estão se reunindo — murmurou Ranur para o Grifo. — Os Três. Depois de tanto tempo.


O Grifo respondeu com um rugido baixo, quase um rosnado de desgosto.


Ranur colocou a mão enluvada sobre o pescoço da criatura.


— Eu sei. Eu também preferia que nunca tivessem se mexido. Mas o chamado já foi feito. E os Doze responderam. Agora só resta descobrir se ainda dá tempo de impedir o que vem a seguir.


Ele fechou os olhos por um instante, sentindo os outros onze Guardiões através do vínculo antigo. Aldren no deserto. Seyron nas montanhas de Sefrion. Kael sobre o mar. Todos em movimento. Todos alertas. Todos… preocupados.


Pela primeira vez em séculos, Ranur sentiu medo.


Não medo de morrer. Guardiões não temiam a morte da mesma forma que os homens.


Medo de que o que estava despertando fosse maior do que os Doze juntos.


Lá embaixo, o grupo deixava a clareira.


O Ent não os acompanhou. Apenas observou enquanto eles desapareciam entre as árvores mortas, seguindo o rastro quase imperceptível que o Grifo havia deixado no céu. Quando o último deles sumiu de vista, o Ent baixou a cabeça.


— Vá com cuidado, filhos de Ad’Heim — sussurrou ele para o vento. — O que os Três Desertores começaram… os Doze talvez não consigam terminar sozinhos.


Nas profundezas da terra, muito abaixo da Árvore Negra, algo se mexeu novamente.


Não era um Guardião.  

Não era um Hunen.  

Não era Angarkor.


Era mais antigo.  

Mais paciente.  

E agora… plenamente acordado.


Uma voz sem boca ecoou nas cavernas esquecidas, tão baixa que nenhum ouvido mortal poderia captá-la:


— Finalmente.


E o mundo, por um breve instante, pareceu segurar a respiração.


Ad’Heim: A Clareira que Ouviu

 

Por Yuri Schein  


A Árvore Negra não tremeu por acaso.


No centro da clareira, suas raízes profundas se contorceram sob a terra como se tentassem se afastar de algo que já estava dentro dela. As folhas negras, que normalmente absorviam qualquer luz, brilharam por um instante com um tom esverdeado doentio — o mesmo tom que o Ent usava quando falava de eras que os mortais não deveriam lembrar.


O grupo ainda estava ali.


Derek apertava os Brincos de Valeth contra o peito, sentindo o metal frio queimar a pele. Thomas mantinha os montantes desembainhados, asas meio abertas, instintos em alerta máximo. Raella tinha a mão sobre a capa mágica, que agora pulsava de forma irregular. Ikarus, Gillian e Rickson formavam um semicírculo defensivo, embora nenhum deles soubesse exatamente contra o quê.


O Ent ergueu a cabeça — se é que aquela massa de galhos retorcidos podia ser chamada de cabeça.


— Vocês também ouviram — disse ele, a voz mais baixa e grave do que nunca. — O chamado não foi feito para os mortais. Mas a terra inteira o sentiu.


Derek engoliu em seco.


— O que foi aquilo?


O Ent não respondeu de imediato. Em vez disso, suas raízes se moveram novamente, abrindo uma pequena fenda no chão da clareira. Dela subiu um vapor escuro, carregado de cheiro de terra antiga e algo metálico.


— Os Doze despertaram — murmurou o Ent. — Todos. Ao mesmo tempo. Isso não acontecia desde… desde antes da Guerra de Duzentos Anos. Desde antes dos três irmãos.


Thomas franziu o cenho.


— Angarkor.


O nome pairava no ar como uma maldição.


O Ent inclinou-se ligeiramente na direção do meio-dragão.


— Angarkor é apenas uma peça. Uma peça importante, mas ainda assim uma peça. O chamado que os Guardiões ouviram não veio dele. Veio de mais longe. De mais fundo.


Raella deu um passo à frente, a capa brilhando mais forte.


— De onde?


O Ent demorou a responder. Quando falou, a voz parecia vir de todos os troncos ao mesmo tempo.


— Dos três que desertaram.


Um silêncio pesado caiu sobre a clareira.


Korangar. Otroneu. Drodekh.


Os nomes que o próprio Ent havia revelado pouco tempo antes agora soavam diferentes. Mais próximos. Mais perigosos.


Derek apertou os brincos com mais força.


— Eles voltaram?


— Não — respondeu o Ent. — Eles nunca partiram de verdade. Apenas pararam de se mostrar. Mas algo os fez se mexer novamente. E quando os Três se mexem… os Doze não conseguem permanecer adormecidos.


No alto do céu, muito acima da Floresta Encantada, uma sombra dourada atravessou as nuvens.


O Grifo de Lenória.


Ranur voava baixo o suficiente para que o vento de suas asas sacudisse as copas das árvores. Seus olhos dourados encontraram a clareira por um breve instante. Ele não desceu. Não precisava. O Guardião já sabia que o grupo estava ali. E que a Árvore Negra havia respondido ao mesmo chamado.


Ranur murmurou algo que o vento carregou embora.


— Eles estão mais perto do que pensávamos.


O Grifo rugiu em resposta e bateu as asas com mais força, subindo novamente em direção ao norte.


Na clareira, o Ent observou a sombra dourada desaparecer.


— Um dos Doze já está se movendo — disse ele. — Isso significa que o tempo está se esgotando.


Thomas guardou um dos montantes e olhou para os companheiros.


— Então o que fazemos agora?


O Ent virou-se completamente para o grupo. Pela primeira vez, suas folhas negras pareciam quase… tristes.


— Vocês não têm escolha. O chamado já os tocou. Os Brincos de Valeth, a capa, a maldição de Jetto… tudo isso os tornou parte da mesma corrente. Se os Três Desertores estão se movendo, e se os Guardiões despertaram, então o equilíbrio que sustenta Ad’Heim está prestes a se partir.


Ele fez uma pausa.


— E quando isso acontecer, não haverá reino seguro. Nem torre dourada. Nem Árvore Negra.


Derek olhou para os brincos em sua mão. Eles brilhavam com uma luz fraca e constante, como se respondessem a algo distante.


— Então para onde vamos?


O Ent apontou com um galho longo e retorcido para o norte, na direção em que o Grifo havia voado.


— Sigam o Guardião de Lenória. Ou sigam o rastro do chamado. Ambos os caminhos levam ao mesmo lugar.


A clareira ficou em silêncio novamente.


Só o vento movia as folhas negras.


E, bem no fundo da terra, algo antigo e paciente abriu os olhos pela primeira vez em muito, muito tempo.


Ad’Heim: O Eco do Chamado

 

Por Yuri Schein  


A noite em Lenória não era mais a mesma.


Ranur permanecia imóvel no centro da praça principal, a armadura dourada ainda pulsando com uma luz fraca e constante. O Grifo de Lenória pairava acima dele, asas abertas o suficiente para cobrir metade do céu da cidade. Seus olhos âmbar varriam o horizonte como se procurassem algo que ainda não havia se revelado.


Os sinos continuavam tocando.


Não o toque apressado de alarme, nem o ritmo solenemente marcado de uma cerimônia. Era um som antigo, irregular, quase hesitante — como se os próprios sinos estivessem tentando lembrar uma melodia que ninguém havia tocado em séculos.


Ranur ergueu o olhar para o ponto do céu onde a estrela havia desaparecido.


Não havia buraco. Não havia sombra. Apenas ausência.


E a ausência doía.


— Não é um inimigo que se aproxima — murmurou o Guardião, a voz baixa o bastante para que apenas o Grifo o ouvisse. — É algo que já está aqui. Algo que sempre esteve.


O Grifo soltou um rugido curto, quase um rosnado de reconhecimento. As garras se cerraram no ar, e uma rajada de vento desceu sobre a praça, apagando dezenas de tochas de uma só vez. As pessoas que ainda ousavam permanecer nas ruas recuaram em silêncio. Ninguém ousou gritar. Ninguém ousou perguntar.


Porque todos sabiam.


Quando Ranur descia, a pergunta já havia se tornado irrelevante.


Enquanto isso, em outras onze torres espalhadas por Ad’Heim, o mesmo eco chegava.


Em Aldora, Aldren abriu os olhos no interior de sua torre parcialmente soterrada. A areia ao redor começou a se mover sozinha, formando padrões que nenhum vento poderia desenhar. Do deserto ergueram-se escamas, depois asas, depois o corpo inteiro do Dragão de Aldora — uma criatura tão grande que as dunas pareciam grãos de poeira sob suas garras. Aldren colocou a mão sobre o peito da armadura e sentiu o mesmo chamado que Ranur havia sentido.


— Chegou a hora de lembrar — disse ele ao dragão. — E de fazer com que os outros também lembrem.


Em Sefrion, Seyron pronunciou uma única palavra. A montanha onde sua torre estava escondida tremeu. Runas antigas se acenderam nas paredes internas, e do fogo que nunca se apagava nasceu a Fênix. Suas penas não queimavam — elas consumiam a própria escuridão.


Em Kallon, as ondas pararam de bater contra os penhascos por um instante. Kael desceu os degraus de sua torre e estendeu a mão para o oceano. A Serpente Marinha emergiu das profundezas, olhos enormes refletindo as duas luas. O Guardião do Mar não precisou falar. O mar já sabia.


Em Baltamus, engrenagens que não giravam há gerações começaram a se mover. Balther observou o Golem despertar — pedra e metal se erguendo como se a própria montanha tivesse decidido caminhar.  


Em Valeth, o Pégaso desceu em silêncio absoluto.  


Em Khsandra, as raízes da Árvore Ancestral se moveram sob a terra.  


Em Gallen, o Roc atravessou as nuvens com um grito que fez os trovões responderem.  


Em Irdos, o Titã de Pedra ergueu a cabeça.  


Em Setra, o Cervo Branco apareceu entre as árvores, e a vida floresceu onde seus cascos tocavam o chão.  


Em Thimos, o tempo hesitou por um segundo — apenas um segundo — e o Dragão Cronarca abriu os olhos em três eras diferentes ao mesmo tempo.  


E em Arteph…  


A torre negra permaneceu silenciosa por mais tempo que as outras.  


Artheon não desceu.  


Não precisava.  


Do outro lado da passagem que ele guardava, Cerberus já estava acordado. Três cabeças. Três pares de olhos. E um rosnado baixo que ecoou não apenas na torre, mas em todos os lugares onde os mortos ainda sonhavam.


De volta a Lenória, Ranur sentiu cada um desses despertares como se fossem cordas sendo puxadas em sua própria alma.


O Grifo abaixou a cabeça até ficar quase no mesmo nível do Guardião.


— Eles também ouviram — disse Ranur. — Todos nós ouvimos.


Ele olhou novamente para o céu vazio onde a estrela deveria estar.


— Não é Angarkor. Ainda não.  


Mas está ligado a ele.  


E aos três que desertaram.


O vento mudou de direção. Pela primeira vez em séculos, Ranur sentiu algo que quase nunca experimentava: urgência.


— Prepare-se — ordenou ao Grifo. — Vamos precisar voar mais longe do que já voamos em muito tempo.


Enquanto a criatura batia as asas e se elevava, levando o Guardião consigo, um pensamento cruzou a mente de Ranur como uma lâmina fria:


Os Doze haviam sido criados para manter a ordem.  


Mas a ordem só precisava ser defendida quando alguém tentava quebrá-la de propósito.


E alguém — ou alguma coisa — acabara de tentar.


No alto do céu, acima de Lenória, o Grifo rugiu mais uma vez.


Desta vez, o rugido não foi apenas de aviso.


Foi de resposta.


E, em algum lugar muito distante, no coração da Floresta Encantada, a Árvore Negra estremeceu.


Como se, pela primeira vez em eras, também estivesse ouvindo o mesmo chamado.