sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: O GUARDIÃO E O PORTADOR

 


Haffen estava diante de Ikarus.


Depois de tantos dias de viagem, a cidade parecia quase irreal. As torres elevavam-se sobre as construções menores, bibliotecas e edifícios dedicados ao estudo ocupavam grande parte da paisagem, e símbolos antigos estavam gravados em várias paredes. Haffen não tinha a imponência militar de Lenória. Sua força parecia estar em outra coisa. Conhecimento. Magia. História.


Ikarus atravessou os portões lentamente.


Algumas pessoas pararam para observá-lo.


Sua armadura denunciava sua origem.


— Lenória — murmurou um homem.


Outro respondeu:


— O que um cavaleiro de Lenória está fazendo aqui?


Ikarus não respondeu.


Continuou avançando.


A marca dourada em seu peito permanecia quente sob a armadura.


Quanto mais entrava na cidade, mais forte ficava aquela sensação.


Ele estava perto.


Não sabia exatamente de quê.


Mas estava perto.


Um grupo de aprendizes passou por ele carregando pergaminhos. Um deles olhou para Ikarus e imediatamente voltou os olhos para a espada.


— É um guerreiro — disse.


— Eu percebi — respondeu o outro.


— Não. Quero dizer... um guerreiro de verdade.


Ikarus continuou andando.


Não havia hostilidade na cidade.


Havia curiosidade.


Sefrion era diferente de Lenória.


Em Lenória, uma espada era compreendida imediatamente.


Ali, as pessoas pareciam mais interessadas naquilo que existia por trás dela.


Ikarus finalmente encontrou uma pequena hospedaria.


Deixou o cavalo aos cuidados do proprietário e entrou.


— Quero um quarto.


O homem olhou para ele.


— Está sozinho?


— Sim.


— Veio de longe?


— Lenória.


O homem ergueu as sobrancelhas.


— Então realmente veio de longe.


Ikarus colocou algumas moedas sobre o balcão.


— Preciso de informações.


— Sobre o quê?


— A torre central.


O sorriso do homem desapareceu.


— Por quê?


Ikarus ficou alguns segundos em silêncio.


— Estou procurando alguém.


— Quem?


— Um Guardião.


O homem olhou para os lados.


— Fale baixo.


Ikarus franziu a testa.


— Por quê?


— Porque em Haffen existem coisas que é melhor não chamar pelo nome.


Ikarus aproximou-se.


— Eu já vi o Guardião.


O homem ficou pálido.


— Então você é ele.


— Ele quem?


O homem não respondeu.


Apenas apontou para a janela.


— Olhe.


Ikarus virou-se.


No alto de uma das torres, uma enorme coruja estava pousada.


As asas estavam fechadas.


Mas seus olhos estavam voltados diretamente para a hospedaria.


Ikarus ficou imóvel.


A criatura abriu as asas.


Então desapareceu atrás da torre.


Ikarus voltou-se para o homem.


— Onde?


O homem engoliu em seco.


— A torre.


Ikarus saiu.


Não precisou perguntar mais nada.


Seguiu pelas ruas de Haffen enquanto a cidade começava a escurecer. As pessoas diminuíam nas ruas, as lojas fechavam e as luzes mágicas começavam a aparecer nas janelas.


A torre central estava diante dele.


Ikarus subiu os primeiros degraus.


Ninguém tentou impedi-lo.


Era como se todos soubessem que aquela caminhada precisava acontecer.


Quando chegou ao topo, encontrou uma porta.


Abriu.


Sahrion estava esperando.


O Guardião de Sefrion permanecia de costas.


A armadura dourada refletia a luz das tochas.


O manto repousava sobre seus ombros.


Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou.


Ikarus foi o primeiro.


— Você é Sahrion.


O homem virou-se.


— E você é Ikarus.


Ikarus apertou a mão sobre a espada.


— Então sabia que eu viria.


— Desde o momento em que o primeiro fragmento despertou.


Ikarus aproximou-se.


— Quero o segundo.


Sahrion não respondeu.


Ikarus continuou:


— Ele está aqui.


— Está.


— Quero vê-lo.


Sahrion olhou diretamente para ele.


— Não.


Ikarus ficou imóvel.


— Não?


— Ainda não.


A mão de Ikarus aproximou-se da espada.


— Atravessei metade do continente para chegar até aqui.


— Eu sei.


— Fui escolhido pelo primeiro fragmento.


— Eu sei.


— Então por que está me impedindo?


Sahrion deu um passo à frente.


— Porque ser escolhido por um fragmento não significa estar preparado para carregá-lo.


Ikarus encarou o Guardião.


— Eu já ouvi isso antes.


— Então deveria ter aprendido.


O silêncio entre os dois tornou-se pesado.


Ikarus desembainhou parcialmente a espada.


— Se você é o Guardião de Sefrion, então sabe que não vim para roubá-lo.


Sahrion olhou para a lâmina.


— E como sabe?


— Porque o primeiro me mostrou o caminho.


— O primeiro pode mostrar caminhos.


Sahrion aproximou-se.


— Mas não pode mostrar todas as consequências.


Ikarus fechou a mão.


— O que você sabe sobre os fragmentos?


Sahrion ficou em silêncio.


— Mais do que você.


— Então me conte.


— Ainda não.


Ikarus finalmente desembainhou a espada.


O som do aço ecoou pela torre.


Sahrion não se moveu.


— Não quero lutar contra você — disse Ikarus.


— Eu sei.


— Então não me obrigue.


Sahrion colocou a mão sobre a própria espada.


— Você chegou até aqui procurando o segundo fragmento.


O Guardião desembainhou a lâmina.


— Mas antes de chegar até ele, precisa descobrir se consegue permanecer de pé diante daquele que o protege.


Ikarus avançou.


As duas espadas se chocaram.


CLANG!


O impacto fez as tochas da torre tremerem.


Ikarus atacou novamente.


Sahrion bloqueou.


Outro golpe.


Outro.


Ikarus avançava com a velocidade de quem havia enfrentado batalhas reais.


Sahrion defendia-se sem desperdício.


Nenhum movimento desnecessário.


Nenhuma expressão de raiva.


Ikarus girou e tentou atingir seu flanco.


Sahrion desviou.


A espada dourada passou a centímetros do rosto de Ikarus.


Ikarus recuou.


— Você é forte.


— Você também.


Ikarus avançou novamente.


Dessa vez Sahrion atacou.


O golpe atingiu a defesa de Ikarus com tanta força que ele foi obrigado a recuar vários passos.


A marca em seu peito brilhou.


Sahrion percebeu.


Parou.


— Então é verdade.


Ikarus respirava pesadamente.


— O quê?


Sahrion olhou para a marca.


— O primeiro fragmento realmente escolheu você.


A coruja surgiu na abertura da torre.


Suas asas ocuparam quase todo o espaço.


Ikarus olhou para a criatura.


A marca brilhou novamente.


A coruja respondeu com um grito.


Por um instante, os dois fragmentos pareceram reconhecer um ao outro através dos seus portadores.


Sahrion fechou os olhos.


E então algo aconteceu.


Uma luz dourada surgiu atrás dele.


Ikarus deu um passo para trás.


A coruja desapareceu em meio à luz.


Quando ela reapareceu, não estava mais sobre a torre.


Estava atrás de Sahrion.


Gigantesca.


Imponente.


As penas refletiam a luz como se fossem feitas de metal.


Ikarus segurou a espada com as duas mãos.


Sahrion levantou a própria lâmina.


— Não tenha medo dela.


— Eu não tenho.


— Então não tenha medo do que encontrará abaixo desta cidade.


Ikarus franziu a testa.


— Abaixo?


Sahrion olhou para o chão.


— Haffen foi construída sobre algo muito mais antigo.


A marca de Ikarus começou a pulsar.


— O fragmento?


Sahrion assentiu.


— O segundo fragmento está abaixo de nós.


Ikarus olhou para o chão da torre.


— Então por que não me levou até ele?


Sahrion respondeu:


— Porque você ainda não sabe o que está procurando.


Ikarus permaneceu em silêncio.


Sahrion guardou a espada.


— Amanhã você conhecerá a história de Sefrion.


— E o fragmento?


— Depois.


— E se eu não aceitar?


Sahrion virou-se.


— Então volte para Lenória.


Ikarus ficou olhando para ele.


Pensou em Gillian.


Pensou na criança que ainda não conhecia.


Pensou na promessa que havia feito.


Eu vou voltar.


Então guardou a espada.


— Não atravessei o continente para voltar agora.


Sahrion sorriu pela primeira vez.


— Eu esperava que dissesse isso.


A coruja abriu as asas.


O vento invadiu a torre.


Ikarus olhou para a criatura.


— Qual é o nome dela?


Sahrion ergueu os olhos.


— Ela não precisa de nome.


A criatura soltou um som grave.


Sahrion continuou:


— Em Sefrion, chamamos aquilo que ela representa de conhecimento.


Ikarus olhou para a enorme ave.


— E o conhecimento protege o fragmento?


Sahrion respondeu:


— Não.


Fez uma pausa.


— O conhecimento revela por que ele precisa ser protegido.


Ikarus permaneceu em silêncio.


Muito abaixo deles, nas profundezas de Haffen, alguma coisa pulsou.


Uma vez.


Sahrion sentiu.


Ikarus também.


Os dois olharam para o chão.


Outra pulsação.


Mais forte.


As tochas se apagaram.


A cidade inteira mergulhou em escuridão.


Então, muito abaixo da torre, uma luz azul começou a surgir através das pedras.


Ikarus sentiu a marca em seu peito queimar.


Sahrion olhou para ele.


— Parece que o segundo fragmento já sabe que você chegou.


E, nas profundezas de Haffen, alguma coisa respondeu.


Não com uma voz.


Mas com um chamado.


O segundo fragmento havia despertado.

O SEGUNDO GUARDIÃO


As palavras de Sahrion permaneceram no ar.


— O segundo fragmento já sabe que você chegou.


Ikarus olhou para o chão da torre.


A luz azulada continuava pulsando através das pedras.


Uma vez.


Duas.


Depois parou.


O silêncio que veio em seguida foi ainda mais pesado.


Ikarus voltou os olhos para Sahrion.


— Você disse que eu precisaria passar por você.


Sahrion permaneceu imóvel.


— Sim.


— Então é essa a regra?


O Guardião não respondeu imediatamente.


A enorme coruja atrás dele fechou lentamente as asas.


— Você encontrou o primeiro fragmento porque ele o escolheu. Mas os outros não serão entregues a você.


Ikarus estreitou os olhos.


— Então como vou obtê-los?


Sahrion olhou para a própria espada.


— Da mesma maneira que todos os portadores antes de você.


Ikarus ficou em silêncio.


Sahrion continuou:


— Cada fragmento possui um Guardião. Cada Guardião existe para proteger aquilo que lhe foi confiado. E existe uma única forma de um fragmento mudar de mãos.


Ikarus já sabia a resposta.


Mesmo assim perguntou:


— Qual?


Sahrion levantou os olhos.


— Derrotando o Guardião.


— Derrotando?


Sahrion balançou a cabeça.


— Não.


A mão dele apertou o cabo da espada.


— Matando-o.


O silêncio tomou a torre.


Ikarus não se moveu.


— Todos eles?


— Todos.


— Os doze?


— Os doze.


Ikarus olhou para a enorme coruja.


Depois voltou a olhar para Sahrion.


— Então os Guardiões sabem que morrerão.


— Sabemos.


— E mesmo assim aceitam?


Sahrion respondeu sem hesitar:


— Não fomos escolhidos para viver eternamente.


Ele deu um passo à frente.


— Fomos escolhidos para guardar.


Ikarus sentiu um peso no peito.


— E quando o portador chegar?


— Então cumprimos nossa última função.


Sahrion retirou a espada da bainha.


O som do aço ecoou pela torre.


— Lutamos.


Ikarus lentamente desembainhou a própria espada.


— Até a morte.


— Até a morte.


A coruja lançou um grito.


Todas as janelas da torre tremeram.


Muito abaixo deles, Haffen permanecia em silêncio.


Sahrion apontou a espada para Ikarus.


— Se vencer, o fragmento será seu.


Ikarus firmou os pés.


— E se eu perder?


Sahrion respondeu:


— O primeiro fragmento será destruído junto com você.


Ikarus respirou fundo.


Pensou em Gillian.


Pensou na criança que ainda não conhecia.


Então levantou a espada.


— Comece.


Sahrion desapareceu.


Ikarus mal teve tempo de reagir.


CLANG!


A espada dourada atingiu sua lâmina com uma força absurda.


Ikarus foi empurrado para trás.


Sahrion avançou.


Segundo golpe.


Terceiro.


Quarto.


Ikarus bloqueava como podia.


O Guardião não lutava como um homem comum.


Cada movimento era preciso.


Não havia desperdício.


Não havia hesitação.


Sahrion atacava como alguém que havia passado a vida inteira esperando por aquele único combate.


Ikarus desviou de uma estocada e girou, tentando atingir o abdômen do adversário.


Sahrion inclinou o corpo.


A lâmina passou.


Ele contra-atacou.


Ikarus ergueu a espada.


O impacto fez seus braços tremerem.


— Você não luta para vencer — disse Ikarus.


Sahrion pressionou a lâmina contra a sua.


— Porque já sei o que acontece quando perder.


Ikarus afastou-se.


— E ainda assim não tem medo?


Sahrion avançou.


— Tenho.


A espada veio de cima.


Ikarus desviou.


— Então por que continua?


Sahrion girou.


O golpe seguinte abriu um corte no ombro de Ikarus.


Sangue caiu sobre as pedras.


— Porque medo não é motivo para abandonar aquilo que recebemos.


Ikarus apertou os dentes.


Avançou.


Os dois se chocaram novamente.


A luta atravessou a torre.


Ikarus golpeava com velocidade.


Sahrion respondia com técnica.


Ikarus tentou uma finta.


Sahrion percebeu.


Ikarus mudou o movimento no último instante.


A lâmina atingiu a armadura dourada.


Uma rachadura apareceu.


Sahrion recuou.


Pela primeira vez, Ikarus havia conseguido feri-lo.


O Guardião passou os dedos sobre a rachadura.


Olhou para o sangue na própria mão.


E sorriu.


— Agora sim.


Ikarus franziu a testa.


— O quê?


Sahrion baixou a espada.


— Agora você está lutando para sobreviver.


A coruja abriu as asas.


O ar explodiu dentro da torre.


Ikarus foi lançado contra uma coluna.


A pedra rachou atrás dele.


Antes que pudesse se recuperar, Sahrion surgiu diante dele.


Golpe.


Ikarus bloqueou.


Golpe.


Bloqueou.


Golpe.


A defesa começou a ceder.


Sahrion ergueu a espada para o ataque final.


Ikarus fechou os olhos por uma fração de segundo.


Rufus.


A voz de seu antigo mestre voltou à memória.


"Quando não puder enxergar o inimigo, não lute contra a escuridão."


Ikarus abriu os olhos.


Sahrion atacou.


Ikarus abaixou-se.


A espada passou sobre sua cabeça.


Ele girou.


Atingiu o joelho de Sahrion.


O Guardião caiu sobre uma perna.


Ikarus avançou.


Sahrion bloqueou.


As espadas se cruzaram.


Os dois ficaram frente a frente.


— Você aprendeu rápido — disse Sahrion.


— Aprendi a sobreviver.


— Não.


Sahrion empurrou Ikarus.


— Aprendeu a continuar.


Então atacou novamente.


A luta já não parecia uma disputa entre dois homens.


Parecia uma colisão entre duas eras.


O primeiro portador contra o segundo Guardião.


A espada de Ikarus cortou o ar.


A de Sahrion respondeu.


Pedras foram destruídas.


As paredes da torre começaram a rachar.


Lá embaixo, habitantes de Haffen saíam às ruas assustados.


O céu sobre a cidade começou a escurecer.


A enorme coruja voou ao redor da torre.


Então desceu.


Suas garras tocaram o chão.


Ikarus olhou para ela.


Sahrion aproveitou a distração.


A espada atingiu seu peito.


A armadura rachou.


Ikarus caiu de joelhos.


Sahrion ficou diante dele.


— Levante-se.


Ikarus respirava com dificuldade.


— Você quer me matar?


— Quero que você consiga matar a mim.


Ikarus ergueu os olhos.


Sahrion continuou:


— Se não conseguir, morrerá diante do terceiro Guardião. Depois do quarto. Depois do quinto.


Ikarus tentou levantar.


— E você sabe disso?


— Todos sabemos.


Ikarus ficou de pé.


Sahrion segurou a espada com as duas mãos.


— Então mostre que merece continuar.


Ikarus gritou.


Avançou.


Os dois correram um contra o outro.


As lâminas se encontraram.


O impacto produziu uma onda de choque que atravessou a torre.


Ikarus perdeu a espada.


Sahrion também.


Por alguns segundos, os dois ficaram desarmados.


Então partiram para o combate corpo a corpo.


Sahrion acertou um golpe no rosto de Ikarus.


Ikarus respondeu.


Sahrion o derrubou.


Ikarus rolou.


Sahrion tentou imobilizá-lo.


Ikarus girou e acertou seu abdômen.


O Guardião cambaleou.


Ikarus correu até sua espada.


Sahrion fez o mesmo.


Os dois alcançaram as armas ao mesmo tempo.


Sahrion levantou a lâmina.


Ikarus também.


Silêncio.


Então os dois atacaram.


Ikarus desviou por centímetros.


Sahrion conseguiu cortar seu braço.


Ikarus girou.


A lâmina passou pela defesa dourada.


Sahrion parou.


Os olhos dos dois se encontraram.


A espada de Ikarus estava atravessando a armadura.


Por um instante, ninguém se moveu.


Sahrion olhou para baixo.


Depois voltou os olhos para Ikarus.


— Você conseguiu.


Ikarus não respondeu.


— Termine.


Ikarus hesitou.


Sahrion segurou seu braço.


— Não hesite agora.


— Sahrion...


— É a regra.


Ikarus sentiu os olhos arderem.


— Deve existir outro caminho.


Sahrion sorriu.


— Se existisse, eu não seria um Guardião.


A mão de Ikarus apertou a espada.


Sahrion aproximou-se.


— Não transforme minha morte em culpa.


— Eu não quero matar você.


— Eu sei.


Sahrion olhou para o céu.


A coruja permanecia sobre a torre.


— Mas eu quero que você continue.


Ikarus fechou os olhos.


Pensou em Gillian.


Pensou em seu filho.


Pensou em Lenória.


Então puxou a espada.


Sahrion caiu.


A armadura dourada tocou o chão.


A coruja lançou um grito tão poderoso que toda Haffen ouviu.


Ikarus permaneceu imóvel.


O sangue escorria pela lâmina.


Sahrion respirou uma última vez.


— Não pare...


E morreu.


O silêncio voltou.


Ikarus caiu de joelhos.


Por alguns segundos, não conseguiu olhar para o corpo.


Então a armadura dourada começou a desaparecer.


Uma luz surgiu no peito de Sahrion.


O segundo fragmento.


Ele flutuou lentamente pelo ar.


Ikarus estendeu a mão.


O fragmento tocou sua palma.


Uma explosão azul e dourada atravessou a torre.


A marca do primeiro fragmento brilhou.


O segundo respondeu.


Duas luzes.


Duas forças.


Duas partes da mesma origem.


Ikarus fechou a mão.


E ouviu novamente aquela voz antiga:


Um.


Depois:


Dois.


A luz desapareceu.


No chão, a armadura de Sahrion permanecia vazia.


Ikarus olhou para ela.


A enorme coruja aproximou-se.


Ele esperava que a criatura o atacasse.


Mas ela não atacou.


Apenas olhou para Sahrion.


Depois para Ikarus.


E então baixou a cabeça.


Ikarus compreendeu.


O Guardião havia cumprido seu dever.


Agora o segundo fragmento tinha um novo portador.


Mas, naquele momento, Ikarus percebeu a verdadeira crueldade da jornada.


Para obter os doze...


teria que matar onze homens que haviam dedicado suas vidas a proteger aquilo que ele precisava possuir.


E cada um deles saberia, desde o primeiro momento, que sua morte seria necessária.


Ikarus olhou para o horizonte.


Pensou em Gillian.


Pensou na criança.


Então guardou a espada.


— Eu vou terminar isso.


Muito longe dali, em algum lugar que Ikarus ainda desconhecia, uma nova luz se acendeu.


O terceiro Guardião havia sentido a morte de Sahrion.


E agora sabia que o próximo portador estava vindo.


A caça aos doze havia começado.


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