Gallen era uma terra onde quase todo homem aprendia a montar antes mesmo de aprender a escrever. Os cavaleiros faziam parte da vida cotidiana, as bandeiras das antigas famílias tremulavam sobre as fortalezas e, nas estradas que levavam a Zodhak, era comum encontrar jovens treinando com lanças enquanto seus pais observavam das muralhas. Mas havia um homem em Gallen que nunca quis ser cavaleiro. Seu nome era Darven. Quando jovem, Darven preferia cavalos às espadas. Gostava de cuidar deles, conhecer seus temperamentos, alimentar os mais velhos e tratar os que chegavam feridos das batalhas. Seu pai, porém, era comandante de uma das maiores companhias militares de Gallen. Para ele, aquilo era uma vergonha. — Um homem da nossa família deve carregar uma espada — dizia. — E eu prefiro carregar um balde de água para um cavalo — respondia Darven. O pai não achava graça. Durante anos tentou transformá-lo em guerreiro. Darven aprendeu a lutar, aprendeu a montar, aprendeu a usar lança e escudo. Mas nunca encontrou prazer naquilo. Até o dia em que seu pai morreu. Ele tinha partido com cento e vinte cavaleiros para proteger uma aldeia na fronteira. Apenas vinte e três voltaram. Darven tinha vinte e dois anos. Quando viu os sobreviventes chegando a Zodhak, percebeu que nenhum deles parecia vencedor. Alguns perderam braços. Outros perderam irmãos. Um deles havia perdido o próprio filho. Naquela noite, Darven entrou no estábulo e encontrou o cavalo do pai sozinho. Havia sangue seco em seu pelo. Darven abraçou o animal e chorou pela primeira vez desde criança. — Ele não voltou — sussurrou. O cavalo encostou a cabeça nele. — Mas você voltou. Na manhã seguinte, Darven vendeu tudo o que tinha e começou a viajar pelas aldeias de Gallen. Não queria ser comandante. Não queria títulos. Queria cuidar daqueles que a guerra deixava para trás. Durante anos, percorreu o reino ajudando famílias de soldados mortos, reconstruindo estábulos, levando comida para aldeias pobres e treinando jovens para que soubessem se defender. Tornou-se conhecido como o Cavaleiro sem Brasão, embora quase ninguém soubesse que ele havia sido criado dentro de uma das famílias militares mais antigas de Gallen. Foi durante uma dessas viagens que encontrou uma menina chamada Lysa. Ela tinha perdido os pais durante uma invasão. Estava escondida dentro de um celeiro, abraçada a um cavalo assustado. Darven entrou devagar. — Ele não vai machucar você. A menina não respondeu. — Nem eu. Ainda assim ela não saiu do lugar. Darven sentou-se no chão. — Então ficaremos aqui até você decidir. Passaram-se horas. Quando finalmente amanheceu, Lysa saiu do celeiro segurando a mão dele. Darven nunca mais a deixou. Durante os anos seguintes, tornou-se pai sem jamais ter planejado isso. Lysa cresceu entre cavalos, espadas e estradas. Aprendeu a montar. Aprendeu a lutar. Aprendeu também a ler. E, quando perguntavam quem era seu pai, respondia: — O homem que me encontrou. Darven fingia não se emocionar. Mas sempre que ela dizia aquilo, precisava olhar para outro lado. Dezesseis anos se passaram. Darven envelheceu. Seus cabelos ficaram grisalhos. As cicatrizes apareceram em seus braços. Lysa tornou-se uma excelente cavaleira. E foi então que o passado encontrou Darven novamente. Certa noite, enquanto descansava em uma antiga fortaleza nas montanhas de Gallen, ele ouviu três batidas na porta. Quando abriu, não havia ninguém. Apenas uma lança dourada encostada contra a parede. Darven reconheceu imediatamente o símbolo gravado nela. Um centauro. Ele havia visto aquele símbolo quando criança, escondido nos brasões mais antigos de sua família. Pegou a lança. No instante em que seus dedos tocaram o metal, todas as tochas da fortaleza se apagaram. Uma voz ecoou no salão. — Você passou a vida inteira tentando fugir da guerra. Darven ficou imóvel. — Quem está aí? — E passou a vida inteira protegendo aqueles que ela deixou para trás. Uma luz dourada apareceu diante dele. — Por isso foi escolhido. Darven olhou para a lança. — Escolhido para quê? O chão tremeu. Atrás dele surgiu uma armadura dourada. Não era uma armadura comum. As placas pareciam ter sido moldadas para um guerreiro que existia entre homem e cavalo. No peito estava gravado o centauro. — Para guardar aquilo que não pode cair nas mãos erradas. Darven recuou. — Não quero poder. — Não lhe foi oferecido poder. Foi-lhe oferecido um dever. Ele ficou em silêncio. Então pensou em Lysa. Pensou em todos os homens que vira morrer. Pensou no pai. Pensou nas aldeias que ainda precisavam de proteção. Pegou a lança. — Se eu aceitar... o que acontece? A voz respondeu: — Um dia virá aquele que carrega os fragmentos. Ele lutará contra você. — E se ele vencer? — Você morrerá. Darven fechou os olhos. — E o fragmento? — Será dele. Ele permaneceu muito tempo em silêncio. Depois vestiu a armadura dourada. Quando saiu da fortaleza naquela manhã, Lysa estava esperando do lado de fora. — Pai? Darven montou em seu cavalo. — Tenho uma coisa para lhe contar. — Vai viajar de novo? — perguntou ela. Ele sorriu. — Talvez. Lysa aproximou-se. — Você sempre volta. Darven olhou para ela. Queria dizer a verdade. Queria contar sobre a armadura, sobre o fragmento, sobre o homem que um dia chegaria para matá-lo. Mas não conseguiu. — Sim. Eu sempre volto. Lysa sorriu. — Então eu espero. Darven partiu. Anos passaram. Tornou-se uma lenda de Gallen. Alguns diziam que era um cavaleiro imortal. Outros diziam que era o espírito de um antigo rei. Pouquíssimos sabiam a verdade. Darven vivia em uma fortaleza nas montanhas, longe dos grandes centros, protegendo o quarto fragmento. E todas as noites fazia a mesma coisa. Olhava para uma pequena casa distante, onde Lysa ainda vivia. Ela havia se casado. Tinha filhos. E, para os netos de Darven, ele era apenas o avô que aparecia algumas vezes trazendo presentes e histórias. Nenhum deles sabia que aquele homem era o Guardião de Gallen. Certa noite, Darven recebeu uma carta. Era de Lysa. Abriu lentamente. Ela escrevia sobre os filhos, sobre os netos e sobre uma festa que pretendia organizar quando ele voltasse. No final havia uma frase simples: “Pai, você sempre diz que um cavaleiro deve proteger aquilo que ama. Então volte para casa.” Darven ficou olhando para aquelas palavras durante muito tempo. Depois dobrou a carta e guardou-a dentro da armadura. Naquela mesma noite, sentiu alguma coisa. Uma presença distante. Uma luz que havia despertado em outra parte do mundo. O quarto fragmento respondeu. Darven caminhou até a muralha da fortaleza. Lá embaixo, dezenas de cavalos começaram a relinchar. O vento atravessou as montanhas. Ele ergueu a lança dourada. Atrás dele, uma sombra gigantesca surgiu entre as nuvens. Quatro patas tocaram a pedra. Um corpo humano sobre um torso equino. Olhos dourados. Armadura de guerra. O Centauro de Gallen havia despertado. Darven olhou para o horizonte. — Então você vem. Ele não sentia ódio do homem que chegaria. Nem desejava matá-lo. Apenas sabia que seu dever finalmente havia chegado. Tocou a carta de Lysa dentro da armadura. — Perdoe seu velho pai. Pela primeira vez, talvez eu não consiga voltar. E, muito longe dali, uma luz dourada brilhou no peito de Ikarus.
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