sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: Guardião lanceiro

 A luz no peito de Darven desapareceu tão rapidamente quanto havia surgido. Ele permaneceu sozinho sobre a muralha, olhando para as montanhas. O Centauro atrás dele já havia desaparecido, mas sua presença continuava na fortaleza como uma sombra. Darven apertou a carta de Lysa contra o peito. — Ainda não — murmurou. — Ainda tenho algum tempo. Na manhã seguinte, deixou a fortaleza. Não vestiu a armadura dourada. Não carregou a lança. Vestiu as roupas simples de um homem comum e desceu pelas montanhas até uma pequena aldeia onde Lysa vivia. Quando chegou, encontrou a filha no quintal, tentando impedir que os dois filhos corressem atrás de uma galinha. — Vovô! O menor dos meninos o viu primeiro. Correu em sua direção e se jogou sobre ele. Darven quase caiu. — Ei! Ei! Você está ficando pesado! — Você prometeu me ensinar a montar! — Prometi? — Prometeu! — Então eu provavelmente estava bêbado. Lysa apareceu na porta. — Pai. Darven sorriu. — Filha. Ela o abraçou. Por alguns segundos, ele simplesmente ficou ali. Não queria pensar na profecia. Não queria pensar no fragmento. Queria apenas guardar aquele momento. Naquela tarde, Darven levou os netos até o campo. Ensinou o mais velho a montar. Depois ensinou o menor a escovar o cavalo. Lysa observava de longe. Quando os meninos finalmente foram dormir, ela sentou-se ao lado do pai. — Você está diferente. Darven olhou para ela. — Diferente como? — Cansado. Ele riu. — Estou velho. — Não é isso. Lysa sempre conhecera o pai bem demais. — Você está se despedindo. Darven ficou imóvel. — Por que diz isso? — Porque conheço você. Quando minha mãe morreu, você ficou três dias sem falar. Quando descobriu que eu estava grávida, ficou andando pela casa inteira durante a noite. E agora está olhando para tudo como se estivesse guardando cada detalhe. Darven baixou os olhos. — Talvez eu só esteja ficando sentimental. — Você nunca foi sentimental. — Aprendi. Lysa sorriu. — Com quem? — Com você. Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Pai... você sabe que pode me contar qualquer coisa. Darven fechou os olhos. Queria contar. Queria revelar tudo. Mas a antiga regra dos Guardiões era clara. O fragmento não poderia ser abandonado. O portador viria. O duelo aconteceria. E somente um sairia vivo. — Eu fiz uma promessa há muitos anos — disse ele. — A quem? — A mim mesmo. — E essa promessa está te levando embora? Darven demorou a responder. — Talvez. Lysa segurou sua mão. — Então prometa que vai voltar. Darven olhou para os olhos dela. — Prometo. Ela sorriu. Darven sabia que estava mentindo. Naquela noite, voltou para a fortaleza. A armadura dourada o esperava. Ele vestiu cada peça lentamente. A lança foi colocada sobre a mesa. Depois sentou-se e escreveu uma carta. Não para Lysa. Para o homem que viria. “Meu nome é Darven. Se você estiver lendo isto, então me derrotou. Não quero que carregue minha morte como culpa. Eu aceitei meu destino muito antes de você chegar. Mas existe algo que peço. Quando sair daqui, não pense em mim como um obstáculo. Pense em mim como alguém que tentou proteger aquilo que amava até o último instante.” Darven parou de escrever. Pensou um pouco. Acrescentou uma última frase. “E se algum dia encontrar minha filha Lysa, diga a ela que eu voltei para casa.” Dobrou a carta e a colocou sobre a mesa. Depois pegou a lança. O quarto fragmento começou a pulsar. O Centauro surgiu atrás dele. Desta vez, porém, não era apenas uma sombra. A criatura estava completamente formada. Era gigantesca. Seu corpo equino era coberto por uma armadura dourada natural, enquanto o torso humano segurava uma lança maior que um homem. Darven olhou para ele. — Ela está pronta? O Centauro respondeu apenas com um relincho profundo. — Eu também. Na manhã seguinte, os sinos de Gallen tocaram. Não por guerra. Não por invasão. Um único som. Longo. Grave. Antigo. Em todas as aldeias próximas, os cavaleiros pararam o que estavam fazendo. Os mais velhos reconheceram o toque. — O Guardião chamou. Jovens que nunca haviam ouvido aquela história perguntaram o significado. Os anciãos apenas responderam: — Quando o sino tocar assim, não se cavalga em direção à montanha. Naquela tarde, Darven deixou a fortaleza e caminhou até o campo aberto diante dela. Colocou a lança no chão. Tirou a carta de Lysa de dentro da armadura e a beijou. Depois guardou-a novamente. — Vamos esperar. O vento soprou. Horas passaram. O sol começou a desaparecer. E então, no horizonte, surgiu uma pequena figura. Um cavalo cansado. Um homem sobre ele. Capa escura. Espada na cintura. Três marcas douradas brilhando sobre o peito. Darven fechou os olhos por um instante. — Então é você. Ikarus desmontou. Os dois permaneceram separados por dezenas de metros. Nenhum deles atacou. Darven viu imediatamente que aquele não era um homem sedento por poder. Viu o cansaço em seus olhos. Viu a culpa. Viu alguma coisa que reconhecia. Ikarus, por sua vez, olhou para a armadura dourada. Depois para o Centauro. — Você é o Guardião? — Sou. — Qual é o seu nome? Darven segurou a lança. — Darven. Ikarus assentiu. — Eu sou Ikarus. — Eu sei. Darven olhou para os três fragmentos. — E sei por que veio. Ikarus colocou a mão sobre a espada. Darven fez o mesmo com a lança. — Então não há mais nada para dizer. Ikarus respirou fundo. — Há. Darven ergueu uma sobrancelha. — O quê? — Eu sinto muito. Darven ficou em silêncio. Depois sorriu. — Não sinta. Isso tornaria minha morte inútil. O Centauro atrás dele começou a avançar. A terra tremeu sob seus cascos. Darven levantou a lança. — Vamos descobrir se você realmente merece carregar o que está procurando. Ikarus desembainhou a espada. O vento parou. Os dois avançaram ao mesmo tempo. E, pela primeira vez em muitos anos, os sinos antigos de Gallen tocaram sozinhos.

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