sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'heim — AQUILO QUE EXISTE ANTES DA MORTE



Tum.


Angarkor não se moveu.


Tum.


A neve continuava caindo.


Tum.


Dessa vez, porém, ele ouviu outra coisa.


Uma voz.


Muito distante.


Tão distante que parecia vir de dentro da própria montanha.


— Angarkor...


Os olhos vermelhos se estreitaram.


Ele conhecia aquela voz.


Não porque já a tivesse ouvido antes.


Mas porque havia passado séculos tentando esquecê-la.


— Não — murmurou.


A voz repetiu:


— Angarkor...


O chão sob seus pés estremeceu.


Uma fina rachadura surgiu no gelo.


Angarkor olhou para ela.


Não era uma rachadura comum.


Não havia profundidade.


Não havia fundo.


Do outro lado dela não existia pedra.


Existia escuridão.


Uma escuridão tão absoluta que até os olhos de Angarkor pareciam incapazes de atravessá-la.


Ele deu um passo para trás.


Então ouviu passos.


O jovem cego estava voltando.


— Eu sabia — disse o rapaz.


Angarkor virou-se.


— Sabia o quê?


— Que você ouviria.


— Você sabia que isso aconteceria?


— Eu sabia que aconteceria quando você chegasse perto.


Angarkor permaneceu imóvel.


— Quem é você?


O rapaz não respondeu imediatamente.


Apenas caminhou até a rachadura.


Ajoelhou-se.


Passou a mão sobre o gelo.


E imediatamente a rachadura desapareceu.


Angarkor observou.


— Você fechou a porta.


— Não.


— Então o que fez?


— Pedi para ela esperar.


Angarkor deu um passo à frente.


— Você não deveria ser capaz de fazer isso.


O rapaz sorriu.


— E você não deveria estar vivo.


Silêncio.


Aquela resposta atingiu Angarkor de maneira diferente.


— Quem lhe contou meu nome?


— Ninguém.


— Então como sabe?


— Eu ouvi.


— O quê?


— A morte.


Angarkor ficou olhando para ele.


— Você fala como se a morte fosse uma pessoa.


— Para você, talvez seja.


— Para mim?


— Você morreu quando perdeu sua família.


Angarkor fechou os punhos.


O gelo ao redor de seus pés começou a rachar.


— Não fale sobre eles.


— Por quê?


— Porque você não sabe nada sobre eles.


— Sei mais do que você imagina.


Angarkor desapareceu.


Num instante estava diante do rapaz.


A mão fechada parou a poucos centímetros de seu rosto.


O ar se deformou.


A neve deixou de cair.


Os flocos ficaram suspensos no espaço.


O mundo inteiro parecia ter parado.


Mas o jovem continuou respirando tranquilamente.


— Você poderia me matar — disse.


Angarkor olhou para ele.


— Poderia.


— Então faça.


O homem não respondeu.


— Por que não faz?


— Porque você não está com medo.


— Estou.


— Não parece.


— Medo não é correr.


— Então o que é?


O rapaz levantou o rosto.


— Saber que alguma coisa pode destruí-lo e continuar parado.


Angarkor baixou lentamente a mão.


— Você não é humano.


— Fui.


A palavra ficou suspensa entre os dois.


Angarkor estreitou os olhos.


— Fui?


— Há muito tempo.


— Quanto tempo?


— Antes de os Doze receberem seus nomes.


Angarkor não respondeu.


Pela primeira vez naquela noite, o jovem parecia estar diante de alguém que realmente conseguia surpreender.


— Você conheceu os Doze?


— Conheci aquilo que existia antes deles.


O rosto de Angarkor mudou.


— A Primeira Ordem.


O rapaz sorriu.


— Esse é o nome que eles deram.


— Então é verdade.


— Depende do que você chama de verdade.


Angarkor caminhou alguns passos.


— O que você é?


O jovem tocou os próprios olhos.


— Eu fui feito para ver.


— E nasceu cego?


— Não.


— Então?


— Eu pedi para ficar cego.


Angarkor parou.


— Por quê?


— Porque enxergar era pior.


— O que você viu?


O rapaz ficou em silêncio.


Depois respondeu:


— O mundo sem a mentira que o mantém inteiro.


Angarkor olhou para as montanhas.


— Explique.


— Você vê uma pedra.


— Sim.


— Eu vejo aquilo que existia antes da pedra.


— Uma montanha?


— Não.


— Então o quê?


— Possibilidades.


Angarkor ficou em silêncio.


O rapaz continuou:


— Toda coisa que existe carrega consigo aquilo que poderia ter sido.


— Você vê todas as possibilidades?


— Via.


— E agora?


— Agora vejo apenas o necessário.


— Por que arrancou sua própria visão?


— Porque descobri que saber todos os caminhos não significa saber qual deles deve ser escolhido.


Angarkor sorriu.


— Então você é um vidente.


— Não.


— Um profeta?


— Também não.


— O que, então?


O rapaz respondeu:


— Uma testemunha.


Angarkor franziu a testa.


— Testemunha de quê?


O jovem levantou o rosto para o céu.


— Do primeiro erro.


A expressão de Angarkor endureceu.


— O que foi o primeiro erro?


— Criar alguma coisa que pudesse perguntar por que foi criada.


O silêncio voltou.


A neve caiu.


Uma lua apareceu novamente entre as nuvens.


— Você está dizendo que os Hunens cometeram um erro?


— Não.


— Então quem?


— Aquele que veio antes deles.


Angarkor não gostou da resposta.


— Ele.


O rapaz assentiu.


— Ele.


— Você o viu?


— Sim.


— E sobreviveu?


— Não.


Angarkor ficou imóvel.


— Então quem está falando comigo?


O rapaz sorriu.


— Uma coisa que não deveria ter sobrevivido.


Angarkor olhou para os olhos cegos do jovem.


— Você morreu.


— Sim.


— E voltou.


— Não.


— Então?


O jovem aproximou-se dele.


— Eu nunca voltei.


Angarkor finalmente entendeu.


Ou pensou ter entendido.


— Você está preso.


— Todos estão.


— Onde?


O jovem apontou para o chão.


— Aqui.


Angarkor olhou para baixo.


— Baltamus?


— Não.


— O mundo?


— Não.


— Então onde?


O rapaz respondeu:


— Na primeira decisão.


Angarkor ficou em silêncio.


— Tudo o que existe — continuou o jovem — existe porque alguma coisa decidiu que deveria existir.


— E aquilo que não existe?


— Continua esperando.


Angarkor olhou novamente para a rachadura.


— Atrás daquela porta?


— Não.


— Então onde?


— Dentro dela.


Angarkor recuou.


— Você está dizendo que a porta não leva até aquilo.


— Não.


— Então o que ela faz?


— Mantém aquilo aqui.


Angarkor ficou completamente imóvel.


— Você quer dizer...


— Sim.


— A porta não é uma passagem.


— Não.


— É uma prisão.


O rapaz assentiu.


— Finalmente.


Angarkor olhou para a montanha.


Durante séculos, ele acreditara que a Costura, a realidade distorcida, os Hunens e os mortos eram os limites daquilo que poderia existir.


Mas agora compreendia.


A porta que Elias encontrara não levava para outro mundo.


Ela era a barreira entre o mundo e aquilo que jamais deveria ter recebido existência.


— O que está atrás dela?


O rapaz respondeu:


— Você.


Angarkor ficou imóvel.


— Eu?


— Não você como Angarkor.


O rapaz tocou o peito dele.


— Aquilo que você se tornou.


Angarkor afastou sua mão.


— Não diga esse nome.


— Qual?


— Korangar.


O rapaz sorriu.


— Então você ainda se lembra.


Angarkor virou o rosto.


— Eu não sou ele.


— Não.


— Ele morreu.


— Sim.


— Eu o destruí.


— Não.


Angarkor olhou novamente para o jovem.


— O que você quer dizer?


— Você não destruiu Korangar.


Pausa.


— Você o libertou.


As duas luas desapareceram novamente.


A neve parou.


Angarkor respirou fundo.


— Explique.


— Korangar não era o Caos.


— Ele era o Avatar do Caos.


— Era assim que os Doze o chamavam.


— Então o que ele era?


O rapaz respondeu:


— Uma porta.


Angarkor ficou em silêncio.


— O Caos não precisava de um Avatar — continuou o jovem. — Precisava de uma forma de entrar.


— E Korangar...


— Foi a primeira forma.


Angarkor fechou os olhos.


Memórias começaram a surgir.


Ragnarok.


Violet.


Seus filhos.


A guerra.


O sangue.


A raiva.


A dor.


O instante em que algo dentro dele despertou.


A voz.


A transformação.


Angarkor abriu os olhos.


— Então minha dor...


— Foi a chave.


— Não.


— Sim.


— Minha família morreu por causa deles.


— Talvez.


— Eu fui destruído por eles.


— Sim.


— Então por que você está dizendo que eu fui a porta?


O jovem respondeu calmamente:


— Porque o que entrou em você precisava de uma ferida.


Angarkor olhou para o próprio peito.


— E agora?


— Agora a ferida aprendeu a andar.


Angarkor permaneceu imóvel.


Então começou a rir.


Baixo.


Quase imperceptível.


Depois mais alto.


A neve começou a subir do chão.


— Você sabe o que isso significa?


— Sei.


— Então você sabe que não tenho mais motivo para temer nada.


O jovem ficou sério.


— É exatamente isso que me preocupa.


Angarkor parou de rir.


— Por quê?


— Porque você acha que não tem nada a perder.


— Não tenho.


— Tem.


— O quê?


O jovem respondeu:


— Você mesmo.


Angarkor ficou olhando para ele.


— Eu não existo para mim.


— Esse é o problema.


A montanha tremeu.


Uma fissura surgiu novamente no gelo.


Desta vez, porém, não foi pequena.


Ela atravessou toda a encosta.


Um som profundo veio das profundezas.


Tum.


Angarkor olhou para a rachadura.


Tum.


O jovem ajoelhou-se.


Tum.


Ele colocou as duas mãos sobre o gelo.


— Não.


Angarkor perguntou:


— O que aconteceu?


O rapaz respondeu:


— Ele acordou.


— Quem?


O jovem levantou lentamente a cabeça.


Pela primeira vez desde que Angarkor o conhecera, havia medo em sua voz.


— Aquilo que eu passei milhares de anos tentando esquecer.


Angarkor aproximou-se.


— Diga o nome.


— Não posso.


— Por quê?


— Porque nomes dão forma às coisas.


— Então não diga.


O jovem respirou profundamente.


— Ele já tem uma forma.


Angarkor ficou imóvel.


— Qual?


O rapaz apontou para ele.


— A sua.


Angarkor sentiu alguma coisa dentro do peito.


Não era dor.


Não era medo.


Era reconhecimento.


Uma segunda presença.


Muito antiga.


Muito profunda.


Muito familiar.


A voz voltou.


Dessa vez não veio da montanha.


Veio de dentro dele.


— Korangar.


Angarkor caiu de joelhos.


O jovem cego fechou os olhos.


— Agora você entende.


Angarkor segurou a própria cabeça.


— Não...


— Ele nunca foi embora.


— NÃO!


A realidade explodiu ao redor deles.


As árvores foram arrancadas do solo.


A neve subiu aos céus.


As montanhas se partiram.


O rio congelado abriu-se em centenas de quilômetros.


E, durante um único instante, toda Baltamus viu uma coisa impossível:


dois céus.


Um sobre o outro.


Um pertencente ao mundo.


Outro pertencente àquilo que existia antes dele.


Angarkor levantou-se.


Seus olhos brilhavam em vermelho.


Mas havia algo diferente neles.


Uma pequena luz branca.


Exatamente como a dos olhos cegos do rapaz.


— Você sabia — disse Angarkor.


O jovem assentiu.


— Desde o começo.


— Por que me contou?


— Porque chegou a hora de escolher.


— Escolher o quê?


O jovem levantou-se.


— Se você será a porta...


Pausa.


— ...ou aquele que vai fechá-la.


Angarkor olhou para ele.


— E se eu escolher abri-la?


O jovem respondeu:


— Então o mundo morrerá.


Angarkor sorriu.


— E se eu fechá-la?


O rapaz ficou em silêncio.


— Então eu morrerei.


Angarkor parou.


— Você?


— Sim.


— Por quê?


O jovem tocou novamente os próprios olhos.


— Porque eu não sou o guardião da porta.


Ele sorriu.


— Eu sou a última coisa que ela ainda mantém presa.


Angarkor não respondeu.


O jovem começou a desaparecer.


Primeiro os pés.


Depois as pernas.


Depois o corpo.


— Espere.


O rapaz olhou para ele.


— Qual é seu nome verdadeiro?


O jovem sorriu.


E finalmente respondeu:


— Ninguém me deu um nome.


Seu corpo continuou desaparecendo.


— Porque antes de existirem os Doze...


Apenas seu rosto permanecia.


— ...eu era aquilo que eles chamaram de Primeira Testemunha.


Então desapareceu.


Angarkor ficou sozinho.


A rachadura no gelo fechou.


O mundo voltou ao normal.


A neve voltou a cair.


Mas Angarkor não se moveu.


Porque agora ele sabia a verdade.


O jovem não era um mensageiro.


Não era um profeta.


Não era um Hunen.


Não era sequer um deus.


Era algo muito pior.


Era a única testemunha viva do nascimento da realidade.


E, pela primeira vez desde que havia se tornado Angarkor, ele compreendeu por que Elias havia encontrado a porta.


E compreendeu também por que os Hunens tinham tanto medo dela.


Porque aquilo que estava atrás da porta não queria destruir Ad’Heim.


Não queria governá-lo.


Não queria matar os mortais.


Queria apenas uma coisa.


Voltar para casa.


E a única casa que aquela coisa conhecia...


era o lugar onde nada ainda existia.


Angarkor ergueu os olhos para as duas luas.


— Então é isso...


Um sorriso lentamente surgiu em seu rosto.


— Você não quer destruir o mundo.


Ele abriu a mão.


Uma pequena distorção apareceu sobre sua palma.


— Você quer desfazê-lo.


A distorção aumentou.


E, muito abaixo das montanhas de Baltamus, algo respondeu:


Tum.


Angarkor fechou a mão.


— Então venha.


Pela primeira vez em séculos, ele não estava falando com o mundo.


Estava falando com aquilo que existia antes dele.


— Mas se você quiser atravessar...


Os dois katares surgiram lentamente em suas mãos.


Negros.


Silenciosos.


Perfeitamente imóveis.


— ...vai ter que passar por mim primeiro.

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