sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: O GUARDIÃO DE SEFRION

 


A noite havia engolido Haffen.


Não havia estrelas.


Não havia silêncio.


O céu estava coberto por nuvens negras, e abaixo delas milhares de mortos avançavam lentamente sobre as planícies de Sefrion.


O som dos ossos contra a terra era quase hipnótico.


Passo.


Passo.


Passo.


Passo.


Não havia gritos.


Os mortos não gritavam.


Não sentiam medo.


Não sentiam dor.


Não sentiam nada.


E talvez fosse isso que tornasse aquele exército tão assustador.


Sobre as muralhas de Haffen, os magos observavam em silêncio.


Alguns seguravam cajados.


Outros preparavam pergaminhos.


Alguns simplesmente choravam.


Porque sabiam.


Nenhuma biblioteca ensinava como enfrentar aquilo.


Nenhum livro descrevia o que fazer quando a própria morte marchava contra uma cidade.


Então os portões se abriram.


E ele saiu.


Sozinho.


O Guardião de Sefrion caminhou lentamente pela estrada.


Sua armadura dourada refletia a pouca luz que atravessava as nuvens.


Sobre seus ombros estava o manto que carregava desde o dia em que havia recebido o título.


Na mão, sua arma.


Atrás dele, Haffen.


À frente, os mortos.


Um jovem soldado correu até o portão.


— Senhor!


O Guardião não parou.


— Volte!


Ele continuou caminhando.


— São milhares!


O Guardião respondeu sem olhar para trás:


— Eu sei.


— Não podemos deixá-lo ir sozinho!


Ele finalmente parou.


Virou o rosto.


— Não estou sozinho.


O soldado olhou ao redor.


Não havia ninguém.


O Guardião tocou o próprio peito.


— Sefrion está comigo.


Então voltou a caminhar.


O primeiro morto chegou.


O Guardião ergueu a arma.


Um golpe.


O crânio foi partido.


O corpo caiu.


Outro veio.


Outro golpe.


Depois outro.


E outro.


Em poucos segundos, dezenas estavam mortos novamente.


Mas os mortos não permaneciam mortos.


Os ossos começaram a se mover.


Braços se arrastaram pela terra.


Crânios quebrados se reconstruíram.


Corpos partidos voltaram a se erguer.


O Guardião observou.


— Necromancia...


Então ouviu uma voz.


— Impressionante.


Ele levantou os olhos.


Um homem caminhava tranquilamente entre os mortos.


Não parecia um monstro.


Não parecia um demônio.


Era apenas um homem.


Jovem.


Vestido de negro.


Com um cajado na mão.


— Você é o Guardião — disse o necromante.


— Sou.


— Então você sabe que não pode vencer.


— Sei.


O necromante franziu a testa.


— E ainda assim saiu.


— Sim.


— Por quê?


O Guardião ergueu a arma.


— Porque essa pergunta não importa.


O necromante sorriu.


— Então qual pergunta importa?


O Guardião respondeu:


— Quantos de vocês preciso destruir antes que você alcance Haffen?


O sorriso desapareceu.


Os mortos avançaram.


---


O primeiro golpe quase arrancou seu braço.


O Guardião girou o corpo, desviou da lâmina enferrujada e enterrou sua arma no peito do cadáver.


Um segundo morto veio pela esquerda.


Ele abaixou.


Uma espada passou sobre sua cabeça.


Levantou.


Golpeou.


Outro.


Mais dois.


Cinco.


Dez.


O campo desapareceu sob corpos.


E, enquanto lutava, o Guardião lembrou-se de uma coisa que não pensava havia muitos anos.


Sua infância.


Ele tinha sete anos quando segurou uma espada pela primeira vez.


Não conseguiu levantá-la.


Seu mestre riu.


— Pesada?


O menino assentiu.


— Então você ainda é fraco.


Ele tentou novamente.


A espada caiu.


— Eu não consigo.


O mestre cruzou os braços.


— Ainda não.


O menino olhou para ele.


— Qual é a diferença?


— A diferença entre “não consigo” e “não consigo ainda” é o que você fará amanhã.


Naquela noite, o menino chorou.


Não porque estava machucado.


Porque estava cansado.


Seu pai havia sido soldado.


Sua mãe havia trabalhado durante toda a vida para que ele pudesse estudar.


E ele havia escolhido aquele caminho.


Não porque queria ser famoso.


Não porque queria poder.


Mas porque, quando criança, tinha perguntado ao pai:


— Quem protege Sefrion?


Seu pai respondeu:


— Todos nós.


Ele não entendeu.


— Então por que existem os Guardiões?


O pai sorriu.


— Porque às vezes todos nós precisamos de alguém que fique de pé quando todos os outros precisarem correr.


Na época, aquilo parecia bonito.


Agora parecia cruel.


O Guardião desviou de uma lança.


A ponta atravessou sua armadura.


Ele sentiu a dor.


Agarrou a haste.


Puxou o morto para perto.


E o golpe seguinte destruiu seu rosto.


— Ainda não.


Ele respirou.


— Ainda não.


Mais mortos.


---


Ele tinha dez anos quando começou a acordar antes do nascer do sol.


Onze quando começou a correr pelas montanhas.


Doze quando seu mestre parou de ensiná-lo a atacar.


— Por quê?


— Porque você já sabe atacar.


— Então o que vou aprender?


O velho colocou uma venda sobre seus olhos.


— A ouvir.


Durante meses, ele treinou sem enxergar.


Aprendeu a perceber o peso dos passos.


A direção do vento.


O som de uma respiração.


O movimento de uma folha.


A presença de alguém atrás dele.


Aprendeu que uma espada não começava no braço.


Começava na intenção.


E aprendeu algo ainda mais importante.


— Um Guardião não luta para vencer — disse seu mestre.


— Então luta para quê?


— Para permanecer.


Aquele ensinamento nunca o abandonou.


---


Um morto enorme avançou.


O Guardião bloqueou o primeiro golpe.


O impacto o fez ajoelhar.


O segundo golpe rachou parte de sua armadura.


O terceiro o lançou contra o chão.


Ele ficou imóvel.


Por alguns segundos.


O necromante observou.


— Acabou.


O Guardião abriu os olhos.


Levantou-se.


— Não.


— Você está sangrando.


— Sim.


— Sua armadura está quebrada.


— Sim.


— Você está sozinho.


O Guardião olhou para as muralhas.


Centenas de pessoas observavam.


— Não.


O necromante acompanhou seu olhar.


— Está dizendo que aquelas pessoas lutarão?


— Não.


— Então como não está sozinho?


O Guardião apertou a arma.


— Porque eu sei por quem estou lutando.


O necromante ficou em silêncio.


Então deu uma risada baixa.


— Isso é fraqueza.


O Guardião respondeu:


— Não.


Avançou.


— Isso é memória.


---


Ele tinha dezessete anos quando seu mestre morreu.


Não em batalha.


Não diante de um inimigo.


Morreu sentado.


Naquela manhã, o jovem Guardião o encontrou respirando com dificuldade.


— Mestre?


O velho abriu os olhos.


— Você chegou.


— O senhor está doente?


— Estou velho.


— Isso não é doença.


O velho sorriu.


— Para quem tem vinte anos, talvez não.


O jovem segurou sua mão.


— Não quero ser Guardião.


O velho ficou em silêncio.


— Então não seja.


— Mas e Sefrion?


— Sefrion sobreviverá.


— E se não sobreviver?


O velho fechou os olhos.


— Então não será culpa sua.


Aquelas palavras destruíram algo dentro dele.


Porque durante toda a sua vida acreditara que precisava ser forte o suficiente para salvar todos.


Naquele dia, seu mestre lhe ensinou a última lição.


Ninguém consegue salvar todos.


Mas alguém precisa tentar.


---


O Guardião arrancou a lâmina de um cadáver.


O necromante já não sorria.


Atrás dele, milhares de mortos permaneciam.


— Você não entende — disse o necromante.


— Entendo mais do que você imagina.


— A morte não pode ser vencida.


— Eu sei.


— Então por que luta?


O Guardião olhou para o cadáver aos seus pés.


— Porque meu mestre morreu.


O necromante ficou imóvel.


— E?


— E descobri que a morte sempre vence no fim.


Ele ergueu os olhos.


— Mas isso não significa que ela precise vencer agora.


O necromante apertou o cajado.


Os mortos avançaram de uma vez.


---


O Guardião foi engolido.


Corpos sobre corpos.


Garras.


Espadas.


Ossos.


Dentes.


Ele desapareceu no meio da multidão.


Então uma luz surgiu.


Dourada.


Primeiro pequena.


Depois maior.


Até atravessar os corpos.


Os mortos foram lançados para todos os lados.


O Guardião permaneceu de pé.


Sangue escorria de seu rosto.


Sua armadura estava destruída em vários pontos.


Seu braço tremia.


Mas seus olhos continuavam firmes.


Ele olhou para Haffen.


Por um instante, lembrou-se de quando era criança.


Lembrou-se do pai.


Da mãe.


Do mestre.


Do primeiro treinamento.


Da primeira espada.


Da primeira derrota.


Da primeira vez que pensou em desistir.


E finalmente compreendeu.


Ele não havia passado a vida treinando para se tornar invencível.


Havia treinado para chegar àquele momento.


O momento em que tudo aquilo que amava estaria atrás dele.


E tudo aquilo que queria destruir estaria à sua frente.


O necromante ergueu o cajado.


— Morra.


O Guardião levantou sua arma.


— Depois.


Uma explosão de luz atravessou o campo.


A coruja gigante de Sefrion surgiu entre as nuvens.


Seu grito fez o céu estremecer.


As asas se abriram.


A criatura mergulhou.


Milhares de mortos foram atingidos pela onda de energia.


O Guardião avançou junto dela.


Pela primeira vez, o exército recuou.


O necromante olhou ao redor.


A expressão em seu rosto havia mudado.


Medo.


O Guardião percebeu.


E sorriu.


— Agora você entendeu.


— O quê?


Ele caminhou na direção dele.


— Por que existem Guardiões.


O necromante recuou.


— Você acha que pode me impedir?


— Não.


— Então?


O Guardião levantou a arma.


— Posso impedir você hoje.


Silêncio.


— Amanhã será problema de outro homem.


Ele avançou.


— Mas hoje...


A luz dourada explodiu novamente.


— ...SO GUARDIÃO DE SEFRION


A noite havia engolido Haffen.


Não havia estrelas.


Não havia silêncio.


O céu estava coberto por nuvens negras, e abaixo delas milhares de mortos avançavam lentamente sobre as planícies de Sefrion.


O som dos ossos contra a terra era quase hipnótico.


Passo.


Passo.


Passo.


Passo.


Não havia gritos.


Os mortos não gritavam.


Não sentiam medo.


Não sentiam dor.


Não sentiam nada.


E talvez fosse isso que tornasse aquele exército tão assustador.


Sobre as muralhas de Haffen, os magos observavam em silêncio.


Alguns seguravam cajados.


Outros preparavam pergaminhos.


Alguns simplesmente choravam.


Porque sabiam.


Nenhuma biblioteca ensinava como enfrentar aquilo.


Nenhum livro descrevia o que fazer quando a própria morte marchava contra uma cidade.


Então os portões se abriram.


E ele saiu.


Sozinho.


O Guardião de Sefrion caminhou lentamente pela estrada.


Sua armadura dourada refletia a pouca luz que atravessava as nuvens.


Sobre seus ombros estava o manto que carregava desde o dia em que havia recebido o título.


Na mão, sua arma.


Atrás dele, Haffen.


À frente, os mortos.


Um jovem soldado correu até o portão.


— Senhor!


O Guardião não parou.


— Volte!


Ele continuou caminhando.


— São milhares!


O Guardião respondeu sem olhar para trás:


— Eu sei.


— Não podemos deixá-lo ir sozinho!


Ele finalmente parou.


Virou o rosto.


— Não estou sozinho.


O soldado olhou ao redor.


Não havia ninguém.


O Guardião tocou o próprio peito.


— Sefrion está comigo.


Então voltou a caminhar.


O primeiro morto chegou.


O Guardião ergueu a arma.


Um golpe.


O crânio foi partido.


O corpo caiu.


Outro veio.


Outro golpe.


Depois outro.


E outro.


Em poucos segundos, dezenas estavam mortos novamente.


Mas os mortos não permaneciam mortos.


Os ossos começaram a se mover.


Braços se arrastaram pela terra.


Crânios quebrados se reconstruíram.


Corpos partidos voltaram a se erguer.


O Guardião observou.


— Necromancia...


Então ouviu uma voz.


— Impressionante.


Ele levantou os olhos.


Um homem caminhava tranquilamente entre os mortos.


Não parecia um monstro.


Não parecia um demônio.


Era apenas um homem.


Jovem.


Vestido de negro.


Com um cajado na mão.


— Você é o Guardião — disse o necromante.


— Sou.


— Então você sabe que não pode vencer.


— Sei.


O necromante franziu a testa.


— E ainda assim saiu.


— Sim.


— Por quê?


O Guardião ergueu a arma.


— Porque essa pergunta não importa.


O necromante sorriu.


— Então qual pergunta importa?


O Guardião respondeu:


— Quantos de vocês preciso destruir antes que você alcance Haffen?


O sorriso desapareceu.


Os mortos avançaram.


---


O primeiro golpe quase arrancou seu braço.


O Guardião girou o corpo, desviou da lâmina enferrujada e enterrou sua arma no peito do cadáver.


Um segundo morto veio pela esquerda.


Ele abaixou.


Uma espada passou sobre sua cabeça.


Levantou.


Golpeou.


Outro.


Mais dois.


Cinco.


Dez.


O campo desapareceu sob corpos.


E, enquanto lutava, o Guardião lembrou-se de uma coisa que não pensava havia muitos anos.


Sua infância.


Ele tinha sete anos quando segurou uma espada pela primeira vez.


Não conseguiu levantá-la.


Seu mestre riu.


— Pesada?


O menino assentiu.


— Então você ainda é fraco.


Ele tentou novamente.


A espada caiu.


— Eu não consigo.


O mestre cruzou os braços.


— Ainda não.


O menino olhou para ele.


— Qual é a diferença?


— A diferença entre “não consigo” e “não consigo ainda” é o que você fará amanhã.


Naquela noite, o menino chorou.


Não porque estava machucado.


Porque estava cansado.


Seu pai havia sido soldado.


Sua mãe havia trabalhado durante toda a vida para que ele pudesse estudar.


E ele havia escolhido aquele caminho.


Não porque queria ser famoso.


Não porque queria poder.


Mas porque, quando criança, tinha perguntado ao pai:


— Quem protege Sefrion?


Seu pai respondeu:


— Todos nós.


Ele não entendeu.


— Então por que existem os Guardiões?


O pai sorriu.


— Porque às vezes todos nós precisamos de alguém que fique de pé quando todos os outros precisarem correr.


Na época, aquilo parecia bonito.


Agora parecia cruel.


O Guardião desviou de uma lança.


A ponta atravessou sua armadura.


Ele sentiu a dor.


Agarrou a haste.


Puxou o morto para perto.


E o golpe seguinte destruiu seu rosto.


— Ainda não.


Ele respirou.


— Ainda não.


Mais mortos.


---


Ele tinha dez anos quando começou a acordar antes do nascer do sol.


Onze quando começou a correr pelas montanhas.


Doze quando seu mestre parou de ensiná-lo a atacar.


— Por quê?


— Porque você já sabe atacar.


— Então o que vou aprender?


O velho colocou uma venda sobre seus olhos.


— A ouvir.


Durante meses, ele treinou sem enxergar.


Aprendeu a perceber o peso dos passos.


A direção do vento.


O som de uma respiração.


O movimento de uma folha.


A presença de alguém atrás dele.


Aprendeu que uma espada não começava no braço.


Começava na intenção.


E aprendeu algo ainda mais importante.


— Um Guardião não luta para vencer — disse seu mestre.


— Então luta para quê?


— Para permanecer.


Aquele ensinamento nunca o abandonou.


---


Um morto enorme avançou.


O Guardião bloqueou o primeiro golpe.


O impacto o fez ajoelhar.


O segundo golpe rachou parte de sua armadura.


O terceiro o lançou contra o chão.


Ele ficou imóvel.


Por alguns segundos.


O necromante observou.


— Acabou.


O Guardião abriu os olhos.


Levantou-se.


— Não.


— Você está sangrando.


— Sim.


— Sua armadura está quebrada.


— Sim.


— Você está sozinho.


O Guardião olhou para as muralhas.


Centenas de pessoas observavam.


— Não.


O necromante acompanhou seu olhar.


— Está dizendo que aquelas pessoas lutarão?


— Não.


— Então como não está sozinho?


O Guardião apertou a arma.


— Porque eu sei por quem estou lutando.


O necromante ficou em silêncio.


Então deu uma risada baixa.


— Isso é fraqueza.


O Guardião respondeu:


— Não.


Avançou.


— Isso é memória.


---


Ele tinha dezessete anos quando seu mestre morreu.


Não em batalha.


Não diante de um inimigo.


Morreu sentado.


Naquela manhã, o jovem Guardião o encontrou respirando com dificuldade.


— Mestre?


O velho abriu os olhos.


— Você chegou.


— O senhor está doente?


— Estou velho.


— Isso não é doença.


O velho sorriu.


— Para quem tem vinte anos, talvez não.


O jovem segurou sua mão.


— Não quero ser Guardião.


O velho ficou em silêncio.


— Então não seja.


— Mas e Sefrion?


— Sefrion sobreviverá.


— E se não sobreviver?


O velho fechou os olhos.


— Então não será culpa sua.


Aquelas palavras destruíram algo dentro dele.


Porque durante toda a sua vida acreditara que precisava ser forte o suficiente para salvar todos.


Naquele dia, seu mestre lhe ensinou a última lição.


Ninguém consegue salvar todos.


Mas alguém precisa tentar.


---


O Guardião arrancou a lâmina de um cadáver.


O necromante já não sorria.


Atrás dele, milhares de mortos permaneciam.


— Você não entende — disse o necromante.


— Entendo mais do que você imagina.


— A morte não pode ser vencida.


— Eu sei.


— Então por que luta?


O Guardião olhou para o cadáver aos seus pés.


— Porque meu mestre morreu.


O necromante ficou imóvel.


— E?


— E descobri que a morte sempre vence no fim.


Ele ergueu os olhos.


— Mas isso não significa que ela precise vencer agora.


O necromante apertou o cajado.


Os mortos avançaram de uma vez.


---


O Guardião foi engolido.


Corpos sobre corpos.


Garras.


Espadas.


Ossos.


Dentes.


Ele desapareceu no meio da multidão.


Então uma luz surgiu.


Dourada.


Primeiro pequena.


Depois maior.


Até atravessar os corpos.


Os mortos foram lançados para todos os lados.


O Guardião permaneceu de pé.


Sangue escorria de seu rosto.


Sua armadura estava destruída em vários pontos.


Seu braço tremia.


Mas seus olhos continuavam firmes.


Ele olhou para Haffen.


Por um instante, lembrou-se de quando era criança.


Lembrou-se do pai.


Da mãe.


Do mestre.


Do primeiro treinamento.


Da primeira espada.


Da primeira derrota.


Da primeira vez que pensou em desistir.


E finalmente compreendeu.


Ele não havia passado a vida treinando para se tornar invencível.


Havia treinado para chegar àquele momento.


O momento em que tudo aquilo que amava estaria atrás dele.


E tudo aquilo que queria destruir estaria à sua frente.


O necromante ergueu o cajado.


— Morra.


O Guardião levantou sua arma.


— Depois.


Uma explosão de luz atravessou o campo.


A coruja gigante de Sefrion surgiu entre as nuvens.


Seu grito fez o céu estremecer.


As asas se abriram.


A criatura mergulhou.


Milhares de mortos foram atingidos pela onda de energia.


O Guardião avançou junto dela.


Pela primeira vez, o exército recuou.


O necromante olhou ao redor.


A expressão em seu rosto havia mudado.


Medo.


O Guardião percebeu.


E sorriu.


— Agora você entendeu.


— O quê?


Ele caminhou na direção dele.


— Por que existem Guardiões.


O necromante recuou.


— Você acha que pode me impedir?


— Não.


— Então?


O Guardião levantou a arma.


— Posso impedir você hoje.


Silêncio.


— Amanhã será problema de outro homem.


Ele avançou.


— Mas hoje...


A luz dourada explodiu novamente.


— ...Sefrion é minha responsabilidade.


O necromante ergueu o cajado.


Os dois avançaram um contra o outro.


E, naquela noite, entre milhares de cadáveres, o Guardião de Sefrion finalmente compreendeu o verdadeiro significado de seu título.


Não era ser aquele que nunca cai.


Era ser aquele que, depois de cair, ainda encontra forças para levantar.


Porque atrás dele havia uma cidade.


Havia crianças.


Havia velhos.


Havia livros.


Havia histórias.


Havia pessoas que talvez nunca soubessem seu nome.


E, enquanto ele permanecesse de pé, elas continuariam tendo um amanhã.


O Guardião apertou a arma.


E avançou sozinho contra a morte.efrion é minha responsabilidade.


O necromante ergueu o cajado.


Os dois avançaram um contra o outro.


E, naquela noite, entre milhares de cadáveres, o Guardião de Sefrion finalmente compreendeu o verdadeiro significado de seu título.


Não era ser aquele que nunca cai.


Era ser aquele que, depois de cair, ainda encontra forças para levantar.


Porque atrás dele havia uma cidade.


Havia crianças.


Havia velhos.


Havia livros.


Havia histórias.


Havia pessoas que talvez nunca soubessem seu nome.


E, enquanto ele permanecesse de pé, elas continuariam tendo um amanhã.


O Guardião apertou a arma.


E avançou sozinho contra a morte.

Ad'heim — AQUILO QUE EXISTE ANTES DA MORTE



Tum.


Angarkor não se moveu.


Tum.


A neve continuava caindo.


Tum.


Dessa vez, porém, ele ouviu outra coisa.


Uma voz.


Muito distante.


Tão distante que parecia vir de dentro da própria montanha.


— Angarkor...


Os olhos vermelhos se estreitaram.


Ele conhecia aquela voz.


Não porque já a tivesse ouvido antes.


Mas porque havia passado séculos tentando esquecê-la.


— Não — murmurou.


A voz repetiu:


— Angarkor...


O chão sob seus pés estremeceu.


Uma fina rachadura surgiu no gelo.


Angarkor olhou para ela.


Não era uma rachadura comum.


Não havia profundidade.


Não havia fundo.


Do outro lado dela não existia pedra.


Existia escuridão.


Uma escuridão tão absoluta que até os olhos de Angarkor pareciam incapazes de atravessá-la.


Ele deu um passo para trás.


Então ouviu passos.


O jovem cego estava voltando.


— Eu sabia — disse o rapaz.


Angarkor virou-se.


— Sabia o quê?


— Que você ouviria.


— Você sabia que isso aconteceria?


— Eu sabia que aconteceria quando você chegasse perto.


Angarkor permaneceu imóvel.


— Quem é você?


O rapaz não respondeu imediatamente.


Apenas caminhou até a rachadura.


Ajoelhou-se.


Passou a mão sobre o gelo.


E imediatamente a rachadura desapareceu.


Angarkor observou.


— Você fechou a porta.


— Não.


— Então o que fez?


— Pedi para ela esperar.


Angarkor deu um passo à frente.


— Você não deveria ser capaz de fazer isso.


O rapaz sorriu.


— E você não deveria estar vivo.


Silêncio.


Aquela resposta atingiu Angarkor de maneira diferente.


— Quem lhe contou meu nome?


— Ninguém.


— Então como sabe?


— Eu ouvi.


— O quê?


— A morte.


Angarkor ficou olhando para ele.


— Você fala como se a morte fosse uma pessoa.


— Para você, talvez seja.


— Para mim?


— Você morreu quando perdeu sua família.


Angarkor fechou os punhos.


O gelo ao redor de seus pés começou a rachar.


— Não fale sobre eles.


— Por quê?


— Porque você não sabe nada sobre eles.


— Sei mais do que você imagina.


Angarkor desapareceu.


Num instante estava diante do rapaz.


A mão fechada parou a poucos centímetros de seu rosto.


O ar se deformou.


A neve deixou de cair.


Os flocos ficaram suspensos no espaço.


O mundo inteiro parecia ter parado.


Mas o jovem continuou respirando tranquilamente.


— Você poderia me matar — disse.


Angarkor olhou para ele.


— Poderia.


— Então faça.


O homem não respondeu.


— Por que não faz?


— Porque você não está com medo.


— Estou.


— Não parece.


— Medo não é correr.


— Então o que é?


O rapaz levantou o rosto.


— Saber que alguma coisa pode destruí-lo e continuar parado.


Angarkor baixou lentamente a mão.


— Você não é humano.


— Fui.


A palavra ficou suspensa entre os dois.


Angarkor estreitou os olhos.


— Fui?


— Há muito tempo.


— Quanto tempo?


— Antes de os Doze receberem seus nomes.


Angarkor não respondeu.


Pela primeira vez naquela noite, o jovem parecia estar diante de alguém que realmente conseguia surpreender.


— Você conheceu os Doze?


— Conheci aquilo que existia antes deles.


O rosto de Angarkor mudou.


— A Primeira Ordem.


O rapaz sorriu.


— Esse é o nome que eles deram.


— Então é verdade.


— Depende do que você chama de verdade.


Angarkor caminhou alguns passos.


— O que você é?


O jovem tocou os próprios olhos.


— Eu fui feito para ver.


— E nasceu cego?


— Não.


— Então?


— Eu pedi para ficar cego.


Angarkor parou.


— Por quê?


— Porque enxergar era pior.


— O que você viu?


O rapaz ficou em silêncio.


Depois respondeu:


— O mundo sem a mentira que o mantém inteiro.


Angarkor olhou para as montanhas.


— Explique.


— Você vê uma pedra.


— Sim.


— Eu vejo aquilo que existia antes da pedra.


— Uma montanha?


— Não.


— Então o quê?


— Possibilidades.


Angarkor ficou em silêncio.


O rapaz continuou:


— Toda coisa que existe carrega consigo aquilo que poderia ter sido.


— Você vê todas as possibilidades?


— Via.


— E agora?


— Agora vejo apenas o necessário.


— Por que arrancou sua própria visão?


— Porque descobri que saber todos os caminhos não significa saber qual deles deve ser escolhido.


Angarkor sorriu.


— Então você é um vidente.


— Não.


— Um profeta?


— Também não.


— O que, então?


O rapaz respondeu:


— Uma testemunha.


Angarkor franziu a testa.


— Testemunha de quê?


O jovem levantou o rosto para o céu.


— Do primeiro erro.


A expressão de Angarkor endureceu.


— O que foi o primeiro erro?


— Criar alguma coisa que pudesse perguntar por que foi criada.


O silêncio voltou.


A neve caiu.


Uma lua apareceu novamente entre as nuvens.


— Você está dizendo que os Hunens cometeram um erro?


— Não.


— Então quem?


— Aquele que veio antes deles.


Angarkor não gostou da resposta.


— Ele.


O rapaz assentiu.


— Ele.


— Você o viu?


— Sim.


— E sobreviveu?


— Não.


Angarkor ficou imóvel.


— Então quem está falando comigo?


O rapaz sorriu.


— Uma coisa que não deveria ter sobrevivido.


Angarkor olhou para os olhos cegos do jovem.


— Você morreu.


— Sim.


— E voltou.


— Não.


— Então?


O jovem aproximou-se dele.


— Eu nunca voltei.


Angarkor finalmente entendeu.


Ou pensou ter entendido.


— Você está preso.


— Todos estão.


— Onde?


O jovem apontou para o chão.


— Aqui.


Angarkor olhou para baixo.


— Baltamus?


— Não.


— O mundo?


— Não.


— Então onde?


O rapaz respondeu:


— Na primeira decisão.


Angarkor ficou em silêncio.


— Tudo o que existe — continuou o jovem — existe porque alguma coisa decidiu que deveria existir.


— E aquilo que não existe?


— Continua esperando.


Angarkor olhou novamente para a rachadura.


— Atrás daquela porta?


— Não.


— Então onde?


— Dentro dela.


Angarkor recuou.


— Você está dizendo que a porta não leva até aquilo.


— Não.


— Então o que ela faz?


— Mantém aquilo aqui.


Angarkor ficou completamente imóvel.


— Você quer dizer...


— Sim.


— A porta não é uma passagem.


— Não.


— É uma prisão.


O rapaz assentiu.


— Finalmente.


Angarkor olhou para a montanha.


Durante séculos, ele acreditara que a Costura, a realidade distorcida, os Hunens e os mortos eram os limites daquilo que poderia existir.


Mas agora compreendia.


A porta que Elias encontrara não levava para outro mundo.


Ela era a barreira entre o mundo e aquilo que jamais deveria ter recebido existência.


— O que está atrás dela?


O rapaz respondeu:


— Você.


Angarkor ficou imóvel.


— Eu?


— Não você como Angarkor.


O rapaz tocou o peito dele.


— Aquilo que você se tornou.


Angarkor afastou sua mão.


— Não diga esse nome.


— Qual?


— Korangar.


O rapaz sorriu.


— Então você ainda se lembra.


Angarkor virou o rosto.


— Eu não sou ele.


— Não.


— Ele morreu.


— Sim.


— Eu o destruí.


— Não.


Angarkor olhou novamente para o jovem.


— O que você quer dizer?


— Você não destruiu Korangar.


Pausa.


— Você o libertou.


As duas luas desapareceram novamente.


A neve parou.


Angarkor respirou fundo.


— Explique.


— Korangar não era o Caos.


— Ele era o Avatar do Caos.


— Era assim que os Doze o chamavam.


— Então o que ele era?


O rapaz respondeu:


— Uma porta.


Angarkor ficou em silêncio.


— O Caos não precisava de um Avatar — continuou o jovem. — Precisava de uma forma de entrar.


— E Korangar...


— Foi a primeira forma.


Angarkor fechou os olhos.


Memórias começaram a surgir.


Ragnarok.


Violet.


Seus filhos.


A guerra.


O sangue.


A raiva.


A dor.


O instante em que algo dentro dele despertou.


A voz.


A transformação.


Angarkor abriu os olhos.


— Então minha dor...


— Foi a chave.


— Não.


— Sim.


— Minha família morreu por causa deles.


— Talvez.


— Eu fui destruído por eles.


— Sim.


— Então por que você está dizendo que eu fui a porta?


O jovem respondeu calmamente:


— Porque o que entrou em você precisava de uma ferida.


Angarkor olhou para o próprio peito.


— E agora?


— Agora a ferida aprendeu a andar.


Angarkor permaneceu imóvel.


Então começou a rir.


Baixo.


Quase imperceptível.


Depois mais alto.


A neve começou a subir do chão.


— Você sabe o que isso significa?


— Sei.


— Então você sabe que não tenho mais motivo para temer nada.


O jovem ficou sério.


— É exatamente isso que me preocupa.


Angarkor parou de rir.


— Por quê?


— Porque você acha que não tem nada a perder.


— Não tenho.


— Tem.


— O quê?


O jovem respondeu:


— Você mesmo.


Angarkor ficou olhando para ele.


— Eu não existo para mim.


— Esse é o problema.


A montanha tremeu.


Uma fissura surgiu novamente no gelo.


Desta vez, porém, não foi pequena.


Ela atravessou toda a encosta.


Um som profundo veio das profundezas.


Tum.


Angarkor olhou para a rachadura.


Tum.


O jovem ajoelhou-se.


Tum.


Ele colocou as duas mãos sobre o gelo.


— Não.


Angarkor perguntou:


— O que aconteceu?


O rapaz respondeu:


— Ele acordou.


— Quem?


O jovem levantou lentamente a cabeça.


Pela primeira vez desde que Angarkor o conhecera, havia medo em sua voz.


— Aquilo que eu passei milhares de anos tentando esquecer.


Angarkor aproximou-se.


— Diga o nome.


— Não posso.


— Por quê?


— Porque nomes dão forma às coisas.


— Então não diga.


O jovem respirou profundamente.


— Ele já tem uma forma.


Angarkor ficou imóvel.


— Qual?


O rapaz apontou para ele.


— A sua.


Angarkor sentiu alguma coisa dentro do peito.


Não era dor.


Não era medo.


Era reconhecimento.


Uma segunda presença.


Muito antiga.


Muito profunda.


Muito familiar.


A voz voltou.


Dessa vez não veio da montanha.


Veio de dentro dele.


— Korangar.


Angarkor caiu de joelhos.


O jovem cego fechou os olhos.


— Agora você entende.


Angarkor segurou a própria cabeça.


— Não...


— Ele nunca foi embora.


— NÃO!


A realidade explodiu ao redor deles.


As árvores foram arrancadas do solo.


A neve subiu aos céus.


As montanhas se partiram.


O rio congelado abriu-se em centenas de quilômetros.


E, durante um único instante, toda Baltamus viu uma coisa impossível:


dois céus.


Um sobre o outro.


Um pertencente ao mundo.


Outro pertencente àquilo que existia antes dele.


Angarkor levantou-se.


Seus olhos brilhavam em vermelho.


Mas havia algo diferente neles.


Uma pequena luz branca.


Exatamente como a dos olhos cegos do rapaz.


— Você sabia — disse Angarkor.


O jovem assentiu.


— Desde o começo.


— Por que me contou?


— Porque chegou a hora de escolher.


— Escolher o quê?


O jovem levantou-se.


— Se você será a porta...


Pausa.


— ...ou aquele que vai fechá-la.


Angarkor olhou para ele.


— E se eu escolher abri-la?


O jovem respondeu:


— Então o mundo morrerá.


Angarkor sorriu.


— E se eu fechá-la?


O rapaz ficou em silêncio.


— Então eu morrerei.


Angarkor parou.


— Você?


— Sim.


— Por quê?


O jovem tocou novamente os próprios olhos.


— Porque eu não sou o guardião da porta.


Ele sorriu.


— Eu sou a última coisa que ela ainda mantém presa.


Angarkor não respondeu.


O jovem começou a desaparecer.


Primeiro os pés.


Depois as pernas.


Depois o corpo.


— Espere.


O rapaz olhou para ele.


— Qual é seu nome verdadeiro?


O jovem sorriu.


E finalmente respondeu:


— Ninguém me deu um nome.


Seu corpo continuou desaparecendo.


— Porque antes de existirem os Doze...


Apenas seu rosto permanecia.


— ...eu era aquilo que eles chamaram de Primeira Testemunha.


Então desapareceu.


Angarkor ficou sozinho.


A rachadura no gelo fechou.


O mundo voltou ao normal.


A neve voltou a cair.


Mas Angarkor não se moveu.


Porque agora ele sabia a verdade.


O jovem não era um mensageiro.


Não era um profeta.


Não era um Hunen.


Não era sequer um deus.


Era algo muito pior.


Era a única testemunha viva do nascimento da realidade.


E, pela primeira vez desde que havia se tornado Angarkor, ele compreendeu por que Elias havia encontrado a porta.


E compreendeu também por que os Hunens tinham tanto medo dela.


Porque aquilo que estava atrás da porta não queria destruir Ad’Heim.


Não queria governá-lo.


Não queria matar os mortais.


Queria apenas uma coisa.


Voltar para casa.


E a única casa que aquela coisa conhecia...


era o lugar onde nada ainda existia.


Angarkor ergueu os olhos para as duas luas.


— Então é isso...


Um sorriso lentamente surgiu em seu rosto.


— Você não quer destruir o mundo.


Ele abriu a mão.


Uma pequena distorção apareceu sobre sua palma.


— Você quer desfazê-lo.


A distorção aumentou.


E, muito abaixo das montanhas de Baltamus, algo respondeu:


Tum.


Angarkor fechou a mão.


— Então venha.


Pela primeira vez em séculos, ele não estava falando com o mundo.


Estava falando com aquilo que existia antes dele.


— Mas se você quiser atravessar...


Os dois katares surgiram lentamente em suas mãos.


Negros.


Silenciosos.


Perfeitamente imóveis.


— ...vai ter que passar por mim primeiro.

Ad'Heim — O HOMEM QUE O CEGO ENXERGOU


A neve caía sobre Baltamus.


Não havia vento.


Era isso que tornava aquela noite estranha.


Em Baltamus, o vento nunca cessava completamente. As montanhas produziam correntes violentas que atravessavam os vales, arrastando neve, galhos e até pequenas pedras. Mas naquela noite tudo estava imóvel.


Como se o próprio mundo prendesse a respiração.


No extremo de uma pequena aldeia, distante das grandes fortalezas e das rotas comerciais, havia uma velha ponte de madeira sobre um rio congelado.


Um homem caminhava sobre ela.


Usava um manto negro, pesado e simples. A neve cobria seus ombros e seus cabelos brancos. Levava consigo apenas uma pequena bolsa presa à cintura.


Nenhuma armadura.


Nenhuma espada.


Nenhum símbolo.


Para qualquer pessoa que o observasse, seria apenas um viajante.


Um homem velho demais para viajar sozinho.


Ele parou no meio da ponte.


Abaixo dele, o rio congelado parecia uma lâmina de vidro.


— Você está aí há muito tempo — disse uma voz.


O homem virou lentamente o rosto.


Havia um rapaz sentado na margem do rio.


Talvez tivesse dezesseis ou dezessete anos.


Vestia roupas simples de camponês e segurava um pequeno cajado de madeira.


Seus olhos estavam abertos.


Mas eram completamente brancos.


Cegos.


O homem observou-o durante alguns segundos.


— Está falando comigo?


O rapaz sorriu.


— Não há mais ninguém aqui.


O homem olhou para os lados.


— Como sabe?


— Porque consigo ouvir quando alguém mente.


O homem permaneceu imóvel.


Então soltou uma pequena risada.


— Isso é uma habilidade interessante.


— Não é.


— Não?


— É uma maldição.


O homem atravessou o restante da ponte.


— Qual é o seu nome?


— Elias.


O homem parou.


Por apenas um instante.


Quase imperceptível.


O rapaz percebeu.


— E o seu?


— Pode me chamar de... Arkan.


— Arkan?


— Sim.


O rapaz inclinou a cabeça.


— Esse não é seu nome.


O homem sorriu.


— Você acabou de dizer que consegue ouvir mentiras.


— Eu disse que consigo ouvir quando alguém mente. Não disse que consigo ouvir a verdade.


Silêncio.


A neve continuava caindo.


— Você é um filósofo? — perguntou o homem.


— Não.


— Então o que é?


— Um cego.


— Isso não é uma profissão.


— Nem sempre é preciso ter uma profissão para ser alguma coisa.


O homem olhou novamente para os olhos brancos do rapaz.


— E o que você é, então?


O rapaz passou a mão sobre o gelo.


— Alguém que aprendeu a não confiar no que vê.


Pela primeira vez, o sorriso desapareceu do rosto do homem.


Ele se sentou ao lado do rapaz.


Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.


Ao longe, os sinos da aldeia tocaram.


Uma vez.


Duas.


Três.


— Você tem medo da morte? — perguntou o homem.


O rapaz respondeu imediatamente:


— Não.


— Todos dizem isso.


— Eu não consigo vê-la.


O homem riu.


— Então você acredita que aquilo que não pode ver não pode assustá-lo?


— Não.


— Então por quê?


O rapaz ficou em silêncio.


— Porque a morte não é o que mais me assusta.


— O que é?


— Que talvez a vida seja apenas uma forma mais longa de morte.


O homem olhou para o rio.


— Interessante.


— Você acha que estou errado?


— Acho que você é jovem demais para estar tão certo.


— E você é velho demais para ainda procurar respostas.


A neve pousou sobre o cabelo branco do homem.


Ele não a retirou.


— Talvez eu esteja procurando apenas uma pergunta.


— Qual?


O homem demorou a responder.


— Se uma pessoa perde tudo aquilo que amava... ela continua sendo a mesma pessoa?


O rapaz franziu a testa.


— Não.


— Por quê?


— Porque aquilo que amamos também faz parte de quem somos.


— Então, quando perdemos alguém...


— Perdemos uma parte de nós.


O homem abaixou os olhos.


— E se perdemos todos?


O rapaz tocou o gelo novamente.


— Então sobra aquilo que ninguém pode tirar.


— O quê?


— A escolha.


O homem permaneceu em silêncio.


O rapaz continuou:


— Você pode perder sua família. Seu nome. Sua casa. Seu reino. Seu corpo. Até mesmo sua memória. Mas enquanto puder escolher o que fará com aquilo que lhe aconteceu, ainda existe alguma coisa que pertence a você.


O homem fechou os olhos.


Por um momento, não estava mais naquela ponte.


Viu uma mulher.


Viu uma casa.


Viu crianças correndo.


Viu sangue.


Muito sangue.


Viu uma espada.


Viu uma cidade queimando.


Viu o rosto de alguém que não deveria mais existir.


E então viu novamente o vazio.


Quando abriu os olhos, o rapaz ainda estava sentado ao seu lado.


— Você chorou — disse ele.


O homem levou a mão ao rosto.


Não havia lágrimas.


— Não chorei.


— Chorou por dentro.


O homem respirou profundamente.


— Você é perigoso.


O rapaz sorriu.


— Porque sou cego?


— Porque enxerga demais.


O rapaz inclinou a cabeça.


— E você?


— Eu?


— Você enxerga demais para alguém que finge ser apenas um viajante.


O homem ficou imóvel.


O rapaz levantou-se.


— Eu sei quem você é.


O silêncio que veio depois pareceu congelar até o som da neve.


— Não sabe.


— Sei.


— Então diga.


O rapaz virou o rosto em sua direção.


— Você é um homem que morreu.


O homem não respondeu.


— Mas continua andando.


Nada.


— Você não tem coração — continuou o rapaz.


O homem finalmente sorriu.


— Isso é uma acusação?


— Não.


— Então o que é?


— Uma tristeza.


O sorriso desapareceu.


— Você está errado.


— Talvez.


— Eu tenho coração.


— Então por que ele não bate?


O homem olhou para o próprio peito.


Nada.


Nenhum movimento.


Nenhum som.


Nenhuma pulsação.


O rapaz continuou:


— Você não está vivo.


— Não.


— Também não está morto.


O homem ficou de pé.


— O que você acha que eu sou?


O rapaz tocou o rosto do estranho com a ponta dos dedos.


No instante em que o tocou, seu sorriso desapareceu.


Seu corpo inteiro estremeceu.


Ele retirou a mão.


— Você viu alguma coisa? — perguntou o homem.


O rapaz respirava rapidamente.


— Não.


— Então o que aconteceu?


— Eu senti.


— O quê?


O rapaz levantou os olhos cegos.


— O fim.


O homem permaneceu em silêncio.


— Não o fim de uma pessoa — continuou o rapaz. — Não o fim de um reino. Não o fim de uma era.


Ele engoliu em seco.


— O fim de coisas.


O homem observou-o.


— Explique.


— Quando toquei você, senti milhares de coisas terminando ao mesmo tempo.


O rapaz recuou.


— Guerras.


— Sim.


— Reinos.


— Sim.


— Famílias.


— Sim.


— Mundos.


O homem não respondeu.


— Você viu mundos morrerem?


O homem desviou o olhar.


— Alguns.


— Quantos?


— Muitos.


— E quantos você salvou?


Silêncio.


O rapaz percebeu a resposta.


— Nenhum?


— Não.


— Por quê?


O homem respondeu:


— Porque não havia nada para salvar.


O rapaz permaneceu parado.


— Essa é a diferença entre nós.


— Qual?


— Você acredita que as coisas precisam ser salvas porque existem.


O homem ergueu uma sobrancelha.


— E você não?


— Não.


— Então por que salvar alguma coisa?


O rapaz sorriu.


— Porque existe.


O homem ficou olhando para ele.


— Isso não faz sentido.


— Faz mais sentido do que destruir.


— Destruir é simples.


— Exatamente.


O homem voltou-se para o rio.


— Criar é difícil.


— Não.


O homem olhou para trás.


— Não?


— Criar também é simples.


— Então o que é difícil?


O rapaz respondeu:


— Amar aquilo que você sabe que pode perder.


O homem não se moveu.


Pela primeira vez naquela noite, algo parecido com dor atravessou seu rosto.


— Você fala como alguém que já perdeu alguém.


— Todos perderam alguém.


— Você perdeu?


O rapaz sorriu tristemente.


— Minha mãe.


— Quando?


— Não sei.


— Como assim?


— Eu era muito pequeno.


O homem sentou novamente.


— Você sente falta dela?


— Todos os dias.


— Mesmo sem lembrar do rosto?


— Principalmente por isso.


O homem ficou em silêncio.


— Então talvez você tenha razão — disse finalmente.


— Sobre o quê?


— Sobre a morte.


— O que eu disse?


— Que talvez a pior parte não seja morrer.


O rapaz esperou.


— É continuar existindo depois que tudo aquilo que dava sentido à existência desapareceu.


O rapaz não respondeu.


Depois de alguns segundos, perguntou:


— E por que você continua?


O homem olhou para o céu.


As duas luas de Baltamus apareciam entre as nuvens.


— Não sei.


— Mentira.


O homem olhou para ele.


— O quê?


— Você sabe.


— Então diga.


O rapaz sorriu.


— Vingança.


O homem permaneceu imóvel.


— Não.


— Então ódio.


— Também não.


— Culpa.


O homem não respondeu.


O rapaz abaixou a cabeça.


— Amor.


O silêncio respondeu por ele.


O homem fechou os olhos.


— Amor é uma coisa estranha.


— Por quê?


— Porque pode criar um homem.


Pausa.


— E pode destruir um mundo.


O rapaz sorriu.


— Agora você falou seu verdadeiro nome.


O homem abriu os olhos.


— O quê?


— Você não é Arkan.


O rapaz virou-se para o caminho da aldeia.


— E eu não sou Elias.


O homem se levantou.


— Então quem é você?


O rapaz parou.


— Apenas um cego.


— E seu nome verdadeiro?


Ele sorriu.


— Você não perguntou meu nome.


— Perguntei quem você é.


O rapaz continuou caminhando.


— Então talvez você ainda não esteja pronto para saber.


O homem ficou sozinho na ponte.


A neve cobria suas pegadas.


Durante alguns segundos, não houve nada.


Então uma voz muito distante atravessou as montanhas.


Não era humana.


Não era animal.


Era algo profundo.


Antigo.


O homem ergueu lentamente a cabeça.


As duas luas desapareceram atrás das nuvens.


E, por um instante, seus olhos vermelhos apareceram.


O homem que dizia chamar-se Arkan olhou para a direção em que o jovem havia desaparecido.


— Interessante.


Uma sombra surgiu atrás dele.


Alta.


Imensa.


Com olhos vermelhos.


A criatura não disse nada.


O homem olhou para ela.


— Não.


A criatura inclinou a cabeça.


— Ainda não.


Ele voltou a olhar para a aldeia.


— Deixe-o viver.


A criatura desapareceu.


O homem permaneceu sozinho.


Então falou para ninguém:


— Às vezes, o mundo coloca um cego diante de um monstro...


Ele tocou o próprio peito.


Nenhuma batida.


— ...apenas para descobrir qual dos dois realmente consegue enxergar.


E, muito longe dali, sob as montanhas de Baltamus, alguma coisa respondeu.


Uma vez.


Como uma batida.


Depois outra.


E outra.


Tum.


Tum.


Tum.


O homem ficou imóvel.


Porque reconheceu aquele som.


Não era um coração.


Era uma porta.


E, pela primeira vez em séculos, Angarkor teve medo de que alguém a abrisse.

Ad’Heim: O Que os Mortos Ainda Guardam

 

A noite em Lenória Imperial não era mais apenas escuridão.


Era uma presença.


Desde o último ataque, o residual de distorção deixado pelas criaturas não se dissipara completamente. Pairava sobre as ruínas como um cheiro que a chuva não lavava e o vento não levava. As tochas queimavam mais baixas. As sombras demoravam um segundo a mais para acompanhar os corpos que as projetavam. E, nas horas mais profundas da madrugada, alguns dos sobreviventes juravam ouvir passos que não pertenciam a nenhum dos vivos.


Foi nessa madrugada que o elfo apareceu.


Não veio pelos portões improvisados. Não veio pelas estradas vigiadas. Simplesmente estava ali, sentado sobre um bloco de pedra caída no centro do que um dia fora a praça do grifo, quando a primeira patrulha da manhã o encontrou. Alto, mesmo sentado. Magro como um galho seco. Cabelos brancos longos presos de forma descuidada, e olhos de um verde tão antigo que pareciam ter visto o nascimento das primeiras árvores de Khsandra.


Os soldados apontaram lanças. Ele não se moveu.


— Digam ao filho de Kallon e ao residual de Ranur que o tempo dos Guardiões adormecidos acabou — disse, a voz rouca, mas clara. — E que as cinzas de Lenória ainda guardam palavras que os vivos esqueceram.


Quando Ikarus, Gillian e Raella chegaram, o elfo ainda estava no mesmo lugar. Não havia se levantado. Não havia pedido água, comida ou proteção. Apenas esperava, com a paciência de quem já esperara séculos.


Ikarus parou a poucos passos. A aura azul-dourada se expandiu instintivamente, reagindo à presença do ancião.


— Quem é você?


O elfo ergueu o rosto. Os olhos verdes encontraram os de Ikarus sem medo e sem reverência.


— Meu nome já não importa. Fui chamado de muitas formas. Guardião de memórias. Ladrão de segredos. Traidor dos que preferem o silêncio. — Ele inclinou a cabeça levemente. — Mas você pode me chamar de Vaelion. E eu vim porque a morte de Ranur abriu uma porta que deveria ter permanecido fechada.


Raella deu um passo à frente, a mão próxima à capa.


— Fale com clareza, ancião. Não temos tempo para enigmas.


Vaelion sorriu. Era um sorriso cansado, sem humor.


— Clareza, então. Escutem com atenção, porque não repetirei.


Ele se levantou. Mesmo em pé, a figura parecia frágil demais para carregar o peso das palavras que viriam.


— Quando os Doze Guardiões foram escolhidos, cada um recebeu mais do que armadura, manto e criatura. Recebeu um fragmento. Não um objeto comum. Um pedaço da própria essência do pacto que os ligava aos Hunens e às terras que protegiam. Doze fragmentos. Doze templos. Um em cada reino. Escondidos não de inimigos comuns, mas do tempo e da ambição.


Gillian franziu o cenho.


— Nunca ouvi falar disso.


— Porque não era para ouvir. Os Guardiões juraram silêncio. Os reis que souberam preferiram esquecer. E os Hunens… os Hunens observaram. — Vaelion caminhou lentamente entre os escombros, como se reconhecesse cada pedra. — Esses fragmentos só podem ser entregues a alguém que já carregue o poder de pelo menos um dos Doze. E só podem ser obtidos de uma forma.


Ele parou e olhou diretamente para Ikarus.


— Combate até a morte.


O silêncio que se seguiu foi absoluto.


Até o vento pareceu parar.


— Cada Guardião — continuou Vaelion — deve ser enfrentado em seu próprio templo. Não há negociação. Não há submissão voluntária. O fragmento só se separa do Guardião quando este cai. E quando cai, o poder que ele carrega não se dispersa. Ele busca o receptáculo. Aquele que já possui um fragmento anterior. Aquele que já foi marcado pelo pacto.


Ikarus sentiu o residual de Ranur arder no peito.


— Eu já carrego o de Ranur.


— Exatamente. — Vaelion assentiu. — Por isso a porta se abriu. Por isso eu vim. Você é o primeiro em eras a carregar o residual de um Guardião morto em combate verdadeiro. Isso faz de você o receptáculo. O único capaz de reunir os doze.


Raella cruzou os braços.


— E para que serviria reunir os doze fragmentos?


Vaelion demorou a responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa, quase reverente.


— Para criar um poder capaz de destruir um Hunen.


A frase caiu como uma lâmina.


Gillian deu um passo à frente.


— Isso é possível?


— Em teoria. — O elfo inclinou a cabeça. — Os Hunens não são invencíveis. Apenas tão além da escala mortal que a diferença praticamente desaparece. Mas o pacto original dos Doze foi feito com uma cláusula esquecida. Se os doze fragmentos forem reunidos em um único receptáculo, esse receptáculo se torna algo que os próprios Hunens temeram quando o mundo ainda era jovem: um igual. Ou quase. Um ser capaz de cortar o que não deveria ser cortado.


Ikarus fechou os punhos.


— Vocês estão falando de Angarkor.


— Estou falando do único caminho que ainda existe. — Vaelion olhou para as ruínas ao redor. — Angarkor distorce realidade, tempo e espaço. Carrega atributos no limite do que a criação permite. Não há exército que o derrote. Não há lâmina comum que o mate. Não há magia mortal que o contenha por muito tempo. Mas um receptáculo dos Doze… esse talvez consiga feri-lo de verdade. Talvez consiga mais do que adiar.


Gillian riu sem humor.


— Então a solução é Ikarus viajar pelos doze reinos, entrar em cada templo, matar cada Guardião restante em combate até a morte e absorver o poder deles? Um por um?


— Sim.


— E se ele perder?


Vaelion não desviou o olhar.


— Então o fragmento de Ranur se perde com ele. E a última chance real de enfrentar Angarkor em termos minimamente iguais desaparece.


Raella passou a mão pelo rosto, exausta.


— Isso é loucura. Os Guardiões são os últimos pilares de estabilidade que restam em Ad’Heim. Matá-los…


— Não é matá-los por ambição — interrompeu Vaelion. — É o pacto. Eles sabem. Desde o início souberam que, se o pior acontecesse, essa era a última opção. A maioria prefere permanecer adormecida. Mas se o receptáculo aparecer diante deles, o pacto os obriga a responder. Com lâmina. Com sangue. Com a entrega final.


Ikarus ficou em silêncio por um longo tempo.


A aura azul-dourada pulsava de forma irregular. O residual de Ranur não rejeitava as palavras do elfo. Pelo contrário. Reagia como quem reconhece uma verdade antiga e amarga.


— Há um problema — disse finalmente. — Ranur já está morto. Eu já carrego o fragmento dele. Mas ele não morreu em combate ritual dentro do templo. Morreu na Costura, enfrentando Angarkor. O pacto… foi cumprido de forma incompleta?


Vaelion sorriu novamente. Desta vez o sorriso carregava algo mais sombrio.


— Ah. Aí está a rachadura.


Ele apontou para o chão rachado da praça.


— Ranur entregou o residual a você por necessidade, não por ritual completo. O fragmento está em você. Mas a terra de Lenória… a própria essência que ele protegia… ainda não aceitou totalmente a transferência. Porque o Guardião não caiu sob as regras antigas. Caiu sob a distorção de um Hunen renegado.


Ikarus sentiu um frio subir pela espinha.


— O que isso significa?


— Significa que Lenoria — a Hunen da Guerra, a essência por trás desta terra — ainda não reconheceu você como receptáculo legítimo do fragmento de Ranur. — Vaelion deu um passo mais perto. — E uma Hunen que não reconhece… desafia.


O vento uivou entre as colunas quebradas.


Em algum lugar sob as ruínas, algo antigo se mexeu.


Não era Angarkor.


Era mais próximo.


Mais pessoal.


Vaelion olhou para o solo rachado da praça do grifo, onde o grande símbolo de pedra ainda jazia partido ao meio.


— Ela virá por você, filho de Kallon. Não como aliada. Não como mentora. Como juíza. E o primeiro combate que você enfrentará não será contra um Guardião adormecido em algum templo distante.


Ele ergueu os olhos verdes e antigos para Ikarus.


— Será contra a própria Lenoria.


O chão sob os pés deles tremeu levemente.


Não era um terremoto comum.


Era um chamado.


E nas profundezas das ruínas de Lenória Imperial, algo que um dia fora apenas nome e domínio começou a despertar para cobrar o preço de um pacto incompleto.


Ikarus sentiu o residual de Ranur arder como ferro em brasa.


Gillian puxou a espada sem perceber.


Raella ergueu a mão, a capa mágica já reagindo.


E Vaelion, o elfo ancião que carregava memórias demais, apenas deu um passo para trás, como quem abre espaço para o inevitável.


— Prepare-se, receptáculo — disse ele baixinho. — O primeiro fragmento que você carrega ainda não é totalmente seu.


E a guerra, que já devastara a superfície de Ad’Heim, agora descia para as raízes.

Ad’Heim: Cinzas que Ainda Queimam

 

O amanhecer em Lenória Imperial não trouxe alívio.


Trouxe apenas uma luz pálida e suja que atravessava as rachaduras das muralhas improvisadas e iluminava o que restava da cidade com uma honestidade cruel. Não havia névoa para esconder os escombros. Não havia chuva para lavar o cheiro de fumaça antiga e carne queimada que ainda impregnava as pedras. O sol maior subiu no horizonte como um olho cansado, e sob sua luz cinzenta as pessoas começaram a se mover novamente — não porque quisessem, mas porque parar significava entregar o que restava ao inimigo.


Ikarus não dormira.


Passara a madrugada no salão de mapas, sentado na mesma cadeira rachada, a aura azul-dourada pulsando em ritmo lento e constante. O residual de Ranur não o deixava em paz. Às vezes vinha como calor no peito. Às vezes como uma voz sem palavras, um eco de dever que não pertencia completamente a ele. E às vezes, nas horas mais escuras, vinha como memória que não era sua: a sensação de décadas observando Lenória do alto de uma torre dourada, a solidão de um Guardião que só descia quando o problema deixava de ser humano.


Quando as primeiras vozes ecoaram no pátio, ele se levantou.


O corpo doía de uma forma que não era apenas física. Era o peso acumulado de decisões, de mortes, de um poder que ainda não aprendera a carregar sem que ele o deformasse por dentro.


Gillian já estava no pátio quando ele desceu.


Ela supervisionava a distribuição de ração entre os sobreviventes capazes de trabalhar. O braço esquerdo ainda se movia com uma leve rigidez, mas a mão direita não hesitava. A espada estava na cintura. O rosto, marcado por noites ruins, permanecia firme. Quando viu Ikarus, apenas assentiu — um gesto curto, prático, que dizia mais do que qualquer saudação.


— A ração está acabando mais rápido do que o esperado — informou sem rodeios. — Temos comida para talvez mais dez dias se formos cuidadosos. Depois disso…


— Depois disso encontramos mais — completou Ikarus. — Ou morremos tentando.


Ela não contestou. Apenas continuou distribuindo.


Raella apareceu momentos depois, acompanhada por dois capitães improvisados e uma mulher idosa que ainda usava os restos de um manto sacerdotal de Valeth. A rainha de Lenória não usava coroa. Usava o mesmo manto rasgado do dia anterior, agora preso com um broche de metal simples. Os olhos, porém, carregavam a autoridade de quem já aceitara que o título não era privilégio — era sentença.


— Precisamos reforçar o setor oeste — disse ela assim que se aproximou. — Os ataques noturnos estão ficando mais organizados. Não são mais hordas desordenadas. Há padrão. Há intenção.


Ikarus franziu o cenho.


— Angarkor?


— Ou alguém agindo sob a sombra dele. — Raella entregou um pequeno pedaço de tecido queimado. — Encontraram isso perto da muralha improvisada. Não é de nenhum dos nossos.


O tecido era preto, grosso, e ainda carregava um residual metálico que fazia a pele formigar. Ikarus segurou-o por um instante. A aura azul-dourada reagiu imediatamente — uma faísca de alerta, quase hostil.


— Residual de distorção — murmurou. — Fraco. Mas presente. Ele está testando o alcance.


Gillian se aproximou e olhou para o tecido com desprezo.


— Então ele já sabe onde estamos. E sabe que ainda estamos de pé.


— Ele sempre soube — respondeu Ikarus. — A diferença é que agora está se dando ao trabalho de lembrar.


O resto da manhã foi consumido por trabalho bruto.


Homens e mulheres carregavam pedras. Adolescentes cavavam valas. Crianças grandes demais para o medo ajudavam a carregar baldes de água. Não havia glória na reconstrução. Havia apenas necessidade. E a necessidade, em Ad’Heim, era a única coisa que ainda mantinha as pessoas em movimento quando a esperança já se esgotara.


Ikarus trabalhou junto com eles durante horas.


Usou o domínio das águas para limpar um poço contaminado por residual necromântico. Usou o residual dourado de Ranur para reforçar temporariamente uma seção de muralha que ameaçava desabar. Cada uso do poder deixava um gosto metálico na boca e uma fadiga que não era apenas do corpo. O poder de um Hunen e o residual de um Guardião não foram feitos para serem carregados por um mortal — mesmo que esse mortal fosse filho de um e herdeiro parcial do outro.


Ao meio-dia, quando o sol maior estava alto e o sol menor ainda mal se mostrava, um mensageiro chegou das estradas do oeste.


Não era o mesmo de antes. Este era mais jovem, mais assustado, e carregava uma cicatriz recente no rosto. Ajoelhou-se diante de Raella por instinto, depois corrigiu a postura quando percebeu que a rainha não exigia tal gesto.


— Mensagem de Aldora — disse, a voz rouca. — Do rei Thomas Walker.


Ikarus, Gillian e Raella se entreolharam.


O pergaminho era curto, escrito com a letra firme e pouco paciente de Thomas:


*Lenória.*


*As facções restantes se renderam ou foram eliminadas. O deserto reconhece a coroa. Estou estabilizando as rotas de suprimento e limpando os últimos focos de mortos-vivos próximos a Thirssh. Há relatos de movimentos estranhos nas bordas leste do deserto — distorções no ar, como o calor das dunas, mas em lugares onde o calor não deveria existir. Acredito que seja o alcance dele.*


*Não posso deixar Aldora agora. Se eu partir, o que construí desaba em semanas. Mas se a situação em Lenória se tornar crítica, mandem o sinal. Eu virei. Sozinho, se precisar.*


*Não morram. Não sem mim.*


*— T.*


Gillian foi a primeira a soltar o ar que estava prendendo.


— Ele está bem.


— Está sobrevivendo — corrigiu Raella. — Como todos nós.


Ikarus dobrou o pergaminho com cuidado e o guardou.


— Os movimentos estranhos no deserto confirmam o que vimos aqui. Angarkor não está parado. Está expandindo a influência. Testando. Medindo.


— E quando ele decidir parar de testar? — perguntou Gillian.


Ninguém respondeu.


Porque a resposta era óbvia demais para ser dita em voz alta.


A tarde trouxe o primeiro ataque organizado desde a chegada do residual.


Não foi uma horda desordenada. Foram três ondas coordenadas, vindas de ângulos diferentes, usando o terreno destruído a seu favor. Criaturas que um dia haviam sido homens agora se moviam com uma disciplina que não pertencia aos mortos comuns. Entre elas, duas figuras maiores — distorcidas, com membros alongados demais e olhos que refletiam luz de formas impossíveis.


Ikarus, Gillian e Raella lideraram a defesa.


Gillian era precisão e fúria contida. Cada movimento da espada carregava o peso dos amigos que já não estavam. Raella usava a magia da capa com economia brutal, curando apenas o suficiente para manter os defensores de pé e lançando feixes de energia prateada contra as criaturas mais perigosas. Ikarus era o centro. A aura azul-dourada se expandia em ondas, a água respondia ao seu chamado formando barreiras temporárias, e o residual de Ranur reforçava cada golpe com uma luminosidade que fazia as criaturas hesitarem por frações de segundo — o suficiente.


Quando a última onda recuou, o pátio estava coberto de corpos que já começavam a se desfazer em cinza escura. Havia feridos. Havia mortos entre os defensores. Mas a muralha improvisada ainda se mantinha.


Ikarus apoiou-se contra uma coluna rachada, respirando com dificuldade. O poder cobrava seu preço. O peito queimava. As mãos tremiam levemente.


Gillian se aproximou, limpando o sangue da lâmina com um pedaço de pano sujo.


— Você está se forçando demais.


— Se eu não me forçar, quem se força? — respondeu ele, a voz rouca.


Ela não contestou. Apenas ficou ao lado dele enquanto os feridos eram carregados e os mortos eram separados para o que restava de um enterro digno.


Mais tarde, quando a noite voltou a cair e as tochas foram acesas novamente, os três se reuniram no salão de mapas.


O tecido preto com residual de distorção ainda estava sobre a mesa.


Raella foi a primeira a falar.


— Não podemos continuar apenas reagindo. Cada ataque nos enfraquece. Cada dia que passa sem avanço real é um dia a mais para ele se preparar.


— Concordo — disse Gillian. — Mas avançar para onde? Contra quem? Angarkor não é um general que podemos cercar. Não é um rei que podemos assediar. Ele é… outra coisa.


Ikarus olhou para o mapa de Baltamus por um longo tempo.


— Precisamos de informações — disse finalmente. — Não sobre onde ele está. Sobre o que ele é. Sobre o que realmente significa distorcer realidade, tempo e espaço no nível em que ele faz. Ranur sabia coisas. Os outros Guardiões provavelmente sabem mais. E Kallon… Kallon sabe coisas que nenhum de nós está pronto para ouvir.


Raella cruzou os braços.


— Você está sugerindo voltar à Ilha.


— Estou sugerindo que talvez não tenhamos escolha. — Ikarus ergueu o olhar. A aura ao redor dele pulsava mais forte. — O residual de Ranur reage quando penso nele. Não é medo. É reconhecimento. Como se soubesse que a próxima peça do tabuleiro não está em Lenória. Está em algum lugar onde o tempo e o espaço já foram dobrados antes.


Gillian ficou em silêncio por um momento.


— E Thomas?


— Thomas segura Aldora. Nós seguramos Lenória. Se um de nós cair agora, o outro não aguenta o peso sozinho. — Ikarus inspirou fundo. — Mas se conseguirmos algo — qualquer coisa — que nos dê uma forma real de enfrentar a distorção… então talvez o adiamento se transforme em algo mais.


Lá fora, o vento uivou entre as ruínas.


E muito longe, nas geleiras de Baltamus, onde o gelo era mais antigo que a maioria dos reinos, Angarkor abriu os olhos.


Não havia pressa em seu movimento. Não havia urgência. Apenas a certeza fria de quem já vira impérios nascerem e morrerem e entendera que todos eles, no fim, obedeciam às mesmas regras frágeis.


Ele segurou os dois katares.


O metal escuro pareceu absorver a luz ao redor.


E o espaço, por um instante, tremeu.


Não em Lenória.


Não em Aldora.


Em todos os lugares ao mesmo tempo.


Como um aviso.


Como uma promessa.


Como a lembrança de que algumas coisas, em Ad’Heim, não podiam ser cortadas.


Apenas enfrentadas.


Ou adiadas.


Até o dia em que o adiamento acabasse.

Ad’Heim: O Que Não Pode Ser Cortado

 

A noite caiu sobre Lenória Imperial como uma segunda camada de escombros.

Não havia mais tochas suficientes para iluminar todas as ruínas. As que ainda queimavam faziam-no com chama baixa e amarelada, como se a própria fogo hesitasse em permanecer naquela cidade que já havia perdido demais. O vento vinha do mar carregando cheiro de sal e de carne queimada. Em algum lugar distante, além das muralhas improvisadas, algo uivava — não lobo, não homem. Algo que ainda não havia aprendido a nomear a própria dor.


Ikarus permaneceu sozinho no que restava do salão de mapas.


A mesa estava coberta por pergaminhos rasgados, carvão e manchas escuras que ninguém se dera ao trabalho de limpar. A aura azul-dourada ao redor de seu corpo pulsava em ritmo lento, quase cansado. Desde que herdara o residual de Ranur, o poder não o abandonava mais. Nem quando dormia. Nem quando tentava esquecer. Ele sentia a presença dourada como um segundo coração batendo ao lado do seu — um coração que não pertencia a ele, mas que agora recusava a morrer.


Gillian entrou sem bater.


Ela ainda usava a armadura consertada. O braço esquerdo, embora já não estivesse quebrado, carregava uma rigidez que não existia antes. A espada estava na cintura, como sempre. Os olhos, porém, estavam mais escuros.


— Você não comeu — disse ela.


Não era acusação. Era observação.


Ikarus não respondeu de imediato. Continuou olhando para o mapa de Baltamus, onde as geleiras eram representadas por manchas brancas que agora pareciam sujas.


— Não tenho fome.


— Mentira.


Gillian se aproximou. Pegou um pedaço de pão duro da beirada da mesa e colocou na frente dele.


— Coma. Ou eu te forço. E eu não estou de brincadeira.


Ele olhou para ela. Havia algo na forma como Gillian ocupava o espaço agora que não existia nos primeiros dias do grupo. Não era apenas a experiência de combate. Era o peso de quem já carregara corpos de amigos e continuara andando. Rickson. Jetto. Derek. A lista crescia, e ela ainda estava de pé.


Ikarus pegou o pão. Mastigou sem gosto.


— Thomas mandou mensagem — disse ele depois de um tempo. — Curta. Direta. Como ele.


— O que disse?


— Que Aldora está sob controle. Que as facções restantes se renderam ou morreram. Que o deserto agora tem um rei. E que… se precisarmos dele, ele virá. Mas não agora.


Gillian assentiu lentamente.


— Ele está certo em não vir. Se deixar Aldora sozinha agora, perde tudo o que conquistou. E nós precisamos de Aldora. Mesmo que seja só pelo nome.


Raella apareceu na porta momentos depois. O manto cerimonial ainda estava rasgado, mas ela o usava como se tivesse se tornado parte da pele. O cabelo estava preso de forma prática. Os olhos, no entanto, carregavam o cansaço de quem passara o dia inteiro ouvindo pedidos, reclamações e medo.


— O povo está inquieto — disse ela sem preâmbulo. — Querem saber quando as muralhas voltarão a ser muralhas de verdade. Querem saber se o Grifo voltará. Querem saber se o novo rei e a nova rainha têm um plano além de sobreviver o próximo inverno.


Ikarus ergueu o olhar.


— E o que você respondeu?


— Que estamos trabalhando. Que Lenória não morreu. Que ainda há sangue antigo nas veias desta terra. — Raella se sentou em uma cadeira rachada. — Mas eles não querem palavras. Querem segurança. E segurança é a única coisa que não podemos prometer.


O silêncio se instalou entre os três.


Era um silêncio diferente do que existira entre eles nos primeiros dias. Naquela época, o silêncio era de desconhecimento. Agora era de peso compartilhado. Cada um carregava os mortos de forma diferente. Ikarus carregava a responsabilidade de não ter sido rápido o suficiente. Gillian carregava a culpa de ter sobrevivido quando outros não. Raella carregava o povo inteiro nas costas, e o povo era pesado.


Foi Gillian quem quebrou o silêncio.


— Precisamos falar sobre ele.


Ninguém perguntou quem.


Angarkor.


O nome pairava sobre a mesa como uma lâmina que ninguém ousava tocar.


Ikarus apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou os dedos. A aura ao redor dele tremeu levemente.


— Ele distorce a realidade — disse, a voz baixa. — Não é metáfora. Não é exagero. Eu vi. Durante o duelo. O chão sob os pés dele não obedecia às mesmas regras que o chão sob os nossos. O tempo… hesita perto dele. Há momentos em que um segundo dura demais. Outros em que três movimentos acontecem no espaço de um só. E o espaço… o espaço se curva. Eu tentei cortá-lo. A lâmina chegou. Mas não chegou onde eu queria. Chegou onde ele permitiu.


Raella franziu o cenho.


— Você o feriu.


— Sim. No ombro. Uma ferida real. Ele sentiu. Mas… — Ikarus fechou os olhos por um instante. — Foi como cortar água com uma faca. A água se separa. Depois se junta de novo. Ele não é invulnerável. Mas está tão além de qualquer escala que conhecemos que a diferença praticamente desaparece.


Gillian bateu o punho levemente na mesa.


— Então como se luta contra alguém assim?


— Não se luta — respondeu Ikarus. — Não da forma que lutamos até agora. Contra mortos-vivos, contra criaturas, contra até mesmo Guardiões… havia regras. Havia limites. Angarkor não tem limites que nós compreendamos. Ele carrega dois katares na maior parte do tempo. Às vezes uma espada. Não importa a arma. A arma é só o veículo. O que realmente luta é a distorção.


Raella passou a mão pelo rosto.


— E Vaelthas Levi?


— Observa. Sempre observa. Angarkor é a mão. Vaelthas é a vontade. Enquanto um existir, o outro tem propósito.


O vento uivou mais forte lá fora. Uma das tochas do corredor se apagou.


Gillian se levantou e caminhou até a janela sem vidro. Lá embaixo, alguns soldados improvisados patrulhavam com lanças quebradas e armaduras incompletas. Uma criança chorava em algum lugar. O choro foi abafado rapidamente, como se alguém tivesse colocado a mão sobre a boca da criança por medo de atrair atenção.


— Derek morreu tentando comprar tempo — disse Gillian, de costas para eles. — Rickson morreu acreditando que ainda havia esperança para Aldora. Jetto morreu porque a floresta não perdoa hesitação. Ranur morreu para nos dar uma chance. Oberon morreu defendendo um trono que já não existia. — Ela se virou. Os olhos estavam secos, mas a voz tremia levemente. — E nós estamos aqui. Discutindo mapas. Comendo pão duro. Usando coroas que não pedimos.


Ikarus se levantou também.


A aura azul-dourada se expandiu, iluminando o rosto cansado das duas mulheres e as paredes manchadas de fuligem.


— Eu sei — disse ele. — Eu carrego cada um deles. Cada nome. Cada ausência. Mas se pararmos agora, o que sobrou deles morre de verdade. Não só o corpo. A memória. O propósito.


Raella olhou para ele por um longo momento.


— Você está mudando — observou. — Não só o poder. Você.


— Todos nós estamos.


Ela assentiu lentamente.


— Então diga a verdade. Sem o peso de rei. Sem o peso de filho de Hunen. Sem o residual de Guardião. Só você. Acredita que temos alguma chance real contra Angarkor?


Ikarus demorou a responder.


Quando falou, a voz saiu baixa, quase um sussurro.


— Não.


A palavra caiu no meio da sala como uma pedra em água parada.


— Não da forma que lutamos até agora — continuou. — Não com força. Não com números. Não com coragem. Ele está em outro nível. O máximo que conseguimos foi feri-lo e sobreviver o suficiente para fugir. Isso não é vitória. É adiamento.


Gillian cruzou os braços.


— Então o que sobra?


Ikarus olhou para o mapa novamente. As geleiras de Baltamus. A Costura. Os reinos ainda em pé. As coroas recém-erguidas.


— Sobram escolhas — disse. — Sobram alianças que ainda não fizemos. Sobram Guardiões que ainda não despertaram completamente. Sobram poderes antigos que ainda não compreendemos. E sobra… tempo. Pouco. Mas sobra.


Raella se levantou.


— Então usamos o tempo. Consolidamos o que temos. Estabilizamos Lenória. Mantemos contato com Thomas. Buscamos os outros Guardiões. E quando Angarkor vier de novo — porque ele virá — não estaremos sozinhos. E não estaremos despreparados da mesma forma.


Gillian assentiu, embora o rosto ainda estivesse tenso.


— E a profecia? O filho?


O silêncio voltou, mais pesado desta vez.


Ikarus olhou para Gillian. Depois para Raella. A aura ao redor dele tremeu, como se o próprio poder hesitasse diante daquele assunto.


— Kallon não deu prazos — disse com cuidado. — Mas cada dia que passa, a pressão aumenta. Eu não vou forçar nada. Nem o destino. Nem vocês. Quando… se… isso acontecer, será porque escolhemos. Não porque fomos empurrados.


Gillian segurou o olhar dele por um longo segundo. Depois desviou.


— Eu não sou pedra — murmurou. — E não sou útero a serviço de uma guerra. Mas também não sou covarde. Quando chegar a hora… conversamos de novo. Com os olhos abertos.


Raella colocou a mão no ombro de Gillian por um instante. Um gesto simples. Humano. Necessário.


Lá fora, o vento trouxe um som diferente.


Não era uivo.


Não era grito.


Era algo mais sutil. Como o tecido da realidade sendo esticado, muito longe, nas geleiras. Um aviso. Uma promessa.


Angarkor ainda não se movia em direção a eles.


Mas o mundo ao redor dele já começava a lembrar que ele existia.


Ikarus sentiu o residual de Ranur reagir dentro do peito — uma faísca dourada de alerta. A água em um balde próximo tremeu. O tempo, por um instante imperceptível, pareceu hesitar.


Ele olhou para as duas mulheres que agora compartilhavam com ele o peso de coroas que nenhum dos três havia pedido.


— Descansem — disse. — Amanhã o trabalho continua. As muralhas. Os feridos. Os planos. E a preparação para o que não pode ser cortado.


Gillian foi a primeira a sair.


Raella demorou um segundo a mais. Olhou para Ikarus como quem mede a distância entre o homem que conhecera e o que ele estava se tornando.


— Não carregue tudo sozinho — disse baixinho. — Nenhum de nós sobrevive a isso sozinho.


Depois ela também saiu.


Ikarus ficou no salão de mapas.


Sozinho com as mortes.


Sozinho com as coroas.


Sozinho com a certeza de que, em algum lugar nas geleiras de Baltamus, um guerreiro que distorcia a realidade, o tempo e o espaço segurava dois katares e esperava.


E pela primeira vez desde que herdara o poder de Ranur, Ikarus admitiu, em silêncio absoluto, a verdade mais simples e mais terrível de todas:


Eles ainda não sabiam como vencer.


Apenas como adiar.


E o adiamento, em Ad’Heim, nunca durava para sempre.

Ad’Heim: O Peso das Coroas

 

A notícia chegou ao entardecer.


O mensageiro desabou no pátio improvisado que agora servia de centro administrativo de Lenória Imperial. As botas dele estavam rachadas, o rosto coberto de poeira do deserto e de cinzas que ainda pairavam sobre as estradas. Ikarus leu o pergaminho em silêncio. A aura azul-dourada ao redor de seus ombros pulsou uma única vez — não de alegria, mas de reconhecimento.


Thomas havia conseguido.


Raella estava ao lado da mesa de mapas quando a informação foi dita em voz alta. Ela não sorriu. Apenas assentiu, como quem confirma um fato necessário. Gillian, que afiava a espada sentada em um banco de pedra quebrada, parou o movimento. O braço ainda carregava a marca da fratura recente, mas a mão já segurava a empunhadura com a mesma firmeza de antes.


— Ele conseguiu — repetiu Ikarus, mais para si do que para os outros.


Gillian guardou a pedra de amolar.


— E agora?


A pergunta ficou no ar.


Não era sobre estratégia. Era sobre o que restava deles.


Ikarus sentou-se. O trono improvisado — uma cadeira de madeira reforçada com placas da antiga armadura de Ranur — rangiu sob seu peso. A aura ao redor dele não era mais instável como nos primeiros dias. Havia se acomodado, como uma segunda pele. Mas o custo dessa acomodação ainda não havia sido totalmente pago.


— Agora temos duas coroas — disse ele. — E um inimigo que já sabe disso.


Raella cruzou os braços. O manto cerimonial, ainda rasgado nas bordas, estava preso nos ombros por um broche improvisado. Ela havia aceitado a coroa porque o povo precisava de um nome. Não porque desejasse.


— Thomas não vai voltar tão cedo — falou. — Aldora está em pedaços. Ele vai precisar segurar o que conquistou. E nós vamos precisar segurar o que restou daqui.


Gillian se levantou. Caminhou até a janela sem vidro que dava para o que um dia fora a praça do grifo. Lá embaixo, sobreviventes ainda removiam escombros. Crianças carregavam baldes de água. Ninguém cantava. Ninguém celebrava.


— Rickson morreu acreditando que Aldora ainda podia ser salva — disse ela, sem se virar. — Thomas está fazendo o que ele não pôde. Isso deveria significar alguma coisa.


Ikarus observou as duas mulheres.


A união que Kallon exigira ainda era recente demais para ter se transformado em rotina. Havia respeito. Havia necessidade. Havia, em alguns momentos, um silêncio compartilh ado que se aproximava de intimidade. Mas não havia ilusão.


Raella carregava o sangue antigo de Lenória e a responsabilidade de um povo que a olhava como última âncora. Gillian carregava a profecia e a certeza de que seu corpo, um dia, seria campo de batalha de uma guerra que ainda não havia nascido. E Ikarus carregava os dois domínios dentro de si — o azul de Kallon e o ouro residual de Ranur — como quem carrega duas espadas que ainda não aprenderam a equilibrar o mesmo peso.


— Precisamos falar sobre o que vem depois — disse ele.


Raella se virou.


— Depois de quê?


— Depois de sobrevivermos ao inverno. Depois de estabilizarmos as muralhas. Depois de Thomas consolidar Aldora. — Ikarus apoiou os cotovelos nos joelhos. — Vaelthas Levi não vai esperar que estejamos prontos. Angarkor também não.


Gillian finalmente olhou para ele.


— Então o que você propõe?


Ikarus demorou a responder. A água em um balde próximo tremeu levemente, reagindo à tensão que emanava dele.


— Precisamos de mais do que duas coroas. Precisamos de alianças. De informações. De saber quantos Guardiões ainda restam e quantos já despertaram. E precisamos… — ele hesitou — …decidir até onde estamos dispostos a ir.


O silêncio que se seguiu não foi confortável.


Raella foi a primeira a quebrar.


— Você está falando sobre o filho.


Não era pergunta.


Ikarus assentiu.


— Kallon não deu prazos. Mas a pressão está aumentando. Cada ataque que sofremos, cada cidade que cai, torna essa profecia mais pesada. E eu não vou fingir que isso não me assusta.


Gillian apoiou a mão na soleira da janela. Os nós dos dedos ficaram brancos.


— Eu aceitei — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Não porque um Hunen ordenou. Aceitei porque vi o que acontece quando não há ninguém disposto a carregar o peso. Mas não espere que eu finja que isso é simples. Ou que seja indolor.


Raella observou as duas.


— Nenhuma de nós está fingindo — respondeu. — Estamos sobrevivendo. E sobrevivência raramente é limpa.


Do lado de fora, o vento trouxe o cheiro de fumaça distante. Em algum lugar além das muralhas improvisadas, criaturas ainda se moviam na escuridão. Em algum lugar nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava espelhos de osso. E em algum lugar no deserto, Thomas Walker, agora rei, olhava para as dunas e se perguntava se o preço que pagara havia sido alto o suficiente.


Ikarus se levantou.


A aura azul-dourada se expandiu levemente, iluminando o rosto cansado das duas mulheres e as paredes ainda manchadas de fuligem.


— Então vamos sobreviver — disse ele. — Mas vamos fazer isso de olhos abertos. Sem romantizar o que perdemos. Sem esquecer o que ainda pode ser tirado.


Gillian assentiu.


Raella também.


Nenhuma das três pessoas naquela sala improvisada sorriu.


Havia duas coroas erguidas sobre as cinzas.


E o peso delas, pela primeira vez, começou a ser sentido de verdade.