sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: O SEGUNDO FRAGMENTO

 


Ikarus permaneceu diante da janela da torre, observando Lenória sob a luz das duas luas. A cidade ainda parecia não ter compreendido completamente o que havia acontecido. Os sinos continuavam tocando ao longe, soldados se movimentavam pelas ruas e, em alguns pontos, pessoas permaneciam reunidas nas praças, olhando para o céu onde, minutos antes, um enorme grifo dourado havia surgido.


A marca em seu peito pulsava lentamente.


Uma vez.


Depois outra.


Ikarus levou a mão até ela.


Ainda não entendia completamente o que havia acontecido. O fragmento não havia simplesmente lhe concedido poder. Havia mostrado alguma coisa. Algo antigo. Algo que parecia existir muito antes de Lenória, muito antes dos reinos e até mesmo das histórias que Rufus lhe contara quando era criança.


Foi então que ouviu passos atrás de si.


— Ikarus?


Ele se virou.


Gillian estava parada junto à porta.


Havia preocupação em seu rosto, mas também havia algo diferente. Algo que fez Ikarus perceber que aquela noite havia trazido uma mudança que não estava relacionada apenas ao fragmento.


— Você está bem? — perguntou ela.


Ikarus assentiu lentamente.


— Estou.


Gillian aproximou-se. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Então ela levou uma das mãos ao próprio ventre.


Ikarus percebeu o gesto.


Seu olhar mudou imediatamente.


— Gillian...


Ela sorriu.


— Ainda é cedo.


Ikarus aproximou-se.


— Você tem certeza?


— O curandeiro confirmou.


Ele ficou em silêncio.


Gillian respirou fundo.


— Nós vamos ter um filho.


Por um instante, tudo desapareceu.


Não havia fragmentos.


Não havia inimigos.


Não havia os doze guardiões.


Não havia a ameaça que começava a se desenhar diante deles.


Havia apenas os dois.


Ikarus segurou a mão de Gillian e olhou para o ventre dela, ainda praticamente sem mudança alguma.


— Então eu tenho ainda mais motivos para voltar.


Gillian sorriu, mas havia uma sombra de medo em seus olhos.


— Voltar de onde?


Ikarus não respondeu.


A marca em seu peito brilhou.


Uma dor atravessou seu corpo.


— Ikarus!


Gillian tentou segurá-lo, mas os joelhos dele cederam. A mão apertou o peito enquanto sua visão começava a desaparecer.


A última coisa que ouviu foi a voz de Gillian chamando seu nome.


Então tudo ficou escuro.


Quando abriu os olhos novamente, Lenória havia desaparecido.


Ikarus estava diante de uma cidade que nunca havia visto.


Torres brancas erguiam-se em direção ao céu. Pontes ligavam enormes construções de pedra. Bibliotecas ocupavam quarteirões inteiros, enquanto observatórios se espalhavam pelas partes mais altas da cidade. Pessoas caminhavam pelas ruas carregando livros, pergaminhos e instrumentos que Ikarus não reconhecia.


No centro de tudo havia uma enorme torre.


Sobre ela estava gravado o símbolo de uma coruja.


— Onde estou?


Uma voz respondeu:


— Sefrion.


Ikarus se virou, mas não havia ninguém.


Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a cidade começou a desaparecer.


As construções se transformaram em ruínas. As ruas ficaram vazias. O céu escureceu.


Então ele viu uma figura diante dos portões.


Um homem usando uma armadura dourada.


Um manto cobria parte de seus ombros e, em sua mão, havia uma espada.


Atrás dele, uma criatura gigantesca abriu as asas.


Uma coruja.


Era tão grande que sua sombra cobria os portões de Sefrion.


Ikarus sentiu um arrepio.


O homem ergueu a cabeça.


Por um instante, seus olhos encontraram os de Ikarus.


Então a coruja lançou um grito que pareceu atravessar o próprio céu.


Uma luz surgiu no interior da cidade.


A marca no peito de Ikarus começou a arder.


Uma voz ecoou dentro de sua mente.


O segundo fragmento.


Ikarus tentou avançar.


Não conseguiu.


A visão mudou.


Agora ele estava dentro de uma biblioteca.


Centenas de estantes desapareciam na escuridão. Livros antigos cobriam as paredes. Havia mapas, estátuas e inscrições que pareciam pertencer a uma época esquecida.


No centro da biblioteca havia um pedestal.


Sobre ele repousava uma esfera azulada.


Ikarus aproximou-se.


A esfera pulsou.


Uma vez.


Duas.


Três.


E então uma palavra apareceu diante dele.


SEFRION.


Ikarus estendeu a mão.


No instante em que seus dedos tocaram a esfera, a biblioteca desapareceu.


Ele voltou a ver as doze figuras.


As mesmas que havia visto anteriormente.


Agora, porém, conseguia enxergar algo que antes não compreendera.


Cada uma carregava uma parte da mesma luz.


Uma delas estava diante de um grifo.


Outra diante de uma coruja gigantesca.


Outra diante de uma criatura marinha.


Outra diante de uma criatura que Ikarus não conseguia reconhecer.


Doze figuras.


Doze forças.


Doze fragmentos.


Não eram apenas guerreiros.


Eram guardiões.


E aquilo que carregavam não era simplesmente poder.


Era uma parte de algo maior.


A voz voltou.


— O primeiro despertou.


Ikarus olhou para as figuras.


— E o segundo?


A resposta veio depois de alguns segundos.


— O segundo está protegido.


A visão mudou outra vez.


O homem de armadura dourada estava diante dos portões de Sefrion.


Dessa vez Ikarus conseguiu ouvir sua voz.


— Enquanto eu viver, ninguém tocará nele.


A coruja abriu as asas.


O céu ficou completamente escuro.


Então Ikarus viu uma sombra avançando sobre Sefrion.


Não era simplesmente um exército.


Era uma presença.


Atrás dela caminhavam mortos.


Centenas.


Talvez milhares.


A energia que envolvia aquela força era familiar.


Necromancia.


Ikarus sentiu o coração acelerar.


A voz sussurrou:


— Eles já sabem.


— Quem?


A resposta veio imediatamente.


— Aqueles que procuram os doze.


A visão desapareceu.


Ikarus abriu os olhos.


Estava novamente no chão da torre de Lenória.


Gillian estava ajoelhada ao seu lado.


— Ikarus!


Ele respirava com dificuldade.


— Sefrion...


— O quê?


Ikarus tentou se levantar.


— O segundo fragmento está em Sefrion.


Gillian ficou olhando para ele.


— Como você sabe?


Ikarus tocou a marca no peito.


— Eu vi.


— Uma visão?


— Sim.


Ele caminhou até a janela.


— Vi uma cidade. Vi uma coruja. E vi um homem.


— Quem?


Ikarus demorou alguns segundos antes de responder.


— Um Guardião.


Na manhã seguinte, os conselheiros de Lenória estavam reunidos na sala do trono. Mapas haviam sido espalhados sobre a grande mesa de madeira. Sefrion estava marcado a leste, muito além das regiões que Ikarus conhecia.


Um dos conselheiros apontou para o mapa.


— Você pretende atravessar metade do continente porque teve uma visão?


Ikarus permaneceu calado.


Outro conselheiro respondeu:


— O que aconteceu ontem não foi uma visão comum.


Ikarus colocou a mão sobre a marca dourada.


— Não.


Todos olharam para ele.


— Foi o fragmento.


O salão ficou em silêncio.


— Ele me mostrou o caminho.


— E por que Sefrion?


Ikarus olhou para o mapa.


— Porque o segundo fragmento está lá.


— E quem o protege?


Ikarus pensou no homem de armadura dourada.


— Um Guardião.


— Você sabe o nome dele?


Ikarus balançou a cabeça.


— Não.


— Então como pretende encontrá-lo?


Ikarus ergueu os olhos.


— Não sei.


Fez uma pausa.


— Mas acredito que ele já saiba que estou indo.


Muito longe dali, em Sefrion, a cidade de Haffen despertava. Mercadores começavam a abrir suas lojas, estudiosos atravessavam as ruas carregando livros e crianças corriam pelas praças enquanto os primeiros raios de sol tocavam as torres.


No ponto mais alto da cidade, Sahrion permanecia imóvel.


Sua armadura dourada refletia a luz da manhã.


O manto movia-se lentamente com o vento.


Ele observava o horizonte.


Durante toda a madrugada havia sentido alguma coisa.


Uma presença.


Uma luz.


Algo que havia despertado muito longe dali.


Atrás dele, uma sombra gigantesca se moveu.


A coruja de Sefrion abriu os olhos.


Sahrion virou-se.


— Você também sentiu.


A criatura permaneceu imóvel.


Sahrion aproximou-se e colocou a mão sobre sua cabeça.


— Então começou.


A coruja soltou um som baixo.


Sahrion voltou a olhar para o horizonte.


— O primeiro fragmento encontrou seu portador.


Por um breve instante, uma imagem surgiu em sua mente.


Um homem.


Uma espada.


Uma marca dourada no peito.


Ikarus.


Sahrion abriu os olhos.


— Ele virá.


Naquela noite, Ikarus preparava-se para partir.


Gillian estava diante dele enquanto os dois permaneciam em silêncio. O cavalo aguardava do lado de fora.


— Você vai mesmo? — perguntou ela.


Ikarus assentiu.


— Preciso ir.


— E se essa visão estiver errada?


— Então eu voltarei.


— E se for uma armadilha?


— Então enfrentarei a armadilha.


Gillian respirou fundo.


— E se você não voltar?


Ikarus ficou em silêncio.


A pergunta atingiu algo dentro dele que nenhuma espada poderia alcançar.


Ele aproximou-se e colocou a mão sobre o ventre dela.


— Eu vou voltar.


Gillian segurou seu rosto.


— Promete?


Ikarus sorriu.


— Prometo.


Mas os dois sabiam que promessas não podiam controlar o destino.


Ikarus pegou sua espada e caminhou até a porta. Antes de sair, olhou uma última vez para Gillian.


Ela estava ali.


Esperando um filho.


Esperando por ele.


E aquilo mudou completamente o significado daquela viagem.


Antes, Ikarus lutava por Lenória.


Agora havia alguém esperando seu retorno.


Alguém que ainda nem havia nascido.


Ele montou no cavalo e olhou para o leste.


Sefrion.


O segundo fragmento.


O Guardião.


A coruja.


E uma ameaça que começava a despertar.


Ikarus apertou as rédeas.


— Sefrion...


O cavalo começou a avançar.


No alto da torre, a marca dourada brilhou novamente.


E Ikarus finalmente compreendeu que sua jornada não seria simplesmente encontrar os doze fragmentos.


Precisaria descobrir por que eles haviam sido separados.


Precisaria entender quem eram os antigos guardiões.


E, acima de tudo, precisaria impedir que aquilo que havia sido dividido encontrasse sua totalidade nas mãos erradas.


Muito distante dali, Sahrion permanecia sobre a torre de Haffen.


A enorme coruja abriu as asas.


Sahrion fechou os olhos.


Uma voz antiga surgiu dentro de sua mente:


O primeiro está a caminho do segundo.


Ele abriu os olhos.


— Então venha, Ikarus.


A coruja lançou seu grito sobre Haffen.


Sahrion apertou o punho.


— Porque antes de chegar ao fragmento...


Ele olhou para o horizonte.


— você terá que passar pelo seu Guardião.

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