O amanhecer em Lenória Imperial não trouxe alívio.
Trouxe apenas uma luz pálida e suja que atravessava as rachaduras das muralhas improvisadas e iluminava o que restava da cidade com uma honestidade cruel. Não havia névoa para esconder os escombros. Não havia chuva para lavar o cheiro de fumaça antiga e carne queimada que ainda impregnava as pedras. O sol maior subiu no horizonte como um olho cansado, e sob sua luz cinzenta as pessoas começaram a se mover novamente — não porque quisessem, mas porque parar significava entregar o que restava ao inimigo.
Ikarus não dormira.
Passara a madrugada no salão de mapas, sentado na mesma cadeira rachada, a aura azul-dourada pulsando em ritmo lento e constante. O residual de Ranur não o deixava em paz. Às vezes vinha como calor no peito. Às vezes como uma voz sem palavras, um eco de dever que não pertencia completamente a ele. E às vezes, nas horas mais escuras, vinha como memória que não era sua: a sensação de décadas observando Lenória do alto de uma torre dourada, a solidão de um Guardião que só descia quando o problema deixava de ser humano.
Quando as primeiras vozes ecoaram no pátio, ele se levantou.
O corpo doía de uma forma que não era apenas física. Era o peso acumulado de decisões, de mortes, de um poder que ainda não aprendera a carregar sem que ele o deformasse por dentro.
Gillian já estava no pátio quando ele desceu.
Ela supervisionava a distribuição de ração entre os sobreviventes capazes de trabalhar. O braço esquerdo ainda se movia com uma leve rigidez, mas a mão direita não hesitava. A espada estava na cintura. O rosto, marcado por noites ruins, permanecia firme. Quando viu Ikarus, apenas assentiu — um gesto curto, prático, que dizia mais do que qualquer saudação.
— A ração está acabando mais rápido do que o esperado — informou sem rodeios. — Temos comida para talvez mais dez dias se formos cuidadosos. Depois disso…
— Depois disso encontramos mais — completou Ikarus. — Ou morremos tentando.
Ela não contestou. Apenas continuou distribuindo.
Raella apareceu momentos depois, acompanhada por dois capitães improvisados e uma mulher idosa que ainda usava os restos de um manto sacerdotal de Valeth. A rainha de Lenória não usava coroa. Usava o mesmo manto rasgado do dia anterior, agora preso com um broche de metal simples. Os olhos, porém, carregavam a autoridade de quem já aceitara que o título não era privilégio — era sentença.
— Precisamos reforçar o setor oeste — disse ela assim que se aproximou. — Os ataques noturnos estão ficando mais organizados. Não são mais hordas desordenadas. Há padrão. Há intenção.
Ikarus franziu o cenho.
— Angarkor?
— Ou alguém agindo sob a sombra dele. — Raella entregou um pequeno pedaço de tecido queimado. — Encontraram isso perto da muralha improvisada. Não é de nenhum dos nossos.
O tecido era preto, grosso, e ainda carregava um residual metálico que fazia a pele formigar. Ikarus segurou-o por um instante. A aura azul-dourada reagiu imediatamente — uma faísca de alerta, quase hostil.
— Residual de distorção — murmurou. — Fraco. Mas presente. Ele está testando o alcance.
Gillian se aproximou e olhou para o tecido com desprezo.
— Então ele já sabe onde estamos. E sabe que ainda estamos de pé.
— Ele sempre soube — respondeu Ikarus. — A diferença é que agora está se dando ao trabalho de lembrar.
O resto da manhã foi consumido por trabalho bruto.
Homens e mulheres carregavam pedras. Adolescentes cavavam valas. Crianças grandes demais para o medo ajudavam a carregar baldes de água. Não havia glória na reconstrução. Havia apenas necessidade. E a necessidade, em Ad’Heim, era a única coisa que ainda mantinha as pessoas em movimento quando a esperança já se esgotara.
Ikarus trabalhou junto com eles durante horas.
Usou o domínio das águas para limpar um poço contaminado por residual necromântico. Usou o residual dourado de Ranur para reforçar temporariamente uma seção de muralha que ameaçava desabar. Cada uso do poder deixava um gosto metálico na boca e uma fadiga que não era apenas do corpo. O poder de um Hunen e o residual de um Guardião não foram feitos para serem carregados por um mortal — mesmo que esse mortal fosse filho de um e herdeiro parcial do outro.
Ao meio-dia, quando o sol maior estava alto e o sol menor ainda mal se mostrava, um mensageiro chegou das estradas do oeste.
Não era o mesmo de antes. Este era mais jovem, mais assustado, e carregava uma cicatriz recente no rosto. Ajoelhou-se diante de Raella por instinto, depois corrigiu a postura quando percebeu que a rainha não exigia tal gesto.
— Mensagem de Aldora — disse, a voz rouca. — Do rei Thomas Walker.
Ikarus, Gillian e Raella se entreolharam.
O pergaminho era curto, escrito com a letra firme e pouco paciente de Thomas:
*Lenória.*
*As facções restantes se renderam ou foram eliminadas. O deserto reconhece a coroa. Estou estabilizando as rotas de suprimento e limpando os últimos focos de mortos-vivos próximos a Thirssh. Há relatos de movimentos estranhos nas bordas leste do deserto — distorções no ar, como o calor das dunas, mas em lugares onde o calor não deveria existir. Acredito que seja o alcance dele.*
*Não posso deixar Aldora agora. Se eu partir, o que construí desaba em semanas. Mas se a situação em Lenória se tornar crítica, mandem o sinal. Eu virei. Sozinho, se precisar.*
*Não morram. Não sem mim.*
*— T.*
Gillian foi a primeira a soltar o ar que estava prendendo.
— Ele está bem.
— Está sobrevivendo — corrigiu Raella. — Como todos nós.
Ikarus dobrou o pergaminho com cuidado e o guardou.
— Os movimentos estranhos no deserto confirmam o que vimos aqui. Angarkor não está parado. Está expandindo a influência. Testando. Medindo.
— E quando ele decidir parar de testar? — perguntou Gillian.
Ninguém respondeu.
Porque a resposta era óbvia demais para ser dita em voz alta.
A tarde trouxe o primeiro ataque organizado desde a chegada do residual.
Não foi uma horda desordenada. Foram três ondas coordenadas, vindas de ângulos diferentes, usando o terreno destruído a seu favor. Criaturas que um dia haviam sido homens agora se moviam com uma disciplina que não pertencia aos mortos comuns. Entre elas, duas figuras maiores — distorcidas, com membros alongados demais e olhos que refletiam luz de formas impossíveis.
Ikarus, Gillian e Raella lideraram a defesa.
Gillian era precisão e fúria contida. Cada movimento da espada carregava o peso dos amigos que já não estavam. Raella usava a magia da capa com economia brutal, curando apenas o suficiente para manter os defensores de pé e lançando feixes de energia prateada contra as criaturas mais perigosas. Ikarus era o centro. A aura azul-dourada se expandia em ondas, a água respondia ao seu chamado formando barreiras temporárias, e o residual de Ranur reforçava cada golpe com uma luminosidade que fazia as criaturas hesitarem por frações de segundo — o suficiente.
Quando a última onda recuou, o pátio estava coberto de corpos que já começavam a se desfazer em cinza escura. Havia feridos. Havia mortos entre os defensores. Mas a muralha improvisada ainda se mantinha.
Ikarus apoiou-se contra uma coluna rachada, respirando com dificuldade. O poder cobrava seu preço. O peito queimava. As mãos tremiam levemente.
Gillian se aproximou, limpando o sangue da lâmina com um pedaço de pano sujo.
— Você está se forçando demais.
— Se eu não me forçar, quem se força? — respondeu ele, a voz rouca.
Ela não contestou. Apenas ficou ao lado dele enquanto os feridos eram carregados e os mortos eram separados para o que restava de um enterro digno.
Mais tarde, quando a noite voltou a cair e as tochas foram acesas novamente, os três se reuniram no salão de mapas.
O tecido preto com residual de distorção ainda estava sobre a mesa.
Raella foi a primeira a falar.
— Não podemos continuar apenas reagindo. Cada ataque nos enfraquece. Cada dia que passa sem avanço real é um dia a mais para ele se preparar.
— Concordo — disse Gillian. — Mas avançar para onde? Contra quem? Angarkor não é um general que podemos cercar. Não é um rei que podemos assediar. Ele é… outra coisa.
Ikarus olhou para o mapa de Baltamus por um longo tempo.
— Precisamos de informações — disse finalmente. — Não sobre onde ele está. Sobre o que ele é. Sobre o que realmente significa distorcer realidade, tempo e espaço no nível em que ele faz. Ranur sabia coisas. Os outros Guardiões provavelmente sabem mais. E Kallon… Kallon sabe coisas que nenhum de nós está pronto para ouvir.
Raella cruzou os braços.
— Você está sugerindo voltar à Ilha.
— Estou sugerindo que talvez não tenhamos escolha. — Ikarus ergueu o olhar. A aura ao redor dele pulsava mais forte. — O residual de Ranur reage quando penso nele. Não é medo. É reconhecimento. Como se soubesse que a próxima peça do tabuleiro não está em Lenória. Está em algum lugar onde o tempo e o espaço já foram dobrados antes.
Gillian ficou em silêncio por um momento.
— E Thomas?
— Thomas segura Aldora. Nós seguramos Lenória. Se um de nós cair agora, o outro não aguenta o peso sozinho. — Ikarus inspirou fundo. — Mas se conseguirmos algo — qualquer coisa — que nos dê uma forma real de enfrentar a distorção… então talvez o adiamento se transforme em algo mais.
Lá fora, o vento uivou entre as ruínas.
E muito longe, nas geleiras de Baltamus, onde o gelo era mais antigo que a maioria dos reinos, Angarkor abriu os olhos.
Não havia pressa em seu movimento. Não havia urgência. Apenas a certeza fria de quem já vira impérios nascerem e morrerem e entendera que todos eles, no fim, obedeciam às mesmas regras frágeis.
Ele segurou os dois katares.
O metal escuro pareceu absorver a luz ao redor.
E o espaço, por um instante, tremeu.
Não em Lenória.
Não em Aldora.
Em todos os lugares ao mesmo tempo.
Como um aviso.
Como uma promessa.
Como a lembrança de que algumas coisas, em Ad’Heim, não podiam ser cortadas.
Apenas enfrentadas.
Ou adiadas.
Até o dia em que o adiamento acabasse.
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