sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad’Heim: O Peso das Coroas

 

A notícia chegou ao entardecer.


O mensageiro desabou no pátio improvisado que agora servia de centro administrativo de Lenória Imperial. As botas dele estavam rachadas, o rosto coberto de poeira do deserto e de cinzas que ainda pairavam sobre as estradas. Ikarus leu o pergaminho em silêncio. A aura azul-dourada ao redor de seus ombros pulsou uma única vez — não de alegria, mas de reconhecimento.


Thomas havia conseguido.


Raella estava ao lado da mesa de mapas quando a informação foi dita em voz alta. Ela não sorriu. Apenas assentiu, como quem confirma um fato necessário. Gillian, que afiava a espada sentada em um banco de pedra quebrada, parou o movimento. O braço ainda carregava a marca da fratura recente, mas a mão já segurava a empunhadura com a mesma firmeza de antes.


— Ele conseguiu — repetiu Ikarus, mais para si do que para os outros.


Gillian guardou a pedra de amolar.


— E agora?


A pergunta ficou no ar.


Não era sobre estratégia. Era sobre o que restava deles.


Ikarus sentou-se. O trono improvisado — uma cadeira de madeira reforçada com placas da antiga armadura de Ranur — rangiu sob seu peso. A aura ao redor dele não era mais instável como nos primeiros dias. Havia se acomodado, como uma segunda pele. Mas o custo dessa acomodação ainda não havia sido totalmente pago.


— Agora temos duas coroas — disse ele. — E um inimigo que já sabe disso.


Raella cruzou os braços. O manto cerimonial, ainda rasgado nas bordas, estava preso nos ombros por um broche improvisado. Ela havia aceitado a coroa porque o povo precisava de um nome. Não porque desejasse.


— Thomas não vai voltar tão cedo — falou. — Aldora está em pedaços. Ele vai precisar segurar o que conquistou. E nós vamos precisar segurar o que restou daqui.


Gillian se levantou. Caminhou até a janela sem vidro que dava para o que um dia fora a praça do grifo. Lá embaixo, sobreviventes ainda removiam escombros. Crianças carregavam baldes de água. Ninguém cantava. Ninguém celebrava.


— Rickson morreu acreditando que Aldora ainda podia ser salva — disse ela, sem se virar. — Thomas está fazendo o que ele não pôde. Isso deveria significar alguma coisa.


Ikarus observou as duas mulheres.


A união que Kallon exigira ainda era recente demais para ter se transformado em rotina. Havia respeito. Havia necessidade. Havia, em alguns momentos, um silêncio compartilh ado que se aproximava de intimidade. Mas não havia ilusão.


Raella carregava o sangue antigo de Lenória e a responsabilidade de um povo que a olhava como última âncora. Gillian carregava a profecia e a certeza de que seu corpo, um dia, seria campo de batalha de uma guerra que ainda não havia nascido. E Ikarus carregava os dois domínios dentro de si — o azul de Kallon e o ouro residual de Ranur — como quem carrega duas espadas que ainda não aprenderam a equilibrar o mesmo peso.


— Precisamos falar sobre o que vem depois — disse ele.


Raella se virou.


— Depois de quê?


— Depois de sobrevivermos ao inverno. Depois de estabilizarmos as muralhas. Depois de Thomas consolidar Aldora. — Ikarus apoiou os cotovelos nos joelhos. — Vaelthas Levi não vai esperar que estejamos prontos. Angarkor também não.


Gillian finalmente olhou para ele.


— Então o que você propõe?


Ikarus demorou a responder. A água em um balde próximo tremeu levemente, reagindo à tensão que emanava dele.


— Precisamos de mais do que duas coroas. Precisamos de alianças. De informações. De saber quantos Guardiões ainda restam e quantos já despertaram. E precisamos… — ele hesitou — …decidir até onde estamos dispostos a ir.


O silêncio que se seguiu não foi confortável.


Raella foi a primeira a quebrar.


— Você está falando sobre o filho.


Não era pergunta.


Ikarus assentiu.


— Kallon não deu prazos. Mas a pressão está aumentando. Cada ataque que sofremos, cada cidade que cai, torna essa profecia mais pesada. E eu não vou fingir que isso não me assusta.


Gillian apoiou a mão na soleira da janela. Os nós dos dedos ficaram brancos.


— Eu aceitei — disse ela, a voz baixa, mas firme. — Não porque um Hunen ordenou. Aceitei porque vi o que acontece quando não há ninguém disposto a carregar o peso. Mas não espere que eu finja que isso é simples. Ou que seja indolor.


Raella observou as duas.


— Nenhuma de nós está fingindo — respondeu. — Estamos sobrevivendo. E sobrevivência raramente é limpa.


Do lado de fora, o vento trouxe o cheiro de fumaça distante. Em algum lugar além das muralhas improvisadas, criaturas ainda se moviam na escuridão. Em algum lugar nas geleiras de Baltamus, Vaelthas Levi observava espelhos de osso. E em algum lugar no deserto, Thomas Walker, agora rei, olhava para as dunas e se perguntava se o preço que pagara havia sido alto o suficiente.


Ikarus se levantou.


A aura azul-dourada se expandiu levemente, iluminando o rosto cansado das duas mulheres e as paredes ainda manchadas de fuligem.


— Então vamos sobreviver — disse ele. — Mas vamos fazer isso de olhos abertos. Sem romantizar o que perdemos. Sem esquecer o que ainda pode ser tirado.


Gillian assentiu.


Raella também.


Nenhuma das três pessoas naquela sala improvisada sorriu.


Havia duas coroas erguidas sobre as cinzas.


E o peso delas, pela primeira vez, começou a ser sentido de verdade.

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