Lenória estava em silêncio.
Não o silêncio comum das madrugadas.
Era um silêncio pesado.
O tipo de silêncio que fazia até os cavalos inquietarem-se dentro dos estábulos.
No alto da torre central, o estandarte do grifo permanecia imóvel.
Nenhum vento.
Nenhum pássaro.
Nenhum som.
Ikarus estava diante dos portões da torre.
Sozinho.
Sua mão permanecia sobre a espada.
Atrás dele, dezenas de soldados aguardavam.
Mas ninguém recebera ordem para acompanhá-lo.
A missão era dele.
Aquela noite havia começado com uma mensagem.
Um fragmento havia sido encontrado.
Um fragmento antigo.
Uma parte de algo que, segundo os registros preservados pelos mais antigos estudiosos de Lenória, jamais deveria ter sido separado.
Os documentos eram vagos.
Falavam de doze forças.
Doze guardiões.
Doze fragmentos.
E de uma ameaça que poderia surgir caso alguém reunisse aquilo que havia sido separado.
Mas o fragmento de Lenória havia despertado.
E, desde então, coisas estranhas começaram a acontecer.
Soldados sonhavam com batalhas que nunca haviam travado.
Crianças ouviam passos dentro das paredes.
Magos relatavam sentir uma presença dentro da torre.
E naquela noite...
alguém havia morrido.
Ikarus olhou para o corpo coberto por um pano.
Era um velho estudioso.
Seu nome era Orven.
Ele havia passado quarenta anos estudando os registros antigos de Lenória.
Antes de morrer, havia deixado apenas uma frase:
— O fragmento escolhe quem pode tocá-lo.
Ikarus não sabia se aquilo era uma advertência.
Ou um desafio.
Abriu a porta.
---
A escadaria parecia não ter fim.
Ikarus subia lentamente.
Uma tocha em uma mão.
A espada na outra.
A cada degrau, o ar ficava mais frio.
Não deveria ser assim.
Era verão.
Mesmo assim, quanto mais subia, mais frio sentia.
No terceiro andar, ouviu um ruído.
Parou.
Silêncio.
Continuou.
No quarto andar, ouviu novamente.
Desta vez mais próximo.
Metal raspando pedra.
Ikarus desembainhou a espada.
— Apareça.
Nada.
Ele continuou.
Então uma voz ecoou atrás dele.
— Você realmente acha que pode carregar aquilo?
Ikarus se virou.
Ninguém.
— Quem está aí?
— Você.
Ikarus ficou imóvel.
A voz voltou.
— Sempre tão confiante.
A tocha apagou.
Escuridão.
Ikarus fechou os olhos.
Respirou.
Lembrou-se das palavras de Rufus.
"Quando não puder enxergar o inimigo, não lute contra a escuridão. Espere que ela lute contra você."
Um som.
À esquerda.
Ikarus girou.
A espada encontrou outra espada.
CLANG!
Faíscas iluminaram a torre.
Uma figura estava diante dele.
Armadura negra.
Elmo fechado.
Uma espada longa.
Ikarus recuou.
A criatura avançou.
Outro golpe.
Ikarus bloqueou.
Outro.
Outro.
A força daquele guerreiro era absurda.
Ikarus foi empurrado contra a parede.
A espada inimiga desceu.
Ele desviou por centímetros.
A lâmina abriu uma fenda na pedra.
Ikarus chutou o joelho do adversário.
Nada.
A criatura nem sequer se moveu.
Ikarus saltou para trás.
— O que é você?
A figura levantou a espada.
— Aquilo que você precisa superar.
E atacou novamente.
---
A luta subiu a torre.
Degrau após degrau.
Ikarus começou a sangrar.
Um corte no braço.
Outro no rosto.
Uma pancada no ombro.
A espada quase escapou de sua mão.
Mas ele continuou.
Porque conhecia aquele tipo de combate.
Não era uma batalha para matar.
Era uma prova.
O inimigo não tentava fugir.
Não tentava alcançar a porta.
Não demonstrava raiva.
Apenas lutava.
Como se esperasse alguma coisa.
Ikarus percebeu.
— Você está me testando.
A figura não respondeu.
Ikarus avançou.
Golpe alto.
Finta.
Corte lateral.
A criatura bloqueou.
Ikarus girou.
Tentou atingir as pernas.
Bloqueado.
Um golpe veio contra seu peito.
Ikarus foi lançado pela escada.
Seu corpo bateu contra vários degraus.
A espada caiu.
Ele permaneceu imóvel.
A figura desceu.
Passo.
Passo.
Passo.
Ikarus tentou levantar.
O corpo não respondeu.
O inimigo parou diante dele.
Levantou a espada.
Ikarus olhou para cima.
E, naquele instante, lembrou-se de Rufus.
Não das técnicas.
Não das batalhas.
De uma conversa.
Anos antes.
Ikarus ainda era jovem.
— Mestre...
Rufus estava sentado diante dele.
— O que foi?
— Como alguém sabe quando está pronto?
Rufus riu.
— Não sabe.
— Então como luta?
— Luta mesmo assim.
— E se perder?
Rufus olhou diretamente para ele.
— Então aprende.
Ikarus sorriu.
Naquele instante, entendeu.
Levantou-se.
A criatura desceu a espada.
Ikarus desviou.
A lâmina passou por seu rosto.
Ele agarrou o braço do adversário.
E o lançou contra a parede.
A armadura negra rachou.
Pela primeira vez, a criatura recuou.
Ikarus recuperou sua espada.
— Eu não preciso estar pronto.
A figura levantou-se.
Ikarus avançou.
— Só preciso continuar.
---
O combate terminou no topo da torre.
Ikarus estava ajoelhado.
A espada apoiada no chão.
Seu corpo inteiro tremia.
Diante dele, a figura negra estava caída.
O elmo havia se partido.
Não havia rosto.
Apenas luz.
Uma luz dourada.
A figura começou a desaparecer.
Ikarus observou.
— Quem é você?
A criatura respondeu:
— A memória daqueles que vieram antes.
E desapareceu.
Atrás dela havia uma porta.
Ikarus abriu.
---
A sala era pequena.
No centro havia um pedestal.
Sobre ele estava o fragmento.
Não era grande.
Cabia na palma da mão.
Parecia uma pequena pedra de metal dourado.
Mas pulsava.
Como se tivesse um coração.
Ikarus aproximou-se.
O ar ficou pesado.
Uma voz surgiu dentro de sua cabeça.
"Você quer poder?"
Ikarus parou.
— Não.
"Quer glória?"
— Não.
"Quer vingança?"
Ikarus fechou os olhos.
Pensou em todos os que havia perdido.
Rickson.
Os soldados.
As pessoas que não conseguiu salvar.
— Não.
A voz ficou silenciosa.
Então perguntou:
"O que você quer?"
Ikarus demorou.
— Quero proteger Lenória.
O fragmento brilhou.
"E quando não puder?"
Ikarus apertou os dentes.
— Vou tentar novamente.
"E quando falhar?"
— Vou aprender.
"E quando morrer?"
Ikarus olhou para o fragmento.
— Então outro continuará.
Silêncio.
O fragmento começou a flutuar.
Aproximou-se lentamente.
Ikarus estendeu a mão.
No instante em que seus dedos tocaram o objeto, uma explosão de luz atravessou a torre.
---
Toda Lenória viu.
Uma coluna dourada subiu da torre central e atravessou as nuvens.
Os sinos tocaram sozinhos.
Os cavalos relincharam.
Os soldados ajoelharam.
E, no céu, uma forma surgiu.
Um enorme grifo dourado.
As asas cobriram a lua.
Durante alguns segundos, a criatura permaneceu sobre a cidade.
Então desapareceu.
Na torre, Ikarus estava de pé.
O fragmento havia desaparecido de sua mão.
Agora havia uma marca dourada em seu peito.
Ele respirou profundamente.
A porta atrás dele se abriu.
Um soldado entrou correndo.
— Ikarus!
Ele parou ao vê-lo.
— O que aconteceu?
Ikarus olhou para a própria mão.
— Eu consegui.
O soldado aproximou-se.
— O fragmento?
Ikarus não respondeu imediatamente.
Olhou pela janela.
Lenória inteira brilhava sob a luz das luas.
— Não.
O soldado franziu a testa.
— Não?
Ikarus colocou a mão sobre o peito.
— Ele me escolheu.
---
Muito longe dali...
Em um lugar onde nenhuma bandeira de Lenória tremulava...
uma vela se apagou.
Uma figura estava sentada diante de uma mesa.
Sobre ela havia mapas.
Mapas de Lenória.
Sefrion.
Aldora.
Kallon.
E outros reinos.
A figura levantou os olhos.
Sentira.
O primeiro fragmento havia despertado.
Um sorriso surgiu.
— Um.
A mão percorreu lentamente o mapa.
Parou sobre Lenória.
— Faltam onze.
---
Ikarus permaneceu no alto da torre.
Não sabia quem estava procurando os fragmentos.
Não sabia quantos inimigos enfrentaria.
Não sabia o que aconteceria quando os doze fossem encontrados.
Mas sabia uma coisa.
A partir daquela noite, sua vida havia mudado.
Ele não carregava apenas uma espada.
Não carregava apenas o símbolo de Lenória.
Agora carregava algo muito mais antigo.
Algo que havia escolhido nele aquilo que nem ele próprio sabia possuir.
E, em algum lugar distante, uma força antiga havia acabado de perceber que o primeiro fragmento não estava mais perdido.
Ele tinha encontrado um portador.
Ikarus olhou para o horizonte.
— Venham.
A mão apertou a espada.
— Lenória estará esperando.
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