Ikarus voltou para Lenória.
Não voltou como havia partido.
Três anos antes, quando deixara sua terra, ainda carregava nos braços um filho recém-nascido. Eiran era apenas um bebê naquela época, pequeno demais para compreender o rosto do pai, pequeno demais para saber que aquele homem que o segurava talvez estivesse partindo para uma guerra que poderia durar anos. Agora, quando Ikarus atravessou novamente os portões de Lenória, Eiran já tinha idade suficiente para correr.
E correu.
Gillian estava na entrada da cidade.
Por alguns segundos, nenhum dos dois conseguiu dizer nada.
Ikarus apenas olhou para ela.
Depois olhou para o menino ao seu lado.
Eiran tinha os cabelos semelhantes aos do pai. Os olhos, porém, eram de Gillian.
O garoto observou aquele homem coberto por cicatrizes, com uma espada nas costas e uma expressão cansada, como se tentasse descobrir quem ele era.
Ikarus ajoelhou-se.
— Eiran?
O menino não respondeu.
Gillian segurou sua mão.
— É seu pai.
Eiran continuou olhando.
Ikarus abriu os braços.
— Eu voltei.
O garoto hesitou.
Um segundo.
Dois.
Então correu.
Ikarus o recebeu nos braços.
E, naquele instante, todos os anos de caminhada pareceram desaparecer.
Ele apertou o filho contra o peito e fechou os olhos.
Não havia fragmentos.
Não havia Guardiões.
Não havia mortos-vivos.
Não havia profecias.
Havia apenas seu filho.
Gillian aproximou-se.
Ikarus levantou os olhos.
— Eu prometi.
Ela respondeu:
— Eu sei.
— Demorei.
— Eu sei.
— Sinto muito.
Gillian colocou a mão sobre seu rosto.
— Você voltou.
E isso bastava.
Mas o mundo para o qual Ikarus havia retornado já não era o mesmo que ele havia deixado.
Enquanto ele atravessava os reinos em busca dos fragmentos, outra guerra havia crescido.
Os mortos-vivos não desapareceram.
Ao contrário.
A praga havia se espalhado.
Vilarejos inteiros foram abandonados. Estradas comerciais foram destruídas. Cemitérios precisaram ser queimados. Cidades construíram muralhas não apenas contra exércitos humanos, mas contra cadáveres que caminhavam durante a noite.
Durante anos, os reinos lutaram praticamente sozinhos.
Lenória defendia suas fronteiras.
Sefrion utilizava seus magos.
Setra fechava seus caminhos e protegia seus rios.
Gallen mobilizava cavaleiros.
Valeth transformava fazendas em fortalezas.
Kallon defendia suas costas contra criaturas vindas do mar.
E Aldora...
Aldora permanecia distante.
Mas a ameaça era grande demais.
Nenhum reino conseguia vencer sozinho.
Então aconteceu algo que, poucos anos antes, teria sido considerado impossível.
Os orcs começaram a lutar ao lado dos humanos.
No início, ninguém confiava neles.
Os humanos mantinham suas espadas desembainhadas.
Os orcs mantinham seus machados nas mãos.
Ambos esperavam que o outro atacasse primeiro.
Mas então os mortos-vivos chegaram.
E não perguntaram quem era humano.
Não perguntaram quem era orc.
Não perguntaram quem era elfo.
Não perguntaram quem era anão.
Eles simplesmente mataram.
Um grupo de orcs encontrou uma aldeia humana cercada por mortos-vivos.
Poderiam ter seguido caminho.
Não seguiram.
Atacaram.
Horas depois, humanos e orcs estavam lutando lado a lado.
A mesma coisa aconteceu em outros lugares.
Depois vieram os goblins.
Alguns haviam sido perseguidos pelos próprios humanos durante gerações. Outros eram saqueadores. Outros simplesmente tentavam sobreviver.
Mas os mortos-vivos não faziam distinção.
E, pouco a pouco, uma nova realidade surgiu.
Orcs passaram a guardar estradas humanas.
Goblins começaram a trabalhar como batedores.
Elfos passaram a negociar armas e conhecimento com povos que antes desprezavam.
Anões abriram antigas minas para produzir armas em escala jamais vista.
Humanos começaram a aceitar criaturas que antes consideravam inimigas.
Não porque todos tivessem aprendido a amar uns aos outros.
Não tinham.
A desconfiança permanecia.
Os preconceitos permaneciam.
As guerras antigas não foram esquecidas.
Mas havia uma ameaça maior.
Os vivos começaram a compreender que poderiam continuar brigando entre si...
Ou poderiam morrer juntos.
E assim nasceu algo que nenhum rei havia planejado.
Uma aliança.
Não uma aliança perfeita.
Não uma paz.
Uma necessidade.
Os povos do mundo passaram a chamar aqueles acordos de Alianças Convencionais.
Era uma expressão estranha.
Mas funcionava.
Orcs continuavam sendo orcs.
Goblins continuavam sendo goblins.
Humanos continuavam sendo humanos.
Elfos continuavam sendo elfos.
Porém, quando os mortos-vivos apareciam no horizonte, todos lutavam do mesmo lado.
E a guerra continuava.
Até aquele momento, Ikarus havia conhecido apenas uma parte desse conflito.
Ao retornar a Lenória, começou a ouvir histórias.
Histórias sobre cidades inteiras desaparecendo.
Sobre exércitos mortos voltando a caminhar.
Sobre necromantes desconhecidos.
Sobre criaturas que pareciam não obedecer a nenhum senhor.
E, principalmente, sobre uma pergunta que começou a aparecer em todas as tavernas, fortalezas e salas de conselho:
De onde estavam vindo tantos mortos?
Ikarus não tinha resposta.
Mas havia outra coisa que o preocupava.
Aldora.
Ele ainda não havia ido até lá.
E, pela primeira vez, não era por falta de caminho.
Durante uma noite, depois de voltar para Lenória, Ikarus sonhou.
Estava em um lugar completamente branco.
Não havia chão.
Não havia céu.
Não havia horizonte.
Apenas vazio.
Então uma voz falou.
— Ainda não.
Ikarus olhou ao redor.
— Quem está aí?
Nenhuma resposta.
— Aldora?
Silêncio.
Então a voz voltou.
— Ainda não vá para Aldora.
Ikarus tentou avançar.
Não conseguiu.
— Por quê?
A resposta veio apenas depois de alguns segundos.
— Porque aquilo que está esperando por você ainda não despertou.
Ikarus acordou.
Estava sentado na cama.
O coração batia violentamente.
Gillian dormia ao seu lado.
Ele olhou para ela.
Depois para a janela.
O céu começava a clarear.
Desde aquele sonho, Ikarus passou a evitar Aldora.
Não por medo.
Por necessidade.
Havia alguma coisa naquele reino que ainda não deveria ser enfrentada.
E Ikarus aprendera, depois de cinco Guardiões, que nem toda batalha deveria ser travada no momento em que aparecia diante de seus olhos.
Thomas foi a primeira pessoa a quem contou.
Não pessoalmente.
Por cartas.
As cartas entre os dois começaram lentamente.
No começo eram apenas mensagens curtas.
Informações sobre Aldora.
Notícias sobre os mortos-vivos.
Relatos sobre os movimentos das criaturas.
Depois começaram a conversar sobre coisas mais simples.
Sobre Eiran.
Sobre Gillian.
Sobre a vida em Aldora.
Thomas perguntava pelos fragmentos.
Ikarus respondia apenas o necessário.
Ambos sabiam que havia coisas que não deveriam ser escritas em uma carta.
Mas Thomas também começou a enviar informações.
E uma delas chamou imediatamente a atenção de Ikarus.
O Livro da Vida.
Thomas havia ouvido rumores através das rotas comerciais que atravessavam o deserto.
Um grupo de aventureiros havia encontrado um antigo livro branco.
Um livro que supostamente poderia devolver os mortos.
Ikarus leu a carta duas vezes.
Depois uma terceira.
Naquela noite, escreveu:
“Thomas, descubra tudo o que puder sobre esse livro. Não permita que ninguém o leia. Não permita que ninguém tente usar seu poder. Quero saber onde ele está, quem o encontrou e o que aconteceu com aqueles que tiveram contato com ele.”
A resposta demorou quase três semanas.
Quando chegou, Ikarus abriu o envelope sozinho.
Thomas havia escrito:
“Meu irmão, talvez você esteja procurando exatamente aquilo que eu temo que tenha encontrado você primeiro.”
Ikarus continuou lendo.
“Ouvi falar de um grupo que entrou em uma ruína ao norte. Dizem que encontraram um livro branco chamado VIDA. Alguns voltaram. Outros não. Um homem que estava entre eles desapareceu depois. Não sei se o livro realmente ressuscita os mortos. Há histórias contraditórias.”
Ikarus parou.
No final da carta havia uma frase.
“Mas existe uma coisa que me preocupa mais. Pessoas estão procurando esse livro.”
Ikarus colocou a carta sobre a mesa.
Naquele momento, alguém bateu à porta.
Era Gillian.
— Notícias ruins?
Ikarus olhou para ela.
— Talvez.
— Dos Guardiões?
— Não.
Ele entregou a carta.
Gillian leu.
Quando terminou, permaneceu em silêncio.
— O Livro da Vida...
Ikarus assentiu.
— Se existe algo capaz de trazer alguém de volta...
Gillian interrompeu:
— Ikarus.
Ele olhou para ela.
— Não pense nos Guardiões.
Ikarus ficou imóvel.
Ela continuou:
— Eles morreram.
— Eu sei.
— Não. Você sabe com a cabeça. Não sei se sabe com o coração.
Ikarus desviou o olhar.
Gillian aproximou-se.
— Sahrion morreu. Eryon morreu. Darven morreu. Aren morreu. Eles escolheram lutar. Você venceu. A história deles terminou ali.
Ikarus apertou a carta.
— E se o livro puder—
— Não.
A palavra foi firme.
— E se puder?
Gillian respondeu:
— Então descubra primeiro o que ele realmente faz.
Ikarus ficou em silêncio.
Ela continuou:
— Não deixe que a saudade faça você acreditar em qualquer coisa que prometa devolver quem perdemos.
Ikarus olhou para o filho dormindo no quarto ao lado.
Então guardou a carta.
— Thomas precisa descobrir mais.
— E você?
— Eu vou esperar.
— Esperar o quê?
Ikarus olhou pela janela.
Ao longe, além das muralhas de Lenória, havia uma coluna de fumaça.
Mais um ataque.
Mais mortos-vivos.
Mais uma batalha.
— O próximo Guardião.
Mas, naquela mesma noite, muito longe dali, uma página branca começou a virar sozinha.
O Livro da Vida estava aberto.
Não havia ninguém tocando nele.
Nenhuma mão.
Nenhum vento.
A página permaneceu completamente vazia durante alguns segundos.
Então letras começaram a surgir.
Primeiro uma.
Depois outra.
Até formar uma frase:
“OS MORTOS NÃO SÃO TODOS IGUAIS.”
A página virou.
Outra frase apareceu.
“ALGUNS DEVEM PERMANECER MORTOS.”
A página seguinte começou a se escrever.
E, pela primeira vez, surgiu um nome.
Um nome que ninguém naquela sala conhecia.
ELIAS.
Então, em algum lugar nas profundezas do mundo, uma coisa que estava morta havia mais de mil anos abriu os olhos.
E o Livro da Vida fechou-se sozinho.
Porque talvez o maior perigo daquele livro nunca tivesse sido devolver os mortos.
Talvez fosse decidir...
quem deveria continuar morto.:::
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