Durante quase três horas, ninguém disse uma palavra. O corredor continuava descendo lentamente sob a montanha, tão estreito em alguns pontos que Tavian precisava passar de lado para não raspar a mochila nas paredes. As tochas que carregavam pareciam inúteis. A cada poucos metros, pequenas marcas brancas apareciam nas pedras, como se alguém tivesse desenhado símbolos com giz muitos séculos antes. Oren parava diante de algumas delas, aproximava o rosto e examinava os traços. — Não são inscrições — disse finalmente. Maela olhou para ele. — Então o que são? — Marcas de contagem. — Contagem de quê? Oren não respondeu imediatamente. Passou os dedos sobre uma das marcas. Havia cinco riscos verticais e, sobre eles, um sexto risco atravessando os anteriores. — Pessoas — disse. Nilo parou. — Pessoas? — Sim. Alguém estava contando quantas pessoas passaram por aqui. Sira olhou para o corredor atrás deles. — E quantas passaram? Oren contou os grupos de marcas. — Não sei. Mas não foram poucas. Tavian aproximou a lanterna. — Isso significa que outros encontraram o lugar antes de nós? — Significa que alguém queria saber quantos entravam. Nilo ficou em silêncio. Aquilo não estava no relato que havia contado a Raella. Não porque tivesse escondido alguma coisa, mas porque nunca havia chegado tão longe. O grupo continuou. Depois de mais alguns minutos, o corredor terminou diante de uma porta gigantesca. Diferentemente das paredes, a porta era completamente branca. Não havia ferrugem, rachaduras ou poeira. Parecia ter sido construída no mesmo dia. No centro havia apenas uma inscrição: VIDA NÃO É O OPOSTO DE MORTE. VIDA É AQUILO QUE PERMANECE QUANDO A MORTE TERMINA. Kael leu lentamente. — Isso não faz sentido. Oren aproximou-se. — Talvez esse seja justamente o problema. — Que problema? — Talvez este lugar não esteja interessado em fazer sentido para nós. Tavian procurou mecanismos. Encontrou três pequenos círculos na pedra, dispostos verticalmente. — Preciso pressionar alguma coisa. — Não — disse Nilo imediatamente. Tavian olhou para ele. — Por quê? — Porque a última vez que alguém encontrou uma porta parecida, nós perdemos seis pessoas. Ninguém discutiu. Sira aproximou-se da inscrição. — Talvez a porta não precise ser aberta. Talvez precise ser respondida. Oren sorriu discretamente. — Finalmente alguém está pensando como os antigos. Ele examinou novamente a frase. — Vida não é o oposto de morte... O que permanece quando a morte termina. — Memória? — sugeriu Maela. — Talvez. — Alma? — disse Sira. Oren ficou pensativo. Kael respondeu: — Nada. Quando a morte termina, acabou. Oren olhou para ele. — E se você estiver errado? — Então continuamos procurando. Kael tocou a porta. Nada aconteceu. Nilo então percebeu uma pequena depressão no chão, exatamente diante da inscrição. — Esperem. Ele ajoelhou-se. Havia algo escrito ali, quase invisível. — “Somente aquele que perdeu alguém poderá entrar.” O grupo ficou imóvel. Sira baixou os olhos. Maela respirou fundo. Tavian ficou em silêncio. Kael parecia confuso. Nilo não se moveu. Oren então perguntou: — Todos nós perdemos alguém. — Não é isso que está escrito — respondeu Nilo. — Está escrito “aquele que perdeu alguém”. Talvez exista diferença. Maela colocou a mão sobre a porta. — Então deixe comigo. Ela fechou os olhos. — Meu irmão morreu quando eu tinha dezesseis anos. Não numa guerra. Não protegendo ninguém. Ele simplesmente adoeceu. E eu passei anos tentando descobrir por que alguém tão jovem poderia desaparecer assim. Nada aconteceu. Sira tentou. — Eu perdi minha mãe. Cuidei dela durante os últimos meses. Também nada aconteceu. Tavian falou sobre o pai, morto em um acidente numa ponte. Oren contou sobre um professor que desapareceu durante uma expedição. Kael permaneceu em silêncio. Nilo olhou para ele. — E você? Kael abaixou a cabeça. — Ninguém. Todos olharam para ele. — Nunca perdi ninguém? — perguntou Maela. — Não. Meus pais estão vivos. Meus irmãos também. Nunca enterrei ninguém. Nilo então percebeu. — É por isso que você veio. Kael levantou os olhos. — O quê? — Você não entende a morte porque nunca precisou encará-la. O Livro da Vida pode ser exatamente aquilo que você acha que precisa conhecer. Kael ficou irritado. — Eu vim porque quero ajudar. — Eu sei. Mas talvez o lugar tenha escolhido você justamente porque não sabe o que está procurando. Kael recuou. Então a porta começou a se abrir. Não porque alguém a tivesse tocado. Não porque Tavian tivesse encontrado um mecanismo. Ela simplesmente se abriu sozinha. Um vento gelado atravessou o corredor. As tochas se apagaram. E, pela primeira vez desde que entraram na montanha, ouviram um som diferente do próprio grupo. Uma respiração. Lenta. Profunda. Vinda do outro lado da porta. Maela puxou a espada. Nilo levantou a arma. Sira recuou. Oren segurou seu livro contra o peito. Tavian ficou imóvel. Kael desembainhou a espada. A porta terminou de abrir. Do outro lado havia uma sala enorme, completamente branca. No centro estava o pedestal. E sobre ele estava o livro. VIDA. Mas algo havia mudado desde a visão que tiveram anteriormente. A cadeira vazia não estava mais vazia. Havia alguém sentado nela. Um homem muito velho, vestido com roupas brancas, estava de costas para o grupo. Sua cabeça permanecia baixa. Ninguém sabia há quanto tempo ele estava ali. Nilo deu um passo à frente. — Quem é você? O homem não respondeu. Oren observou a cadeira. — Essa cadeira estava vazia. O homem finalmente falou. Sua voz era baixa, quase um sussurro. — Para vocês. Nilo apertou a arma. — Você conhece este lugar? — Conheço. — O Livro da Vida é seu? O homem levantou lentamente a cabeça. — Não. — Então de quem é? O velho olhou para o livro sobre o pedestal. — Essa é a pergunta errada. Oren avançou um passo. — Qual seria a pergunta certa? O homem ficou em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Quem escreveu o livro? Ninguém respondeu. O velho levantou-se. E foi então que todos perceberam algo impossível. Seus pés não tocavam o chão. Ele estava flutuando alguns centímetros acima da pedra. Sira recuou. Maela levantou a espada. Nilo não piscou. — Você está morto? — perguntou Kael. O velho sorriu. — Estou. Kael apertou a espada. — Então como está falando conosco? — Essa é justamente a razão pela qual vocês vieram até aqui. Oren olhou para o livro. — Você é o autor? — Não. — Guardião? — Não. — Então o que é você? O velho olhou diretamente para Kael. — Sou alguém que leu o livro. O silêncio foi absoluto. Nilo sentiu o estômago se contrair. — E o que aconteceu? O velho respondeu: — Eu trouxe alguém de volta. Sira deu um passo à frente. — Funcionou? O velho sorriu novamente. — Sim. A esperança surgiu nos olhos dela. — Quem? — perguntou. O velho olhou para o livro. — Minha filha. Nilo respirou fundo. — Então por que você está morto? O velho não respondeu. Em vez disso, apontou para o pedestal. — Abram o livro. Oren imediatamente disse: — Não. O homem virou-se para ele. — Você tem razão. Não deveriam. Todos ficaram tensos. O velho continuou: — Porque o primeiro que abrir o livro verá alguém que ama. Ninguém se moveu. — E depois? — perguntou Nilo. O velho olhou para ele. — Depois o livro perguntará quanto você está disposto a pagar para vê-lo novamente. A sala ficou silenciosa. Então, lentamente, o livro branco começou a abrir sozinho. Uma página virou. Depois outra. Depois outra. Até parar em uma página completamente vazia. No centro dela apareceu uma única frase, escrita em letras negras. Nilo leu primeiro. Seu rosto perdeu a cor. “QUAL DOS MORTOS VOCÊ DESEJA TRAZER DE VOLTA?” E, abaixo da pergunta, começaram a surgir nomes. Um por um. Nomes de pessoas que cada integrante do grupo havia perdido. Mas havia um nome a mais. Um nome que nenhum deles conhecia. Oren aproximou-se lentamente. — Esse... não deveria estar aqui. Nilo olhou para ele. — Por quê? Oren apontou para o último nome. — Porque esse homem morreu há mais de mil anos. E, mesmo assim, o livro acabou de escrever o nome dele. As letras terminaram de aparecer. ELIAS. Nilo ficou imóvel. O velho levantou os olhos. E, pela primeira vez, seu sorriso desapareceu. — Então ele já sabe que vocês chegaram.
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