Mas Ikarus estava errado.
Lenória não seria a primeira a descobrir o que havia acontecido naquela noite.
Seria a própria memória do fragmento.
Ikarus ainda permanecia diante da janela quando sentiu uma dor no peito.
A mão foi imediatamente ao local da marca.
Ela estava quente.
Muito quente.
— Ikarus?
O soldado que ainda estava na sala deu um passo em sua direção.
— Está tudo bem?
Ikarus não respondeu.
A dor aumentou.
Ele caiu de joelhos.
— Ikarus!
O soldado correu até ele.
— Chame os curandeiros!
— Não.
A palavra saiu entre os dentes.
— Mas...
— Não chame ninguém.
Ikarus apertou o peito.
A marca dourada começou a pulsar.
Uma vez.
Duas.
Três.
E então ele ouviu novamente aquela voz.
Não vinha da sala.
Não vinha de fora.
Vinha de dentro.
"Você não recebeu um poder."
Ikarus fechou os olhos.
— Então o que eu recebi?
Silêncio.
"Uma lembrança."
A torre desapareceu.
---
Ikarus estava em outro lugar.
Não havia Lenória.
Não havia torre.
Não havia céu.
Havia apenas um campo.
Um campo coberto de cinzas.
Ele olhou ao redor.
Centenas de corpos estavam espalhados pela terra.
Armaduras antigas.
Armas quebradas.
Bandeiras que Ikarus não reconhecia.
E, ao longe, doze figuras estavam de pé.
Ikarus tentou aproximar-se.
Não conseguiu.
Era como se estivesse preso ao próprio lugar.
Uma das figuras levantou a mão.
Na palma havia uma luz.
Outra figura também.
Depois outra.
Doze luzes.
Doze homens e mulheres.
Doze forças.
Ikarus percebeu que não estava vendo os Guardiões de sua época.
Aquelas figuras eram muito mais antigas.
Muito antes de Lenória.
Muito antes dos reinos que conhecia.
Talvez até antes dos nomes que os homens davam às terras.
Uma voz ecoou pelo campo.
— Eles não podem permanecer juntos.
Outra respondeu:
— Então os dividiremos.
— E quem carregará cada parte?
Silêncio.
Uma das figuras olhou para os sobreviventes da guerra.
— Aqueles que vierem depois de nós.
Ikarus sentiu um arrepio.
A primeira voz voltou:
— E se algum dia tentarem reuni-los?
A resposta foi simples.
— Então os Doze deverão escolher novamente.
A visão mudou.
Ikarus viu as doze luzes sendo separadas.
Uma delas veio em sua direção.
Era a mesma luz do fragmento.
Antes de desaparecer, ouviu uma última frase:
— O fragmento não escolhe o mais forte.
Tudo ficou escuro.
— Escolhe aquele que continuará carregando-o quando descobrir o preço.
---
Ikarus abriu os olhos.
Estava novamente na torre.
O soldado estava ajoelhado ao seu lado.
— Você ficou imóvel por quase um minuto.
Ikarus respirou profundamente.
— Para mim foram horas.
— O que aconteceu?
Ikarus olhou para a marca.
Ela havia mudado.
Antes era apenas uma marca dourada.
Agora havia uma pequena linha atravessando-a.
Como uma rachadura.
— Eu vi os Doze.
O soldado ficou pálido.
— Os Guardiões?
Ikarus balançou a cabeça.
— Não.
Levantou-se lentamente.
— Os que vieram antes deles.
---
Ikarus caminhou até o pedestal.
O fragmento não estava mais ali.
Mas algo havia ficado.
Uma pequena inscrição apareceu na pedra.
O soldado aproximou-se.
— O que está escrito?
Ikarus leu.
Seu rosto mudou.
— Não sei.
— Como assim?
— Está em uma língua que não existe mais.
O soldado olhou para ele.
— Você consegue ler?
Ikarus ficou alguns segundos em silêncio.
— Não.
Passou os dedos sobre a inscrição.
Então a marca em seu peito brilhou.
As palavras mudaram.
O soldado recuou.
Agora estavam escritas na língua de Lenória.
Ikarus leu em voz baixa:
“O que foi dividido não foi destruído.”
Silêncio.
Então outra linha apareceu.
“O que foi separado ainda pertence à mesma origem.”
Ikarus sentiu o coração acelerar.
A última frase surgiu lentamente.
“E aquilo que um dia foi um voltará a procurar sua totalidade.”
O soldado olhou para ele.
— Isso significa que os fragmentos...
Ikarus não respondeu.
Porque já havia entendido.
O perigo nunca havia sido encontrar os fragmentos.
O perigo era alguém conseguir reuni-los.
---
Na mesma noite, muito longe de Lenória, a figura diante do mapa percebeu alguma coisa.
O sorriso desapareceu.
Uma chama azul surgiu sobre a mesa.
Depois outra.
E outra.
A figura se levantou.
— Não...
Uma das marcas no mapa começou a desaparecer.
— Ele não deveria ter visto isso.
A mão da figura fechou-se.
— O primeiro portador despertou a memória.
---
Em Lenória, Ikarus saiu da torre.
O amanhecer começava.
A cidade despertava lentamente.
As pessoas caminhavam pelas ruas.
Os soldados trocavam seus turnos.
Os comerciantes começavam a abrir suas lojas.
Tudo parecia normal.
Mas Ikarus sabia que nada era mais normal.
Ele parou diante da muralha.
Olhou para o horizonte.
Agora sabia que aquele fragmento não era simplesmente uma arma.
Era uma parte de algo antigo.
Algo que havia sido dividido de propósito.
E havia uma pergunta que não conseguia abandonar:
O que precisava ser tão terrível para que alguém decidisse dividir uma força em doze partes?
Ikarus tocou a marca.
Uma última sensação percorreu seu corpo.
Não era uma voz.
Era uma certeza.
Os outros fragmentos estavam despertando.
Um após o outro.
Em diferentes lugares.
Em diferentes reinos.
E cada um encontraria alguém.
Não necessariamente o mais forte.
Não necessariamente o mais sábio.
Não necessariamente o mais puro.
Mas alguém capaz de carregar uma parte daquilo que o mundo antigo havia decidido separar.
Ikarus olhou para o céu.
Ao longe, por um instante, uma pequena luz apareceu entre as nuvens.
Depois desapareceu.
O primeiro fragmento havia encontrado seu portador.
E agora a verdadeira história dos Doze começava.
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