Rufus estava sentado sozinho em uma pequena hospedaria quando ouviu a história. O homem que a contava chamava-se Nilo. Estava mais velho, tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz pequena no queixo, mas seus olhos ainda carregavam o mesmo medo de alguém que havia visto alguma coisa que nunca conseguiu esquecer. Ao redor da mesa, alguns viajantes riam da história da masmorra e do livro chamado Morte. Rufus não riu. Ele apenas permaneceu ouvindo. — Então você está dizendo que seus companheiros morreram simplesmente porque um deles abriu um livro? — perguntou Rufus. — Não. — Nilo respondeu. — Estou dizendo que morreram porque ele leu. Rufus estreitou os olhos. — E você não leu? — Não. — Por que não? Nilo olhou para ele durante alguns segundos. — Porque eu fui covarde. Rufus tomou um gole de sua bebida. — Não. Você foi prudente. Nilo sorriu pela primeira vez. — Talvez. Mas existe uma coisa que nunca contei para ninguém. Rufus colocou a caneca sobre a mesa. — Estou ouvindo. Nilo aproximou-se. — Antes daquela expedição, encontramos mapas antigos. Mapas que indicavam várias estruturas subterrâneas espalhadas pelo continente. Uma delas continha o livro Morte. Outra... contém outro livro. — Outro livro? — Sim. — Qual o nome? Nilo respondeu quase num sussurro: — Vida. Rufus permaneceu imóvel. — Você tem certeza? — Tenho. O mapa dizia claramente. Um livro negro chamado Morte. Outro branco chamado Vida. Dois lugares diferentes. Duas masmorras diferentes. Dois livros escritos para fazer aquilo que nenhum homem deveria ser capaz de fazer. Rufus franziu a testa. — E o que você acredita que o livro Vida faz? Nilo respirou fundo. — O contrário. Se Morte pode matar sem tocar em ninguém... Vida pode trazer alguém de volta. Rufus não respondeu imediatamente. — Qualquer pessoa? — É o que acredito. — Acredita? — Ninguém sabe. Todos que tentaram encontrar o lugar desapareceram. Nilo retirou um pequeno pedaço de pergaminho de dentro da roupa e colocou sobre a mesa. Havia um desenho rudimentar de montanhas, um rio e uma marca circular. — Eu encontrei a localização. Rufus observou o mapa. — E por que está me contando isso? — Porque preciso de um grupo. — Para quê? — Para encontrar o livro. Rufus levantou os olhos. — Você quer ressuscitar alguém. Nilo ficou em silêncio. Aquilo foi resposta suficiente. — Quem? — perguntou Rufus. — Meu irmão. Nilo fechou o mapa. — Ele morreu há vinte e dois anos. Mas se esse livro realmente possui o poder que dizem... talvez eu possa vê-lo novamente. Rufus levantou-se. — Não faça isso. Nilo olhou para ele, surpreso. — Por quê? — Porque você não sabe o que está procurando. E não sabe o preço. — E se for verdade? Rufus ficou alguns segundos em silêncio. — Então será ainda mais perigoso. Nilo guardou o mapa. — Você não acredita. — Eu acredito que livros não matam homens por acaso. E acredito ainda menos que algo capaz de devolver um morto à vida faria isso sem exigir alguma coisa em troca. Nilo se levantou. — Então você não vai ajudar? — Não. — E se você tivesse alguém morto que amasse? Rufus parou. Por um instante, seu rosto mudou. — Eu não faria a pergunta duas vezes. Nilo foi embora. Rufus ficou sozinho. Mas não conseguiu esquecer o mapa. Nem a palavra. Vida. Algumas horas depois, Rufus encontrou Gillian e Raella. As duas estavam conversando quando ele entrou. Gillian percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada. — O que aconteceu? Rufus sentou-se. — Ouvi uma história hoje. Raella sorriu. — Pelo seu rosto, imagino que não seja uma história agradável. — Não. É uma história sobre dois livros. Gillian ficou séria. — Dois livros? — Um chamado Morte. O outro chamado Vida. Raella cruzou os braços. — Parece uma lenda. — Talvez seja. — E o que eles fazem? Rufus olhou para Gillian antes de responder. — O primeiro aparentemente mata quem lê. O segundo... aparentemente pode trazer mortos de volta. Gillian ficou imóvel. Rufus percebeu imediatamente. Não precisava dizer o nome. Ikarus. O marido. O homem que estava longe, carregando fragmentos e enfrentando Guardiões que poderiam matá-lo a qualquer momento. Gillian colocou a mão sobre o ventre. — Trazer alguém de volta... — murmurou. — É isso que o homem acredita. — E você? Rufus demorou. — Eu não sei. Raella pegou o pergaminho que Rufus havia trazido. — Onde fica? — Não sei se devemos procurar. — Mas você trouxe o mapa. — Trouxe. — Então você quer procurar. Rufus olhou para ela. — Eu quero saber se é real. — E se for? Rufus ficou em silêncio. Gillian levantou-se. — Se existir uma maneira de trazer alguém de volta... não podemos simplesmente ignorá-la. Rufus olhou para ela com preocupação. — É exatamente esse pensamento que me assusta. — Por quê? — Porque o homem que escreveu um livro chamado Morte talvez não tenha escrito um livro chamado Vida para fazer um favor à humanidade. Raella dobrou o mapa. — Então descobrimos a verdade antes de tocar nele. Rufus olhou para as duas. Finalmente assentiu. — Primeiro encontramos a masmorra. Depois descobrimos o que é esse livro. E ninguém lê uma única palavra antes de entendermos contra o que estamos lidando. Gillian apertou o pergaminho contra o peito. Seus olhos estavam cheios de esperança e medo. — E se ele puder realmente trazer alguém de volta? Rufus não respondeu. Porque, naquele momento, todos os três pensaram na mesma coisa. E, muito distante dali, Ikarus continuava caminhando em direção ao quarto Guardião, sem saber que, em algum lugar do mundo, alguém havia acabado de descobrir uma possível maneira de desafiar a própria morte.
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