O sol nasceu sobre Haffen.
Durante alguns minutos, ninguém acreditou.
Depois de uma noite inteira sob um céu negro, a luz parecia quase uma coisa sobrenatural.
Os primeiros raios atravessaram as nuvens e tocaram as muralhas destruídas.
O campo diante da cidade estava coberto de cadáveres.
Milhares.
Alguns haviam sido reduzidos a cinzas.
Outros permaneciam espalhados pela terra.
Armas quebradas estavam enterradas no solo.
Escudos partidos jaziam entre ossos.
E no centro de tudo aquilo estava o Guardião.
De joelhos.
Sua espada estava fincada no chão.
A armadura dourada havia perdido parte do brilho.
Seu manto estava rasgado.
Seu rosto estava coberto de sangue.
Por alguns segundos, ninguém sabia se ele estava vivo.
Então ele respirou.
Um soldado gritou:
— ELE ESTÁ VIVO!
A notícia atravessou as muralhas.
Primeiro um homem ouviu.
Depois dez.
Depois cem.
Em poucos minutos, Haffen inteira sabia.
O Guardião estava vivo.
Os portões se abriram.
Centenas de pessoas saíram correndo.
Soldados.
Magos.
Crianças.
Velhos.
Comerciantes.
Estudantes.
Pessoas que haviam passado a noite escondidas.
Todos queriam vê-lo.
O Guardião tentou se levantar.
Não conseguiu.
Dois soldados correram para ajudá-lo.
— Devagar.
— Eu consigo.
— Sabemos.
— Então me deixem levantar.
Eles o ajudaram.
Quando ficou de pé, a multidão começou a aplaudir.
O Guardião olhou para aquelas pessoas.
Não sabia o que dizer.
Uma criança passou entre os soldados.
Devia ter oito ou nove anos.
Ela parou diante dele.
Olhou para sua armadura destruída.
Depois para o sangue em seu rosto.
— Você matou todos os monstros?
O Guardião olhou para o campo.
— Não.
A criança ficou assustada.
Ele sorriu.
— Alguns deles simplesmente decidiram que não queriam mais lutar.
A criança sorriu.
E segurou sua mão.
O Guardião ficou imóvel.
Há muitos anos não segurava a mão de uma criança.
Lembrou-se de si mesmo.
Sete anos.
Uma espada pesada demais.
Um mestre impaciente.
Um pai dizendo que alguém precisava ficar de pé.
Ele olhou para a criança.
— Qual é seu nome?
— Elias.
O Guardião sorriu.
— Elias...
A criança apontou para a espada.
— Você é muito forte?
Ele olhou para a arma.
— Não.
— Não?
— Só fiquei de pé por mais tempo.
A criança pensou.
— Então eu também posso ser Guardião?
O homem ficou em silêncio.
Depois colocou a mão sobre a cabeça do menino.
— Talvez.
---
Os dias seguintes foram diferentes.
A guerra havia acabado.
Mas Haffen ainda estava destruída.
Uma parte das muralhas precisaria ser reconstruída.
Algumas casas haviam sido destruídas.
Algumas torres estavam rachadas.
As ruas estavam cobertas de destroços.
E havia mortos.
Muitos mortos.
Sefrion não tentou esconder aquilo.
Os mortos foram recolhidos.
Os corpos foram identificados.
Famílias receberam seus parentes.
Os que não puderam ser identificados receberam sepultamentos dignos.
Durante três dias, Haffen não teve música.
Não houve comércio.
Não houve aulas.
Não houve celebração.
A cidade apenas respirou.
E começou a reconstruir.
O próprio Guardião participou.
Mesmo ferido.
Mesmo contra as ordens dos curandeiros.
Ele carregou pedras.
Ajudou a reconstruir uma casa.
Levantou uma viga.
Ajudou soldados a remover cadáveres.
E, quando alguém perguntava por que ele fazia aquilo, respondia:
— Porque é minha cidade.
Um dos mestres de magia o encontrou carregando pedras.
— Você não precisa fazer isso.
O Guardião continuou trabalhando.
— Preciso.
— Você salvou Haffen.
Ele parou.
Olhou para o homem.
— Não.
— Não?
— Haffen salvou a si mesma.
O mestre franziu a testa.
— Como?
O Guardião apontou para as pessoas trabalhando.
— Olhe.
Havia centenas.
Magos reconstruindo barreiras.
Pedreiros reconstruindo casas.
Soldados retirando destroços.
Comerciantes distribuindo comida.
Crianças carregando pequenas pedras.
Velhos oferecendo água.
— Eu apenas fiquei na frente.
O mestre sorriu.
— É exatamente isso que um Guardião faz.
---
No quinto dia, os sinos tocaram.
Uma vez.
Duas.
Três.
A cidade inteira parou.
As pessoas olharam para a praça central.
Uma grande mesa havia sido construída.
Comida havia sido preparada.
Músicos chegaram.
Velhos instrumentos foram retirados de depósitos.
As crianças correram pelas ruas.
Haffen iria celebrar.
Não uma vitória.
A sobrevivência.
O Guardião não queria participar.
Ficou no alto de uma das torres.
Observando.
Um jovem soldado apareceu.
— Você não vai descer?
— Não.
— Por quê?
— Não gosto de festas.
— Mentira.
O Guardião olhou para ele.
— Como sabe?
— Porque todo mundo gosta de festas.
O Guardião voltou a olhar para a praça.
— Meu mestre também dizia isso.
— E ele gostava?
O Guardião ficou alguns segundos em silêncio.
— Muito.
— Então desça.
— Não.
O soldado suspirou.
— Você é teimoso.
— Sou Guardião.
— É a mesma coisa?
Pela primeira vez, o Guardião riu.
— Às vezes.
---
Na praça, alguém começou a tocar.
Depois outro músico.
Logo toda a cidade estava celebrando.
Havia comida.
Havia vinho.
Havia dança.
Crianças corriam entre as mesas.
Os magos erguiam pequenas luzes mágicas sobre a praça, fazendo parecer que centenas de estrelas haviam descido do céu.
E então alguém gritou:
— O Guardião!
Todos olharam para cima.
Ele estava na torre.
A multidão começou a gritar.
— GUARDIÃO!
— GUARDIÃO!
— GUARDIÃO!
O homem fechou os olhos.
Não gostava daquilo.
Mas então viu Elias.
O menino estava no meio da multidão.
Sorrindo.
O Guardião respirou fundo.
Desceu.
Quando chegou à praça, todos abriram caminho.
Ele caminhou até uma mesa.
Alguém colocou uma taça em sua mão.
Ele olhou para ela.
— Eu não bebo.
Um velho respondeu:
— Hoje bebe.
O Guardião sorriu.
— Quem disse?
— A cidade.
Ele olhou ao redor.
Centenas de pessoas estavam esperando.
Então ergueu a taça.
— Àqueles que não voltaram.
O sorriso desapareceu da praça.
Todos ergueram suas taças.
— Àqueles que não voltaram — repetiram.
O Guardião continuou:
— E àqueles que ficaram.
As taças se ergueram novamente.
— Aos que ficaram.
Ele olhou para as casas destruídas.
Para as muralhas quebradas.
Para o campo onde havia lutado.
Depois olhou para as crianças.
— E ao amanhã.
Dessa vez ninguém precisou repetir.
Todos ergueram as taças.
— Ao amanhã!
A música voltou.
A dança começou.
As crianças correram.
E, pela primeira vez em muitos dias, Haffen sorriu.
---
Mais tarde, quando a festa já estava terminando, o Guardião caminhou sozinho até os limites da cidade.
O campo ainda carregava as marcas da batalha.
Ele parou.
Abaixou-se.
Tocou a terra.
— Meu mestre...
O vento passou.
— Eu entendi.
Fechou os olhos.
Durante toda a vida, acreditara que seu dever era proteger Sefrion.
Naquela noite, finalmente compreendera que não era exatamente isso.
Seu dever não era impedir que Sefrion sofresse.
Isso era impossível.
Seu dever era garantir que, depois do sofrimento, Sefrion ainda pudesse se levantar.
Atrás dele, ouviu passos.
Era Elias.
O menino parou ao seu lado.
— Você está triste?
O Guardião olhou para ele.
— Um pouco.
— Mesmo depois da festa?
— Mesmo depois da festa.
— Por quê?
Ele demorou para responder.
— Porque vencer uma batalha não traz os mortos de volta.
Elias pensou.
— Mas traz os vivos de volta para casa.
O Guardião ficou imóvel.
Olhou para o menino.
Então sorriu.
— Quem lhe ensinou isso?
Elias deu de ombros.
— Ninguém.
O Guardião voltou os olhos para Haffen.
As luzes da cidade brilhavam ao longe.
— Talvez você devesse estudar em Haffen.
— Quero ser Guardião.
O homem riu.
— Então primeiro aprenda a ler.
— Por quê?
— Porque um Guardião que sabe apenas lutar protege corpos.
Elias esperou.
— E um Guardião que sabe pensar?
O homem colocou a mão sobre seu ombro.
— Protege uma civilização.
Os dois ficaram em silêncio.
Acima deles, a enorme coruja de Sefrion cruzou o céu.
Haffen estava ferida.
Sefrion estava ferida.
Mas estavam vivas.
E enquanto as primeiras casas começavam a ser reconstruídas, uma nova geração corria pelas ruas da cidade.
O Guardião observou.
E sorriu.
Porque finalmente compreendia.
Seu maior triunfo não havia sido destruir o exército dos mortos.
Era aquilo.
Aquelas crianças.
Aquelas casas.
Aquelas luzes.
Aquela cidade.
O futuro que os mortos não conseguiram matar.
E naquela noite, enquanto Haffen dormia pela primeira vez sem medo, o Guardião permaneceu acordado sobre as muralhas.
Como sempre.
Não porque esperasse outro ataque.
Mas porque havia aprendido, muitos anos atrás, que alguém precisava permanecer de pé.
E ele ainda estava ali.
Nenhum comentário:
Postar um comentário