Três anos haviam passado desde que Ikarus deixara sua casa. Três anos desde a última vez que segurara Eiran nos braços. Naquela época, seu filho ainda era pequeno demais para compreender que o homem que o carregava nos braços estava prestes a partir para uma jornada da qual talvez jamais retornasse. Agora Eiran já caminhava, já falava, já começava a formar suas próprias lembranças. E Ikarus não estava lá para nenhuma delas. Durante três anos, o mundo havia mudado. E ele também. A estrada até Valeth atravessava campos cada vez mais extensos. Depois das montanhas de Gallen, a paisagem se abriu diante dele como um mar verde e dourado. Plantações cobriam as colinas, rebanhos pastavam nos vales e pequenas aldeias apareciam ao longo das estradas. Pela primeira vez em muito tempo, Ikarus encontrou um reino que parecia não estar esperando uma guerra. Valeth vivia. Pessoas riam nas praças. Crianças corriam entre carroças. Agricultores voltavam dos campos ao entardecer. Mercadores atravessavam as estradas levando trigo, lã e animais. Ikarus desmontou do cavalo diante de uma pequena hospedaria. O proprietário olhou para ele durante alguns segundos. A armadura, as cicatrizes, a espada e principalmente aquele olhar cansado denunciavam que aquele homem não era um viajante comum. — De onde vem? — perguntou o proprietário. Ikarus respondeu apenas: — Gallen. O homem sorriu. — Então veio da terra dos cavaleiros. Seja bem-vindo a Valeth. Ikarus agradeceu e entrou. Sentou-se próximo à janela. Pediu água e comida. Enquanto esperava, observou uma família sentada à mesa ao lado. Um pai brincava com o filho pequeno enquanto a mãe tentava fazê-lo comer. Ikarus desviou os olhos. Não conseguiu continuar olhando. Durante três anos, aquela era a pior parte da viagem. Não eram as batalhas. Não eram os ferimentos. Não eram os quatro Guardiões que havia matado. Era ver famílias vivendo aquilo que ele próprio havia abandonado. Naquela noite, dormiu pouco. Sonhou com Eiran. No sonho, o menino estava mais velho. Corria em sua direção. Ikarus se ajoelhava para abraçá-lo. Mas, quando tentava tocá-lo, Eiran passava através de seus braços como fumaça. Ikarus acordou antes do amanhecer. Ficou sentado na cama durante alguns minutos, olhando para as próprias mãos. Quatro marcas douradas brilhavam discretamente em seu peito. Quatro fragmentos. Quatro mortos. Quatro famílias. E ainda faltavam oito. Ele se levantou, vestiu a armadura e partiu.
Ao chegar a Gilleth, Ikarus percebeu que havia algo diferente na cidade. Pessoas falavam sobre uma presença nas montanhas. Alguns diziam que era uma criatura. Outros diziam que era um espírito. Um velho comerciante mencionou um homem de armadura dourada que vivia além das estradas. Ikarus não precisou perguntar mais nada. — Onde? O comerciante apontou para o norte. — Nas montanhas. Mas ninguém vai até lá. — Por quê? — Porque aquele caminho pertence à Águia. Ikarus ficou em silêncio. A palavra despertou algo dentro dos fragmentos. Pela primeira vez desde Gallen, as quatro marcas em seu peito começaram a brilhar. O comerciante percebeu. — Você... é um dos homens que procuram os Guardiões? Ikarus levantou-se. — Não procuro homens. Procuro fragmentos. O velho ficou pálido. Ikarus deixou algumas moedas sobre a mesa e saiu.
A estrada para a montanha era estreita e quase abandonada. Conforme subia, as plantações desapareciam e davam lugar a pedras, árvores e campos abertos. O vento tornava-se mais forte. Ikarus continuou andando durante horas. Ao cair da tarde, encontrou uma pequena casa de madeira. Havia lenha empilhada ao lado da porta. Um banco. Uma velha espada enferrujada pendurada sobre a parede externa. Ikarus parou. Algo naquele lugar parecia familiar. Não porque conhecesse aquela casa, mas porque parecia um lugar onde alguém havia vivido esperando. A porta estava aberta. Ikarus entrou. Não havia ninguém. Sobre a mesa encontrou uma pequena caixa de madeira. Dentro havia cartas antigas. Ele não deveria tê-las lido. Mas uma delas estava aberta. O nome no topo chamou sua atenção.
Aren.
Ikarus leu apenas algumas linhas.
“Pai, você passou tantos anos protegendo pessoas que esqueceu que também era uma delas. Se algum dia voltar, não precisa ser um Guardião. Volte apenas como meu pai.”
Ikarus fechou a carta.
Então ouviu uma voz atrás dele.
— Você não deveria estar lendo isso.
Ikarus virou-se.
Um homem idoso estava parado na porta.
Cabelos brancos. Rosto marcado pelo tempo. Olhos dourados.
E uma espada dourada presa à cintura.
Ikarus imediatamente levou a mão à própria arma.
O homem não fez o mesmo.
— Você é Aren.
— E você é Ikarus.
Ikarus ficou imóvel.
— Como sabe meu nome?
Aren olhou para o peito dele.
— Porque os quatro fragmentos já sabem que você chegou.
O vento entrou pela porta.
As marcas douradas no corpo de Ikarus começaram a brilhar.
Aren olhou para elas e suspirou.
— Então é verdade.
— O quê?
— Que eles realmente escolheram você.
Ikarus franziu a testa.
— Quem?
Aren caminhou até a mesa e pegou a carta.
— Os fragmentos.
Ele guardou o papel.
— Há quanto tempo você sabe que eu viria?
— Desde o dia em que fui escolhido.
— Então você sabe o que vai acontecer.
Aren finalmente olhou diretamente para ele.
— Sei.
Ikarus ficou em silêncio.
Aren continuou:
— Você veio para me matar.
A frase atingiu Ikarus com a mesma força de um golpe.
Mesmo depois de quatro mortes, ainda havia algo diferente quando alguém dizia aquilo em voz alta.
— Eu não quero matá-lo.
Aren sorriu.
— Eu também não quero morrer.
Ikarus ergueu os olhos.
— Então por que continua aqui?
Aren respondeu:
— Porque querer viver não é a mesma coisa que ter o direito de abandonar aquilo que juramos proteger.
Ele saiu da casa.
Ikarus o acompanhou.
Do lado de fora, o céu estava ficando vermelho com o pôr do sol.
Aren caminhou até a borda da montanha.
— Está vendo Valeth?
Ikarus olhou para baixo.
O reino inteiro se estendia diante deles.
Gilleth brilhava ao longe. Os campos pareciam infinitos. Pequenas luzes começavam a surgir nas aldeias.
— Tudo isso — disse Aren — é o motivo pelo qual estou aqui.
Ikarus respondeu:
— E o fragmento?
— O fragmento é apenas uma coisa. As pessoas são o motivo.
Aren olhou para ele.
— Sahrion morreu protegendo seu povo. Eryon morreu protegendo sua filha e seu reino. Darven morreu protegendo aquilo que amava.
Ikarus ficou imóvel.
— Você conhece os nomes deles?
— Os Guardiões sabem quando um deles cai.
Aren respirou profundamente.
— Eu senti cada morte.
Ikarus apertou a mão.
— Então sabe que não faço isso por prazer.
— Eu sei.
— Então por que me enfrenta?
Aren olhou novamente para Valeth.
— Porque amanhã você tentará atravessar esta montanha. E eu tentarei impedir.
— Mesmo sabendo que vai morrer?
— Principalmente por saber.
Ikarus abaixou a cabeça.
Aren então perguntou:
— Você tem uma família?
A pergunta fez Ikarus congelar.
— Tenho.
— Esposa?
— Gillian.
— Filhos?
Ikarus demorou alguns segundos.
— Um filho. Eiran.
Aren fechou os olhos.
— Quantos anos?
— Três.
Aren ficou em silêncio.
Então sorriu tristemente.
— Então você ainda pode voltar.
Ikarus olhou para ele.
— O quê?
— Eu já não posso.
Aren caminhou até uma pequena pedra próxima à borda e sentou-se.
— Minha esposa morreu. Meus filhos morreram. Meus netos morreram. Minha família inteira desapareceu enquanto eu continuava aqui em cima, usando uma armadura que não envelhecia. Durante anos, pensei que isso fosse uma bênção.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Depois compreendi que também era uma prisão.
Ikarus sentou-se a alguns metros dele.
Pela primeira vez desde que chegara a Valeth, os dois não eram inimigos.
Eram apenas dois homens.
Um que havia deixado a família para cumprir uma missão.
Outro que havia perdido a família enquanto cumpria a sua.
Aren olhou para o horizonte.
— Amanhã lutaremos.
Ikarus assentiu.
— Sim.
— E um de nós morrerá.
— Sim.
Aren levantou-se.
— Então esta noite não somos inimigos.
Ikarus olhou para ele.
— O que somos?
Aren respondeu:
— Dois homens que sabem exatamente o que estão prestes a perder.
Ele voltou para a casa.
Ikarus permaneceu do lado de fora.
Naquela noite, pela primeira vez em três anos, escreveu uma carta para Gillian.
Não escreveu sobre os fragmentos.
Não escreveu sobre os Guardiões.
Não escreveu sobre as mortes.
Escreveu apenas sobre Eiran.
“Gillian, se um dia nosso filho perguntar por que eu fui embora, diga a ele que não foi porque eu queria ficar longe dele. Foi porque eu queria que ele tivesse um mundo para onde pudesse voltar. Diga que eu pensei nele todas as noites. E diga que, mesmo que eu não consiga voltar, ele foi a razão pela qual continuei caminhando.”
Ikarus dobrou a carta.
Mas não tinha como enviá-la.
Guardou-a dentro da armadura.
Na manhã seguinte, os sinos de Gilleth tocaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então uma sombra gigantesca cobriu os campos.
Ikarus saiu da casa.
Olhou para o céu.
A Águia de Valeth descia das nuvens.
Era gigantesca.
Suas asas cobriram o sol.
Aren apareceu atrás de Ikarus já vestido com sua armadura dourada.
A espada estava em sua mão.
— Chegou a hora.
Ikarus desembainhou a própria espada.
— Sim.
Aren ergueu a lâmina.
A Águia pousou atrás dele.
O vento explodiu pela montanha.
E, enquanto os habitantes de Valeth olhavam para o céu sem compreender o que estava acontecendo, o quinto combate entre um portador e um Guardião estava prestes a começar.
As badaladas de Gilleth atravessaram os campos naquela manhã. Uma após outra, ecoaram pelas montanhas, pelos telhados da cidade e pelas estradas que levavam ao norte. Os camponeses pararam o trabalho. Os cavaleiros deixaram as muralhas. Até os animais pareceram inquietos. Todos em Valeth conheciam aquele som. Não era um chamado para a guerra. Era o aviso de que o Guardião havia despertado.
Ikarus permaneceu imóvel no campo aberto, a alguns metros de Aren. O vento passava entre os dois, fazendo o manto do antigo Guardião ondular. À sua frente, Aren já não parecia o velho homem que havia compartilhado uma noite silenciosa com ele. A armadura dourada cobria seu corpo inteiro, formada por placas que lembravam penas sobrepostas. O manto branco e dourado caía de seus ombros, e sobre seu peito brilhava o símbolo da águia.
Aren segurava a espada dourada com as duas mãos.
Acima deles, uma sombra cobriu o céu.
Ikarus levantou os olhos.
A Águia de Valeth descia das nuvens.
Era gigantesca.
Suas asas abertas pareciam cobrir o próprio horizonte. As penas eram predominantemente brancas, mas cada uma possuía reflexos dourados que brilhavam sob a luz dos dois sóis. Seus olhos eram intensamente dourados, antigos demais para pertencerem a qualquer criatura comum.
Quando pousou atrás de Aren, o impacto fez a terra tremer.
Aren não olhou para trás.
— Ela nunca me abandonou.
Ikarus segurou sua espada.
— Você também nunca abandonou Valeth.
Aren sorriu.
— Talvez esse tenha sido meu problema.
Ikarus franziu a testa.
— Como assim?
Aren respirou profundamente.
— Eu passei tanto tempo protegendo este reino que esqueci que minha vida também fazia parte dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Aren olhou para a espada de Ikarus.
— Quatro fragmentos.
Ikarus confirmou com um movimento de cabeça.
— Quatro.
— E quatro Guardiões mortos.
Ikarus baixou os olhos.
— Sim.
Aren fechou os olhos.
— Então você já sabe o que acontecerá aqui.
— Sei.
— E mesmo assim continua.
— Preciso continuar.
Aren abriu os olhos.
— Não. Você quer continuar.
Ikarus ficou em silêncio.
Aren continuou:
— Há diferença.
Ikarus apertou o punho.
— Minha família está esperando por mim.
Aren olhou para ele durante alguns segundos.
— Então volte para ela.
Ikarus levantou os olhos.
— Não posso.
— Pode.
— Não enquanto esses fragmentos estiverem espalhados.
Aren sorriu tristemente.
— Foi exatamente isso que pensei quando aceitei minha armadura.
Ele levantou a espada.
— E olha onde isso me trouxe.
O vento aumentou.
A Águia de Valeth abriu as asas.
Aren assumiu posição.
— Ikarus.
— Sim?
— Se você me derrotar...
Ele fez uma pausa.
— Não olhe para trás.
Ikarus não respondeu.
— Não transforme minha morte em uma corrente que carregará pelo resto da vida. Você já carrega quatro homens dentro de si. Se começar a carregar também a culpa por cada um deles, não chegará ao décimo segundo.
Os olhos de Ikarus ficaram mais sérios.
Aren sorriu.
— E eu quero que você chegue.
A Águia soltou um grito.
O som atravessou o vale como um trovão.
Ikarus avançou.
A primeira colisão das espadas explodiu em faíscas douradas.
Aren era rápido.
Muito mais rápido do que sua idade permitia.
Ele girou o corpo e desferiu um golpe horizontal. Ikarus abaixou-se por uma fração de segundo e sentiu a lâmina passar acima de sua cabeça.
Contra-atacou.
Aren bloqueou.
O impacto o fez recuar vários metros.
— Você aprendeu — disse Aren.
Ikarus avançou novamente.
As espadas se encontraram uma, duas, três vezes.
A cada golpe, o som metálico se espalhava pelo vale.
Então a Águia atacou.
Ikarus percebeu a sombra antes mesmo de ouvir o vento.
Saltou.
As garras da criatura rasgaram o chão onde ele estava.
Ikarus pousou sobre uma pedra e olhou para cima.
A Águia voltou para o céu.
Aren avançou.
Ikarus bloqueou.
O golpe seguinte quebrou sua defesa.
A espada dourada atingiu seu ombro.
Sangue caiu sobre a terra.
Ikarus recuou.
Aren não o perseguiu.
— Ainda pode desistir.
Ikarus segurou o ombro ferido.
— Não.
— Por quê?
Ikarus respirou fundo.
— Porque alguém precisa chegar ao fim.
Aren fechou os olhos por um instante.
— Então venha.
Ikarus correu.
Dessa vez, não houve hesitação.
Os dois desapareceram entre os golpes.
Aren era experiência.
Ikarus era sobrevivência.
O Guardião conhecia cada movimento de sua espada. Ikarus conhecia a sensação de estar a um passo da morte.
E, naquele momento, isso fazia toda a diferença.
Aren desferiu um golpe vertical.
Ikarus desviou.
O Guardião girou.
Outro golpe.
Ikarus bloqueou.
Aren atacou novamente.
Ikarus recuou.
Mais um.
Ikarus caiu de joelhos.
A espada de Aren parou diante de seu rosto.
— Você está cansado.
Ikarus levantou os olhos.
— Estou.
— Então levante-se.
Ikarus ficou surpreso.
— Por quê?
Aren abaixou a espada.
— Porque eu não quero vencer você assim.
Ikarus levantou-se lentamente.
Aren respirou.
— Quando eu era jovem, acreditava que proteger alguém significava impedir que essa pessoa sofresse.
Ele olhou para a Águia.
— Depois descobri que algumas dores não podem ser evitadas. Apenas atravessadas.
Aren ergueu a espada.
— Seu filho vai sofrer um dia.
Ikarus congelou.
— Sua esposa também.
Aren continuou:
— Você também.
O olhar de Ikarus endureceu.
— Não use minha família contra mim.
— Não estou usando.
Aren apontou a espada para ele.
— Estou lembrando você do motivo pelo qual precisa voltar.
Ikarus apertou os dentes.
Aren avançou.
Dessa vez, Ikarus não tentou bloquear.
Esperou.
Um segundo.
Meio segundo.
Quando a espada de Aren passou por ele, Ikarus girou.
A lâmina de Ikarus atravessou a armadura dourada.
Aren parou.
O mundo pareceu ficar silencioso.
Ikarus segurava a espada contra o peito do Guardião.
Aren olhou para baixo.
Depois olhou para Ikarus.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
— Finalmente...
Ikarus começou a retirar a espada.
Aren segurou seu braço.
— Não.
Ikarus parou.
— Termine.
Os olhos de Ikarus se fecharam.
Por um instante, ele viu Sahrion.
Depois Eryon.
Depois Darven.
Quatro homens.
Quatro histórias.
Quatro famílias.
E agora...
Aren.
Ikarus empurrou a espada até o fim.
O corpo do Guardião perdeu a força.
Aren caiu de joelhos.
A Águia de Valeth gritou.
O som foi tão forte que as janelas de Gilleth tremeram.
Aren olhou uma última vez para o céu.
— Eu consigo ver...
Ikarus ajoelhou-se diante dele.
— O quê?
Aren sorriu.
— O horizonte.
Então morreu.
A espada caiu de sua mão.
A armadura dourada começou a desaparecer.
A Águia pousou ao lado do corpo de seu Guardião e abaixou a cabeça.
Ikarus permaneceu ajoelhado.
Não havia celebração.
Não havia vitória.
Apenas silêncio.
Então o símbolo da águia apareceu no chão.
Uma luz dourada surgiu sobre o corpo de Aren.
O quinto fragmento apareceu.
Ele flutuou lentamente até Ikarus.
Quando tocou seu peito, os quatro fragmentos anteriores reagiram.
Cinco luzes.
Cinco símbolos.
Cinco Guardiões mortos.
Ikarus levou a mão ao peito.
Por um instante, ouviu vozes.
Sahrion.
Eryon.
Darven.
Aren.
Não eram palavras claras.
Eram apenas lembranças.
Então uma quinta voz surgiu.
— Continue...
Ikarus abriu os olhos.
A luz desapareceu.
Ele se levantou.
Antes de partir, colocou a mão sobre o ombro de Aren.
— Eu vou voltar para casa.
O vento passou pelo campo.
A Águia levantou voo.
Ikarus observou a criatura desaparecer entre as nuvens.
Então ouviu um som atrás de si.
Passos.
Uma mulher idosa caminhava lentamente pela estrada.
Ela olhou para o corpo de Aren.
Depois para Ikarus.
Não havia ódio em seus olhos.
Havia tristeza.
— Ele esperou por você.
Ikarus não respondeu.
A mulher continuou:
— Durante muitos anos, ele dizia que um dia alguém viria.
Ela se aproximou do corpo.
— Eu não acreditava.
Ikarus abaixou a cabeça.
— Ele tinha uma família?
A mulher sorriu tristemente.
— Tinha.
— Onde estão?
Ela olhou para o céu.
— Mortos.
Ikarus ficou imóvel.
— Todos?
— Todos.
A mulher tocou a armadura desaparecida de Aren.
— Ele continuou protegendo pessoas depois que não havia mais ninguém esperando por ele.
Ikarus fechou os olhos.
Aquela frase atravessou seu peito.
Porque, pela primeira vez, compreendeu algo que os quatro Guardiões anteriores haviam tentado ensinar de maneiras diferentes.
O fragmento não estava escolhendo guerreiros.
Estava escolhendo homens que haviam perdido alguma coisa.
Homens que continuaram caminhando depois que perderam.
Ikarus olhou para o norte.
Cinco fragmentos.
Ainda faltavam sete.
Mas havia algo diferente agora.
No instante em que o quinto fragmento se fundira aos outros, uma imagem surgira em sua mente.
Uma montanha.
Um bosque.
Uma torre negra.
E, diante dela, uma figura usando uma armadura dourada.
Não era Aren.
Não era Sahrion.
Não era Darven.
Era outro Guardião.
E atrás dele...
Uma criatura gigantesca que Ikarus nunca havia visto.
Ikarus abriu os olhos.
— Mais um...
Muito longe dali, em algum lugar além das montanhas, uma voz despertou.
— Ele já possui cinco.
Uma segunda voz respondeu:
— Então os outros precisam se preparar.
A primeira ficou em silêncio.
— Não.
— Não?
— Já não importa se estão preparados.
Uma pausa.
— O portador está vindo.
E, nas profundezas de um reino que ainda não havia sido alcançado por Ikarus, uma armadura dourada abriu os olhos.
O sexto Guardião havia despertado.:::
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