sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: O livro chamado Morte

 A entrada da masmorra estava escondida entre as raízes de uma árvore colossal, em uma região distante dos grandes reinos. Durante décadas, caçadores haviam passado por aquele lugar sem perceber que, sob a terra, existia uma construção muito mais antiga que qualquer vila das redondezas. Os mercenários chegaram ao entardecer. Eram seis homens e uma mulher, todos experientes. O líder, Garran, carregava uma espada larga e uma cicatriz atravessando o rosto. Ao lado dele vinha Varek, um homem enorme que preferia o machado. Selma era a arqueira. Dorian conhecia armadilhas. Havel era o mais velho do grupo e dizia conhecer ruínas antigas. O sexto era um jovem chamado Nilo, que carregava as provisões e ainda não havia completado vinte anos. — É aqui — disse Havel. Diante deles havia uma porta de pedra coberta por inscrições. Dorian examinou o chão. — Nenhuma armadilha visível. — Visível? — perguntou Varek. — Foi exatamente isso que eu disse. Garran sorriu. — Então vamos entrar. A porta abriu com dificuldade. Um corredor escuro apareceu diante deles. O ar que saiu da passagem era frio e seco. Não havia cheiro de cadáver. Não havia insetos. Não havia sequer poeira. Aquilo incomodou Havel. — Um lugar abandonado há séculos deveria estar cheio de poeira. — Talvez alguém tenha estado aqui antes. — Ou talvez alguma coisa ainda esteja aqui. Ninguém respondeu. Eles avançaram. A primeira sala tinha estátuas de guerreiros sem rosto. A segunda tinha paredes cobertas por símbolos que nenhum deles reconhecia. Na terceira encontraram esqueletos. Muitos. Homens mortos usando armaduras diferentes, de épocas diferentes. Garran examinou um deles. — Não foram mortos em batalha. Dorian apontou para o chão. — Então por quê? Havel ajoelhou-se. — Alguns quebraram os próprios dentes. Outros estão com as mãos nos ouvidos. Selma olhou para ele. — Que tipo de coisa faz alguém fazer isso? Havel levantou-se. — Não sei. E isso significa que devemos voltar. Varek riu. — Viemos até aqui para procurar um tesouro. Não vamos embora porque encontramos alguns ossos. Continuaram. Depois de mais duas portas, chegaram a uma câmara gigantesca. O teto desaparecia na escuridão. No centro havia um pedestal de pedra. Sobre ele repousava um baú de metal negro. Garran sorriu. — Finalmente. Dorian verificou o mecanismo. Não havia fios, lâminas ou mecanismos escondidos. Abriu o baú. Moedas antigas. Pedras preciosas. Anéis. Medalhões. Armas ornamentadas. Riqueza suficiente para mudar a vida de todos eles. Varek começou a rir. Selma pegou uma joia e examinou contra a luz da tocha. — Estamos ricos. Mas havia uma segunda coisa dentro do baú. Um livro. Pequeno. Encadernado em couro completamente negro. Não havia nome de autor. Não havia símbolo. Apenas uma palavra gravada na capa. MORTE. Havel ficou imóvel. — Não toque nisso. Varek olhou para ele. — É só um livro. — Então por que está dentro de um baú cheio de riquezas? — Porque provavelmente vale alguma coisa. Garran pegou o livro. O couro estava frio. Não frio como metal. Frio como gelo. Havel imediatamente deu um passo para trás. — Coloque isso no chão. Garran abriu a primeira página. Não havia texto. Apenas uma frase. “Aquele que conhecer estas palavras conhecerá a morte.” Selma engoliu em seco. — Isso parece uma maldição. — Ou uma história — disse Dorian. Havel arrancou o livro das mãos de Garran. — Não. É uma advertência. Vamos levar o ouro e sair. Varek riu. — Depois de tudo isso, você está com medo de um livro? Havel olhou para ele. — Não tenho medo do livro. Tenho respeito pelo fato de alguém ter colocado uma palavra como “Morte” na capa e escondido isso aqui. Garran tomou o livro novamente. — Estamos numa masmorra cheia de tesouro. Se existe um livro aqui, deve explicar quem construiu este lugar. Vou descobrir. Havel segurou seu braço. — Não leia. Garran soltou o braço. — Você está ficando velho. — E você está ficando morto. Garran abriu a segunda página. Começou a ler em voz alta. — “Quando o homem deseja conhecer aquilo que deveria permanecer oculto...” Selma caiu de joelhos. Todos olharam para ela. Seu arco escorregou de suas mãos. — Selma? Ela tentou respirar. Sangue começou a escorrer de seu nariz. Garran fechou o livro. — Selma! Ela não respondeu. Seu corpo tombou no chão. Varek correu até ela. — Ela está morta. Dorian recuou. — Feche esse livro! Havel empalideceu. — Eu avisei. Garran deixou o livro cair. Mas já era tarde. Dorian começou a tossir. Varek levou as mãos ao peito. Havel tentou correr para a porta. Não conseguiu dar três passos. Caiu. Um por um, os quatro homens restantes tombaram no chão. Garran foi o último. Ele ainda estava consciente quando percebeu que ninguém havia tocado nele. Não havia flecha. Não havia lâmina. Não havia veneno visível. Apenas o livro aberto no chão. Ele tentou se arrastar até a saída. Seus dedos tocaram a pedra. Então pararam. Silêncio. Absoluto. Do lado de fora, Nilo esperava. Havia sido deixado ali para vigiar os cavalos e a entrada. Já fazia horas que ninguém saía. Ele começou a ficar preocupado. — Garran? Nenhuma resposta. Nilo entrou alguns metros. — Varek? O silêncio respondeu. Ele deu mais um passo. Então ouviu alguma coisa vindo do fundo. Um som de páginas virando. Nilo congelou. Não entrou. Recuou lentamente. Pegou a espada. Esperou. Nada aconteceu. Depois ouviu uma voz. Não era a voz de nenhum dos mercenários. Era uma voz baixa, quase um sussurro, vindo das profundezas. — Ainda falta um. Nilo correu. Não pegou o ouro. Não pegou as armas. Não tentou salvar ninguém. Correu até os cavalos, montou no primeiro que encontrou e fugiu sem olhar para trás. Só parou horas depois, quando já estava muito distante da masmorra. Nilo nunca voltou. Anos mais tarde, quando alguém perguntava sobre aquela expedição, ele contava a mesma história. Alguns riam. Outros diziam que ele havia abandonado os companheiros por covardia. Nilo nunca discutia. Apenas respondia: — Eu não sobrevivi porque fui mais forte. Sobrevivi porque não entrei. E certa noite, muitos anos depois, um homem encontrou Nilo em uma pequena cidade e perguntou: — E o que havia naquele livro? Nilo ficou em silêncio por alguns segundos. — Não sei. — Você não leu? — Não. — Então como sabe que era perigoso? Nilo olhou para ele. — Porque seis homens entraram naquela masmorra. Sete saíram de casa. Apenas um voltou. O homem franziu a testa. — Mas eram seis. Nilo empalideceu. O estranho sorriu. — Você contou seis mortos. Então quem era o sétimo? Nilo não respondeu. Porque, pela primeira vez em décadas, percebeu uma coisa que nunca havia percebido. Quando entraram na masmorra, eram seis homens e uma mulher. Sete pessoas. Quando voltou para casa, ele era o único. E, naquela mesma noite, muito longe dali, dentro da masmorra esquecida, o livro continuava aberto sobre o chão. A última página havia sido virada. E nela havia uma única frase que não estava ali antes: “Agora ele sabe que existe.”

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