sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad’Heim: O Que Não Pode Ser Cortado

 

A noite caiu sobre Lenória Imperial como uma segunda camada de escombros.

Não havia mais tochas suficientes para iluminar todas as ruínas. As que ainda queimavam faziam-no com chama baixa e amarelada, como se a própria fogo hesitasse em permanecer naquela cidade que já havia perdido demais. O vento vinha do mar carregando cheiro de sal e de carne queimada. Em algum lugar distante, além das muralhas improvisadas, algo uivava — não lobo, não homem. Algo que ainda não havia aprendido a nomear a própria dor.


Ikarus permaneceu sozinho no que restava do salão de mapas.


A mesa estava coberta por pergaminhos rasgados, carvão e manchas escuras que ninguém se dera ao trabalho de limpar. A aura azul-dourada ao redor de seu corpo pulsava em ritmo lento, quase cansado. Desde que herdara o residual de Ranur, o poder não o abandonava mais. Nem quando dormia. Nem quando tentava esquecer. Ele sentia a presença dourada como um segundo coração batendo ao lado do seu — um coração que não pertencia a ele, mas que agora recusava a morrer.


Gillian entrou sem bater.


Ela ainda usava a armadura consertada. O braço esquerdo, embora já não estivesse quebrado, carregava uma rigidez que não existia antes. A espada estava na cintura, como sempre. Os olhos, porém, estavam mais escuros.


— Você não comeu — disse ela.


Não era acusação. Era observação.


Ikarus não respondeu de imediato. Continuou olhando para o mapa de Baltamus, onde as geleiras eram representadas por manchas brancas que agora pareciam sujas.


— Não tenho fome.


— Mentira.


Gillian se aproximou. Pegou um pedaço de pão duro da beirada da mesa e colocou na frente dele.


— Coma. Ou eu te forço. E eu não estou de brincadeira.


Ele olhou para ela. Havia algo na forma como Gillian ocupava o espaço agora que não existia nos primeiros dias do grupo. Não era apenas a experiência de combate. Era o peso de quem já carregara corpos de amigos e continuara andando. Rickson. Jetto. Derek. A lista crescia, e ela ainda estava de pé.


Ikarus pegou o pão. Mastigou sem gosto.


— Thomas mandou mensagem — disse ele depois de um tempo. — Curta. Direta. Como ele.


— O que disse?


— Que Aldora está sob controle. Que as facções restantes se renderam ou morreram. Que o deserto agora tem um rei. E que… se precisarmos dele, ele virá. Mas não agora.


Gillian assentiu lentamente.


— Ele está certo em não vir. Se deixar Aldora sozinha agora, perde tudo o que conquistou. E nós precisamos de Aldora. Mesmo que seja só pelo nome.


Raella apareceu na porta momentos depois. O manto cerimonial ainda estava rasgado, mas ela o usava como se tivesse se tornado parte da pele. O cabelo estava preso de forma prática. Os olhos, no entanto, carregavam o cansaço de quem passara o dia inteiro ouvindo pedidos, reclamações e medo.


— O povo está inquieto — disse ela sem preâmbulo. — Querem saber quando as muralhas voltarão a ser muralhas de verdade. Querem saber se o Grifo voltará. Querem saber se o novo rei e a nova rainha têm um plano além de sobreviver o próximo inverno.


Ikarus ergueu o olhar.


— E o que você respondeu?


— Que estamos trabalhando. Que Lenória não morreu. Que ainda há sangue antigo nas veias desta terra. — Raella se sentou em uma cadeira rachada. — Mas eles não querem palavras. Querem segurança. E segurança é a única coisa que não podemos prometer.


O silêncio se instalou entre os três.


Era um silêncio diferente do que existira entre eles nos primeiros dias. Naquela época, o silêncio era de desconhecimento. Agora era de peso compartilhado. Cada um carregava os mortos de forma diferente. Ikarus carregava a responsabilidade de não ter sido rápido o suficiente. Gillian carregava a culpa de ter sobrevivido quando outros não. Raella carregava o povo inteiro nas costas, e o povo era pesado.


Foi Gillian quem quebrou o silêncio.


— Precisamos falar sobre ele.


Ninguém perguntou quem.


Angarkor.


O nome pairava sobre a mesa como uma lâmina que ninguém ousava tocar.


Ikarus apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou os dedos. A aura ao redor dele tremeu levemente.


— Ele distorce a realidade — disse, a voz baixa. — Não é metáfora. Não é exagero. Eu vi. Durante o duelo. O chão sob os pés dele não obedecia às mesmas regras que o chão sob os nossos. O tempo… hesita perto dele. Há momentos em que um segundo dura demais. Outros em que três movimentos acontecem no espaço de um só. E o espaço… o espaço se curva. Eu tentei cortá-lo. A lâmina chegou. Mas não chegou onde eu queria. Chegou onde ele permitiu.


Raella franziu o cenho.


— Você o feriu.


— Sim. No ombro. Uma ferida real. Ele sentiu. Mas… — Ikarus fechou os olhos por um instante. — Foi como cortar água com uma faca. A água se separa. Depois se junta de novo. Ele não é invulnerável. Mas está tão além de qualquer escala que conhecemos que a diferença praticamente desaparece.


Gillian bateu o punho levemente na mesa.


— Então como se luta contra alguém assim?


— Não se luta — respondeu Ikarus. — Não da forma que lutamos até agora. Contra mortos-vivos, contra criaturas, contra até mesmo Guardiões… havia regras. Havia limites. Angarkor não tem limites que nós compreendamos. Ele carrega dois katares na maior parte do tempo. Às vezes uma espada. Não importa a arma. A arma é só o veículo. O que realmente luta é a distorção.


Raella passou a mão pelo rosto.


— E Vaelthas Levi?


— Observa. Sempre observa. Angarkor é a mão. Vaelthas é a vontade. Enquanto um existir, o outro tem propósito.


O vento uivou mais forte lá fora. Uma das tochas do corredor se apagou.


Gillian se levantou e caminhou até a janela sem vidro. Lá embaixo, alguns soldados improvisados patrulhavam com lanças quebradas e armaduras incompletas. Uma criança chorava em algum lugar. O choro foi abafado rapidamente, como se alguém tivesse colocado a mão sobre a boca da criança por medo de atrair atenção.


— Derek morreu tentando comprar tempo — disse Gillian, de costas para eles. — Rickson morreu acreditando que ainda havia esperança para Aldora. Jetto morreu porque a floresta não perdoa hesitação. Ranur morreu para nos dar uma chance. Oberon morreu defendendo um trono que já não existia. — Ela se virou. Os olhos estavam secos, mas a voz tremia levemente. — E nós estamos aqui. Discutindo mapas. Comendo pão duro. Usando coroas que não pedimos.


Ikarus se levantou também.


A aura azul-dourada se expandiu, iluminando o rosto cansado das duas mulheres e as paredes manchadas de fuligem.


— Eu sei — disse ele. — Eu carrego cada um deles. Cada nome. Cada ausência. Mas se pararmos agora, o que sobrou deles morre de verdade. Não só o corpo. A memória. O propósito.


Raella olhou para ele por um longo momento.


— Você está mudando — observou. — Não só o poder. Você.


— Todos nós estamos.


Ela assentiu lentamente.


— Então diga a verdade. Sem o peso de rei. Sem o peso de filho de Hunen. Sem o residual de Guardião. Só você. Acredita que temos alguma chance real contra Angarkor?


Ikarus demorou a responder.


Quando falou, a voz saiu baixa, quase um sussurro.


— Não.


A palavra caiu no meio da sala como uma pedra em água parada.


— Não da forma que lutamos até agora — continuou. — Não com força. Não com números. Não com coragem. Ele está em outro nível. O máximo que conseguimos foi feri-lo e sobreviver o suficiente para fugir. Isso não é vitória. É adiamento.


Gillian cruzou os braços.


— Então o que sobra?


Ikarus olhou para o mapa novamente. As geleiras de Baltamus. A Costura. Os reinos ainda em pé. As coroas recém-erguidas.


— Sobram escolhas — disse. — Sobram alianças que ainda não fizemos. Sobram Guardiões que ainda não despertaram completamente. Sobram poderes antigos que ainda não compreendemos. E sobra… tempo. Pouco. Mas sobra.


Raella se levantou.


— Então usamos o tempo. Consolidamos o que temos. Estabilizamos Lenória. Mantemos contato com Thomas. Buscamos os outros Guardiões. E quando Angarkor vier de novo — porque ele virá — não estaremos sozinhos. E não estaremos despreparados da mesma forma.


Gillian assentiu, embora o rosto ainda estivesse tenso.


— E a profecia? O filho?


O silêncio voltou, mais pesado desta vez.


Ikarus olhou para Gillian. Depois para Raella. A aura ao redor dele tremeu, como se o próprio poder hesitasse diante daquele assunto.


— Kallon não deu prazos — disse com cuidado. — Mas cada dia que passa, a pressão aumenta. Eu não vou forçar nada. Nem o destino. Nem vocês. Quando… se… isso acontecer, será porque escolhemos. Não porque fomos empurrados.


Gillian segurou o olhar dele por um longo segundo. Depois desviou.


— Eu não sou pedra — murmurou. — E não sou útero a serviço de uma guerra. Mas também não sou covarde. Quando chegar a hora… conversamos de novo. Com os olhos abertos.


Raella colocou a mão no ombro de Gillian por um instante. Um gesto simples. Humano. Necessário.


Lá fora, o vento trouxe um som diferente.


Não era uivo.


Não era grito.


Era algo mais sutil. Como o tecido da realidade sendo esticado, muito longe, nas geleiras. Um aviso. Uma promessa.


Angarkor ainda não se movia em direção a eles.


Mas o mundo ao redor dele já começava a lembrar que ele existia.


Ikarus sentiu o residual de Ranur reagir dentro do peito — uma faísca dourada de alerta. A água em um balde próximo tremeu. O tempo, por um instante imperceptível, pareceu hesitar.


Ele olhou para as duas mulheres que agora compartilhavam com ele o peso de coroas que nenhum dos três havia pedido.


— Descansem — disse. — Amanhã o trabalho continua. As muralhas. Os feridos. Os planos. E a preparação para o que não pode ser cortado.


Gillian foi a primeira a sair.


Raella demorou um segundo a mais. Olhou para Ikarus como quem mede a distância entre o homem que conhecera e o que ele estava se tornando.


— Não carregue tudo sozinho — disse baixinho. — Nenhum de nós sobrevive a isso sozinho.


Depois ela também saiu.


Ikarus ficou no salão de mapas.


Sozinho com as mortes.


Sozinho com as coroas.


Sozinho com a certeza de que, em algum lugar nas geleiras de Baltamus, um guerreiro que distorcia a realidade, o tempo e o espaço segurava dois katares e esperava.


E pela primeira vez desde que herdara o poder de Ranur, Ikarus admitiu, em silêncio absoluto, a verdade mais simples e mais terrível de todas:


Eles ainda não sabiam como vencer.


Apenas como adiar.


E o adiamento, em Ad’Heim, nunca durava para sempre.

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