Ikarus permaneceu diante das ruínas submersas durante alguns segundos, olhando para a porta que havia quase se aberto. A Serpente de Kallon permanecia imóvel diante dela, como se tivesse recebido uma ordem que não precisava ser pronunciada. Kaeron estava morto. O sexto fragmento agora fazia parte de Ikarus. E, pela primeira vez, uma pergunta diferente começava a ocupar sua mente. Até então, ele acreditara que os fragmentos eram apenas partes de alguma coisa que precisava ser reunida. Agora sabia que estavam ligados a uma porta. Uma prisão. Talvez a algo que os antigos Guardiões haviam passado milhares de anos tentando manter escondido. Ikarus olhou uma última vez para o corpo de Kaeron. — Eu vou descobrir o que existe atrás daquela porta. A Serpente ergueu a cabeça. Não respondeu, obviamente. Mas seus olhos dourados permaneceram fixos nele. Ikarus então nadou para a superfície.
Quando voltou a Nora, encontrou a cidade inteira em silêncio. As pessoas haviam visto a batalha de longe. Muitos acreditavam que a Serpente havia destruído Ikarus. Outros já haviam começado a fugir quando o mar se abriu. Mas quando Ikarus caminhou pelo cais, ensanguentado, ferido e carregando a lança dourada de Kaeron, todos compreenderam. O Guardião havia caído.
Ninguém comemorou.
Uma mulher começou a chorar.
Um homem ajoelhou-se.
Um velho pescador simplesmente tirou o chapéu e abaixou a cabeça.
Ikarus passou por eles sem dizer nada.
Antes de deixar Kallon, porém, fez uma última coisa.
Subiu até o antigo santuário onde os Guardiões eram lembrados e colocou a lança de Kaeron diante de uma estátua de pedra.
— Ele morreu protegendo este lugar.
O sacerdote que estava ali perguntou:
— Você o matou?
Ikarus olhou para a lança.
— Sim.
— Então por que o honra?
Ikarus respondeu:
— Porque ele não era meu inimigo.
O sacerdote ficou em silêncio.
Ikarus virou-se.
— Apenas estava no meu caminho.
E partiu.
Dias depois, atravessou o mar em uma embarcação mercante. O ferimento causado pela lança ainda doía, mas Ikarus já havia aprendido a conviver com a dor. Durante a viagem, recebeu uma carta de Lenória.
Era de Gillian.
Ela contava que Eiran havia começado a perguntar diariamente quando o pai voltaria.
Depois havia uma segunda parte.
Raella havia enviado uma pequena mensagem.
Lyra está bem.
Ikarus leu essa frase várias vezes.
Depois encontrou uma segunda folha.
Era pequena.
Havia sido escrita por Raella.
“Ela abriu os olhos hoje e segurou meu dedo. Por um instante, tive a impressão de que ela estava olhando para alguma coisa atrás de mim. Talvez seja apenas imaginação de mãe. Talvez não.”
Ikarus franziu a testa.
Guardou a carta.
Não sabia por quê, mas aquela frase permaneceu em sua cabeça.
Naquela mesma noite, sonhou novamente.
Estava em uma floresta.
Não era uma floresta comum.
As árvores eram tão gigantescas que seus troncos pareciam montanhas. As raízes atravessavam vales inteiros. Havia luz verde entre as folhas e uma névoa constante cobria o chão.
Então ouviu uma voz.
— Você está chegando.
Ikarus virou-se.
Uma mulher estava parada entre as árvores.
Usava uma armadura dourada.
Seu manto era verde-escuro.
Sobre o peito estava gravado um símbolo.
Uma árvore gigantesca.
Ikarus tentou se aproximar.
A mulher desapareceu.
Ele acordou.
E sabia para onde deveria ir.
Khsandra.
O reino das florestas.
O reino onde as árvores eram antigas antes mesmo de muitos dos reinos atuais existirem.
O reino protegido por um Guardião cujo poder estava ligado a uma árvore colossal.
Ikarus deixou Kallon e seguiu para o norte.
A viagem levou semanas.
Quanto mais avançava, mais o mundo mudava.
As cidades humanas começaram a desaparecer.
As estradas deram lugar a trilhas.
As trilhas desapareceram.
Então vieram as árvores.
Primeiro pequenas.
Depois enormes.
Depois impossíveis.
Quando Ikarus finalmente entrou em Khsandra, percebeu que havia algo errado.
Nenhum pássaro cantava.
Nenhum animal se movia.
As folhas estavam completamente imóveis.
E havia marcas de batalha nas árvores.
Grandes cortes.
Queimaduras.
Sangue seco.
Ikarus caminhou mais algumas horas até encontrar um grupo de elfos.
Eles estavam feridos.
Um deles levantou o arco.
— Pare!
Ikarus ergueu as mãos.
— Não quero lutar.
O elfo olhou para sua espada.
— Você é o homem dos fragmentos.
Ikarus ficou imóvel.
— Como sabe?
O elfo respondeu:
— A floresta sabe.
Ikarus olhou ao redor.
— O que aconteceu aqui?
O elfo hesitou.
— Os mortos-vivos.
— Aqui também?
— Eles estão em toda parte.
Outro elfo se aproximou.
— Mas não são apenas mortos-vivos.
Ikarus franziu a testa.
— O que quer dizer?
O elfo apontou para o interior da floresta.
— Algo está corrompendo as árvores.
Ikarus seguiu seu dedo.
Muito longe, entre os troncos, havia uma luz negra.
— Desde quando?
— Desde que o Guardião desapareceu.
Ikarus parou.
— O Guardião de Khsandra?
Os elfos se entreolharam.
— Ele não desapareceu.
— Então onde está?
O primeiro elfo respondeu:
— Nós não sabemos.
Ikarus continuou avançando.
A floresta parecia observá-lo.
A cada passo, os troncos ficavam maiores.
As raízes surgiam do chão como serpentes.
Até que encontrou uma clareira.
No centro havia uma árvore colossal.
Era tão grande que Ikarus não conseguia enxergar seu topo.
O tronco possuía milhares de metros de largura.
As raízes atravessavam toda a região.
E, diante dela, havia uma mulher.
Ela estava sentada no chão.
Sem armadura.
Sem espada.
Sem manto.
Apenas uma mulher de cabelos verdes escuros, envelhecida, com as mãos cobertas de terra.
Ikarus aproximou-se.
— Você é a Guardiã?
Ela não respondeu.
— Qual é o seu nome?
A mulher levantou os olhos.
Eram dourados.
— Serenya.
Ikarus segurou a espada.
Serenya percebeu.
— Você veio buscar o fragmento.
— Sim.
Ela sorriu.
— Então chegou tarde.
Ikarus franziu a testa.
— O que aconteceu?
Serenya colocou a mão sobre a terra.
— Minha floresta está morrendo.
Ikarus olhou para a árvore gigantesca.
— Por causa dos mortos-vivos?
— Não.
Ela apontou para as raízes.
— Por causa deles.
Ikarus se aproximou.
Nas raízes havia pequenas manchas negras.
Pareciam veias.
— O que é isso?
Serenya respondeu:
— Algo que existe antes dos mortos-vivos.
Ikarus sentiu os seis fragmentos reagirem.
— O que você sabe sobre os fragmentos?
Serenya levantou-se.
— Sei que vocês estão abrindo aquilo que os antigos fecharam.
— Quem são vocês?
— Nós somos os Guardiões.
— Não.
Ikarus encarou-a.
— Não perguntei sobre os Guardiões. Perguntei quem criou os fragmentos.
Serenya permaneceu em silêncio.
Então disse:
— Finalmente alguém fez a pergunta certa.
O vento atravessou a floresta.
As folhas começaram a se mover.
A gigantesca árvore atrás dela começou a emitir uma luz dourada.
E seis símbolos apareceram no tronco.
Grifo.
Coruja.
Serpente.
Centauro.
Águia.
E a marca de Khsandra.
Serenya retirou lentamente a própria capa.
Abaixo dela surgiu uma armadura dourada.
As placas pareciam feitas de madeira viva e metal.
Seu manto verde cobriu o chão.
E atrás dela, entre as raízes, algo começou a despertar.
Uma criatura gigantesca abriu os olhos.
Não era um animal.
Era uma árvore.
Um ser colossal formado por tronco, raízes e galhos, com dois olhos dourados brilhando no centro da madeira.
O Guardião da Floresta de Khsandra.
Serenya segurou sua espada.
— Ikarus.
Ele desembainhou a própria lâmina.
— Sim?
— Se você me matar, a floresta começará a morrer.
Ikarus olhou para a árvore.
— Então não vou matar você.
Serenya sorriu.
— Você ainda não entendeu.
A criatura atrás dela ergueu-se.
O chão tremeu.
— Eu não sou a Guardiã porque protejo a floresta.
Ela apontou a espada para Ikarus.
— A floresta é a Guardiã.
Ikarus apertou o cabo da espada.
Serenya avançou.
E, no mesmo instante, em Lenória, Lyra abriu os olhos novamente.
Desta vez, porém, a pequena marca dourada apareceu em sua mão.
E uma voz que ninguém mais podia ouvir sussurrou:
— Sete.
Lyra sorriu.
Muito longe dali, Ikarus ouviu o primeiro rugido da criatura de Khsandra.
A batalha pelo sétimo fragmento havia começado.:::
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