O sol nasceu sobre as montanhas de Setra, tingindo de dourado os rios que cortavam o vale. Kxin ainda dormia. Não havia música, não havia vozes, não havia celebração. Apenas o som constante da água correndo entre as pedras. Ikarus caminhava sozinho em direção ao lago. A espada estava presa à cintura. O corpo inteiro doía da viagem, mas ele continuava andando. No alto de uma colina, Eryon já o esperava. Vestia sua armadura dourada. O manto repousava sobre seus ombros. Em uma das mãos segurava o bastão. Na outra, não carregava nada. Ikarus parou a alguns metros. — Você veio. — Eu prometi. Eryon assentiu. — Então vamos terminar isso. O velho bateu o bastão contra o chão. O lago inteiro começou a tremer. A água recuou das margens como se alguma força invisível a estivesse puxando para o centro. Então o lago explodiu. A Serpente surgiu. Seu corpo gigantesco atravessou a superfície, erguendo uma parede de água que cobriu as montanhas. Ikarus desembainhou a espada. — Ela luta por você? — Não. — Eryon respondeu. — Ela luta por Setra. A Serpente abriu a boca. Um rugido profundo atravessou o vale. Ikarus avançou. A criatura lançou a cabeça contra ele. Ikarus saltou. A mandíbula fechou-se onde ele estivera um instante antes. O impacto partiu árvores e abriu uma cratera no solo. Ikarus caiu sobre uma pedra, rolou e imediatamente voltou a ficar de pé. Eryon já estava diante dele. O bastão atingiu sua espada com uma força absurda. O choque lançou Ikarus vários metros para trás. — Você está hesitando! — gritou Eryon. Ikarus avançou novamente. Espada contra bastão. Metal contra madeira. Cada golpe de Eryon era acompanhado pelo movimento da água. Quando Ikarus atacava pela direita, uma lâmina líquida surgia pela esquerda. Quando tentava recuar, o rio avançava sobre seus pés. Ikarus percebeu rapidamente. Não estava lutando contra um homem. Estava lutando contra um homem que havia transformado todo o território em uma arma. Ele saltou sobre uma onda, girou no ar e golpeou. Eryon bloqueou. O impacto abriu uma rachadura na armadura dourada. Sangue apareceu sob ela. Eryon sorriu. — Melhor. Ikarus atacou novamente. Dessa vez Eryon foi obrigado a recuar. Um corte abriu seu ombro. Outro atingiu sua lateral. A água ao redor deles começou a ficar vermelha. — Você está ficando velho — disse Ikarus. — Finalmente percebeu? Eryon riu. Então ergueu o bastão. O rio atrás dele desapareceu. Ikarus arregalou os olhos. Toda a água havia sido puxada para o céu. Um gigantesco círculo líquido surgiu acima deles. — Então veja o que um velho ainda consegue fazer. A água caiu. Ikarus correu. O impacto destruiu o chão atrás dele. Rochas foram arrancadas das montanhas. Árvores foram lançadas pelo vale. Ikarus conseguiu escapar por pouco, mas a corrente o atingiu de lado e o arremessou contra uma parede de pedra. Ele caiu de joelhos. Eryon avançou. — Levante-se. Ikarus tentou respirar. — Por quê? — Porque ainda não acabou. — Eu sei. — Então levante-se! Ikarus segurou a espada. As pernas tremiam. Pensou em Gillian. Pensou no filho que ainda não havia conhecido. Pensou em Sahrion. Pensou em todas as pessoas que havia deixado para trás. Então levantou-se. Eryon sorriu. — Agora sim. O duelo recomeçou. Dessa vez Ikarus não atacou a armadura. Atacou o homem. Eryon percebeu tarde demais. A espada passou por sua defesa e atravessou seu abdômen. O velho ficou imóvel. Ikarus também. A lâmina estava enterrada no corpo de Eryon. O sangue escorreu pela armadura dourada. Eryon olhou para a espada. Depois olhou para Ikarus. — Você aprendeu. Ikarus puxou a lâmina. Eryon caiu de joelhos. Mas antes que pudesse tocar o chão, a Serpente rugiu. O lago inteiro se ergueu. Ikarus foi lançado para trás. Eryon tentou levantar-se. Não conseguiu. A Serpente começou a desaparecer dentro de seu corpo. As escamas douradas transformaram-se em luz. A luz atravessou sua armadura e entrou em seu peito. Eryon respirou profundamente. Depois olhou para Ikarus. — Ainda falta uma coisa. Ikarus levantou a espada. — O quê? — Você precisa terminar. Ikarus congelou. — Eryon... — Não transforme minha morte em hesitação. O Guardião sorriu. — Eu sabia que esse dia chegaria antes mesmo de você nascer. Ikarus apertou a espada. — Sua família... — Minha família saberá que eu morri protegendo aquilo que amava. — Mira... — Ela vai sofrer. Elira também. E eu gostaria de ter mais tempo. Eryon olhou para o céu. — Mas ninguém recebe tempo suficiente. Ikarus aproximou-se. Eryon fechou os olhos. — Quando encontrar os outros... não esqueça seus nomes. Ikarus segurou a espada com as duas mãos. — Eu não vou. — Então faça. A lâmina desceu. O corpo de Eryon caiu. O silêncio tomou o vale. Durante alguns segundos, nada aconteceu. Então uma luz dourada surgiu do peito do Guardião morto. O terceiro fragmento apareceu acima de seu corpo, girando lentamente. Ikarus estendeu a mão. O fragmento atravessou sua palma e entrou em seu peito. A marca dourada cresceu. Três símbolos agora brilhavam sobre seu corpo. Ikarus caiu de joelhos. E então ouviu. Não a voz de Eryon. A voz da própria Serpente. “Proteja o que ainda não compreende.” Ikarus abriu os olhos. Ao longe, Kxin começava a despertar. E então ouviu um grito. — PAI! Ikarus fechou os olhos. Não precisava olhar para saber. Mira havia chegado. Quando abriu novamente, viu a jovem correndo em direção ao corpo de Eryon. Ela caiu de joelhos sobre o pai. Elira veio logo atrás. Ikarus permaneceu parado. Não fugiu. Não tentou esconder-se. Mira levantou o rosto e olhou diretamente para ele. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Então ela perguntou, com lágrimas escorrendo pelo rosto: — Por quê? Ikarus não encontrou resposta. Porque não havia resposta que pudesse devolver um pai. Ele apenas baixou a espada. — Porque ele era o Guardião. Mira fechou os punhos. — Ele era meu pai! A frase atravessou Ikarus como uma lâmina. E naquele momento ele finalmente compreendeu o verdadeiro preço dos doze fragmentos. Não eram apenas doze batalhas. Eram doze famílias. Doze histórias. Doze vidas. Doze mortes que seriam carregadas dentro dele para sempre. Ikarus virou-se lentamente. Três fragmentos brilhavam em seu peito. Faltavam nove. Atrás dele, o povo de Kxin chorava. À sua frente, o caminho continuava. E, muito distante dali, em algum lugar que Ikarus ainda não conhecia, um quarto Guardião acabava de sentir a morte de Eryon. E abriu os olhos.
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