A noite em Lenória Imperial não era mais apenas escuridão.
Era uma presença.
Desde o último ataque, o residual de distorção deixado pelas criaturas não se dissipara completamente. Pairava sobre as ruínas como um cheiro que a chuva não lavava e o vento não levava. As tochas queimavam mais baixas. As sombras demoravam um segundo a mais para acompanhar os corpos que as projetavam. E, nas horas mais profundas da madrugada, alguns dos sobreviventes juravam ouvir passos que não pertenciam a nenhum dos vivos.
Foi nessa madrugada que o elfo apareceu.
Não veio pelos portões improvisados. Não veio pelas estradas vigiadas. Simplesmente estava ali, sentado sobre um bloco de pedra caída no centro do que um dia fora a praça do grifo, quando a primeira patrulha da manhã o encontrou. Alto, mesmo sentado. Magro como um galho seco. Cabelos brancos longos presos de forma descuidada, e olhos de um verde tão antigo que pareciam ter visto o nascimento das primeiras árvores de Khsandra.
Os soldados apontaram lanças. Ele não se moveu.
— Digam ao filho de Kallon e ao residual de Ranur que o tempo dos Guardiões adormecidos acabou — disse, a voz rouca, mas clara. — E que as cinzas de Lenória ainda guardam palavras que os vivos esqueceram.
Quando Ikarus, Gillian e Raella chegaram, o elfo ainda estava no mesmo lugar. Não havia se levantado. Não havia pedido água, comida ou proteção. Apenas esperava, com a paciência de quem já esperara séculos.
Ikarus parou a poucos passos. A aura azul-dourada se expandiu instintivamente, reagindo à presença do ancião.
— Quem é você?
O elfo ergueu o rosto. Os olhos verdes encontraram os de Ikarus sem medo e sem reverência.
— Meu nome já não importa. Fui chamado de muitas formas. Guardião de memórias. Ladrão de segredos. Traidor dos que preferem o silêncio. — Ele inclinou a cabeça levemente. — Mas você pode me chamar de Vaelion. E eu vim porque a morte de Ranur abriu uma porta que deveria ter permanecido fechada.
Raella deu um passo à frente, a mão próxima à capa.
— Fale com clareza, ancião. Não temos tempo para enigmas.
Vaelion sorriu. Era um sorriso cansado, sem humor.
— Clareza, então. Escutem com atenção, porque não repetirei.
Ele se levantou. Mesmo em pé, a figura parecia frágil demais para carregar o peso das palavras que viriam.
— Quando os Doze Guardiões foram escolhidos, cada um recebeu mais do que armadura, manto e criatura. Recebeu um fragmento. Não um objeto comum. Um pedaço da própria essência do pacto que os ligava aos Hunens e às terras que protegiam. Doze fragmentos. Doze templos. Um em cada reino. Escondidos não de inimigos comuns, mas do tempo e da ambição.
Gillian franziu o cenho.
— Nunca ouvi falar disso.
— Porque não era para ouvir. Os Guardiões juraram silêncio. Os reis que souberam preferiram esquecer. E os Hunens… os Hunens observaram. — Vaelion caminhou lentamente entre os escombros, como se reconhecesse cada pedra. — Esses fragmentos só podem ser entregues a alguém que já carregue o poder de pelo menos um dos Doze. E só podem ser obtidos de uma forma.
Ele parou e olhou diretamente para Ikarus.
— Combate até a morte.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Até o vento pareceu parar.
— Cada Guardião — continuou Vaelion — deve ser enfrentado em seu próprio templo. Não há negociação. Não há submissão voluntária. O fragmento só se separa do Guardião quando este cai. E quando cai, o poder que ele carrega não se dispersa. Ele busca o receptáculo. Aquele que já possui um fragmento anterior. Aquele que já foi marcado pelo pacto.
Ikarus sentiu o residual de Ranur arder no peito.
— Eu já carrego o de Ranur.
— Exatamente. — Vaelion assentiu. — Por isso a porta se abriu. Por isso eu vim. Você é o primeiro em eras a carregar o residual de um Guardião morto em combate verdadeiro. Isso faz de você o receptáculo. O único capaz de reunir os doze.
Raella cruzou os braços.
— E para que serviria reunir os doze fragmentos?
Vaelion demorou a responder. Quando falou, a voz saiu mais baixa, quase reverente.
— Para criar um poder capaz de destruir um Hunen.
A frase caiu como uma lâmina.
Gillian deu um passo à frente.
— Isso é possível?
— Em teoria. — O elfo inclinou a cabeça. — Os Hunens não são invencíveis. Apenas tão além da escala mortal que a diferença praticamente desaparece. Mas o pacto original dos Doze foi feito com uma cláusula esquecida. Se os doze fragmentos forem reunidos em um único receptáculo, esse receptáculo se torna algo que os próprios Hunens temeram quando o mundo ainda era jovem: um igual. Ou quase. Um ser capaz de cortar o que não deveria ser cortado.
Ikarus fechou os punhos.
— Vocês estão falando de Angarkor.
— Estou falando do único caminho que ainda existe. — Vaelion olhou para as ruínas ao redor. — Angarkor distorce realidade, tempo e espaço. Carrega atributos no limite do que a criação permite. Não há exército que o derrote. Não há lâmina comum que o mate. Não há magia mortal que o contenha por muito tempo. Mas um receptáculo dos Doze… esse talvez consiga feri-lo de verdade. Talvez consiga mais do que adiar.
Gillian riu sem humor.
— Então a solução é Ikarus viajar pelos doze reinos, entrar em cada templo, matar cada Guardião restante em combate até a morte e absorver o poder deles? Um por um?
— Sim.
— E se ele perder?
Vaelion não desviou o olhar.
— Então o fragmento de Ranur se perde com ele. E a última chance real de enfrentar Angarkor em termos minimamente iguais desaparece.
Raella passou a mão pelo rosto, exausta.
— Isso é loucura. Os Guardiões são os últimos pilares de estabilidade que restam em Ad’Heim. Matá-los…
— Não é matá-los por ambição — interrompeu Vaelion. — É o pacto. Eles sabem. Desde o início souberam que, se o pior acontecesse, essa era a última opção. A maioria prefere permanecer adormecida. Mas se o receptáculo aparecer diante deles, o pacto os obriga a responder. Com lâmina. Com sangue. Com a entrega final.
Ikarus ficou em silêncio por um longo tempo.
A aura azul-dourada pulsava de forma irregular. O residual de Ranur não rejeitava as palavras do elfo. Pelo contrário. Reagia como quem reconhece uma verdade antiga e amarga.
— Há um problema — disse finalmente. — Ranur já está morto. Eu já carrego o fragmento dele. Mas ele não morreu em combate ritual dentro do templo. Morreu na Costura, enfrentando Angarkor. O pacto… foi cumprido de forma incompleta?
Vaelion sorriu novamente. Desta vez o sorriso carregava algo mais sombrio.
— Ah. Aí está a rachadura.
Ele apontou para o chão rachado da praça.
— Ranur entregou o residual a você por necessidade, não por ritual completo. O fragmento está em você. Mas a terra de Lenória… a própria essência que ele protegia… ainda não aceitou totalmente a transferência. Porque o Guardião não caiu sob as regras antigas. Caiu sob a distorção de um Hunen renegado.
Ikarus sentiu um frio subir pela espinha.
— O que isso significa?
— Significa que Lenoria — a Hunen da Guerra, a essência por trás desta terra — ainda não reconheceu você como receptáculo legítimo do fragmento de Ranur. — Vaelion deu um passo mais perto. — E uma Hunen que não reconhece… desafia.
O vento uivou entre as colunas quebradas.
Em algum lugar sob as ruínas, algo antigo se mexeu.
Não era Angarkor.
Era mais próximo.
Mais pessoal.
Vaelion olhou para o solo rachado da praça do grifo, onde o grande símbolo de pedra ainda jazia partido ao meio.
— Ela virá por você, filho de Kallon. Não como aliada. Não como mentora. Como juíza. E o primeiro combate que você enfrentará não será contra um Guardião adormecido em algum templo distante.
Ele ergueu os olhos verdes e antigos para Ikarus.
— Será contra a própria Lenoria.
O chão sob os pés deles tremeu levemente.
Não era um terremoto comum.
Era um chamado.
E nas profundezas das ruínas de Lenória Imperial, algo que um dia fora apenas nome e domínio começou a despertar para cobrar o preço de um pacto incompleto.
Ikarus sentiu o residual de Ranur arder como ferro em brasa.
Gillian puxou a espada sem perceber.
Raella ergueu a mão, a capa mágica já reagindo.
E Vaelion, o elfo ancião que carregava memórias demais, apenas deu um passo para trás, como quem abre espaço para o inevitável.
— Prepare-se, receptáculo — disse ele baixinho. — O primeiro fragmento que você carrega ainda não é totalmente seu.
E a guerra, que já devastara a superfície de Ad’Heim, agora descia para as raízes.
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