sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Ad'Heim: Fim da pausa

 Durante algum tempo, Ikarus permaneceu em Lenória. Pela primeira vez em muitos anos, não havia uma montanha desconhecida esperando por ele, nenhum Guardião oculto em uma fortaleza distante e nenhuma estrada levando a uma batalha inevitável. Havia apenas sua casa, Gillian, Eiran e os dias que ele havia perdido enquanto caminhava pelo mundo. Mas a paz nunca permaneceu completamente dentro daquela casa. Havia coisas que não podiam ser simplesmente esquecidas. Raella continuava próxima de Ikarus, como sempre estivera desde os primeiros anos de sua jornada. Entre os dois existia uma ligação que havia sobrevivido a guerras, separações e mudanças, uma ligação que nenhum dos dois conseguia explicar completamente. E, naquela pausa, enquanto o mundo lutava contra os mortos-vivos e os fragmentos continuavam chamando Ikarus para longe, essa proximidade tornou-se algo maior. Raella descobriu que estava grávida. Quando contou a Ikarus, ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Não porque estivesse surpreso com a ideia de uma criança, mas porque compreendia imediatamente o peso daquela notícia. Ele já sabia o que significava partir deixando um filho para trás. Sabia o que significava carregar a imagem de uma criança na memória enquanto atravessava um campo de batalha. Sabia o que significava não ter certeza de que voltaria. E agora existia outra vida ligada a ele. Uma vida que ainda nem havia visto o mundo. Raella colocou a mão sobre o próprio ventre. — Você vai embora novamente? Ikarus não respondeu imediatamente. — Eu ainda preciso terminar. Raella baixou os olhos. — Eu sabia que diria isso. — Raella... — Não precisa explicar. Eu conheço você. Talvez melhor do que deveria. Ikarus aproximou-se. — Eu não quero abandonar vocês. — Mas vai. Ele ficou em silêncio. Raella então levantou os olhos. — Só me prometa uma coisa. — O quê? — Que ela vai saber quem você é. Ikarus franziu a testa. — Ela? Raella sorriu. — Eu tenho certeza de que é uma menina. — Como pode saber? — Não sei. Apenas sei. E estava certa. Meses depois, nasceu uma menina. Pequena, saudável e silenciosa durante os primeiros instantes, até abrir os olhos. Raella a segurou contra o peito enquanto Ikarus permanecia ao lado da cama. Ele tocou cuidadosamente a mão da criança. Os dedos minúsculos fecharam-se em torno de um dos seus. Ikarus ficou imóvel. E, pela segunda vez em sua vida, sentiu que todo o peso do mundo podia desaparecer diante de uma criança. — Qual será o nome dela? — perguntou Raella. Ikarus olhou para a menina. — Você já escolheu? Raella sorriu. — Lyra. Ikarus repetiu baixinho: — Lyra... A menina abriu os olhos. Por um instante, Ikarus esqueceu todos os fragmentos. Esqueceu os Guardiões. Esqueceu a guerra. Esqueceu os mortos-vivos. Mas apenas por um instante. Porque naquela mesma noite, enquanto segurava Lyra nos braços, Ikarus sentiu novamente o chamado dos fragmentos. Os cinco símbolos apareceram diante de sua mente. O grifo. A coruja. A serpente. O centauro. A águia. Cinco luzes brilhavam na escuridão. E uma sexta luz apareceu ao longe. Ikarus fechou os olhos. Já sabia. Seu tempo em Lenória estava acabando. Na manhã seguinte, preparou suas coisas. Eiran o observava enquanto ele colocava a espada nas costas. — Você vai embora de novo? Ikarus ajoelhou-se diante dele. — Vou. — Para lutar? Ikarus hesitou. — Para terminar uma coisa que comecei. Eiran ficou pensativo. — Você volta? Ikarus sorriu. — Eu sempre volto. Então o menino abraçou o pai. Ikarus fechou os olhos. Aquela frase era diferente agora. Na primeira vez que partira, Eiran era apenas um bebê em seus braços. Agora podia perguntar. Agora podia sentir a ausência. Agora saberia quando o pai partisse. Ikarus levantou-se e abraçou Gillian. Não havia necessidade de explicar. Ela sabia. — Tome cuidado — disse ela. — Sempre. Depois foi até Raella. Lyra dormia em seus braços. Ikarus aproximou-se lentamente. Raella entregou a menina a ele. Ikarus a segurou durante alguns segundos. — Ela vai perguntar por você. — Eu sei. — O que devo dizer? Ikarus olhou para a filha. — Diga a verdade. Diga que eu precisei partir. Diga que pensei nela. Diga que eu queria voltar. Raella assentiu. Ikarus beijou a testa da menina e devolveu-a à mãe. Então saiu. Dessa vez, porém, havia algo diferente em seu coração. Antes, ele caminhava carregando a obrigação de terminar sua missão. Agora carregava também dois filhos que estavam esperando seu retorno. E isso tornava cada passo mais pesado. Ao deixar Lenória, Ikarus seguiu para o oeste. Seu destino era o reino de Kallon. Kallon não era como os outros reinos. Era uma ilha. Suas montanhas erguiam-se diretamente do mar, enquanto florestas densas cobriam grande parte do território. Havia apenas uma grande cidade conhecida por estrangeiros: Nora. O símbolo de Kallon era uma criatura que os pescadores raramente ousavam mencionar em voz alta. Uma serpente marinha colossal. Durante séculos, histórias sobre ela haviam sido tratadas como lendas. Até que começaram os ataques. Navios desapareciam. Portos eram encontrados destruídos. Criaturas mortas-vivas começaram a surgir nas praias. E os habitantes de Kallon descobriram uma coisa assustadora: algo antigo vivia sob aquelas águas. Ikarus chegou ao porto de Nora ao amanhecer. O mar estava completamente parado. Nenhuma onda. Nenhuma gaivota. Nenhum barco se movia. Aquilo chamou sua atenção imediatamente. Um pescador idoso estava sentado na madeira do cais, olhando para o oceano. Ikarus aproximou-se. — O que aconteceu aqui? O homem não respondeu. Continuou olhando para a água. — Ei. O pescador finalmente falou: — Ela sabe que você chegou. Ikarus olhou para o mar. — Quem? O velho apontou para as profundezas. — A Guardiã. Ikarus ficou imóvel. — Onde está o Guardião de Kallon? O homem virou lentamente o rosto. — Você não entende. Ikarus franziu a testa. — Então me explique. O velho apontou novamente para o oceano. — Em Kallon, o Guardião não vive na terra. Ikarus olhou para o horizonte. O mar começou a se mover. Primeiro lentamente. Depois com força. Uma enorme coluna de água surgiu a quilômetros da costa. Algo gigantesco estava passando sob a superfície. Os navios ancorados começaram a balançar violentamente. Os sinos da cidade tocaram. Pessoas correram pelas ruas. Soldados apareceram nas muralhas. E então o oceano se abriu. Uma cabeça colossal surgiu das águas. Escamas negras cobertas por linhas douradas. Olhos antigos. Presas enormes. A mesma criatura que, séculos antes, havia sido chamada de lenda. A Serpente de Kallon. Mas havia alguém sobre sua cabeça. Uma figura usando armadura dourada. Um manto azul-escuro flutuava atrás de seus ombros. Na mão direita segurava uma lança dourada. O símbolo da serpente brilhava sobre seu peito. Ikarus sentiu os cinco fragmentos reagirem. O sexto Guardião havia encontrado seu portador. A criatura levantou a cabeça. O Guardião olhou diretamente para Ikarus. E sua voz atravessou o porto. — Ikarus de Lenória. Você demorou. Ikarus colocou a mão sobre a espada. — Qual é o seu nome? O Guardião ergueu a lança. — Meu nome é Kaeron. Guardião de Kallon. Então a Serpente abriu a boca e rugiu. O som atravessou o mar. Ikarus desembainhou a espada. Pela sexta vez, o caminho o havia levado até um homem que precisava morrer para que ele pudesse continuar. Mas, dessa vez, havia algo diferente. A Serpente não parecia apenas proteger seu Guardião. Ela parecia reconhecê-lo. E, nas profundezas do oceano, muito abaixo deles, alguma coisa ainda maior começou a despertar.:::

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