A neve caía sobre Baltamus.
Não havia vento.
Era isso que tornava aquela noite estranha.
Em Baltamus, o vento nunca cessava completamente. As montanhas produziam correntes violentas que atravessavam os vales, arrastando neve, galhos e até pequenas pedras. Mas naquela noite tudo estava imóvel.
Como se o próprio mundo prendesse a respiração.
No extremo de uma pequena aldeia, distante das grandes fortalezas e das rotas comerciais, havia uma velha ponte de madeira sobre um rio congelado.
Um homem caminhava sobre ela.
Usava um manto negro, pesado e simples. A neve cobria seus ombros e seus cabelos brancos. Levava consigo apenas uma pequena bolsa presa à cintura.
Nenhuma armadura.
Nenhuma espada.
Nenhum símbolo.
Para qualquer pessoa que o observasse, seria apenas um viajante.
Um homem velho demais para viajar sozinho.
Ele parou no meio da ponte.
Abaixo dele, o rio congelado parecia uma lâmina de vidro.
— Você está aí há muito tempo — disse uma voz.
O homem virou lentamente o rosto.
Havia um rapaz sentado na margem do rio.
Talvez tivesse dezesseis ou dezessete anos.
Vestia roupas simples de camponês e segurava um pequeno cajado de madeira.
Seus olhos estavam abertos.
Mas eram completamente brancos.
Cegos.
O homem observou-o durante alguns segundos.
— Está falando comigo?
O rapaz sorriu.
— Não há mais ninguém aqui.
O homem olhou para os lados.
— Como sabe?
— Porque consigo ouvir quando alguém mente.
O homem permaneceu imóvel.
Então soltou uma pequena risada.
— Isso é uma habilidade interessante.
— Não é.
— Não?
— É uma maldição.
O homem atravessou o restante da ponte.
— Qual é o seu nome?
— Elias.
O homem parou.
Por apenas um instante.
Quase imperceptível.
O rapaz percebeu.
— E o seu?
— Pode me chamar de... Arkan.
— Arkan?
— Sim.
O rapaz inclinou a cabeça.
— Esse não é seu nome.
O homem sorriu.
— Você acabou de dizer que consegue ouvir mentiras.
— Eu disse que consigo ouvir quando alguém mente. Não disse que consigo ouvir a verdade.
Silêncio.
A neve continuava caindo.
— Você é um filósofo? — perguntou o homem.
— Não.
— Então o que é?
— Um cego.
— Isso não é uma profissão.
— Nem sempre é preciso ter uma profissão para ser alguma coisa.
O homem olhou novamente para os olhos brancos do rapaz.
— E o que você é, então?
O rapaz passou a mão sobre o gelo.
— Alguém que aprendeu a não confiar no que vê.
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu do rosto do homem.
Ele se sentou ao lado do rapaz.
Durante algum tempo, nenhum dos dois falou.
Ao longe, os sinos da aldeia tocaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Você tem medo da morte? — perguntou o homem.
O rapaz respondeu imediatamente:
— Não.
— Todos dizem isso.
— Eu não consigo vê-la.
O homem riu.
— Então você acredita que aquilo que não pode ver não pode assustá-lo?
— Não.
— Então por quê?
O rapaz ficou em silêncio.
— Porque a morte não é o que mais me assusta.
— O que é?
— Que talvez a vida seja apenas uma forma mais longa de morte.
O homem olhou para o rio.
— Interessante.
— Você acha que estou errado?
— Acho que você é jovem demais para estar tão certo.
— E você é velho demais para ainda procurar respostas.
A neve pousou sobre o cabelo branco do homem.
Ele não a retirou.
— Talvez eu esteja procurando apenas uma pergunta.
— Qual?
O homem demorou a responder.
— Se uma pessoa perde tudo aquilo que amava... ela continua sendo a mesma pessoa?
O rapaz franziu a testa.
— Não.
— Por quê?
— Porque aquilo que amamos também faz parte de quem somos.
— Então, quando perdemos alguém...
— Perdemos uma parte de nós.
O homem abaixou os olhos.
— E se perdemos todos?
O rapaz tocou o gelo novamente.
— Então sobra aquilo que ninguém pode tirar.
— O quê?
— A escolha.
O homem permaneceu em silêncio.
O rapaz continuou:
— Você pode perder sua família. Seu nome. Sua casa. Seu reino. Seu corpo. Até mesmo sua memória. Mas enquanto puder escolher o que fará com aquilo que lhe aconteceu, ainda existe alguma coisa que pertence a você.
O homem fechou os olhos.
Por um momento, não estava mais naquela ponte.
Viu uma mulher.
Viu uma casa.
Viu crianças correndo.
Viu sangue.
Muito sangue.
Viu uma espada.
Viu uma cidade queimando.
Viu o rosto de alguém que não deveria mais existir.
E então viu novamente o vazio.
Quando abriu os olhos, o rapaz ainda estava sentado ao seu lado.
— Você chorou — disse ele.
O homem levou a mão ao rosto.
Não havia lágrimas.
— Não chorei.
— Chorou por dentro.
O homem respirou profundamente.
— Você é perigoso.
O rapaz sorriu.
— Porque sou cego?
— Porque enxerga demais.
O rapaz inclinou a cabeça.
— E você?
— Eu?
— Você enxerga demais para alguém que finge ser apenas um viajante.
O homem ficou imóvel.
O rapaz levantou-se.
— Eu sei quem você é.
O silêncio que veio depois pareceu congelar até o som da neve.
— Não sabe.
— Sei.
— Então diga.
O rapaz virou o rosto em sua direção.
— Você é um homem que morreu.
O homem não respondeu.
— Mas continua andando.
Nada.
— Você não tem coração — continuou o rapaz.
O homem finalmente sorriu.
— Isso é uma acusação?
— Não.
— Então o que é?
— Uma tristeza.
O sorriso desapareceu.
— Você está errado.
— Talvez.
— Eu tenho coração.
— Então por que ele não bate?
O homem olhou para o próprio peito.
Nada.
Nenhum movimento.
Nenhum som.
Nenhuma pulsação.
O rapaz continuou:
— Você não está vivo.
— Não.
— Também não está morto.
O homem ficou de pé.
— O que você acha que eu sou?
O rapaz tocou o rosto do estranho com a ponta dos dedos.
No instante em que o tocou, seu sorriso desapareceu.
Seu corpo inteiro estremeceu.
Ele retirou a mão.
— Você viu alguma coisa? — perguntou o homem.
O rapaz respirava rapidamente.
— Não.
— Então o que aconteceu?
— Eu senti.
— O quê?
O rapaz levantou os olhos cegos.
— O fim.
O homem permaneceu em silêncio.
— Não o fim de uma pessoa — continuou o rapaz. — Não o fim de um reino. Não o fim de uma era.
Ele engoliu em seco.
— O fim de coisas.
O homem observou-o.
— Explique.
— Quando toquei você, senti milhares de coisas terminando ao mesmo tempo.
O rapaz recuou.
— Guerras.
— Sim.
— Reinos.
— Sim.
— Famílias.
— Sim.
— Mundos.
O homem não respondeu.
— Você viu mundos morrerem?
O homem desviou o olhar.
— Alguns.
— Quantos?
— Muitos.
— E quantos você salvou?
Silêncio.
O rapaz percebeu a resposta.
— Nenhum?
— Não.
— Por quê?
O homem respondeu:
— Porque não havia nada para salvar.
O rapaz permaneceu parado.
— Essa é a diferença entre nós.
— Qual?
— Você acredita que as coisas precisam ser salvas porque existem.
O homem ergueu uma sobrancelha.
— E você não?
— Não.
— Então por que salvar alguma coisa?
O rapaz sorriu.
— Porque existe.
O homem ficou olhando para ele.
— Isso não faz sentido.
— Faz mais sentido do que destruir.
— Destruir é simples.
— Exatamente.
O homem voltou-se para o rio.
— Criar é difícil.
— Não.
O homem olhou para trás.
— Não?
— Criar também é simples.
— Então o que é difícil?
O rapaz respondeu:
— Amar aquilo que você sabe que pode perder.
O homem não se moveu.
Pela primeira vez naquela noite, algo parecido com dor atravessou seu rosto.
— Você fala como alguém que já perdeu alguém.
— Todos perderam alguém.
— Você perdeu?
O rapaz sorriu tristemente.
— Minha mãe.
— Quando?
— Não sei.
— Como assim?
— Eu era muito pequeno.
O homem sentou novamente.
— Você sente falta dela?
— Todos os dias.
— Mesmo sem lembrar do rosto?
— Principalmente por isso.
O homem ficou em silêncio.
— Então talvez você tenha razão — disse finalmente.
— Sobre o quê?
— Sobre a morte.
— O que eu disse?
— Que talvez a pior parte não seja morrer.
O rapaz esperou.
— É continuar existindo depois que tudo aquilo que dava sentido à existência desapareceu.
O rapaz não respondeu.
Depois de alguns segundos, perguntou:
— E por que você continua?
O homem olhou para o céu.
As duas luas de Baltamus apareciam entre as nuvens.
— Não sei.
— Mentira.
O homem olhou para ele.
— O quê?
— Você sabe.
— Então diga.
O rapaz sorriu.
— Vingança.
O homem permaneceu imóvel.
— Não.
— Então ódio.
— Também não.
— Culpa.
O homem não respondeu.
O rapaz abaixou a cabeça.
— Amor.
O silêncio respondeu por ele.
O homem fechou os olhos.
— Amor é uma coisa estranha.
— Por quê?
— Porque pode criar um homem.
Pausa.
— E pode destruir um mundo.
O rapaz sorriu.
— Agora você falou seu verdadeiro nome.
O homem abriu os olhos.
— O quê?
— Você não é Arkan.
O rapaz virou-se para o caminho da aldeia.
— E eu não sou Elias.
O homem se levantou.
— Então quem é você?
O rapaz parou.
— Apenas um cego.
— E seu nome verdadeiro?
Ele sorriu.
— Você não perguntou meu nome.
— Perguntei quem você é.
O rapaz continuou caminhando.
— Então talvez você ainda não esteja pronto para saber.
O homem ficou sozinho na ponte.
A neve cobria suas pegadas.
Durante alguns segundos, não houve nada.
Então uma voz muito distante atravessou as montanhas.
Não era humana.
Não era animal.
Era algo profundo.
Antigo.
O homem ergueu lentamente a cabeça.
As duas luas desapareceram atrás das nuvens.
E, por um instante, seus olhos vermelhos apareceram.
O homem que dizia chamar-se Arkan olhou para a direção em que o jovem havia desaparecido.
— Interessante.
Uma sombra surgiu atrás dele.
Alta.
Imensa.
Com olhos vermelhos.
A criatura não disse nada.
O homem olhou para ela.
— Não.
A criatura inclinou a cabeça.
— Ainda não.
Ele voltou a olhar para a aldeia.
— Deixe-o viver.
A criatura desapareceu.
O homem permaneceu sozinho.
Então falou para ninguém:
— Às vezes, o mundo coloca um cego diante de um monstro...
Ele tocou o próprio peito.
Nenhuma batida.
— ...apenas para descobrir qual dos dois realmente consegue enxergar.
E, muito longe dali, sob as montanhas de Baltamus, alguma coisa respondeu.
Uma vez.
Como uma batida.
Depois outra.
E outra.
Tum.
Tum.
Tum.
O homem ficou imóvel.
Porque reconheceu aquele som.
Não era um coração.
Era uma porta.
E, pela primeira vez em séculos, Angarkor teve medo de que alguém a abrisse.
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