sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: A CHUVA SOBRE O CAMINHO

 

Ikarus desceu a torre lentamente.


A espada ainda estava em sua mão.


O sangue de Sahrion permanecia na lâmina.


Ninguém disse uma palavra.


Quando atravessou os primeiros degraus, encontrou os habitantes de Haffen reunidos na rua. Alguns haviam saído de suas casas. Outros permaneciam diante das portas das lojas. Estudiosos, comerciantes, crianças, guerreiros, anciãos. Todos olhavam para ele.


Ninguém precisava perguntar o que havia acontecido.


A notícia já havia atravessado a cidade.


O Guardião estava morto.


E o homem que saía da torre carregava o fragmento.


Ikarus continuou andando.


As pessoas abriam espaço.


Ninguém o impedia.


Mas os olhares o acompanhavam.


Alguns eram de medo.


Outros, de ódio.


Havia pessoas chorando.


Uma mulher abraçava o filho enquanto observava Ikarus passar. Um velho estudioso apertava os punhos. Um grupo de jovens aprendizes permanecia imóvel, olhando para a armadura de Ikarus como se estivesse diante de um inimigo.


Ele sentiu cada olhar.


Cada silêncio.


Cada passo parecia mais pesado que o anterior.


Ikarus queria dizer alguma coisa.


Queria explicar.


Queria dizer que Sahrion havia escolhido aquela morte.


Que não havia alternativa.


Que a regra existia antes dele.


Que o Guardião havia lutado até o fim.


Mas percebeu que nenhuma explicação mudaria o que aquelas pessoas tinham visto.


Para Haffen, Sahrion não era apenas um homem.


Era o Guardião.


Era aquele que havia protegido a cidade.


E agora estava morto.


Por sua espada.


Quando Ikarus chegou aos portões, um grupo de soldados de Sefrion estava esperando.


Um deles segurava a lança com força.


Ikarus parou.


Por alguns segundos, os dois se encararam.


O soldado poderia ordenar sua prisão.


Poderia ordenar um ataque.


Mas não o fez.


— Você vai embora? — perguntou.


Ikarus assentiu.


— Sim.


— E vai continuar procurando os outros?


Ikarus demorou a responder.


— Sim.


O soldado abaixou os olhos.


— Então que os deuses tenham piedade deles.


Ikarus não respondeu.


Montou no cavalo.


Antes de partir, olhou uma última vez para Haffen.


A cidade permanecia em silêncio.


A enorme torre onde Sahrion havia morrido dominava o horizonte.


A coruja não estava mais ali.


Ikarus apertou as rédeas.


O cavalo começou a andar.


Ninguém tentou impedi-lo.


A regra dos Guardiões era antiga.


Quando um Guardião caía diante do portador, ninguém poderia tomar o fragmento de volta.


Sahrion havia perdido.


E sua morte havia encerrado o direito de Sefrion de guardá-lo.


Ikarus deixou Haffen para trás.


Durante algumas horas, não disse nada.


O caminho seguia diante dele.


A cidade desapareceu lentamente no horizonte.


As torres tornaram-se pequenas.


Depois desapareceram completamente.


Só então Ikarus olhou para trás.


Haffen não estava mais visível.


Ele baixou os olhos.


O segundo fragmento estava dentro dele.


Mas, pela primeira vez, aquilo não parecia uma vitória.


Parecia um peso.


Sahrion havia morrido para que ele continuasse.


E o próximo Guardião faria exatamente o mesmo.


Um.


Dois.


Ainda faltavam dez.


Ikarus olhou para a estrada.


— Quantos homens terei que matar?


Nenhuma resposta veio.


Continuou cavalgando.


O caminho seguia em direção a Setra.


A região ficava mais ao leste, além das terras que já havia atravessado. Era um reino de vegetação abundante, rios, lagos e montanhas, muito diferente das paisagens mais secas de outras partes do continente.


Mas Ikarus ainda estava longe.


Muito longe.


A viagem começava novamente.


O primeiro dia passou sem acontecimentos.


No segundo, o céu começou a mudar.


Nuvens escuras surgiram no horizonte.


Ikarus continuou.


O vento ficou mais forte.


As árvores começaram a se mover.


Então caiu a primeira gota.


Uma.


Depois outra.


Ikarus ergueu o rosto.


A chuva começou lentamente.


Em poucos minutos, tornou-se intensa.


As roupas ficaram encharcadas.


A água escorria pela armadura.


O cavalo diminuiu o passo.


Ikarus não o forçou.


Deixou que avançasse no próprio ritmo.


A chuva cobriu o caminho.


E, pela primeira vez desde que deixara Haffen, Ikarus permitiu-se pensar.


Pensou em Sahrion.


Na maneira como ele havia lutado.


Na maneira como havia aceitado a própria morte.


Pensou nas palavras que dissera.


Não transforme minha morte em culpa.


Ikarus apertou os olhos.


— Como não transformar em culpa?


A chuva continuou caindo.


Ele lembrava do momento em que a espada atravessara a armadura dourada.


Poderia ter hesitado.


Poderia ter parado.


Mas Sahrion havia pedido que terminasse.


E ele terminou.


O problema era que, agora, Ikarus sabia que aquilo se repetiria.


O terceiro Guardião.


Depois o quarto.


O quinto.


Até o décimo segundo.


Todos seriam homens que acreditavam estar cumprindo um dever.


Todos teriam uma história.


Talvez alguns tivessem famílias.


Talvez alguns tivessem filhos.


Talvez alguns tivessem alguém esperando seu retorno.


Como Gillian esperava o dele.


Ikarus fechou os olhos por um instante.


Essa ideia foi a que mais o perturbou.


Sahrion havia morrido sabendo que alguém continuaria vivendo.


Mas quem esperava por ele?


Quem ficaria em Haffen?


Quem sentiria sua ausência?


Ikarus pensou em Gillian.


Pensou na criança.


Então compreendeu que talvez os Guardiões não fossem diferentes dele.


Talvez cada um deles tivesse alguém.


Talvez cada um tivesse um motivo para continuar vivendo.


E, ainda assim, a regra exigia que um matasse o outro.


Ikarus olhou para o céu.


— Quem criou essa regra?


O trovão respondeu.


Ele continuou cavalgando.


A chuva ficou ainda mais forte.


O caminho transformou-se em lama.


O cavalo avançava lentamente.


Ikarus não se importava.


Precisava pensar.


O primeiro fragmento havia escolhido um homem que desejava proteger.


O segundo havia pertencido a um homem que desejava guardar.


Mas por que os doze precisavam ser separados?


Por que a única maneira de reuni-los era através da morte?


E, principalmente...


o que aconteceria quando o décimo segundo Guardião caísse?


Ikarus tocou o peito.


Os dois fragmentos responderam juntos.


Uma luz dourada e azul brilhou sob a armadura.


Por um breve instante, ele sentiu novamente aquela presença antiga.


A mesma que havia visto quando o primeiro fragmento despertou.


A mesma que havia mostrado as doze figuras.


Aquilo não parecia um simples poder.


Parecia uma memória.


Talvez os fragmentos não quisessem apenas encontrar um portador.


Talvez estivessem tentando lembrar quem eram.


Ikarus parou o cavalo.


A chuva caía sobre ele.


Ao longe, entre as montanhas, havia apenas uma pequena luz.


Uma fogueira.


Provavelmente algum viajante.


Ikarus observou por alguns segundos.


Depois continuou.


Setra ainda estava distante.


A próxima cidade ainda não aparecia no horizonte.


O próximo Guardião ainda era apenas um nome que Ikarus não conhecia.


Mas agora ele sabia que, em algum lugar além daquela chuva, alguém carregava o terceiro fragmento.


E aquele homem provavelmente já sabia que Ikarus estava vindo.


Ikarus baixou a cabeça.


A água escorria pelos cabelos.


A espada permanecia presa à cintura.


A estrada desaparecia diante dele sob a chuva.


Atrás dele estava Haffen.


Atrás dele estava Sahrion.


À frente estava Setra.


E, entre os dois, havia quilômetros de estrada, montanhas, rios e um destino que Ikarus começava a temer.


Ele puxou as rédeas.


O cavalo voltou a caminhar.


Ikarus não sabia onde dormiria naquela noite.


Não sabia quanto tempo levaria para chegar a Setra.


Não sabia quem seria o próximo Guardião.


Só sabia que teria de matá-lo.


E, enquanto a chuva continuava caindo sobre o caminho, Ikarus percebeu que talvez aquela fosse a verdadeira maldição dos doze fragmentos.


Não era o poder que eles concediam.


Era o preço necessário para reuni-los.


Muito à frente, além das montanhas e ainda invisível no horizonte, uma terceira luz havia acabado de despertar.


O próximo Guardião havia sentido a morte de Sahrion.


E agora estava esperando.


Ikarus continuou cavalgando.


Mas a cidade ainda estava muito longe.


E a noite começava a cair.

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