sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: O GUARDIÃO DE SETRA

 


A chuva havia começado no fim da tarde.


Em Kxin, as águas desciam pelos telhados inclinados das casas, escorriam pelas pedras das ruas e alimentavam os pequenos canais que atravessavam alguns bairros da cidade. Ao longe, além das construções, as montanhas desapareciam parcialmente atrás das nuvens escuras. Setra era uma terra de rios, lagos, montanhas e vegetação abundante, e naquela noite parecia que todo o reino havia sido mergulhado em uma única massa de água e sombra.


Dentro de uma pequena taberna próxima à praça central, porém, havia calor, luz e vozes.


Um grupo de aventureiros ocupava uma das maiores mesas.


E diante deles estava um homem velho.


Muito velho.


Seus cabelos eram completamente brancos e compridos, presos atrás da cabeça por uma tira de couro. A barba chegava quase ao peito. O rosto carregava rugas profundas, mas os olhos ainda possuíam uma força incomum.


Ele segurava uma caneca com as duas mãos.


Não usava armadura.


Não carregava espada.


Vestia apenas roupas simples de viajante, uma capa escura e botas gastas pelo tempo.


Um dos aventureiros colocou algumas moedas sobre a mesa.


— Continue.


O velho olhou para as moedas.


— Eu já contei essa história muitas vezes.


— E nós já pagamos muitas vezes.


Os outros riram.


O velho também.


— Então vocês são tão teimosos quanto os que vieram antes.


Uma jovem aventureira inclinou-se sobre a mesa.


— Você realmente viu a Serpente?


O sorriso do velho desapareceu.


Ele olhou para o fogo da lareira.


— Vi.


— E é verdade que ela é maior que uma casa?


— Maior.


— Maior que um castelo?


O velho demorou.


— Depende do castelo.


Os aventureiros riram novamente.


Mas ele não.


Seus olhos continuaram presos às chamas.


— Vocês acham engraçado porque nunca a viram.


Um dos homens perguntou:


— Então conte.


O velho tomou um gole.


— Foi há muito tempo.


— Quanto?


— Tempo suficiente para que meu pai ainda estivesse vivo.


— E ele também viu?


— Não.


O velho sorriu.


— Meu pai viu outra coisa.


Os aventureiros se entreolharam.


— O quê?


Ele colocou a caneca sobre a mesa.


— A primeira vez que eu morri.


O riso acabou.


O velho respirou lentamente.


— Meu nome é Eryon.


Ninguém falou.


— E durante muitos anos eu fui apenas um homem.


Ele olhou para as próprias mãos.


— Nasci em uma pequena aldeia entre as montanhas de Setra. Meu pai era pescador. Minha mãe cultivava a terra. Não tínhamos riqueza. Não tínhamos títulos. Não tínhamos grandes histórias para contar. Éramos apenas uma família.


A jovem aventureira perguntou:


— E você queria ser guerreiro?


Eryon sorriu.


— Eu queria ser qualquer coisa que me permitisse sair daquela aldeia.


Os aventureiros riram.


Dessa vez ele também.


— Eu odiava as montanhas quando era criança.


— Por quê?


— Porque pareciam não terminar nunca. Quando eu olhava para o horizonte, via pedra. Quando olhava para o outro lado, via floresta. Quando queria ir embora, havia sempre alguma montanha no caminho.


Ele tomou outro gole.


— Então eu sonhava com o mar.


— Setra nem tem o mar?


— Tem rios suficientes para fazer um menino imaginar que o mundo inteiro é água.


Os aventureiros sorriram.


Eryon continuou:


— Meu pai dizia que eu era inquieto demais. Minha mãe dizia que eu tinha medo de ficar parado. Talvez os dois estivessem certos.


A chuva aumentou do lado de fora.


Eryon olhou para a janela.


— Quando completei dezessete anos, fui embora.


— Para onde?


— Para Kxin.


Um dos aventureiros comentou:


— A grande cidade.


— Naquela época, ela não parecia tão grande para mim. Parecia apenas o lugar onde todos os meus sonhos poderiam acontecer.


— E aconteceram?


Eryon ficou em silêncio.


— Alguns.


Ele passou o polegar pela borda da caneca.


— Outros morreram.


A jovem aventureira percebeu a mudança em sua voz.


— O que aconteceu?


Eryon olhou para ela.


— Eu me apaixonei.


A mesa ficou silenciosa.


— O quê? — perguntou um dos homens.


— Vocês esperavam um dragão?


— Bem...


Eryon riu.


— Às vezes uma mulher é mais perigosa.


Todos riram.


Ele também.


Mas seu sorriso desapareceu rapidamente.


— O nome dela era Elira.


Eryon baixou os olhos.


— Ela trabalhava em uma casa próxima ao lago. Tinha cabelos castanhos e olhos claros. Quando sorria, parecia que a chuva desaparecia.


A jovem aventureira sorriu.


— Você ainda a ama?


Eryon ficou alguns segundos em silêncio.


— Algumas coisas não desaparecem só porque o tempo passa.


Ninguém riu.


— Nós nos casamos.


Ele continuou:


— E tivemos uma filha.


A voz dele mudou.


Ficou mais baixa.


— Mira.


Eryon sorriu.


Era um sorriso diferente.


O primeiro sorriso realmente feliz daquela noite.


— Mira tinha seis anos quando aconteceu.


Um dos aventureiros perguntou:


— O quê?


Eryon olhou para o fogo.


— A enchente.


A palavra pareceu mudar a atmosfera da taberna.


— Naquele ano, as chuvas não pararam. Os rios cresceram. As montanhas começaram a descer água para os vales. Alguns diziam que era apenas uma tempestade incomum.


Ele balançou a cabeça.


— Não era.


— O que era?


Eryon respondeu:


— Era a Serpente.


Silêncio.


— Uma criatura antiga vivia nas águas profundas de Setra. Não sei se já existia antes dos homens ou se nasceu junto deles. Só sei que, quando se movia, os rios mudavam de curso.


Um dos aventureiros perguntou:


— Você está dizendo que uma serpente causou a enchente?


— Não.


Eryon encarou-o.


— Estou dizendo que a enchente foi apenas o primeiro sinal.


Ele fechou os olhos.


— Naquela noite, as pessoas começaram a ouvir alguma coisa nas águas.


— O quê?


— Uma voz.


— A serpente falava?


— Não.


Eryon balançou a cabeça.


— Era pior.


— Pior?


— Era um chamado.


A chuva batia violentamente contra as janelas.


— As pessoas começaram a desaparecer. Primeiro pescadores. Depois viajantes. Depois crianças.


A jovem aventureira levou a mão à boca.


— Crianças?


Eryon assentiu.


— Minha filha desapareceu numa manhã.


O silêncio tornou-se absoluto.


— Mira estava brincando perto do rio. Eu estava trabalhando. Elira estava dentro de casa. Quando percebemos que ela não estava mais ali, procuramos durante horas.


Ele parou.


Sua mão tremia.


— Encontramos apenas o pequeno sapato dela.


Ninguém tocou na bebida.


— Eu fui até o rio.


Eryon olhou para a janela.


— Entrei na água.


— Sozinho?


— Sozinho.


— Você não teve medo?


Ele sorriu tristemente.


— Tive.


— Então por que entrou?


Eryon olhou para a jovem.


— Porque era meu pai que precisava encontrar a filha.


A frase atingiu a mesa como uma lâmina.


— Eu mergulhei.


Ele continuou.


— Quanto mais fundo ia, mais escuro ficava. Eu não sabia nadar tão bem quanto pensava. Meus pulmões queimavam. Eu estava prestes a voltar quando ouvi alguma coisa.


— O chamado?


— Sim.


Eryon fechou os olhos.


— Segui.


— E encontrou sua filha?


O velho não respondeu imediatamente.


— Encontrei a Serpente.


Os aventureiros ficaram imóveis.


— Ela estava enrolada em torno de uma antiga construção de pedra no fundo do lago. As escamas eram escuras como a noite, mas havia linhas douradas atravessando seu corpo. Os olhos...


Ele parou.


— Nunca vi olhos como aqueles.


— E Mira?


— Estava viva.


A jovem aventureira soltou o ar que prendia.


— A criatura havia capturado sua filha?


Eryon balançou a cabeça.


— Não.


— Então por quê?


— Porque ela estava protegendo-a.


Silêncio.


— A Serpente não havia levado Mira para matá-la. Havia levado minha filha porque alguma coisa estava vindo.


— O quê?


Eryon olhou para os aventureiros.


— Homens.


— Que homens?


— Homens que queriam matar a criatura.


Ele respirou profundamente.


— Eles acreditavam que a Serpente era um monstro. Queriam sua cabeça. Queriam suas escamas. Queriam aquilo que acreditavam existir dentro dela.


— Um tesouro?


— Poder.


Eryon apertou a caneca.


— Sempre é poder.


Os aventureiros permaneceram em silêncio.


— Eu tentei levar minha filha embora.


— E conseguiu?


— Sim.


Um sorriso triste surgiu.


— A Serpente permitiu.


— Ela deixou vocês saírem?


— Sim.


— Por quê?


Eryon olhou para o fogo.


— Porque naquele momento eu entendi.


— O quê?


— Ela não precisava de um homem para protegê-la.


Ele ergueu os olhos.


— Ela precisava de alguém que entendesse por que ela protegia Setra.


Um dos aventureiros franziu a testa.


— E você entendeu?


— Ainda não.


Eryon sorriu.


— Mas continuei tentando.


Os anos passaram.


Ele estudou.


Viajou.


Aprendeu sobre as antigas lendas de Setra.


Descobriu histórias sobre os primeiros reis, sobre as montanhas, sobre os rios e sobre a criatura que havia protegido aquelas terras durante gerações.


Até que um dia encontrou uma inscrição.


Uma única frase.


"Aquele que dominar a Serpente será destruído por ela. Aquele que compreender a Serpente será escolhido por ela."


Eryon colocou a caneca sobre a mesa.


— Naquele dia, compreendi que eu estava procurando a coisa errada.


— O que você procurava?


— Poder.


— E encontrou?


O velho olhou para as próprias mãos.


— Encontrei responsabilidade.


A jovem aventureira perguntou:


— Então a Serpente escolheu você?


Eryon assentiu.


— Muitos anos depois.


— Como?


Ele sorriu.


— Eu estava velho.


Os aventureiros riram.


— Velho demais para aventuras.


— Exatamente.


Eryon levantou-se lentamente.


— Um dia, durante uma tempestade, ouvi o mesmo chamado que ouvira quando era jovem.


Ele caminhou até a janela.


— Fui até o lago.


— E ela estava lá?


— Estava.


— E então?


O velho colocou a mão sobre o vidro.


— A água começou a subir.


Do lado de fora, um relâmpago iluminou Kxin.


— A Serpente surgiu.


Ele fechou os olhos.


— E colocou a cabeça diante de mim.


— Você ficou com medo?


— Muito.


— E o que fez?


Eryon sorriu.


— Toquei nela.


Os aventureiros prenderam a respiração.


— E então?


— Ela desapareceu.


— Desapareceu?


— Entrou em mim.


O silêncio foi absoluto.


— A partir daquele dia, comecei a ouvir os rios.


Um dos aventureiros perguntou:


— Você consegue conversar com a água?


Eryon riu.


— Não.


— Então o que consegue fazer?


Ele levantou lentamente a mão.


Uma pequena gota de água apareceu sobre sua palma.


Depois outra.


E outra.


As gotas começaram a girar.


A pequena esfera líquida cresceu.


A taberna inteira ficou silenciosa.


A água tomou a forma de uma pequena serpente.


Ela abriu a boca.


Não havia dentes.


Não havia som.


Apenas uma forma perfeita de água viva.


Então desapareceu.


Eryon abaixou a mão.


— Eu escuto.


A jovem aventureira estava emocionada.


— E sua filha?


O velho ficou imóvel.


Por alguns segundos, pareceu esquecer que havia outras pessoas na sala.


Então sorriu.


— Mira cresceu.


— Ela está viva?


— Está.


— Onde?


Eryon apontou para a porta.


— Trabalha na casa ao lado da praça.


Os aventureiros ficaram surpresos.


— Ela sabe quem você é?


Eryon sorriu.


— Sabe.


— E sabe que você é o Guardião de Setra?


O velho voltou para a mesa.


— Não.


Todos ficaram confusos.


— Como não?


— Ela sabe que sou seu pai.


Ele pegou a caneca.


— Para ela, isso é suficiente.


A jovem aventureira limpou discretamente uma lágrima.


Eryon percebeu.


— Não chore.


Ela sorriu.


— Não estou chorando.


— Claro que não.


Ele tomou um gole.


— Só está chovendo dentro da taberna.


Todos riram.


Por alguns instantes, a história parecia terminar ali.


Até que Eryon olhou para a janela.


Seu sorriso desapareceu.


A chuva havia parado.


O velho permaneceu imóvel.


— O que foi? — perguntou um aventureiro.


Eryon não respondeu.


Levantou-se.


Caminhou até a porta.


Abriu.


Do lado de fora, as ruas de Kxin estavam molhadas e silenciosas.


Eryon olhou para o rio.


A água estava completamente imóvel.


Então uma pequena onda atravessou sua superfície.


Depois outra.


Eryon fechou os olhos.


Sentiu.


Alguma coisa havia acontecido.


Muito longe dali.


Um Guardião havia caído.


E outro homem carregava agora aquilo que ele havia protegido.


Eryon voltou para dentro.


Os aventureiros perceberam a mudança.


— O que aconteceu?


O velho pegou sua capa.


— A história acabou.


— Mas você não contou o final!


Eryon sorriu.


— Porque ainda não aconteceu.


Ele colocou a capa sobre os ombros.


Antes de sair, olhou para os aventureiros.


— Quando ouvirem falar de um homem vindo do oeste, carregando uma espada e uma marca dourada no peito...


Parou junto à porta.


— Não tentem ajudá-lo.


Um dos aventureiros perguntou:


— Por quê?


Eryon olhou para o céu.


— Porque ele não estará vindo procurar uma história.


A mão fechou-se sobre o cabo de uma velha espada escondida sob a capa.


— Estará vindo procurar o terceiro fragmento.


A porta se fechou.


Os aventureiros ficaram em silêncio.


Ninguém percebeu que, do lado de fora, Eryon havia parado no meio da rua.


Ele olhava para o rio.


Seus olhos haviam mudado.


Por um breve instante, tornaram-se dourados.


E, muito abaixo das águas de Setra, alguma coisa gigantesca abriu os olhos.


A Serpente havia despertado.


E pela primeira vez em muitos anos, o Guardião de Setra sabia que sua história estava chegando ao fim.


Mas antes de morrer...


ele queria ter certeza de que aquele que viria para matá-lo compreenderia exatamente o que estava fazendo.


Eryon sorriu tristemente.


— Pobre rapaz.


Então desapareceu na chuva que começava novamente a cair.

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