Valeth era diferente de Gallen. Enquanto o reino dos cavaleiros vivia cercado por fortalezas, muralhas e tradições militares, Valeth se estendia por vastas terras férteis onde campos dourados acompanhavam rios tranquilos e pequenas aldeias surgiam entre plantações, pastos e colinas. Era uma terra próspera, conhecida por seus rebanhos, seus agricultores e pela abundância que fazia seus habitantes dizerem que os próprios deuses haviam escolhido aquele lugar para descansar. Ao norte, o clima tornava-se mais frio; ao sul, as estradas levavam em direção às regiões montanhosas que separavam Valeth de outros reinos. E acima de tudo aquilo havia um símbolo que aparecia em estandartes, escudos, moedas e templos: a águia. Para os habitantes de Valeth, ela representava liberdade. Mas para um homem, a águia significava algo diferente. Significava vigilância. Seu nome era Aren.
Aren nasceu em uma pequena aldeia agrícola distante de Gilleth, muito antes de qualquer pessoa saber que ele seria escolhido para guardar um dos doze fragmentos. Seu pai criava cavalos e seu avô cultivava trigo. Sua mãe cuidava dos animais e das crianças da aldeia. Aren cresceu entre campos abertos, cavalos e montanhas distantes. Desde menino, tinha o hábito de subir até o topo de uma colina atrás da propriedade e permanecer ali durante horas observando o horizonte. Sua mãe costumava perguntar por que ele fazia aquilo. Ele sempre respondia da mesma maneira: — Porque daqui consigo enxergar quando alguém precisa de ajuda.
Aos dezessete anos, Aren deixou a aldeia pela primeira vez. Não para lutar, nem para buscar riqueza. Foi até Gilleth para vender os cavalos de seu pai. A cidade o impressionou. Mercadores chegavam pelo porto de Tollan, caravanas atravessavam as estradas e soldados protegiam as rotas comerciais. Mas foi durante aquela viagem que Aren percebeu algo que jamais esqueceria. Em uma praça, encontrou uma mulher idosa tentando levantar sozinha uma carroça que havia tombado. Dezenas de pessoas passavam ao redor dela. Ninguém parava. Aren parou. Ajudou-a. Depois consertou a roda. Quando terminou, a mulher perguntou: — Por que você fez isso? Aren respondeu: — Porque eu vi.
A mulher sorriu. — Então continue olhando.
A frase permaneceu com ele durante toda a vida.
Aren voltou à aldeia. Casou-se alguns anos depois com uma mulher chamada Elian, filha de um criador de ovelhas. Tiveram dois filhos, Darel e Nessa. Durante décadas, Aren viveu uma vida simples. Nunca se tornou rei. Nunca comandou um exército. Nunca procurou fama. Era conhecido apenas como um homem que aparecia quando alguém precisava dele. Se uma família perdia a colheita, Aren ajudava. Se uma ponte quebrava, ele organizava os homens para reconstruí-la. Se bandidos ameaçavam uma caravana, ele acompanhava os viajantes até Gilleth. Aos poucos, começou a ser chamado de Olho de Valeth.
Mas ninguém sabia que, durante todas aquelas décadas, Aren carregava uma culpa.
Quando tinha vinte e oito anos, uma caravana havia desaparecido nas montanhas ao norte. Aren havia sido avisado. Poderia ter acompanhado os viajantes. Não foi. Pensou que outro grupo de guardas faria aquilo. Dias depois, encontraram os corpos. Entre eles estava um garoto de apenas oito anos.
Aren nunca esqueceu seu nome.
Tomas.
A partir daquele dia, passou a acreditar que enxergar o perigo não era suficiente. Era preciso agir antes que ele chegasse.
Foi muitos anos depois que a águia apareceu.
Aren já tinha cabelos grisalhos quando subiu novamente àquela antiga colina onde costumava observar o horizonte durante a infância. O céu estava completamente limpo. Nenhuma nuvem cobria Valeth. Os campos abaixo pareciam infinitos. Então uma sombra passou sobre ele.
Aren levantou os olhos.
Uma águia gigantesca voava sobre a colina.
Não era uma águia comum. Suas penas eram brancas nas pontas e douradas junto ao corpo. Seus olhos brilhavam como ouro. Ela deu três voltas sobre Aren e pousou diante dele.
Aren não se moveu.
— Você demorou — disse.
A águia abriu as asas.
O vento explodiu ao redor da colina.
Aren caiu de joelhos.
Uma voz surgiu dentro de sua mente.
“Você passou a vida olhando para o horizonte.”
Aren ergueu a cabeça.
“Agora deverá proteger aquilo que existe além dele.”
Uma luz dourada desceu do céu.
Quando desapareceu, uma armadura estava diante de Aren.
Era completamente dourada, mas diferente das armaduras dos outros Guardiões. As placas lembravam penas sobrepostas. Um longo manto branco caía sobre seus ombros, com detalhes dourados nas bordas. No peito estava gravado o símbolo da águia.
E, ao lado da armadura, havia uma espada longa.
Aren não tocou nela.
— Quem é você?
A voz respondeu:
“Sou aquilo que observa quando todos dormem.”
Então o céu escureceu.
A gigantesca águia desceu novamente.
Desta vez, porém, ela não parecia uma ave.
Seu corpo começou a crescer.
As asas se abriram até cobrirem metade do horizonte. Suas garras tocaram o solo. O bico tornou-se maior. Seus olhos dourados brilhavam como duas luas. Quando terminou sua transformação, diante de Aren estava uma criatura colossal, uma Águia de Valeth, grande o suficiente para carregar dezenas de homens sobre suas costas.
Aren finalmente tocou a espada.
E naquele instante recebeu a verdade.
Não seria guardião para sempre.
Um dia, alguém viria.
Esse alguém carregaria fragmentos de outros Guardiões.
E esse alguém precisaria matá-lo.
Aren perguntou:
— E se eu me recusar?
A voz respondeu:
“Então outro será escolhido.”
Aren olhou para a espada.
— E se eu aceitar?
“Então protegerá o fragmento até o dia em que sua vida for o preço para entregá-lo.”
Aren fechou os olhos.
Pensou em Elian.
Pensou em Darel.
Pensou em Nessa.
Pensou no menino Tomas.
Pensou em todos aqueles que havia tentado proteger durante sua vida.
Então respondeu:
— Eu aceito.
A armadura dourada envolveu seu corpo.
A Águia de Valeth soltou um grito que atravessou todo o reino.
Naquele dia, uma nova lenda nasceu.
Aren desapareceu da vida pública.
Sua família recebeu apenas uma mensagem dizendo que ele havia partido para uma missão que não poderia explicar.
Elian esperou.
Durante um ano.
Depois dois.
Depois cinco.
Até que compreendeu que o homem que amava havia se tornado parte de algo que ela jamais conseguiria conhecer.
Aren, porém, continuou vivo.
Durante décadas, permaneceu em uma antiga fortaleza construída no ponto mais alto das montanhas que separavam Valeth de Gallen.
Dali conseguia enxergar quilômetros de distância.
Nenhum exército atravessava aquelas terras sem que ele soubesse.
Nenhuma caravana desaparecia sem que ele investigasse.
Nenhuma criança perdida permanecia sozinha por muito tempo.
E assim o Guardião da Águia cumpriu sua função.
Mas havia uma coisa que Aren nunca conseguiu impedir.
O tempo.
Seus filhos envelheceram.
Seus netos nasceram.
Sua esposa morreu.
Depois seus filhos morreram.
E seus netos também envelheceram.
Aren continuou.
A armadura dourada não envelhecia.
Seu corpo, entretanto, continuava sendo humano.
Quando recebeu a notícia de que sua última neta havia morrido, Aren subiu até o ponto mais alto da fortaleza e ficou olhando Valeth durante toda a noite.
A Águia pousou ao seu lado.
— Quantos ainda virão? — perguntou Aren.
A criatura não respondeu.
— Quantos terei de ver morrer?
Silêncio.
Aren sorriu tristemente.
— Entendi.
Ele continuou observando o horizonte.
Então percebeu algo.
Muito distante.
Além das montanhas.
Uma presença.
Não era um exército.
Não era uma criatura.
Era uma pessoa.
Aren fechou os olhos.
Durante décadas, havia esperado aquele momento.
A voz que um dia o havia escolhido voltou a ecoar dentro de sua mente.
“O portador chegou.”
Aren abriu os olhos.
A Águia de Valeth abriu suas enormes asas.
O Guardião ergueu a espada dourada.
E, pela primeira vez em muitos anos, sorriu.
— Então finalmente chegou a hora.
Muito abaixo da fortaleza, as aldeias de Valeth continuavam vivendo sem saber o que estava prestes a acontecer.
As crianças brincavam nos campos.
Os agricultores trabalhavam.
Os cavalos corriam pelas planícies.
E, no alto da montanha, o quinto Guardião aguardava.
Não como um rei.
Não como um herói.
Mas como um homem que já havia perdido tudo aquilo que amava e que agora precisava entregar a própria vida para proteger o último dever que lhe restava.
A Águia de Valeth ergueu voo.
Seu grito ecoou pelas montanhas.
E o quinto fragmento começou a despertar.
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