O mar permaneceu imóvel por alguns segundos depois do rugido da Serpente de Kallon. Ikarus estava no cais, espada desembainhada, enquanto centenas de pessoas observavam das muralhas de Nora. Kaeron permanecia sobre a cabeça da criatura, sua armadura dourada refletindo a luz dos dois sóis. Diferente dos outros Guardiões, ele não parecia velho. Seu rosto era de um homem ainda jovem, talvez pouco mais velho que Ikarus. Seus cabelos eram negros e longos, presos atrás da cabeça, e seus olhos tinham a mesma tonalidade azul-escura do mar antes de uma tempestade. — Você sabe por que os Guardiões existem? — perguntou Kaeron. Ikarus não respondeu. — Os outros provavelmente lhe contaram suas histórias. Talvez tenham tentado explicar o que você está fazendo. Mas cada um deles guardava apenas uma parte da verdade. Ikarus apertou a espada. — Então me conte a sua. Kaeron sorriu. — Depois da luta. Ikarus avançou pelo cais. A Serpente ergueu a cabeça e mergulhou violentamente. Uma onda gigantesca atingiu o porto. Ikarus foi lançado para trás, atravessou uma parede de madeira e caiu dentro de uma pequena embarcação. Antes que pudesse se levantar, ouviu o som da água sendo cortada. Saltou. Uma cauda colossal atingiu o barco e o destruiu completamente. Ikarus caiu no mar. Durante alguns segundos, tudo ficou escuro. Ele abriu os olhos debaixo d'água. A luz dos dois sóis chegava fraca até aquela profundidade. Então viu os olhos da Serpente. Enormes. Dourados. Fixos nele. A criatura abriu a boca. Ikarus nadou para o lado no último instante. As presas atravessaram a água onde seu corpo estava. Ele alcançou uma rocha submersa e impulsionou-se para cima. Quando emergiu, Kaeron já estava diante dele. A lança dourada veio em direção ao seu peito. Ikarus bloqueou. O impacto fez seu braço inteiro tremer. — Você é diferente dos outros — disse Kaeron. — Como? — Você luta como alguém que quer sobreviver. Os outros lutavam como homens que já haviam aceitado morrer. Ikarus empurrou a lança. — Talvez eu ainda tenha alguém esperando por mim. Kaeron recuou. — Filhos? Ikarus hesitou. — Dois. Kaeron baixou a lança por um instante. — Então você entende por que eu preciso impedir você. — Não. — Minha família também está esperando por mim. Ikarus ficou imóvel. Kaeron olhou para a cidade de Nora. — Minha mulher morreu há vinte anos. Meu filho morreu há onze. Minha filha morreu há cinco. — Então por que continua aqui? — Porque Kallon ainda está viva. Ikarus não respondeu. Kaeron continuou: — Quando fui escolhido, pensei que seria uma honra. Depois descobri que ser Guardião era assistir todos aqueles que você ama envelhecerem enquanto você continua preso ao mesmo dever. Minha família morreu. Meus amigos morreram. As pessoas que conheci morreram. Mas Kallon permaneceu. — E você aceitou isso? — No começo, não. Depois compreendi. Kaeron apontou a lança para o mar. — A Serpente não protege Kallon porque gosta dos homens. Ela protege porque Kallon é uma das últimas coisas que ainda impede aquilo que dorme abaixo dela de alcançar a superfície. Ikarus sentiu os fragmentos dentro de seu peito pulsarem. — O que existe lá embaixo? Kaeron respondeu apenas: — Algo que nem os mortos-vivos conseguiram matar. A Serpente rugiu novamente. Dessa vez, porém, o rugido não parecia um ataque. Parecia um aviso. Kaeron ergueu a lança. — Venha, Ikarus. Se quer o fragmento, terá que atravessar o mar. Ikarus guardou a espada por um instante. — Então vamos. Kaeron pareceu surpreso. — Você não vai lutar aqui? — Não. Ikarus olhou para Nora. — Se lutarmos aqui, essa cidade será destruída. Kaeron permaneceu em silêncio. Então sorriu. — Agora entendo por que eles escolheram você. A Serpente mergulhou. Kaeron saltou sobre suas costas. Ikarus correu pelo cais e saltou atrás deles. A criatura desapareceu nas profundezas. Ikarus sentiu a pressão da água aumentar enquanto desciam. Ao redor deles havia ruínas. Estruturas antigas cobertas por algas. Estátuas quebradas. Restos de uma cidade que não aparecia em nenhum mapa. Ikarus olhou para Kaeron. O Guardião apontou para baixo. No fundo do oceano havia uma gigantesca porta de pedra. Sobre ela estavam gravados doze símbolos. Ikarus reconheceu cinco. O grifo. A coruja. A serpente. O centauro. A águia. E sete símbolos que ainda não conhecia. Kaeron pousou diante da porta. — Antes dos reinos existirem, existia isso. Ikarus aproximou-se. — O que é? — Uma prisão. — Para quem? Kaeron olhou para a escuridão abaixo. — Para aquilo que os primeiros Guardiões chamavam de Abismo. Ikarus colocou a mão sobre a pedra. Os cinco fragmentos reagiram. A porta começou a emitir uma luz dourada. Kaeron imediatamente segurou seu braço. — Não toque. Ikarus olhou para ele. — Por quê? — Porque você ainda não possui todos os fragmentos. — E o que acontece quando possuir? Kaeron soltou seu braço. — Talvez a porta abra. Talvez seja exatamente isso que os fragmentos querem. Ikarus ficou em silêncio. — Você não sabe? — Ninguém sabe. Essa é a parte que os Guardiões esconderam. Ikarus olhou para os símbolos. — Então por que continuar protegendo isso? Kaeron respondeu: — Porque não saber o que existe atrás de uma porta não significa que devemos abri-la. Ikarus respirou profundamente. — E você pretende morrer para impedir que eu consiga o sexto fragmento. — Sim. — Mesmo sabendo que talvez eu precise dele para impedir algo pior? Kaeron apertou a lança. — Sim. — Então você acredita que eu estou errado. — Não. Kaeron levantou os olhos. — Eu acredito que você pode estar certo. E é justamente isso que me assusta. A Serpente começou a circular as ruínas. A água ficou turbulenta. Kaeron levantou sua lança. — Vamos terminar isso. Ikarus desembainhou a espada. A batalha começou. Kaeron era extraordinário dentro da água. Seus movimentos pareciam fazer parte do próprio oceano. A lança dourada cortava a água com velocidade impossível. Ikarus bloqueava, desviava e atacava, mas cada golpe parecia mais lento. A Serpente circulava ao redor deles, criando correntes que alteravam seus movimentos. Ikarus foi atingido no peito e lançado contra uma coluna antiga. Sua armadura rachou. Sangue começou a se misturar à água. Kaeron avançou para o golpe final. Ikarus esperou. Quando a lança estava a centímetros de seu peito, ele girou o corpo, agarrou a haste e puxou. Kaeron perdeu o equilíbrio. Ikarus acertou seu rosto com o cabo da espada. O Guardião recuou. Ikarus avançou. Uma troca de golpes começou entre as ruínas submersas. A Serpente atacou. Ikarus desviou. Kaeron aproveitou a abertura. A lança atravessou sua lateral. Ikarus gritou. Kaeron retirou a arma. — Desista. — Não. — Você tem uma família. — Eu sei. — Então viva por ela. Ikarus olhou para o sangue que saía de seu corpo. Pensou em Gillian. Pensou em Eiran. Pensou em Raella. Pensou em Lyra. Então segurou a espada com força. — É exatamente por eles que eu não posso parar. Kaeron fechou os olhos. — Então me perdoe. A lança dourada veio novamente. Ikarus desviou. Girou. E sua espada atravessou a armadura de Kaeron. O Guardião parou. A ponta da espada havia atravessado seu peito. A Serpente ficou imóvel. Kaeron olhou para baixo. Depois para Ikarus. — Você venceu. Ikarus segurou o corpo dele para que não afundasse. — Kaeron... — Não. Escute. O Guardião respirou com dificuldade. — Quando encontrar os outros... não pense que todos estão apenas esperando para morrer. Alguns vão tentar impedir você porque acreditam que estão salvando o mundo. Ikarus assentiu. — Eu sei. — Não sabe. Kaeron sorriu fracamente. — Ainda não. Então olhou para a Serpente. — Proteja Kallon. A criatura aproximou a cabeça. Kaeron tocou suas escamas pela última vez. — Você foi minha família durante mais tempo do que qualquer homem. A Serpente fechou os olhos. Kaeron voltou-se para Ikarus. — Agora termine. Ikarus hesitou. — Você já está morto. — Ainda não. Faça isso. Ikarus empurrou a espada. O corpo de Kaeron perdeu a força. E o sexto fragmento apareceu. A luz dourada atravessou a água e entrou no peito de Ikarus. Os seis símbolos começaram a girar dentro dele. Então algo inesperado aconteceu. A porta antiga atrás deles começou a tremer. Ikarus virou-se. — Kaeron... — Eu sei. A Serpente rugiu. A pedra começou a rachar. Uma linha negra surgiu no centro da porta. Ikarus recuou. Kaeron já estava morto. Não havia ninguém para explicar. A rachadura aumentou. Então uma mão apareceu do outro lado. Uma mão enorme. Escura. Coberta por escamas. Ikarus segurou a espada. A Serpente posicionou-se diante da porta. Por alguns segundos, parecia que uma batalha muito maior começaria ali. Mas então os seis fragmentos dentro de Ikarus brilharam simultaneamente. A porta parou. A mão desapareceu. A rachadura fechou-se. O oceano voltou ao silêncio. Ikarus permaneceu olhando para aquilo. Então ouviu uma voz. Não vinha de Kaeron. Não vinha da Serpente. Não vinha da porta. Vinha de dentro dele. — Seis. Faltam seis. Ikarus fechou os olhos. E, pela primeira vez desde que começara aquela jornada, compreendeu que talvez os fragmentos não estivessem apenas reunindo uma força perdida. Talvez estivessem reunindo uma chave. E, muito longe dali, em Lenória, uma criança recém-nascida dormia nos braços de Raella. Lyra abriu os olhos. Por um breve instante, uma pequena marca dourada apareceu em sua mão. Depois desapareceu. Ninguém percebeu. Ainda.:
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