sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: Empata festas!

 A noite caiu sobre Kxin, mas ninguém naquela cidade queria dormir. As ruas, que poucas horas antes estavam tomadas pelo medo, agora estavam iluminadas por centenas de lanternas. Barris haviam sido abertos, mesas foram colocadas diante das casas, músicos surgiram de algum lugar e crianças corriam pelas ruas carregando pequenas bandeiras com o símbolo da Serpente. O cheiro de pão assado, carne, vinho e frutas tomou a cidade. Kxin comemorava. Não apenas uma vitória, mas a sobrevivência de todos. E no centro daquela celebração estava Eryon. O velho Guardião estava sentado diante da mesma taverna onde havia contado sua história aos aventureiros. A armadura dourada estava sobre uma mesa próxima, ainda marcada pela batalha. Ele permanecia vestido com suas roupas simples, segurando uma caneca enquanto dezenas de pessoas se aproximavam para agradecer. — Você salvou meus filhos! — disse uma mulher, abraçando-o. — Salvou minha casa! — gritou um comerciante. — Salvou Kxin! Eryon ria, desconcertado com aquilo tudo. — Eu só fiz o que qualquer homem faria. Um soldado próximo ouviu e começou a rir. — Qualquer homem? Eu vi você levantar um rio inteiro! — Então talvez eu tenha exagerado um pouco. Todos riram. Pela primeira vez em muito tempo, Eryon parecia simplesmente feliz. Mira estava sentada ao lado dele. Elira conversava com algumas mulheres da cidade. Crianças imitavam Eryon, erguendo os braços e fingindo controlar rios enquanto gritavam: — EU SOU O GUARDIÃO! Eryon quase engasgou de tanto rir. — Pelo amor da Serpente, não ensinem isso a eles. Um garoto ergueu um copo e gritou: — Ao Guardião! A multidão respondeu em coro: — AO GUARDIÃO! Eryon abaixou a cabeça, emocionado. Durante tantos anos havia carregado aquele título como um peso. Naquela noite, pela primeira vez, sentiu-o como um presente. Mira percebeu os olhos do pai marejados. — Está chorando? — Eu? Nunca. — Pai... — É a chuva. — A chuva parou faz horas. — Então é uma chuva muito persistente. Ela sorriu e encostou a cabeça no ombro dele. Eryon olhou para a filha. Talvez aquela fosse a maior recompensa que um homem poderia receber. Não o poder. Não a armadura. Não a Serpente. Apenas estar vivo ao lado daqueles que amava. Foi então que os músicos começaram outra canção. Eryon levantou-se, puxando Mira para dançar. O povo abriu espaço. O velho Guardião, que poucas horas antes havia enfrentado um dragão morto-vivo, agora tropeçava tentando acompanhar os passos da filha. — O senhor sabe lutar contra um dragão, mas não sabe dançar! — gritou alguém. — Dragões são mais fáceis! A gargalhada foi geral. E foi justamente naquele momento que um homem entrou na cidade. Ninguém o percebeu de imediato. Ele vinha pela estrada oeste, montado em um cavalo cansado, coberto por uma capa escura encharcada de chuva. O animal parou diante das primeiras casas. O homem desmontou. Era jovem. Cabelos claros. Roupas gastas pela viagem. Uma espada presa à cintura. E no peito, parcialmente escondida sob a roupa, havia uma marca dourada. Ikarus olhou para a cidade iluminada. — Finalmente... — murmurou. Ele havia esperado encontrar uma cidade em alerta, soldados nas muralhas, talvez o Guardião pronto para enfrentá-lo. Em vez disso, encontrou música. Crianças correndo. Pessoas bebendo. Gente dançando. Um homem bêbado passou por ele segurando duas canecas. — Ei! Você! — Ikarus olhou. — Está procurando a festa? — Acho que sim. — Então chegou na hora certa! O homem colocou uma caneca na mão de Ikarus. — Beba! Ikarus olhou para a bebida. Depois para a cidade. — Obrigado. O homem saiu cambaleando. — E viva o Guardião! Ikarus congelou. Seus olhos percorreram a multidão. No centro da praça estava Eryon. Ao lado dele, a mulher que devia ser sua esposa. E perto dos dois, Mira. O povo o cercava com carinho. Uma criança entregava flores ao velho. Um soldado colocava uma pequena coroa de folhas sobre sua cabeça. Eryon ria. Ikarus ficou parado. Aquilo não parecia com a imagem que ele havia criado durante a viagem. Ele imaginara um guerreiro. Um monstro. Um inimigo. Não um velho sendo abraçado pela própria filha. A mão de Ikarus apertou lentamente a espada. A marca dourada em seu peito começou a emitir um brilho fraco. Eryon parou de rir. Seu sorriso desapareceu. Ele havia sentido. Virou lentamente o rosto. Do outro lado da praça, entre centenas de pessoas, os dois homens se olharam. O barulho da festa continuou por alguns segundos. Depois começou a morrer. Um músico parou de tocar. Uma mulher percebeu o olhar do Guardião. Um soldado virou-se. E então todos começaram a olhar para o estranho recém-chegado. Ikarus deu um passo à frente. Eryon olhou para o peito dele. Depois para a espada. Depois novamente para os olhos do rapaz. Ele não precisou perguntar quem era. — Você chegou. Ikarus respondeu baixo: — Sim. Eryon respirou fundo. Mira percebeu a mudança no pai. — Pai? Eryon não respondeu. Apenas continuou olhando para Ikarus. A Serpente, muito abaixo das águas, despertou. Os rios de Setra começaram a correr mais depressa. Ikarus colocou a mão sobre o cabo da espada. Ao redor deles, ninguém mais sorria. A festa havia acabado. Eryon retirou lentamente a pequena coroa de folhas que haviam colocado em sua cabeça. Olhou para ela por um instante e entregou-a a Mira. — Guarde isso para mim. — Por quê? — Porque amanhã talvez eu não esteja aqui para buscá-la. Mira empalideceu. — Não. — Eryon... — disse Elira, entendendo antes de todos. Eryon virou-se para Ikarus. O velho sorriso desapareceu completamente. Em seu lugar havia apenas a expressão de um homem que havia aceitado seu destino muitos anos antes. — Entre, rapaz. — disse Eryon. — Hoje você é meu convidado. Amanhã... será meu inimigo. Ikarus permaneceu imóvel. E pela primeira vez desde que havia começado sua busca pelos doze fragmentos, desejou profundamente estar errado sobre o caminho que havia escolhido.


Ninguém voltou a tocar depois das palavras de Eryon. A praça inteira permanecia em silêncio, como se Kxin tivesse esquecido como respirar. Ikarus continuava parado do outro lado da praça, com a mão sobre a espada, mas sem desembainhá-la. Eryon, por sua vez, caminhou até ele. O velho Guardião não usava a armadura. Não carregava o bastão. Não havia água girando ao seu redor. Era apenas um homem velho diante de outro homem que havia chegado para matá-lo. Quando ficou diante de Ikarus, Eryon estendeu a mão. — Entre. Ikarus hesitou. — Você sabe quem eu sou. — Sei. — E mesmo assim me convida? — Hoje ainda não viemos para lutar. Eryon olhou para a espada de Ikarus. — Amanhã será diferente. Ikarus apertou os lábios. — Você não tem medo? Eryon sorriu. — Tenho. Muito. A resposta surpreendeu Ikarus. — Então por que está tão calmo? — Porque medo e coragem nunca foram inimigos. O homem corajoso não é aquele que não sente medo. É aquele que decide o que fará enquanto sente medo. Eryon virou-se e voltou para a taverna. Depois de alguns segundos, Ikarus o acompanhou. A multidão abriu passagem para os dois. Ninguém dizia nada. Quando entraram, Eryon apontou para uma cadeira. — Sente-se. Ikarus sentou. Eryon serviu vinho para os dois. — Você acabou de chegar numa cidade que quase foi destruída — disse Ikarus. — E ainda assim está oferecendo vinho ao homem que veio matá-lo. — Não quero morrer com sede. Ikarus soltou uma pequena risada. Era a primeira vez que sorria desde Haffen. Eryon percebeu. — Então você ainda sabe sorrir. — Às vezes. — Isso é bom. Significa que ainda não perdeu tudo. Ikarus ficou em silêncio. Eryon bebeu um gole. — Sahrion também era assim? A pergunta fez Ikarus baixar os olhos. — Você sabia que ele morreu? — A água me contou. — Como? — Setra é cheia de rios. Os rios encontram outros rios. E a água carrega histórias. Eryon pousou a caneca. — Ele era um bom homem? Ikarus demorou a responder. — Era. — Tinha família? — Não perguntei. Eryon olhou para ele. — Você deveria ter perguntado. Ikarus não respondeu. O silêncio entre os dois ficou pesado. Finalmente, Eryon perguntou: — Como ele morreu? — Lutando. — Isso eu já sabia. — Então por que pergunta? — Porque quero saber se morreu sozinho. Ikarus levantou os olhos. — Não. Eu estava lá. Eryon assentiu lentamente. — Então ele não morreu sozinho. Lá fora, Mira observava os dois através da janela. Elira estava ao lado dela. — Ele parece tão jovem — disse Mira. — É. — E ele vai matar meu pai? Elira não respondeu. Mira continuou olhando para Ikarus. — Então por que meu pai está conversando com ele? — Porque talvez seja a última noite em que poderá conversar com ele. Dentro da taverna, Eryon continuava contando histórias. Falou de Elira. Falou de Mira quando criança. Contou como certa vez tentou pescar e caiu dentro do rio. Ikarus riu. Depois Eryon contou sobre a primeira vez que viu a Serpente. Contou sobre o medo. Sobre a menina desaparecida. Sobre o mergulho. Sobre a criatura que poderia tê-lo matado, mas escolheu protegê-lo. Ikarus ouviu tudo. Não como um guerreiro ouvindo o inimigo. Como um homem ouvindo a vida de outro homem. Quando a madrugada se aproximou, Eryon levantou-se. — Venha. Ikarus o acompanhou até a margem do rio. A cidade estava silenciosa novamente. A água corria lentamente sob a luz das duas luas. Eryon parou diante dela. — Amanhã, quando o sol nascer, iremos até o lago. Ikarus assentiu. — Por quê? — Porque quero morrer longe de Kxin. — Você fala como se sua morte já estivesse decidida. — Não está. Eryon virou-se para ele. — Mas uma coisa está. — O quê? — Se você me vencer, o fragmento será seu. Ikarus olhou para o rio. — E se eu perder? Eryon sorriu. — Então você terá aprendido que existem coisas que não foram feitas para serem carregadas por um homem sozinho. Ikarus ficou calado. Depois perguntou: — Por que você aceita isso? Eryon olhou para a água. — Porque eu aceitei no dia em que a Serpente me escolheu. — Você poderia fugir. — Poderia. — Então por que não foge? Eryon apontou para a cidade. — Porque há pessoas aqui que não podem fugir. Apontou para uma casa iluminada. — Minha esposa está ali. Apontou para outra. — Minha filha está ali. Depois colocou a mão sobre o peito. — E Setra está aqui. Ikarus baixou os olhos. — Eu também tenho alguém. — Gillian. Ikarus levantou a cabeça. — Como sabe o nome dela? Eryon sorriu. — A água carrega histórias, lembra? Ikarus ficou completamente imóvel. — Ela está esperando você voltar. — Sim. — E você prometeu que voltaria. — Prometi. Eryon ficou alguns segundos em silêncio. — Então amanhã não lute como um homem que quer vencer. Ikarus franziu a testa. — Lute como um homem que precisa voltar para casa. Eryon caminhou de volta para a cidade. Antes de entrar, parou e olhou por cima do ombro. — Durma, Ikarus. Amanhã será um dia difícil. O jovem guerreiro ficou sozinho diante do rio. A água refletia as duas luas. Ikarus retirou a espada da cintura e a colocou sobre as pedras. Depois sentou-se ao lado dela. Não conseguiu dormir. Porque, pela primeira vez, ele havia descoberto o verdadeiro horror dos fragmentos. Não eram monstros que precisava matar. Eram homens. Homens com nomes. Homens com famílias. Homens que tinham histórias. Homens que amavam alguém. E todos estavam esperando por ele. Quando o primeiro raio de sol apareceu entre as montanhas de Setra, Ikarus levantou-se. Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, Eryon abriu os olhos. A Serpente também despertou. E o terceiro fragmento começou a brilhar dentro de seu corpo.

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