sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: Leitura e frustração

 Nilo permaneceu olhando para o nome escrito na página. Elias. O velho parecia ter envelhecido ainda mais diante daquela palavra. Oren percebeu imediatamente. — Você conhece esse nome. O homem não respondeu. — Conhece? — insistiu Oren. O velho finalmente desviou os olhos do livro. — Conheço o suficiente para saber que vocês deveriam ir embora. Maela apertou a espada. — Depois de atravessarmos uma montanha inteira? Não. Viemos buscar respostas. — Vocês vieram buscar mortos. — Viemos buscar o Livro da Vida. — É a mesma coisa. Sira aproximou-se do pedestal. — Você disse que trouxe sua filha de volta. — Eu disse que a trouxe de volta. Não disse que a devolvi à vida. Sira ficou imóvel. — Qual é a diferença? O velho apontou para o livro. — Uma pessoa pode voltar sem estar viva. O silêncio caiu sobre todos. Kael deu um passo para trás. — Então o que você trouxe de volta? — Aquilo que eu não deveria ter trazido. O livro virou outra página sozinho. A imagem de uma menina apareceu sobre o papel. Pequena, sorrindo, correndo por um campo. Sira levou a mão à boca. O velho aproximou-se da página, mas não a tocou. — Minha filha morreu aos nove anos. Eu não aceitei. Passei décadas procurando uma maneira de vencer aquilo que todos chamavam de inevitável. Então encontrei este lugar. Encontrei o livro. E ele me ofereceu exatamente aquilo que eu queria. — Sua filha? — perguntou Maela. — Não. — O velho olhou para ela. — A possibilidade de acreditar que eu poderia tê-la de volta. A imagem mudou. A menina agora estava parada diante de uma casa. Parecia mais velha. Depois mais velha. Depois adulta. Depois velha. A sequência passou rapidamente até a imagem se desfazer. — Ela voltou. Respirava. Falava. Lembrava-se de mim. Mas havia algo errado. — O quê? — perguntou Kael. — Ela não lembrava da morte. — Isso parece bom — disse Kael. — Não. Porque ela também não lembrava da vida. O grupo ficou em silêncio. — Ela sabia meu nome. Sabia onde morávamos. Sabia coisas que somente minha filha saberia. Mas não tinha vontade própria. Não tinha sonhos. Não tinha medo. Não tinha esperança. Era como uma casa perfeitamente reconstruída depois de um incêndio, mas sem ninguém morando dentro. Oren aproximou-se. — Uma cópia. — Talvez. — Uma memória. — Talvez. — Um corpo animado. — Talvez. O velho olhou para o livro. — O problema é que nós insistimos em dar nomes às coisas que não compreendemos. O livro não traz “vida”. Ele responde ao desejo daquele que o abre. E o desejo humano é uma coisa perigosa. Nilo sentiu um arrepio. — Então por que alguém escreveu nele que queria trazer uma pessoa de volta? — Porque algumas pessoas não querem a verdade. Querem uma segunda chance. O livro fechou-se violentamente. O som ecoou pela sala. As tochas se reacenderam sozinhas. Na parede atrás do pedestal surgiu uma frase que não estava ali antes: A MORTE NÃO É UMA PORTA. Outra linha apareceu abaixo. E AQUILO QUE ATRAVESSA UMA PORTA QUE NÃO DEVERIA SER ABERTA NÃO É NECESSARIAMENTE AQUILO QUE ESTAVA DO OUTRO LADO. Sira ficou olhando para as palavras. — Então é impossível trazer alguém realmente de volta? O velho respondeu sem hesitar: — Não. É possível. Todos olharam para ele. — Então você pode trazer os nossos mortos? — perguntou Nilo. — Não. A resposta veio imediatamente. — Por quê? — Porque o livro não pode devolver aquilo que não lhe pertence. Oren franziu a testa. — Explique. — Existem mortos cuja existência ainda está presa ao mundo. Há outros cuja passagem foi concluída. O livro pode tocar os primeiros. Os segundos não podem ser alcançados. — E como sabemos quem é quem? O velho olhou para Nilo. — Não sabem. É justamente assim que a armadilha funciona. Nilo pensou em Raella. Pensou em Gillian. Pensou naquilo que ela havia dito antes da partida: Se o livro puder realmente trazer alguém de volta, descubram primeiro o preço. Então compreendeu. — Os Guardiões. O velho ficou em silêncio. — Viemos por causa deles — continuou Nilo. — Doze Guardiões. Pessoas que morreram protegendo fragmentos. Queremos saber se o livro poderia... O velho interrompeu: — Não. Nilo congelou. — Você nem sabe quem são. — Sei o suficiente. — Como? O velho olhou para as páginas fechadas. — Porque os mortos que vocês procuram já não estão aqui. Oren aproximou-se. — Você está dizendo que não podem ser ressuscitados? — Estou dizendo que, se esses Guardiões morreram como vocês dizem, então acabaram. Não existe página, ritual, fragmento, magia ou livro capaz de desfazer aquilo que já foi consumado. Maela olhou para Nilo. — Mas você não sabe quem eles são. — Não preciso saber. — O velho encarou os seis. — Há mortes que deixam uma ausência. E há mortes que encerram uma história. Vocês estão procurando pessoas que já entregaram aquilo que eram a algo maior do que seus próprios corpos. Não serão trazidas de volta. Nem por este livro. Nem por mim. Nem por ninguém. Kael abaixou lentamente a espada. — Então por que este lugar existe? O velho sorriu tristemente. — Porque os homens sempre desejaram aquilo que não podem possuir. O livro abriu novamente. Dessa vez, não havia nomes. Havia apenas uma frase: ESCOLHA UM. Sira deu um passo para trás. — Não. — O livro insistiu. ESCOLHA UM. As páginas começaram a mostrar os mortos de cada um. A mãe de Sira. O irmão de Maela. O pai de Tavian. O professor de Oren. Rostos conhecidos. Vozes antigas. Memórias esquecidas. Para Kael, porém, não apareceu ninguém. Apenas uma página branca. Ele ficou olhando para ela. — Por que não aparece ninguém para mim? O velho respondeu: — Porque você ainda não perdeu ninguém. Kael fechou os olhos. Pela primeira vez desde que haviam entrado naquela montanha, pareceu compreender que aquilo não era uma vantagem. Era uma ausência que ele ainda não sabia valorizar. Nilo então viu outro rosto. Seu sangue gelou. Era Selma. A arqueira da expedição que morrera no outro livro. Depois apareceram Garran. Varek. Dorian. Havel. Todos mortos no salão do Livro da Morte. Nilo deu um passo para trás. — Não... O livro mostrou Selma sorrindo. — Isso não é real — disse Nilo. — Não — confirmou o velho. — Mas é suficiente. — Para quê? — Para descobrir se você prefere a verdade ou aquilo que deseja que seja verdade. Nilo olhou para a imagem de Selma. Ela parecia viva. Exatamente como antes de entrar naquela masmorra. — Se eu escolher... — Você receberá alguma coisa. — Ela? — Talvez. — Talvez? — O livro nunca promete aquilo que você entende. Ele promete aquilo que você deseja. Nilo fechou os punhos. Então lembrou-se de Raella. Lembrou-se de Gillian. Lembrou-se de Ikarus, embora jamais tivesse conhecido pessoalmente o peso que aquele homem carregava. Lembrou-se de todos os Guardiões que haviam morrido. E compreendeu que trazer qualquer um deles de volta significaria tentar apagar uma parte da história que já havia acontecido. — Não vou escolher. O livro parou. As imagens desapareceram. Sira respirou aliviada. Maela guardou a espada. Oren encarou o velho. — Então para que viemos? O velho apontou para o livro. — Para descobrir que a Vida não é o poder de impedir a Morte. Nilo aproximou-se do pedestal. — E qual é o poder deste livro? O velho respondeu: — Mostrar até onde vocês estão dispostos a ir para negar aquilo que perderam. Nilo estendeu a mão. — Então vamos levá-lo. Pela primeira vez, o velho pareceu assustado. — Não. — Raella pediu que trouxéssemos o livro. — Raella não sabe o que está pedindo. — Talvez. Mas precisa saber. Nilo segurou a capa branca. Ela estava quente. Quente como pele humana. O velho tentou impedir. — Se levar esse livro daqui, ele continuará fazendo perguntas. — Então responderemos. — E cada resposta terá um preço. Nilo levantou o livro. A montanha inteira tremeu. Uma rachadura abriu-se no teto. Poeira branca caiu sobre eles. Oren gritou: — Temos que sair! Todos correram para a porta. Nilo segurava o livro contra o peito. Quando atravessou o limiar, ouviu uma última voz atrás dele. Não era a voz do velho. Era uma voz muito mais profunda. — Um livro foi levado. Um livro permanece. Agora os dois sabem um do outro. Nilo parou por um instante. Olhou para trás. A cadeira estava vazia. O velho havia desaparecido. E sobre o chão branco, onde ele estivera, havia apenas uma marca negra. Um símbolo que Oren reconheceu imediatamente. O mesmo símbolo que aparecera no Livro da Morte. Os dois livros não eram iguais. Mas pertenciam à mesma história. E, em algum lugar muito distante dali, dentro de uma masmorra esquecida, o Livro da Morte abriu sozinho uma nova página. Pela primeira vez, apareceu uma frase que não havia sido escrita por nenhuma mão humana: VIDA FOI ENCONTRADA. E abaixo dela surgiu outra: AGORA COMEÇA A CONTAGEM.

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