Um ano havia passado desde que Ikarus deixara Lenória. Um ano desde a promessa de que voltaria. Um ano de estradas, montanhas, sangue, Guardiões e fragmentos. E, enquanto ele atravessava o mundo carregando dentro do próprio corpo três pedaços de uma força antiga, sua casa havia continuado a viver sem ele. Gillian já não estava grávida. Seu filho havia nascido meses antes. Era um menino saudável, de cabelos claros, e Gillian o chamara de Eiran. O pequeno já começava a dar os primeiros passos pela casa, sempre observado de perto pela mãe. Naquela manhã, Gillian estava sentada perto da janela, segurando Eiran enquanto ele tentava alcançar uma pequena peça de madeira que Raella havia colocado sobre a mesa. — Devagar — disse Gillian, sorrindo. — Você ainda vai cair. Eiran ignorou completamente o conselho. Esticou o corpo, alcançou o objeto e caiu sentado. Ficou alguns segundos em silêncio. Depois começou a rir. Gillian riu também. Raella, porém, não estava sorrindo. Ela permanecia diante da mesa com o mapa aberto. Rufus estava ao seu lado. Sobre a mesa havia o pergaminho de Nilo, cópias de mapas antigos e anotações feitas durante os últimos dias. — Um ano — disse Raella. Gillian olhou para ela. — O quê? — Ikarus está fora há um ano. Rufus baixou os olhos. — E ainda não voltou. — Não. Raella apontou para o mapa. — Mas sabemos que ele continua vivo. Pelo menos até onde chegaram as últimas notícias. Gillian ficou em silêncio. Ela havia aprendido a conviver com a ausência. Não porque fosse fácil, mas porque precisava ser forte por Eiran. O menino estendeu os braços para ela. Gillian o pegou. — Ele vai voltar. — disse ela. Não parecia uma pergunta. Raella olhou para o mapa novamente. — Espero que sim. Rufus percebeu algo diferente no olhar da princesa. — Você está pensando em alguma coisa. Raella colocou a mão sobre o pergaminho. — Estou. — O quê? — Os Guardiões. Rufus ficou sério. — Explique. — Se o livro Vida realmente existe... podemos descobrir se ele consegue fazer aquilo que dizem. — Trazer mortos de volta. — Sim. Gillian levantou os olhos. Raella continuou: — Ikarus já matou três Guardiões. Homens que morreram cumprindo um dever que lhes foi imposto. Se existe uma possibilidade real de trazê-los de volta... — Não sabemos se eles gostariam de voltar — disse Rufus. — Nem sabemos se podem voltar — respondeu Raella. — Por isso precisamos do livro. Gillian abraçou Eiran com mais força. — Você está pensando em trazer Sahrion e Eryon de volta? — Estou pensando em descobrir se isso é possível. E, se for... não vejo razão para deixar homens que morreram protegendo seus povos permanecerem mortos. Rufus ficou alguns segundos em silêncio. — E se o livro exigir um preço? — Então descobriremos qual é. Raella enrolou o mapa. — Não mandarei soldados. Nem um exército. Um grupo pequeno, capaz de entrar na masmorra sem chamar atenção e voltar com o livro. — E quem vai liderar? Raella olhou para a porta. — O homem que sabe mais sobre aquela masmorra do que qualquer um de nós. A porta se abriu. Nilo entrou. O sobrevivente da primeira expedição parecia ainda mais velho do que quando Rufus o conhecera. Trazia uma mochila, uma espada curta e o mesmo olhar desconfiado de quem havia passado décadas tentando esquecer o subterrâneo onde seus companheiros morreram. — Eu sabia que você me procuraria — disse Nilo. Raella levantou-se. — Então sabe por que está aqui. — O livro Vida. — Exatamente. Nilo olhou para Gillian e para o bebê. — E você quer encontrá-lo por causa dele? Gillian respondeu antes de Raella. — Não. Quero encontrá-lo porque existem pessoas que morreram sem merecer o esquecimento. Nilo ficou alguns segundos olhando para ela. Depois assentiu. — Então eu vou. Rufus se levantou. — Não irá sozinho. Raella já havia preparado uma lista. Colocou cinco nomes sobre a mesa. — Nilo será o guia. Precisamos de alguém capaz de lidar com mecanismos e armadilhas. — Tavian. Um jovem especialista em mecanismos antigos, filho de um construtor de pontes, conhecido por conseguir desmontar fechaduras sem destruí-las. Raella colocou o segundo nome. — Precisamos de alguém capaz de lutar, mas que saiba pensar antes de atacar. — Maela. Uma mercenária que havia servido como guarda de caravanas nas regiões montanhosas. Não tinha nenhuma ligação com os antigos heróis de Ad'Heim. Era simplesmente boa no que fazia. — Precisamos de alguém que conheça ruínas e línguas antigas. — Oren. Um estudioso itinerante que havia passado quinze anos copiando inscrições de templos abandonados. Rufus olhou para o quarto nome. — E esse? — Sira. — Raella respondeu. — Curandeira. Se aquela masmorra for tão perigosa quanto a primeira, precisaremos de alguém capaz de manter os outros vivos. Nilo cruzou os braços. — Cinco pessoas. — Seis, contando você. — disse Raella. — E ninguém conhece Ikarus. Ninguém conhece os Guardiões. Ninguém possui ligação com essa história. Quero pessoas escolhidas pela capacidade que possuem, não pelo nome que carregam. Rufus assentiu lentamente. — E quem comandará? Raella olhou para ele. — Eu. Rufus franziu a testa. — Você vai junto? — Não. — Ela colocou o mapa sobre a mesa. — Eu tenho outras responsabilidades. Mas a missão será minha. Nilo olhou novamente para o mapa. — E se encontrarmos o livro? — Tragam-no diretamente para mim. — E se ele matar quem tocar? Ninguém respondeu. Finalmente, Raella disse: — Então ninguém o toca. Nilo soltou uma risada curta. — É uma boa ideia. Rufus aproximou-se do mapa. — Existe outra coisa que precisamos considerar. — O quê? — O livro Morte não matou todos porque alguém simplesmente abriu a capa. O sobrevivente disse que seu companheiro leu uma frase. Isso significa que talvez o poder esteja nas palavras. — Então o livro Vida pode funcionar da mesma maneira — disse Oren. — Talvez seja necessário ler alguma coisa. — E talvez seja exatamente isso que não devemos fazer — completou Rufus. Raella assentiu. — Primeiro tragam o livro. Depois descobriremos como utilizá-lo. Gillian permaneceu em silêncio durante toda a conversa. Eiran havia adormecido em seus braços. Quando todos começaram a sair, ela chamou Nilo. — Espere. O velho voltou-se. Gillian aproximou-se. — Se encontrarem o livro... — Sim? — Não faça isso por mim. Nilo franziu a testa. — Como? — Se o livro realmente puder trazer alguém de volta, não faça nada apenas porque acha que eu quero. Nilo ficou sério. — Por quê? Gillian olhou para Eiran. — Porque meu marido está vivo. Meu filho tem um pai para conhecer. Eu não quero que uma esperança transforme homens vivos em cadáveres. Nilo assentiu lentamente. — Entendi. Gillian então olhou para Raella. — Mas se descobrirmos que é real... — Raella completou: — Nós decidiremos juntos o que fazer. Gillian assentiu. Naquela noite, os seis escolhidos partiram. Nilo levava o mapa. Tavian carregava ferramentas. Maela levava duas espadas. Oren levava livros e pergaminhos. Sira carregava medicamentos. E o sexto membro, um jovem chamado Kael, carregava apenas uma mochila e uma espada curta. Ele havia sido escolhido por Raella por uma razão simples: não tinha medo de entrar onde outros não entrariam. Antes de partirem, Rufus aproximou-se dele. — Você já esteve em uma masmorra? — Não. — Já enfrentou mortos? — Não. — Já viu alguém morrer? Kael hesitou. — Sim. Rufus assentiu. — Então talvez esteja preparado. O grupo desapareceu pela estrada durante a madrugada. Gillian ficou observando até não conseguir mais vê-los. Eiran dormia em seus braços. Rufus permaneceu ao lado dela. — Você acha que vão encontrar? — perguntou Gillian. Rufus olhou para a escuridão. — Acho que encontrar o livro será a parte fácil. Gillian o encarou. — Por quê? Rufus respondeu sem tirar os olhos da estrada: — Porque ainda não sabemos por que alguém criou dois livros. Um para escrever a morte. Outro para escrever a vida. E se ambos realmente existirem... talvez não sejam dois livros. Talvez sejam duas metades da mesma coisa. Muito longe dali, sob uma montanha que nenhum mapa moderno registrava, uma porta de pedra começou lentamente a se abrir. Do outro lado havia uma sala branca. No centro dela, sobre um pedestal, repousava um livro completamente branco. Na capa havia uma única palavra. VIDA. E, ao lado do livro, havia uma cadeira vazia. Como se alguém estivesse esperando por eles.
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